PROVÃO PARA JORNALISTAS

Aberto o debate entre jornalistas e professores

O Ministério da Educação anunciou a extensão aos cursos de jornalismo, em 1998, do provão, nova modalidade de avaliação do ensino superior. O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA antecipa-se e abre nesta edição o debate sobre o provão para jornalistas com colaborações de encarregados dos processos de formação e treinamento de quatro grandes empresas (O Estado de S.Paulo, O Globo, Folha de S.Paulo e Grupo Abril) e professores de cinco faculdades de jornalismo (PUC-RS, Instituto Metodista de Ensino Superior, Cásper Líbero, UFMG e UFES), e do professor Carlos Vogt, coordenador do Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp) e do Grupo de Trabalho de Articulação com a Sociedade (GTAS) do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Carlos Vogt foi reitor da Unicamp e durante seu mandato instituiu novos mecanismos de avaliação dos cursos da universidade.

A preocupação com os rumos do ensino de jornalismo seria importante, mas não crucial, caso os meios de comunicação não fossem obrigados a contratar pessoas com diploma de jornalismo ou registro profissional no Ministério do Trabalho. O mecanismo da obrigatoriedade do diploma funcionou sintomaticamente bem num país em que tantas leis "não pegam" e criou um mercado cativo para a proliferação de faculdades, de tal maneira que hoje é impossível estudar a qualidade da prática profissional sem analisar o processo de formação das pessoas entre as quais obrigatoriamente são contratados os jornalistas.

O debate está aberto, em alto nível. Esperamos que venham participar dele, entre quaisquer outras categorias de cidadãos, os protagonistas do provão: estudantes e autoridades.


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O jornalismo posto à prova

Carlos Vogt, coordenador do Labjor, ex-reitor da Unicamp



Os cursos de graduação de jornalismo no Brasil, anuncia-se, deverão, no próximo ano, submeter-se ao Exame Nacional de Cursos, que, como tudo no país, sobretudo em se tratando de coisa pública, tem o seu apelido: Provão.

O apelido colou tanto (sem trocadilho) que acabou sendo adotado pelo próprio Ministério da Educação e do Desporto, passando inclusive a designar a publicação oficial dedicada ao assunto: Revista do Provão.

Depois de uma série de cursos avaliados no ano passado - processo que enfrentou algumas resistências, logo superadas -, o Provão atingiu uma nova série de cursos este ano, com resultados cada vez mais tranqüilos, do ponto de vista de sua realização.

Parece, assim, que a avaliação do ensino superior no país, pela via do desempenho dos estudantes, vai aos poucos integrando-se à cultura universitária, tendendo a ritualizar-se na rotina de nossas práticas sociais mais familiares. Isso é bom, porque cria o hábito da avaliação contínua e sistemática de nosso ensino superior; pode ser ruim se, desaparecendo a novidade, restar apenas a rotina de mais uma prova que, embora em ão, fique confinada somente ao exercício anual de um teste de capacidade profissional sem agregar outras modalidades mais amplas de avaliação institucional.

Penso, contudo, que o Ministério está atento e que levará em conta essa necessidade inclusiva.

Positiva, de qualquer maneira, é a inclusão, no ano que vem, dos cursos de jornalismo entre aqueles a serem analisados pelo Exame Nacional.

Aqui, como em outros casos, o importante é que a medida não se restrinja ao Provão, mas que sirva também como êmulo de comportamentos construtivos que levem a uma revisão e a uma qualificação - cada vez mais urgentes - dos cursos de graduação em jornalismo.

O simples anúncio, pois, do Provão para jovens jornalistas deve propiciar desde já cenários favoráveis para reflexão crítica e mudanças importantes.

Nesse sentido, o Laboratório de Jornalismo (LABJOR) da Unicamp, criado com esses propósitos, dá boas-vindas ao Provão.

