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REGISTRO
Marcos Faerman (1944-1999),
obsessão repórter

Alfredo Sirkis (*)

 

F


oi-se nosso Marcão. Perdemos um príncipe da reportagem e uma das figuras humanas mais dignas e decentes que conheci. O repórter era simplesmente destes que já não se fabricam mais. Apaixonado por cada singular matéria, de avassaladora curiosidade, sede de descobrir, de conhecer, de entender, de ir ao fundo do aspecto humano de qualquer pauta. O esquartejador de Porto Alegre, Elvira Pagão, uma vedete famosa da era do rádio, um episódio perdido na história da Guerra do Paraguai, a vida na Casa de Detenção, um jogo de futebol de várzea nos primórdios do futebol, uma luta de Bruce Lee ou Mohamed Ali, um drama sentimental nelsonrodrigueano, o último filme de Fellini, o conflito do Oriente Médio, Marcão ia fundo, bebia toda a informação disponível, entrevistava com genuíno e intenso interesse. Gostava de gente. Descobria ângulos inéditos, criativos, oblíquos e, com a rapidez do corisco, transformava tudo isso num texto claro, rico e escorreito, gostoso de ler. O texto do repórter Marcão era da melhor literatura.

Gaúcho, judeu, gremista, paulista de adoção, tinha um coração do tamanho de um bonde. Convivemos mais nos anos 80. Eu acabara de voltar do exílio e ele era um dos meus primeiros e mais intensos links do pós-regresso. Morava numa casa no Sumaré que passou a ser minha guarida em Sampa City. Eram tempos boêmios, de esbórnia. Marcão pegava pesado naquela busca frenética de experiências, vivências, prazer e angústias. Ali rolava de tudo, mas ao fim, às quadro da madrugada, partidas ou acomodadas as demais visitas, eu descia, sozinho ou en galante compagnie, como dizem os franceses, para o quarto de hóspedes, que ele me mantinha reservado e quase nos sonhos, ou no amor, desandava a ouvir, lá do andar de cima, o crepitar daquela sua máquina de escrever (era uma Remington ou me falha a memória?): Marcos Faerman às voltas com a matéria do dia seguinte para o Jornal da Tarde. Ele tinha aquele poder de concentração instantâneo que atribuem a Nelson Rodrigues: sentava a bunda na cadeira, atacava furiosamente as teclas e só parava horas depois com o texto prontinho e, pasmem, no ponto sem necessidade de muita mexida ou revisão. Esse virtuosismo notívago sempre encheu de admiração escritores menos concentrados, obsessivos em corrigir, reescrever, espasmódicos e decididamente matinais como eu (embora este texto em sua homenagem o escreva, como ele, de madrugada).

Marcão gostava de ajudar nos projetos literários dos outros, estava sempre disponível para encarar um original, um manuscrito. Tinha uma total disponibilidade para aconselhar, para torcer pelo sucesso dos outros, ajudá-los a melhorar o texto, fazer acontecer. Foi padrinho e tutor de uma geração que se formou em torno do seu inesquecível tablóide dos anos da imprensa nanica, o Versus. Sua maior diferença com uma certa cultura de redação que se firmou ao longo dos anos era o espírito de colaboração, o gosto pelo bom trabalho dos outros. Marcão era despojado deste tão disseminado veneno da inveja. Era, porém, um angustiado, um agoniado, um insatisfeito, um ansioso da vida. Grandão, curvado, de cabelos grisalhos encaracolados, cara carnuda de judeu centro-europeu, um grande urso carinhoso, teddy bear cheio de ternura enjaulada.

Tínhamos muita identidade política: na crítica ao socialismo real e ao stalinismo - na época era um debate de monta -, na busca da paz entre Israel e os palestinos, na ecologia, na interrogação de como, diabos, fazer a coisa certa no Brasil, como entender esse gigante multifacetado e contraditório que, segundo ele, explodia de criatividade. Marcão, até o fim, gostou do Brizola, por fidelidade gauchesca, mas era, certamente, mais um verde do que qualquer outra coisa. Me lembrei agora que ele também foi meu padrinho de casamento, em 81. Uma manhã, num cartório em Vila Madalena, cena cômica. Ela visivelmente grávida, eu crítico da situação e, depois, vítima de um incontrolável acesso de riso diante do juiz. Marcão chegando atrasado, atrapalhado, com lágrimas nos olhos, tinha acabado de ter uma de suas brigas homéricas com a mulher de então, Marinez. Eram torrentes de paixão entremeadas dessas explosões de filme italiano. Ficamos consolando-o. Marcão se recompôs. Disse-lhe que quem chorava no casamento era a mãe da noiva, não o padrinho do noivo. Ele riu e foi um padrinho impecável.

As reportagens de Marcos Faerman não aconteciam apenas no papel. Aos amigos brindava versões mais completas de cada assunto, com tudo aquilo que aprendera na pesquisa, era um emérito contador de histórias, uma imensa cultura jornalística, causos e mais causos de um repórter oral tão saboroso e afiado quanto no texto. Gostava mesmo de uma boa conversa. Ficávamos horas, horas a fio papeando. Uma coisa que com o tempo passou a dar-se cada vez menos à minha volta. Marcos Faerman era desses amigos que nos protegem da solidão e nos reconciliam com o gênero humano. A humanidade ali estava reconfortantemente representada pelo que produziu de mais digno. Fazia pensar: enquanto existir gente como o Marcão existe a esperança de que Deus, afinal, pode não ter errado a mão tanto assim.

Nos anos 90 nos vimos bem menos. Ao saber de sua morte, na última sexta-feira de Carnaval antes do ano 2000, não consigo me lembrar da última vez em que o vi. Foi há dois, quatro, seis anos? Pelo telefone conversávamos mais. A última vez foi em setembro, durante a campanha presidencial. Não conseguimos nos encontrar, ele tinha dois artigos para escrever e eu a agenda alucinante daquela empresa brancaleônica. Ficou para minha próxima ida a São Paulo. Ficou para não mais ficar, muito embora presente, para sempre. Axé Marcão, saravá shalom.

* Jornalista, escritor, presidente nacional do Partido Verde.



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