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ASPAS
ENTREVISTA / BERNARDO AJZENBERG
Arafat e o "lobby israelense"
na Folha
Luiz Antonio Magalhães
Há duas semanas, o jornalista Bernardo Ajzenberg, ombusman da Folha de S.Paulo, abordou um assunto delicado no texto de sua coluna dominical (18/6). Ajzenberg espinafrou um furo internacional do jornal – a entrevista exclusiva realizada pelo repórter Paulo Daniel Farah com o líder palestino Iasser Arafat, publicada na Folha uma semana antes (11/6). Para o ombudsman, a entrevista fora conduzida de forma amena e Arafat poupado pelo repórter.
Ajzenberg pode ser criticado por muita coisa, mas não pela falta de coragem. Seu comentário originou uma grande polêmica entre leitores do jornal, reproduzida ao longo da semana seguinte no Painel do Leitor. O repórter criticado teve o seu direito de resposta assegurado, publicando um artigo de réplica na edição do último domingo (25) [veja todos os textos em Aspas, abaixo; o comentário do ombudsman está na rubrica A Voz dos Ouvidores, nesta edição].
Tanto os leitores que defenderam a entrevista quanto o repórter que a realizou procuraram desqualificar a crítica de Ajzenberg utilizando basicamente o argumento de que ele teria tomado o partido de Israel e procurado, por sua vez, desqualificar as palavras e idéias do líder Iasser Arafat. Os que defenderam o ombudsman também "politizaram" questão e aproveitaram a oportunidade para escrever não sobre a entrevista em si, mas das posturas e pensamentos do líder palestino.
Afinal, a polêmica é sobre o trabalho do repórter ou sobre o conflito entre árabes e judeus? Para responder a esta questão, o Observatório entrevistou o ombudsman da Folha. Com a palavra, Bernardo Ajzenberg.
A sua coluna da semana retrasada – um comentário crítico sobre a entrevista realizada por Paulo Daniel Farah com o líder palestino Iasser Arafat, para a Folha – suscitou a publicação de uma série de cartas ao Painel do Leitor. A repercussão o surpreendeu?
Bernardo Ajzenberg – Não. A questão do conflito israelo-palestino é muito candente. Quando alguma coisa sobre ele é direta ou indiretamente abordada de modo qualitativo na imprensa, surgem reações imediatas, a grande maioria claramente passionais, irracionais. Surgem como faíscas, como se aguardassem uma oportunidade para manifestar idéias pré-concebidas. O que me surpreendeu, sim, apesar de tudo (experiência, leituras etc), foi a capacidade de muitas pessoas de distorcer o pensamento, de criar conclusões por conta própria, de modo doentiamente fantasioso. Para mim – alguém que, além de ser ateu, há mais de vinte anos, inclusive publicamente, se posiciona a favor do reconhecimento de um Estado palestino –, isso tudo chega a ser tristemente engraçado. Minha crítica à entrevista foi "técnica". Não entrei no mérito do que Arafat disse, nem era o caso. Tampouco personalizei a coisa. Deixei muito clara a responsabilidade do jornal como um todo, mencionando o nome do repórter apenas para elogiar a conquista da entrevista. Além disso, sugeri que a Folha, se vier a entrevistar Sharon, não repita o erro, ou seja: que ela seja crítica e severa com ele no eventual encontro. Dá para entender as reações fora de um quadro de engajamento político e/ou emocional prévio? Eu não consigo.
É possível perceber, lendo as cartas dos leitores da Folha, que há uma idéia difusa de que existe um certo "lobby de Israel" operando na imprensa brasileira. Qual a sua opinião sobre a cobertura da mídia nacional dos conflitos no Oriente Médio?
B.A. – A idéia do lobby é antiga, certo? É uma tradução, para a mídia, do Protocolo dos Sábios do Sião. Esse posicionamento impede a discussão real sobre as divergências de fundo e de posicionamentos políticos a respeito do conflito. Em determinados momentos, as agências de notícias internacionais podem ser tão parciais em favor de Israel quanto o são em relação a outras forças políticas vinculadas ao chamado "mundo ocidental" atuantes em outros conflitos mundo afora. Como se diz, o buraco é mais embaixo. Não tem nada a ver com lobby judaico. A imprensa brasileira fica, claro, prisioneira dessas agências, por delas depender para obter dados e notícias. Mas nem por isso deve deixar de confrontar umas com as outras e, sempre que possível, ter os seus enviados especiais. Concretamente, acho que a mídia americana tende a ser parcial em favor de Israel e a européia, em favor dos palestinos. No Brasil, pela fusão desse material, a coisa é menos linear. Tanto que as queixas ao ombudsman sobre o assunto costumam surgir de ambos os lados.
Como você analisa o argumento do repórter Paulo Daniel Farah, que na réplica publicada na edição do último domingo [25/6] na Folha, defendeu-se afirmando que as suas críticas à entrevista com Arafat se basearam "não no que se escreveu, mas no que quer-se ver"?
B.A. – Obviamente não tenho como concordar com essa afirmação. De todo modo, ainda não decidi se vou comentar em minha coluna essa réplica. Estou pensando no assunto, por isso fica difícil antecipar, aqui, uma posição. Minha impressão inicial é que na réplica o repórter em boa parte se deixou contaminar pela irracionalidade de algumas cartas do Painel do Leitor. Mas preciso pensar mais antes de tecer uma declaração definitiva.

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