E para que as coisas não fiquem apenas na simpatia dos votos de sucesso e das saudações efusivas, penso que seria oportuno realizar, desde logo, um Encontro de Coordenadores de Cursos de Jornalismo que o próprio LABJOR poderia organizar, no período que antecede o exame, de modo a discutir e a preparar as condições de sistematicidade crítica para as novas provas que o jornalismo brasileiro terá de enfrentar.
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Um outro caminho

Francisco Ornellas, jornalista, é coordenador do Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado de O Estado de S. Paulo



Não há semelhança alguma, exceto pelos gabinetes que ocupa, entre o governo federal de hoje e aquele que, no início dos anos 70, tornou obrigatório o diploma específico para o exercício da profissão de jornalista. Mas, como os ministros que o antecederam, Paulo Renato de Souza dá a impressão exata de preferir a ação governamental imposta ao diálogo franco e pragmático com o mercado. E assim vai o Ministério da Educação realizar, em 1998, o seu provão para os cursos de Jornalismo do País, autorizados por ele próprio a funcionar. Pretendesse, efetivamente, transformar os cursos em provedores de profissionais competentes, então o caminho seria outro.

Poderia, por exemplo, seguir a trilha inglesa: desde 1952, a Associação dos Jornais, o Sindicato Nacional de Jornalistas e o Instituto de Jornalistas mantêm o Conselho Nacional para Treinamento de Jornalistas, organismo financiado essencialmente pelas empresas a ele filiados. Não há exigência alguma, além dos exames de seleção, para que profissionais cursem os programas da entidade. Mas, a cada ano, sobe o percentual de detentores de diploma superior nos seus cursos: era de 6% em 65, de 53% em 81. Nas redações inglesas, mais de 70% dos profissionais têm curso superior. E, lá, não há exigência de qualquer diploma.

Se ao ministro Paulo Renato não cheirar bem o exemplo inglês, que ele siga o francês: o acesso à profissão é absolutamente livre embora, na prática, privilegie os egressos das sete escolas de jornalismo reconhecidas pela convenção coletiva da categoria. Ainda assim, a grande maioria dos profissionais detém um diploma superior e, como no Brasil, atua em áreas de grande densidade urbana: 62% dos jornalistas franceses trabalham na região de Paris.

Nem Inglaterra, nem França? Então vamos à Alemanha: também não há exigência alguma para o exercício da profissão, embora desde 1913 a Associação Nacional dos Editores de Jornais mantenha um programa de treinamento que dura dois anos, suspenso apenas entre 1933 e 1945 pelo regime nazista. Inglaterra, França e Alemanha, como de resto todos os países desenvolvidos do mundo, acreditam que o jornalismo é uma atividade que deve preocupar a sociedade, não o governo. Basta, neste particular, o exemplo da Emenda norte-americana que decreta a inconstitucionalidade de qualquer legislação sobre imprensa.

Mas, se ainda assim o ministro Paulo Renato não se convencer e optar pela defesa do nacionalismo vesgo, que procure então soluções tupiniquins. E as encontrará nas maiores empresas jornalísticas do País. Como no Estado de S. Paulo.

Desde 1990 O Estado de S. Paulo mantém o Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado. Programa aberto a recém formados em jornalismo que, durante três meses, simulam sua atividade profissional na própria empresa. Ao final do curso, reconhecido pela Faculdade de Ciências da Informação da Universidade de Navarra (Espanha), como extensão universitária, todos que por ele passaram integram o Banco Estado de Talentos. Sete anos depois de criado, o programa é avaliado pelo próprio mercado: em todas as grandes redações do Brasil há profissionais treinados por ele. Outros atuam no Exterior, prestando serviços ao Wall Street Journal, em Nova York e à BBC, em Londres. Seu credenciamento pode ser avaliado também pelo conceito no Exterior: entre os estudantes que o freqüentaram como bolsistas, há originários das universidades de Colônia (Alemanha) e Santiago (Chile). E, este ano, o Miami Herald (EUA) envia um repórter seu para o curso. Programas como este podem não render discurso governamental. Em compensação, não custam nada para o governo e valem muito para o mercado. E para os jornalistas.

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Ausência de filtro natural

Luiz Paulo Horta, coordenador de treinamento de O Globo



O teste que o MEC estabeleceu como forma de medir o nível do nosso ensino superior vai bater nas faculdades de jornalismo. O que se pode pensar disso?

Difícil, se não impossível, levantar objeções à idéia. Em sociedades mais desenvolvidas que a nossa, certamente haverá modos mais eficazes de realizar a mesma verificação. Nesses países, as instituições de ensino são mais antigas, e isso corresponde a uma espécie de peneira natural.

