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Cristiana Felippe

"Primeiro jornal do País é reeditado em livro", copyright Diário de Pernambuco, 16/6/2001

"O lançamento da reedição facsimilar do primeiro jornal da Imprensa brasileira - o Correio Braziliense ou Armazem Literário - às 11 horas, da próxima terça-feira, dia 19, no Museu da Imprensa Nacional, em Brasília, resgata a memória de uma época muito importante para a história do País. Impressa em Londres, a publicação do jornalista Hipólito José da Costa circulou de 1808 a 1822, no Brasil e em Portugal, e retrata o pensamento brasileiro no período joanino.

Foi uma época bastante tumultuada, quando a Corte de dom João VI instalou-se no Rio de Janeiro, depois da ameaça de invasão francesa em Portugal. Cerca de 15 mil pessoas desembarcaram com a família real no país e começaram a tomar posse das casas dos moradores locais. Apesar dos conflitos, a vinda da Corte, em março de 1808, estimulou o desenvolvimento econômico e cultural do País.

Logo ao chegar, dom João decretou a abertura dos portos às nações amigas, abolindo o monopólio comercial luso. Dessa forma, mudou radicalmente a vida econômica brasileira. O surgimento da imprensa está diretamente relacionado ao desenvolvimento do país nesse período. No mesmo ano, foram criadas a primeira tipografia e a Impressão Régia no Brasil (a censura da época).

Nesse contexto histórico surgiu o Correio Braziliense, o primeiro jornal independente do País, impresso mensalmente. ‘Resolvi lançar esta publicação na capital inglesa dada a dificuldade de publicar obras periódicas no Brasil, já pela censura prévia, já pelos perigos a que os redatores se exporiam falando livremente das ações dos homens poderosos’, justificou Hipólito da Costa ao fazer o jornal no exterior.

O primeiro jornal oficial da Corte foi a Gazeta do Rio de Janeiro. Começou a circular em setembro de 1808, lançado apenas três meses depois do Correio Braziliense. Não era nenhuma concorrência. Afinal a Gazeta não oferecia atrativo algum aos leitores. Era publicada três vezes por semana e funcionava como um diário oficial da época, trazendo apenas notícias burocráticas, anúncios e atos oficiaisda Coroa. ‘A produção do Correio Braziliense, ao contrário, foi uma etapa heróica da imprensa’, acredita o historiador José Salvador Faro, professor do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC).

Atraso – O Correio chegava de navio ao Brasil. A elaboração da publicação em formato brochura, de no mínimo cem páginas, demorava pelo menos um mês. Outros 40 dias eram gastos no transporte marítimo. Às vezes, o leitor só tomava conhecimento do que pensava Hipólito José da Costa três meses depois de o jornalista ter escrito seus artigos. O público leitor do Correio Braziliense na época era bastante restrito. O jornal era considerado uma publicação cara. Boa parte da população, mesmo entre os que tinham maior poder aquisitivo, era formada por analfabetos.

‘O Correio era vendido por assinatura somente para a elite intelectual’, conta Maria Odila Leite, professora de História do Brasil da Universidade de São Paulo (USP).Mesmo com circulação reduzida (cerca de 1500 exemplares), o jornal teveinfluência sobre os jovens aristocratas no País. Hipólito era considerado um jornalista moderado. Escrevia o que pensava, criticava alguns aspectos da administração do país, mas não chegava a atacar diretamente o governo. Seu jornal reunia as questões mais importantes que afetavam Inglaterra, Portugal e Brasil. ‘...o Correio foi tarefa gigantesca e reflete, constituindo para isso insubstituível fonte, o quadro da época da independência, visto do ângulo da burguesia inglesa’, escreveu o jornalista Nelson Werneck Sodré, em seu livro A História da Imprensa no Brasil.

Apesar de ser a favor da monarquia constitucional, o jornal era liberal e suas paginas não agradavam à Corte. A publicação defendia a abolição gradual da escravidão e propunha a adoção do trabalho assalariado e o incentivo à imigração. Refletiu também a insatisfação dos brasileiros em 1820, quando Portugal queria que o Brasil voltasse a ser colônia e perdesse o status de Reino Unido. Nesse período, começaram a amadurecer as primeiras idéias de independência do Brasil.

‘O jornal ilustra um pouco o pensamento dos aristocratas no Brasil’, afirma o professor José Salvador Faro. O jornal Correio Braziliense incomodava tanto a Corte portuguesa da época, que o Governo joanino estimulou o surgimento de outras publicações. ‘Houve várias tentativas de barrar a entrada do Correio no País e algumas edições foram apreendidas, mas o jornal acabava sempre chegando na clandestinidade, porque Hipólito estava ligado à Maçonaria’, explica o professor Jair Borin, chefe do departamento de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da USP.

Para concorrer com o periódico, foram publicados folhetos do tipo panfletário. Em 1809, em Lisboa surgiram as Reflexões sobre o Correio Braziliense, redigido por frei Joaquim de Santo Agostinho Brito França Galvão. Depois, em 1811, veio O Investigador Português, lançado em Londres por dois médicos portugueses, Vicente Pedro Nolasco e Bernardo José de Abrantes.

Apesar dos atritos com a Corte portuguesa, o Correio sobreviveu até a independência do Brasil, em 1822."



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