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CASO SONINHA
Todos erraram. Todos devem corrigir-se
Alberto Dines
Errou a jornalista Sonia Francine . Vítima de uma decisão arbitrária, por outro lado não se pode perder de vista que ela ignorou suas responsabilidades morais e legais como apresentadora de um programa juvenil numa emissora pública com vocação educativa.
Errou a Fundação Padre Anchieta , mantenedora da TV Cultura. Castigou sumariamente a profissional com um comunicado público sem lhe dar o direito de responder.
Errou a Época (nas duas edições). Primeiro, como pivô provocador numa matéria montada sem a menor isenção e, em seguida, num virulento e despropositado ataque ao presidente da Fundação Padre Anchieta, que administra a TV Cultura.
Errou o procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Nelson de Lacerda Gertel. Ao propor a responsabilização penal de jornalistas e entrevistados, sob argumento de promoverem o uso de tóxicos e beneficiar o tráfico, está sugerindo a institucionalização da censura.
Errou a mídia, como sistema . Mais uma vez apostou apenas na possibilidade de "fazer barulho", explorando o caso de maneira sensacionalista para, em seguida, jogá-lo na vala comum das questões que jamais serão levadas até o fim.
Erram os grandes partidos . Esses que estão com candidatos e pré-candidatos à sucessão presidencial continuam escamoteando do debate público as questões que mais interessam à sociedade – o aumento do consumo das drogas e o poder do narcotráfico.
Erra o governo federal . Desde a saída do juiz Walter Maierovich, o Executivo ainda não conseguiu preencher a vaga de Secretário Nacional Antidrogas nem consolidar uma política governamental para enfrentar um problema que não pode ser resolvido só pela sociedade.
Essa culpabilização ampla e generalizada é um desafio e, ao mesmo tempo, um exercício cívico. Tentativa de escapar da incontrolável e viciosa inclinação para o linchamento e os bodes expiatórios. Serve também para escapar da ideologização de um debate que exige dos participantes o despojamento dos pré-juízos e preconceitos.
Erramos todos. O plural não é majestático; é uma forma de convocação para um longo e penoso trabalho coletivo sem o qual as leis nada adiantarão.
Para que esta distribuição de culpas não pareça manobra diversionista, não-comprometida, de modo a deixar imprecisas as responsabilizações, aqui vão elas devidamente explicitadas:
** Sonia Francine não teve a sua privacidade invadida. Escancarou-a de moto próprio, espontaneamente. Enquanto colunista esportiva da Folha, da ESPN/Brasil, e quando apresentadora da MTV, não tinha compromissos com a função educativa. Poderia defender ou revelar preferências pessoais, políticas ou íntimas sem infringir os códigos – ou contrato social – da função de orientadora de jovens. No momento em que assumiu a responsabilidade de apresentar e orientar um programa de debates para uma audiência juvenil, numa emissora pública com vocação didática, cultural, em rede nacional e aberta – dando-lhe maior exposição do que as demais atividades –, Sonia Francine não poderia esquecer o seu público, o crédito de confiança que pais e professores lhe concederam. Interrogada pela revista, poderia ter opinado sobre o problema sem trazer o aval da sua experiência pessoal, que, na leitura dos adolescentes ávidos por modelos, é muito mais indutora do que qualquer opinião. Também nos desdobramentos da rescisão do seu contrato, nas inúmeras entrevistas, talvez por causa das pressões e do estresse, Sonia Francine titubeou. Primeiro reclamou do destaque: a revista não a avisara de que seria figura central da capa e do outdoor (repetiu isso na breve intervenção telefônica para a edição televisiva deste Observatório, em 20/11). Depois, em artigo publicado na edição seguinte de Época (26/11, pág. 42), não fez a menor referência às queixas iniciais – e nada desprezíveis –, como se o comportamento jornalístico da revista anfitriã tivesse sido irrepreensível. Não foi.
** Época conseguiu errar nas duas edições em que tratou da matéria (19 e 26 de novembro). Na primeira, agrediu grosseiramente os princípios de objetividade e isenção: ao fazer uma opção inequívoca pelos bem-sucedidos que ignoram a lei e apregoam o uso da maconha, a revista ignorou um princípio elementar do jornalismo que preconiza um mínimo de equilíbrio e eqüidistância. A reportagem foi claramente militante a favor de um ponto de vista. Sequer tentou o debate e o contraditório. O chamado "outro lado" ocupou apenas uma página e um terço, enquanto a tese apoiada pela revista recebeu a capa, mais seis páginas e dois terços. Pior: a revista confundiu a questão da descriminalização do uso da maconha com a aplicação medicinal do seu princípio ativo – que não está em discussão assim como não se discute o uso da cocaína ou da morfina como anestésicos ou analgésicos. A intenção pareceu clara: chocar. Em outra palavras: vender revista. E quem perdeu o emprego foi a Soninha. Os demais entrevistados cuja maioria vive no mais absoluto anonimato, exceto o cartunista Angeli, devem estar felicíssimos com o novo status. Inclusive aquele "vitorioso" empresário que comanda uma estranha empresa de marketing que não consegue criar um único emprego direto e estável.