Uma instituição como Oxford não construiu o seu prestígio por acaso. Uma vez obtido esse prestígio, é do interesse da própria instituição realizar o seu próprio controle de qualidade.

Isso também se reflete no mercado de trabalho. Sendo conhecidas as instituições, o nome de cada uma delas tem um peso específico. Quem vem de Oxford ou de Harvard já tem, automaticamente, uma vantagem (sabe-se que, no Japão, essa espécie de diploma funciona de modo ainda mais rígido, abrindo ou fechando portas). A luta para entrar nessas escolas de elite torna muito mais fácil (ao mesmo tempo que mais áspero) o processo de seleção; e de dificuldade em dificuldade, constrói-se a imagem de uma escola.

Não é o que acontece por aqui, dada a inexistência dessa tradição. O que é uma universidade "antiga", no Brasil? Aquela que já passou de meio século, que é contemporânea de pessoas que se mantêm perfeitamente atuantes no mercado de trabalho.

Obviamente, isso não chega a criar um retrato diferenciado das diversas instituições (mesmo se, por necessidade premente, tem-se uma idéia aproximada do que valem ao menos as mais conhecidas). E é nesse vácuo que entra o famoso provão. Se não é possível, ainda, criar um retrato diferenciado das nossas instituições de ensino, que se estabeleçam, ao menos, alguns padrões mínimos; que se dê ao distinto público um mínimo de satisfação quanto ao dinheiro que é aplicado no ensino superior - pelo estado ou pelos particulares.

No mundo dos jornalistas, o quadro não é diferente. Desde quando, na contratação de um profissional do ramo, é realmente decisivo o fato de ele ter-se formado por esta ou por aquela faculdade? Tirando os especialistas, quem é capaz de dizer onde o ensino de jornalismo é bom, razoável ou deficiente?

O problema, aqui, é um pouco mais complicado, a partir da definição (se é que existe) do que seja um bom ensino de jornalismo. Há boas razões para continuar acreditando que jornalismo se ensina, mesmo, nas redações de jornal (mais do que nas TVs, ou outros meios de comunicação).

Se assim é, a avaliação dos cursos se tornaria um processo ainda mais aleatório, arbitrário. Não se consegue ver muito bem, examinando os currículos, em que é que um desses cursos se diferencia do outro; em que é que eles se habilitam, realmente, a oferecer profissionais bem formados.

Há um consenso antigo, no meio jornalístico, de que faculdade de jornalismo é uma invenção do período em que tudo, no Brasil, tinha de passar por uma espécie de cartorialização, de reserva de mercado.

Continuamos ou não a viver nesse período?

A dura realidade de hoje tem levado a algumas tentativas de reavaliação. Deve haver melhor maneira de ensinar jornalismo do que enfileirando quatro anos de aulas teóricas. De qualquer modo, enquanto a obrigação persiste, não é mau que algum tipo de exame se proponha a aferir o nível desta ou daquela escola.

Se não é exatamente jornalismo o que se ensina ali, pode-se, ao menos, aprender coisas que tenham verdadeira utilidade: o correto manuseio da língua; uma abordagem ainda que sucinta das grandes etapas da nossa evolução cultural; uma preocupação com a ética, disciplina que data dos velhos gregos, e com cujas realidades supõe-se que o jornalista vai lidar praticamente todos os dias, às vezes em circunstâncias dramáticas.

Esses são temas universais, que podem fazer bem à carreira; e não é difícil verificar se o aluno tem algum desembaraço neles. Se não sabe nada sobre isso, é de duvidar que o resto do ensinado (ou aprendido) tenha alguma serventia.

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Avaliar a capacidade de redigir e de ler

Marcelo Leite, coordenador de Treinamento e
ex-ombudsman da Folha de S.Paulo



Se há algo em comum entre tantas gerações de jornalistas é a pronta disposição para falar mal de escolas de comunicação. Quem está na faculdade ou acabou de sair dela sente ainda de forma aguda as deficiências acadêmicas inerentes à maioria; quem já cumpriu a obrigação legal de conseguir um diploma se compraz com o óbvio - que cursos universitários de jornalismo não preparam profissionais para a realidade das redações. Apesar de ressentida, ligeira e automática, essa crítica tem muito de verdade. O provão poderá ajudar a evidenciá-la.

