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O PARADIGMA HIPÓLITO
O senhor do tempo

Luiz Egypto

Entrevista com Sergio Goes de Paula, autor de Hipólito de Costa (Editora 34, Rio, 2001)

Sergio Goes de Paula, economista de formação, é pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz e autor ou co-autor de cinco livros, entre eles Monarca da Fuzarca e Viagem pela História do Brasil. Organizou o livro Hipólito da Costa, lançado no final de junho pela Coleção Formação do Brasil, da Editora 34, reunindo artigos e documentos publicados naquele que foi o primeiro jornal brasileiro livre de censura. Atua também na área da internet, especialmente no campo da universalização do acesso, na produção de conteúdos brasileiros e na formação de redes de informação.

Em entrevista ao Observatório da Imprensa, reproduzida a seguir, Sergio Goes fala a respeito de seu trabalho sobre o patriarca da imprensa brasileira.

Qual o mote da antologia Hipólito da Costa que você organizou para a Editora 34? Por que o período escolhido?

Sergio Goes de Paula – Não fiz uma antologia de todo o jornal porque já existe uma antologia do Correio Braziliense, organizada por Barbosa Lima Sobrinho, abrangendo todo o período de existência do jornal; seria muita pretensão de minha parte achar que tenho algo a acrescentar a esta seleção. Resolvi então limitar a escolha a um período, de 1820 até o fim do jornal, em 1822, e aos temas referentes à elaboração da Constituição portuguesa e às questões brasileiras.

A escolha do período foi ditada por duas circunstâncias. Primeira, é que a partir de 1820, com a Revolução do Porto, o jornal fica mais trepidante, os acontecimentos passam a se dar mais rapidamente – considere que em apenas dois anos cai o absolutismo, o rei finalmente regressa a Portugal, vota-se uma Constituição liberal e romântica, o Brasil proclama sua independência – e o jornal, refletindo as transformações do Brasil e de Portugal, deixa o remanso do cotidiano absolutista e cai na corredeira dos períodos revoluvionários. O jornal muda, acompanha a velocidade dos fatos, e, para o público de hoje, fica mais interessante, a meu ver. E, segunda circunstância, o jornal passa a tratar mais intensamente de questões que interessam mais aos brasileiros e que são mais relevantes para nós.

Quais os principais problemas advindos da opção de converter para a ortografia atual o português castiço do Correio Braziliense?

S. G. P. – Este foi o menor dos problemas, acho eu. Na verdade, se dificuldade houve na transcrição, relaciona-se ao uso que se fazia então da pontuação, numa concepção muito distinta da atual; aí, o problema mesmo foram as vírgulas.

Como avalia a percepção de Hipólito nas análises que fazia, desde a Inglaterra, dos problemas brasileiros? A distância comprometia a relevância de suas observações sobre o país?

S. G. P. – É impressionante a acuidade da visão de Hipólito. Repare: morando na Inglaterra, ele dependia dos ventos e dos navios, e tomava conhecimento dos acontecimentos brasileiros que haviam ocorridos dois meses antes; ele, então, escrevia para ser lido cerca de dois meses depois. Ele tinha de avaliar qual seria o curso mais provável dos eventos e antecipar suas conseqüências. E é impressionante como ele acerta, e como é capaz de prever fatos e decisões. O mais fascinante na inteligência de Hipólito, para mim, é esta capacidade de traçar cenários futuros e de escrever de modo a influenciá-los no sentido que ele achava o mais desejável. Pode-se dizer que ele era senhor do tempo, na medida em que tinha o poder de reunir informações de um passado relativamente distante e com elas elaborar um conhecimento do que iria acontecer no futuro e procurar influenciá-lo.

Hipólito chegou a defender que a sede da Coroa portuguesa se estabelecesse definitivamente na então colônia. Qual o momento e o motivo pelo qual passou a defender a independência política do Brasil?

S. G. P. – Hipólito nunca defendeu a independência do Brasil. Ele era profundamente monarquista e respeitador de d. João VI para defender qualquer redução de seu poder – e ao contrário dos constituintes portugueses, tinha a clareza de que o grande perdedor com a independência do Brasil seria Portugal. Quando acontece a Independência, não titubeia em se pôr do lado brasileiro, não só porque a Casa de Bragança continuava no poder, aqui e lá, como porque seu sentimento de natividade era muito forte – ele jamais deixou de ser "braziliense", que era como se referia aos nascidos no Brasil.

O curioso, aí, é que o Grito do Ipiranga nada significa para Hipólito; ele sequer faz referência a este fato. Para ele, o Brasil passa a ser independente em 1o de agosto de 1822, com o "Manifesto aos povos deste Reino" e com o "Decreto ordenando a resistência às hostilidades de Portugal".

Hipólito praticava em seu Correio Braziliense um jornalismo voltado para a causa pública, preocupado com a utilidade moral de seus argumentos e focado no bem da sociedade. O trabalho do patriarca da imprensa brasileira produziu seguidores?

S. G. P. – Hipólito era um filho do Iluminismo, e sua fé na verdade e no poder do conhecimento não poderia ser reproduzida hoje, tempos mais céticos. Não me sinto à vontade para falar em seguidores, pois não conheço tão bem assim o jornalismo brasileiro e sua história. Mas para ficar na unanimidade, vamos lembrar Barbosa Lima Sobrinho, que, não por acaso, publicou uma Antologia do Correio Braziliense (Livraria Editora Cátedra/INL, Rio de Janeiro e Brasília, 1977), e um livro sobre o jornal e seu autor (Hipólito da Costa, pioneiro da independência do Brasil – Fundação Assis Chateaubriand, Brasília, 1996).

Depois de imersão na obra de Hipólito José da Costa para produzir seu livro, o que lhe provoca a leitura dos jornais brasileiros contemporâneos?

S. G. P. – Os tempos, a velocidade dos acontecimentos e de sua publicização, o público, são, todos, diferentes. Em conseqüência, os jornais são diferentes. Hipólito tinha um propósito de formação, mais do que de informação, e tinha o tempo e a pachorra, por exemplo, de passar cerca de cinco anos publicando, capítulo a capítulo, um livro sobre economia política, com a finalidade de instruir seus leitores a respeito de uma "ciência" nascente. O jornal era caro e a tiragem, pequena, correspondendo às dificuldades de publicação e às pequenas dimensões de seu público – a elite em dois países praticamente de analfabetos. E, finalmente, o muito tempo que se passava entre ocorrência dos acontecimentos, sua divulgação e os efeitos desta última bastam para diferenciar profundamente a "imprensa" de então e a de agora. E as aspas valem para lembrar como esta entrevista está sendo publicada: a mídia virtual, vertiginosa e efêmera. Antigamente, o jornal de ontem só servia para embrulhar o peixe. Hoje em dia, nem para isso, e não é só uma questão de higiene…

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