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O PARADIGMA HIPÓLITO
Hipólito, o piloto

TT Catalão (*)

O que seria do "novo" sem uma carta de princípios? Parece conversa de baú, mas se um jornal tem um Plano Piloto fica mais fácil a orientação na babel das notícias. Daí aceitarmos, atuais profissionais do Correio Baziliense, a dádiva de um contato mais amplo com a postura cidadã de Hipólito José da Costa, agora acessível pela edição fac-símilar do pioneiro Correio Braziliense, que começou a circular em 1808.

No centro da medula, resguardada as óbvias circunstâncias de época, continuam os jornalistas sob o mesmo comprometimento com a apuração, a consciência crítica, o melhor modo de contar uma história e os conceitos éticos de liberdade e coerência individual. Continuamos na alça de mira, ao sabor dos humores de mercado, instáveis sob acordos de cúpula às vezes nos deixando expostos a fios desencapados: pisou, dançou.

No jornalismo fast food de hoje (o mistura-e-manda para a digestão fácil e rápida), os textos de Hipólito revelam uma outra urgente atualidade: há paixão pela idéia de servir ao público, sem ser panfletário – rara habilidade de Hipólito, que não batia de frente com o rei mas comia o mingau pelas beirinhas ao ser impiedoso com ministros e o regime colonial.

Um grato impacto de sinergia, para o novo Correio Braziliense hoje, foi a leitura da primeira linha escrita pelo jornalista em 1808: "O primeiro dever do homem em sociedade é ser útil aos membros dela". Impacto pelo conteúdo de um texto que fizemos em setembro de 1999 [ver abaixo] para responder a uma das maiores demonstrações autoritárias do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, que em manifestação pública, aos berros, conclamava seus eleitores a não ler mais o Correio. Pelo poder messiânico de Roriz e a cega obediência de seu eleitorado periférico ficamos sob risco de violência, mas nunca sob perda de leitores. Mesmo assim, escrevi minha crônica de sábado como resposta e, por decisão do diretor de redação Ricardo Noblat, o texto foi para a página inteira da capa.

Esta honrosa proximidade, entre 1808 e 1999, sob o sentido de serviço público da imprensa – que também reveste nosso Observatório – infla ainda mais nossa reflexão para o trabalho hoje. O texto de "Para que serve um jornal" radicaliza, às últimas conseqüências, que "um jornal serve para servir", no sentido de que a nossa existência é legitimada pelo testemunho.

Hipólito, iluminista e fiel aos valores libertários da maçonaria em consciência e sociedade, merece ser o patriarca da imprensa brasileira pois jornal não é só um resultado bonitinho de papel e tinta. Tem que ter/ser seiva.

O Correio Braziliense de agora vive um momento extraordinário de prêmios gráficos internacionais – único brasileiro a ter o prêmio máximo de "melhor desenho de jornal" do Best Newspaper Design 1998, da Society for News Design; prêmios Esso nacionais e inúmeros outros de marketing e distinções – precisa renovar diariamente sua árdua tarefa de servir. Testemunhar compromissos básicos, estruturais, para exercer um trabalho digno e honrar o título herdado de Hipólito da Costa.

Em nossos dias quando um jornal, por ser produto, vive sob a ameaça permanente de fazer com que a notícia vire mercadoria, a postura do jornalista, ser humano e político Hipólito é fundamental. Perguntar sempre para que serve o jornal, como ele é servido, quem são seus serviçais e o quanto ele pode ser manipulado pelos que queiram servir-se dele.

Hipólito vive. Liberdade de imprensa é redundância. Se não há liberdade não há imprensa. E belos produtos ou poderosas empresas, sem o talento e sem a percepção de que lidam com a vida, são meras estruturas ocas, embora aparentemente impressionem em dados e charme. O jornalismo de Hipólito estabeleceu a utilidade contra a futilidade.

Cor, infográficos, bossas ilustrativas, técnicas, tiques estéticos, trambiques, truques de interatividade, malabarismos semânticos, jogos de cena, maquiagens editoriais... nada disso supera conceitos e valores fundamentados no propósito de uma empresa de comunicação viver obsessivamente – em todos os seus departamentos e não só nas redações – a busca obsessiva da verdade, em texto, imagem e som comprometidos com a vida. Só serve se servir. E tanto mais servirá quanto mais servir ao fim último da sua necessidade: às pessoas e à sociedade que a legitima.

(*) Articulista e editor de Pesquisa e Informação do Correio Braziliense, de Brasília (DF)



Para que serve um jornal
(*)

Um jornal serve para servir. Servir principalmente a uma cidade. Um jornal se for só papel serve para cobrir o chão quando pintamos a casa ou embrulhar peixe no mercado. Um jornal se for só negócio serve apenas para crescer em lucros, máquinas e construções. Um jornal se for mero símbolo, tradição e história serve para discursos pomposos mas ocos de compromisso com a vida. Um jornal grife funciona só para o marketing ou propaganda de empresa líder de mercados. Mas o que faz um jornal servir é algo além da mercadoria ou da imagem que projeta.

Um jornal não tem senhores, domínios, posses ou posessões. Um jornal serve quando não é escravo até do seu próprio sucesso. Então pra que serve um jornal, mesmo? Um jornal serve para publicar o que se fala, refletir o que se publica, aprofundar o que se opina sobre o publicado e ampliar TODAS as opiniões sobre o dito e o refletido.

Um jornal serve para servir ao seu eixo principal de credibilidade: o leitor. Um jornal serve para ir além da notícia quando busca suas relações, seu contexto, as circunstâncias que geraram o fato e até avaliar suas consequências. Um jornal serve para pensar. E ser pensado por gente livre e não administrado por máquinas servis. Um jornal serve quando desperta atitudes. Quando analisa os atos que sofre mas também é ator nada passivo. Serve quando é veículo dos muitos meios, modos, culturas e linguagens componentes de uma sociedade.

Serve e é estimulante e rico quando abriga e convive as contradições. E só estará vivo em intensa atividade se servir aos que o lêem e o mantenham. Um jornal serve quando não teme. Nem o conflito natural das divergências nem o confronto acintoso de quem tenta intimidá-lo. Serve quando se expõe até a equívocos mas busca avançar quando a prudência confunde-se com o medo. Um jornal serve como serviço público que é a definição mais básica de imprensa como instituição!

Um jornal serve para reagir, para admitir e apontar erros, para estabelecer todas as linhas de diálogos com todas as representações organizadas de uma cidade.

Serve também para o indivíduo que não adquiriu voz partidária, sindical ou até mesmo de classe tal a sua exclusão no convívio social. Um jornal serve também para emocionar, dar prazer, informar por inúmeros suportes do fato além do texto, deleitar, entreter, indignar, comover e demonstrar que vive intensamente o seu tempo e a sua região. Um jornal não é só um amontoado de linhas, textos, fotos e traços, um jornal serve quando se torna fundamental, preciso, precioso, indispensável para o quê na verdade o mantem vivo: sua credibilidade.

Um jornal serve para reconhecer seus talentos e sua vocação maior de comprometimento com o seu serviço primordial: um jornal serve para servir!

(*) Publicado na capa do Correio Braziliense de 19/7/99, Brasília (DF)



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