Em primeiro lugar, o teste a ser aplicado em formandos deve tentar um diagnóstico da penúria de conteúdo nas faculdades. Os jovens que se candidatam a vagas de jornalistas ou de trainees na Folha desconhecem coisas básicas sobre a profissão que escolheram. Mas não se trata da suposta vergonha por não saber o que é retranca, fotolito ou lide (antigamente era a calandra). O problema é nunca ter ouvido falar de Cláudio Abramo, Truman Capote e Benjamin Bradlee. Ou ser incapaz de relatar o papel da imprensa na história recente, como no caso das Diretas-Já e do impeachment de Fernando Collor.

Para quem duvida de que a situação é séria, mas também para injetar um pouco de humor numa história sombria, eis algumas respostas dadas por candidato ao 25o Programa de Trainees da Folha: Cláudio Abramo - político, Brasil, (anos) 90; Benjamin Bradlee - esportista, EUA, 90; Truman Capote - mafioso, EUA, 30. O detalhe é que essas respostas foram dadas por um dos 10 escolhidos entre 480 candidatos, e não por um desclassificado.

Alguém poderá argumentar que não é função da faculdade ensinar história do jornalismo, mas sua técnica (como escrever um lide, como fazer um título etc.). Ou, quem sabe, sua teoria (empulhações como fundamentos filosóficos da comunicação). Ou ainda, sua prática (torturar meninos com jornais-laboratório de qualidade raquítica e periodicidade idem). E por que não tudo de uma vez? - perguntará o adepto mais convicto da geléia geral.

Ao menos no caso do provão, essa eterna confusão programática do ensino do jornalismo estará contornada. Não parece afinal exeqüível, num teste como esse, avaliar domínio técnico do jornalismo tal como é praticado nas redações, mesmo porque os critérios e padrões variam de uma para outra. A prova deveria em primeiro lugar avaliar a capacidade de redigir bem e de maneira articulada em português, deficiência pela qual a faculdade não pode ser responsabilizada, mas da qual também não deveria descuidar.

Outra boa pedida seria averiguar se os candidatos ao diploma sabem distinguir gêneros como reportagem, crítica, comentário, crônica, editorial, ensaio, artigo. A solução de alguns dilemas éticos simples do dia-a-dia da profissão, com base apenas no bom senso, também poderia ser solicitada. Se não for pedir demais, uma questão ao menos de matemática básica, aritmética, mesmo. E história, muita história - do jornalismo, do Brasil, do mundo, da atualidade.

Se a escola de jornalismo não for capaz de incutir nos futuros profissionais a obrigação de escrever bem e de ler muito, inclusive jornais, para que servirá? É a pergunta que o provão deveria responder.

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Formar para a vida inteira

Marília Scalzo
Coordenadora do Curso Abril de Jornalismo em Revistas,
redatora-chefe da revista Arte e Decoração



Quanto ao provão, tudo bem. Instrumentos para medir a qualidade dos cursos e dos alunos que deles saem, ainda que não sejam perfeitos, são bem-vindos. É sempre um passo no caminho de melhorar a qualidade do ensino e isso é bom.

A questão que se coloca então é: o que é um aluno bem-formado em Jornalismo? A discussão volta-se, como sempre, para as escolas e seus currículos. O que é um bom curso? O que os alunos devem aprender? Boa hora para pensar nesse assunto.

Preocupadas em ter laboratórios que acompanhem o ritmo da imprensa - o que é praticamente impossível -, as escolas às vezes esquecem que mais importante para um jornalista é aprender a pensar. O trabalho numa redação (a técnica) aprende-se em uma semana, um mês no máximo - e ao mesmo tempo é um aprendizado constante, porque tudo muda o tempo todo.

O que a escola pode dar é a formação - aquela que se leva pela vida inteira. As redações precisam de jornalistas que pensem para que não fiquem repetindo fórmulas indefinidamente e possam contribuir para a construção de uma imprensa melhor.

Cabe às escolas pensar nisso porque o provão vai medir conhecimentos, mas não resolverá esse assunto.

