|
RETRATOS DO BRASIL
Para que serve um jornalista
Paulo Augusto (*)
Manoel Augusto, o irmão caçula deste que vos escreve, comunica a grande alegria, vivida há pouco, entre seus companheiros de faculdade, de ter recebido o canudo da PUC de Porto Alegre, por sua formatura em Jornalismo. Profissão disputada nos dias de hoje, carreira bonita e apetitosa, sonho de numeroso contingente de adolescentes e jovens por este Brasil afora.
Comungando com a alegria de Manoel Augusto, vem naturalmente a pergunta, diante do quadro social angustiante de apartheid que vivemos no Brasil nos dias de hoje: para que serve um jornalista? Se no Brasil, como um todo, observa-se a existência de uma imprensa, principalmente a escrita, voltada quase que com exclusividade para um pequeno grupo de "brancos", direcionada a um reduzido grupo de habitantes de um país onde 80% da população ganham menos que cinco salários mínimos, para que serve?
Nos estados pobres, como o Rio Grande do Norte, a informação ganha peso de ouro. E nessa garimpagem – qual verdadeira Serra Pelada – surgem os "vencedores", jornalistas que descobriram veios ricos de pepitas e que as tratam como propriedade e fortuna particulares. E o grande número de bagres, os jornalistas-carne-de-canhão, que apenas comporão a floresta, sem nunca distinguir-se como espécimes raras de árvores, que efetivamente marcam seu espaço e seu tempo pela sua presença providencial em meio às borrascas permanentes num país eternamente metido até o pescoço em inquietações civis e desgostos sociais.
Manoel Augusto, que exercerá sua carreira no Rio Grande do Sul, terá decerto um panorama e um pano de fundo absolutamente contrários ao que ocorre no Rio Grande do Norte, já que vive num estado com um estágio de civilização mais adiantado. O estado gaúcho abandonou, há muito, as práticas das oligarquias, que penalizaram, mutilaram e infelicitaram a população durante longo espaço de tempo, realidade que nós, potiguares, vivenciamos em nossa rotina. São coisas do passado, para o cidadão gaúcho, o dia-a-dia dos potiguares.
Troca de favores
Aqui, diga-se sem meias palavras, as chamadas elites políticas, em sua esmagadora maioria, lembram verdadeiras quadrilhas de profissionais do crime. Que, em sua maioria, não dispõem de quaisquer noções de ética. Que menosprezam o eleitor enquanto dilapidam o patrimônio coletivo e assaltam as riquezas da população. Que prezam e estimulam a confusão entre o público e o privado, primando no desempenho de papéis de administradores canhestros, com a atividade política se confundindo com a prática de privilégios. Reelegem-se ininterruptamente, para evitar a cadeia.
Num estado primitivo assim, o jornalista que adentra a arena da profissão deverá saber que está se metendo numa cultura de troca de favores, de clientelismo, de relações de dependência pessoal e de hierarquia de mando e obediência. Como dominam, no papel de proprietários, a maioria dos jornais, das emissoras de TV e de rádio, além de terem montado agências de publicidade para extorquir os cofres públicos, ao mesmo tempo em que se promovem, vendendo uma imagem pessoal distorcida à população indefesa, o campo de trabalho torna-se completamente minado. Tendo em vista, principalmente, que não existe uma contra-ofensiva, uma imprensa de esquerda, onde a oposição encontra dificuldades até mesmo para se organizar, perdendo-se, pela quantidade, sempre inferior, e uma qualidade que deixa a desejar.
Em estados assim, antes mesmo de sair dos bancos da universidade, o destino da maioria dos jornalistas já está traçado. Em especial porque seu embasamento teórico, numa academia dominada pela politicalha, em que os próprios dirigentes universitários são indicados e apaniguados do poder dominante, a independência e autonomia, a desenvoltura e o arbítrio dos formandos já chegam ao mercado comprometidos, por conta do ambiente acanhado e viciado em que passaram seus quatro ou cinco anos de formação.
Estados-capitanias
O que resulta desse quadro pode ser visto a olho nu, nas telas da televisão, nas colunas dos jornais, nos programas das rádios. Os jornalistas com os quais a população se depara, com as exceções que confirmam a regra, podem ser identificados pela própria compleição física e pela exuberância de seus dotes patrimoniais. São figuras que exibem, na própria carcaça, e esbanjam, no corpo e na alma, o comprometimento e a disposição que os fazem viver. São dotados de uma gordura excessiva, quando não obesos no limite da deformação, com o ventre e as contas bancárias proeminentes. Por vícios de formação, sua disposição de espírito, seu temperamento e inclinação são para a acumulação de riqueza, assemelhando-se aos patrões, que os cevam, com informações e salários, levando-os ao limiar da alienação absoluta, desembocando na depravação e na loucura. Há gordos éticos, evidentemente, como há magros impraticáveis para a democracia.
Todas as doenças culturais florescem e ganham relevo em estados assim, pela ausência de uma faxina, que deveria ser tarefa permanente da imprensa, em prol dos interesses da sociedade. São as doenças promovidas pela cultura da esperteza, da transferência de responsabilidade, do imediatismo e do superficialismo, do negativismo e da baixa auto- estima, da vergonha de cidadania e patriotismo, do piadismo ou do rir da própria desgraça, do emocionalismo e da ciclotimia, do desperdício, do terrorismo e do tecnicismo, do corporativismo, da politicagem, do fisiologismo e do nepotismo e, por último, a cultura do conformismo, como alinhou o jornalista Ênio Resende, em seu livro Cidadania: o remédio para as doenças culturais brasileiras.
Jornalistas mergulhados nessa "realidade" deixam de ser os cães-de-guarda do poder para, cooptados, se transformarem em insignificantes office-boys dos senhores de estados que viraram inapelavelmente capitanias hereditárias.
(*) Jornalista; e-mail: <jesuinobr@hotmail.com>
Volta ao índice
Jornal de Debates – texto anterior

|
|