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ASPAS
O PARADIGMA HIPÓLITO
Jorge Caldeira
"Hipólito da Costa em dose dupla", copyright IG (www.ig.com.br), 20/06/01
"Num país onde a publicação de textos fundamentais de história costuma ter intervalo de décadas - e às vezes séculos - não deixa de ser extraordinário que, num mesmo dia, cheguem às livrarias dois trabalhos com a obra de Hipólito da Costa (1774-1823), o primeiro jornalista brasileiro. Primeiro e fundamental.
Inaugurou quase tudo de bom que o jornalismo pode ter: independência de posições, ótima narrativa, precisão ao descrever, boas fontes de informação, raras distorções.
Tudo isso fazendo inteiramente sozinho um jornal mensal com uma média de cerca de 100 páginas, que informava sobre política nacional e internacional, economia, ciências e artes.
E fazendo tal jornal em Londres, para ser distribuído em Portugal e no Brasil, num tempo em que as fontes mais velozes de informação e entrega dos exemplares eram os navios a vela.
A epopéia não se resume a estas condições, nem à aventura de um homem do século XVIII que já havia corrido meio mundo, visitado sertões e metrópoles, cárceres e palácios.
O que realmente vale em Hipólito da Costa é a rara combinação de um posicionamento claro - era um liberal, quando isto queria dizer a mesma coisa que ser um revolucionário - com a precisão das descrições.
Em poucas palavras, Hipólito da Costa produziu aquela que é, provavelmente, a melhor narrativa do nascimento de um país chamado Brasil. O Correio Braziliense foi publicado entre junho de 1808, logo depois da chegada de d. João VI ao Brasil, e dezembro de 1822, no momento da independência.
Tudo de importante deste período fundamental está no jornal, dos documentos oficiais às informações de bastidores - seja no Brasil, Portugal ou na Inglaterra.
Os dois trabalhos abordam esta monumental obra por vias completamente diferentes. A publicação fac-similar do Correio Braziliense (Imesp) aposta na abrangência. Os três volumes lançados inicialmente (de um total previsto de 31) são o primeiro passo para a publicação da coleção completa do jornal - sua primeira republicação, pois jamais alguém tentou a empreitada em dois séculos.
Tem as vantagens da extensão e da fidelidade ao original, servindo como fonte segura para estudiosos do período. Um dos volumes (o de número 31) é um índice organizado em 1977 por José Honório Rodrigues; combinado com aqueles organizados pelo próprio autor, ajuda a trafegar no imenso mar de informações reunido por Hipólito da Costa.
Seus problemas, para o leitor contemporâneo, estão ligados a suas qualidades. É preciso enfrentar a ortografia e a pontuação de duzentos anos atrás, além da diferença de familiaridade dos atores - pois pessoas conhecidas neste tempo, tratadas com relativa intimidade, são desconhecidas hoje - sem quase nenhum ponto de apoio: não existem notas informativas de nenhuma espécie.
Já o livro Hipólito José da Costa, com organização e introdução de Sérgio Goes de Paula (Editora 34), traz os textos do jornalista produzidos em um momento específico: o período crucial que vai da revolução do Porto, de 1820, à proclamação da independência. E dentro do momento, com um único tema: a reportagem do nascimento de um novo país, deixando de lado os muitos outros assuntos tocados pelo jornal.
Este período é fundamental, até porque só nele o jornalista passa a defender a separação entre Brasil e Portugal - até 1821 achava melhor a manutenção da ligação com Lisboa. Assim, o que se perde em extensão é ganho em intensidade: só trata dos momentos decisivos do longo processo de separação.
A concentração num ponto permitiu manter a qualidade do original: reúne os textos relativos ao período escolhido de maneira bastante completa, inclusive com a íntegra dos documentos complementares que era sempre publicada.
Além da diferença de abordagem, o trabalho de edição deste livro supõe um outro tipo de leitor. O texto de Hipólito da Costa foi trazido para a ortografia atual, e todos os personagens e passagens que poderiam suscitar dúvidas ganharam notas explicativas, o que torna certamente mais fácil o contato com a obra do autor.
Por qualquer uma das vias, no entanto, o leitor sairá ganhando. No mínimo, descobrirá que a imprensa brasileira, sob qualquer aspecto, nasceu muito melhor do que fariam supor três séculos de completa ignorância imposta pela metrópole portuguesa. E poderá substituir décadas de silêncio sobre a obra de Hipólito da Costa por dois livros com seus textos, ambos da melhor qualidade. (Jorge Caldeira é jornalista, autor de Mauá, Empresário do Império (Companhia das Letras))"

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