** Na edição seguinte, Época perdeu as estribeiras: para escapar de qualquer crítica sobre a edição anterior, partiu para o ataque: investiu contra a pessoa do presidente da fundação mantenedora da TV Cultura com uma matéria maliciosa e perversa, no velho estilo Veja. Descolou um poema de sua autoria publicado em 1976 no qual versejava com certo embevecimento sobre a maconha. E daí? Por que cometeu uma poesia há 25 anos – um quarto de século! – o ex-poeta maldito não tem o direito de zelar pela qualidade educacional da emissora que hoje dirige? Provavelmente na mesma ocasião, o mais graduado jornalista de Época pregava o socialismo revolucionário e isso não impediu que hoje esteja a serviço do conglomerado brasileiro que melhor encarna o capitalismo selvagem e concentrador. Para denunciar uma caça às bruxas, Época recorre aos mesmos métodos da caça às bruxas.
** A TV Cultura e/ou o Conselho de Administração da Fundação Padre Anchieta erraram ao rescindir o contrato da apresentadora Sonia Francine. Praticaram dupla violência, contra a profissional e contra o seu programa, imediatamente retirado do ar sem o menor apreço por sua audiência, num flagrante desrespeito ao próprio público que a emissora pretende defender de influências perniciosas. Acrescente-se que não ofereceu à apresentadora o elementar direito de resposta. A Cultura comportou-se tal e qual o jornal O Globo (do mesmo grupo de Época) quando demitiu sumariamente o seu principal colunista, Ricardo Boechat; e Veja, quando manchou a reputação da sua editora de economia, Eliana Simonetti, sem dar-lhe a oportunidade de defesa. Os padrões de uma rede pública (ou comprometida com o interesse público, dá no mesmo) não podem confundir-se com os procedimentos das redes ou empresas jornalísticas privadas, estas apenas comprometidas com os seus próprios interesses. A diferença não pode ocorrer só na forma ou na programação: deve começar na estrutura interna.
** Errou o procurador Nelson de Lacerda Gertel, da Procuradoria-Geral de Justiça do Ministério Público Estadual, que pediu a responsabilização penal de jornalistas e entrevistados. Oficiou à Promotora de Justiça Maria Teresa Penteado de Moraes, do Grupo de Atuação Especial de Repressão, para que tomasse as medidas necessárias. Alegou que a Lei Antidrogas reserva as mesmas penas destinadas aos traficantes e às pessoas que incentivam ou difundem o uso de entorpecentes. O procurador certamente agiu movido pelas melhores intenções, já que na discussão sobre a descriminalização da maconha não se pode esquecer os tentáculos do lobby do narcotráfico. Mas o arrazoado do representante do MP é, em si, um atentado à liberdade de expressão. Se a matéria de Época foi parcial e engajada, isso não justifica a tentativa de criminalizar estas ou outras manifestações sobre a descriminalização da maconha. Como já foi dito em outras ocasiões, quem decide sobre a isenção de uma matéria jornalística são os jornalistas. Delegar isto a um magistrado ou ao MP equivale a fechar as redações ou nelas colocar bacharéis no lugar de jornalistas.
** A mídia, como sempre faz, agarrou-se ao "Caso Soninha" para tirar o maior proveito dos seus ingredientes altamente inflamáveis – a confissão "íntima" e audaciosa de uma apresentadora jovem, bonita, articulada e vitimada por uma decisão arbitrária. Hoje, uma semana depois da divulgação do episódio, o assunto saiu das pautas. Cansou. Poderá ainda ser tratado pelos opinionistas retardatários mas perdeu a candência, arquivado no departamento das chatices. Qual emissora ou empresa jornalística estará disposta a aproveitar o episódio para discutir à exaustão a questão da maconha, com este frenesi em torno da clonagem de embriões humanos ou as emoções da caçada ao terrorista bin Laden?
** Apesar de alguns parlamentares terem se interessado pelo caso, e da corajosa e determinada disposição do deputado Fernando Gabeira (PT-RJ) de manter o assunto sempre em pauta, a verdade é que os partidos, sobretudo as grandes agremiações já engajadas na disputa presidencial, não estão minimamente interessadas em levantar a questão das drogas em geral e da maconha, em particular. Mesmo o PT (para onde transferiu-se recentemente o deputado Gabeira) não vai querer arriscar sua nítida vantagem nas sondagens eleitorais para propor algum programa ou política que tratem de um tema capaz de detonar qualquer candidatura. É preciso lembrar que as poderosas seitas evangélicas não abrem mão do seu puritanismo e que os partidos, sobretudo os de oposição, não têm a menor disposição para enfrentá-lo.
** De um governo que teve a ousadia de criar uma Secretaria Nacional Antidrogas e para o lugar escolheu um especialista de fama internacional esperava-se um pouco mais de perseverança e coerência. Um enfrentamento ocorrido há cerca de dois anos, com o então ministro da Justiça José Carlos Dias, levou ao afastamento do juiz Walter Fanganiello Maierovich. Embora o cargo esteja sendo ocupado pelo general Alberto Cardoso (que também é ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional), não faz sentido esta vacância disfarçada. Na atual circunstância, a acumulação de cargos tem significado subjetivo e simbólico – sugere descaso e inapetência para a questão das drogas, dada a relevância da outra função.
Neste imenso vácuo, uma mídia já desnorteada fica ainda mais tonta e desatinada, sujeita a surtos esquizofrênicos de sensacionalismo e arrogância. Este Observatório preocupa-se e ocupa-se primordialmente com o desempenho da mídia. E neste episódio todos têm a sua parcela de culpa e seu quinhão de responsabilidade. Resta saber quem será o primeiro a penitenciar-se. Ou a corrigir-se.
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