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Útil, necessário, mas limitado

Jacques A . Wainberg,
coordenador do Mestrado em Comunicação da PUC-RS,
professor de Introdução ao Jornalismo da graduação



O provão que se anuncia em 1998 aos graduados em jornalismo chegará em boa hora. São três as razões que alego para apoiar a iniciativa: primeiro, porque já é tempo dos cursos de graduação submeterem-se, eles também, a algum tipo de avaliação externa. Esta experiência tem-se mostrado frutífera nos cursos de pós-graduação e deve ser repetida no nível anterior, o de formação profissional. Segundo, permitirá que haja transparência entre os diversos segmentos envolvidos no comércio do conhecimento (administradores, docentes e discentes). Terceiro, terá a virtude de abalar, em certa medida, a auto-estima de quem engana com a falta de docentes preparados, currículos desestruturados, carência de equipamentos e projetos acadêmicos eficazes.

O debate, ao meu ver, deverá centralizar-se menos na necessidade e validade de uma avaliação externa aos cursos de graduação em Jornalismo e mais no mérito do que avaliar.

Conseqüentemente, pondero que tal exame só terá o direito de incluir o previsto em sua estrutura curricular mínima, desconsiderando os conteúdos flexíveis e opcionais. Em decorrência, surge, ao meu ver, o dilema básico: o que enfatizar? Se dará ênfase à aplicação prática dos conhecimentos (redação de notícia para jornal, de textos de revista, de leads radiofônicos, edição e revisão de textos, tratamento de imagem e som, etc.), ou se desejará um enfoque mais acadêmico, enfatizando o jornalismo como área de conhecimento?

A solução de tal dilema deverá, ao meu ver, ser encontrada no balanceamento destes dois elementos constitutivos.

Tal encaminhamento não equivale a dizer que tais conhecimentos sob exame são os mínimos necessários à formação de um jornalista no limiar do novo século. O debate, nestes termos, focaria outro tema, o do currículo, e incluiria uma séria e penosa reflexão sobre a pedagogia do ensino de jornalismo.

Em outras palavras, só se pode avaliar o que se pede. Esta é a regra número um de qualquer sistema de avaliação. E o que se pedirá, ao meu ver, por esta limitação operacional, será certamente muito pouco, a não ser que se encontre uma forma de se ampliar os conteúdos a serem incluídos no provão sem que isso signifique uma armadilha inesperada e injusta aos alunos.

Certamente, o resultado do exame animará o debate sobre a regulamentação profissional. Confesso-me enfastiado por tal debate e prefiro concentrar-me sobre o aperfeiçoamento do ensino desta área profissional e desta área do conhecimento. O exame terá alguma virtude se for capaz de denunciar com evidências adicionais o que já se sabe por instinto: à semelhança de qualquer outra área, há no ensino do jornalismo fragilidades a serem superadas.

O que se impõe aqui também é esforço no aperfeiçoamento da docência profissionalizante e de seu suporte teórico humanístico. O provão, por sua limitação operacional inevitável, como descrito acima, não proporá o debate que se torna decisivo no fim dos anos 90: quem é o jornalista do fim de século no Brasil, e qual a bagagem que se lhe exige para cumprir a função social que sua velha-nova identidade demandará?

O provão servirá como instrumento precário, limitado mas útil para se avaliar os cursos de graduação em jornalismo. Não permitirá nitidez total. Apontará pistas e desafiará a área a aprofundar sua reflexão sobre os pontos assinalados e decisivos ao meu ver: definição de propósitos (identidade), o decorrente currículo, sua equipagem (material e pedagógica) e as ações pedagógicas que se imporão no futuro para que o país tenha jornalistas competentes.

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Está chegando a hora

José S. Faro, professor do curso de
Pós-Graduação em Comunicação Social
do Instituto Metodista de Ensino Superior



É difícil prever todos os efeitos que a realização do provão terá sobre os cursos superiores. O que se pode dizer, por enquanto, é que a iniciativa do MEC está provocando um bem-vindo e saudável abalo no comportamento dos agentes responsáveis por estruturas de ensino que há muito tempo encontravam-se estagnadas e indiferentes ao processo de mudanças conceituais e tecnológicas que as cercam. E só por isso, o ministro Paulo Renato, ainda que possa não ter sido essa sua intenção, já marcou sua gestão de forma muito positiva.

O provão levou para dentro das faculdades uma variável que, até agora, só esteve presente nas preocupações angustiadas dos recém-formados. Com o diploma nas mãos, o desafio que espera a maioria dos jovens profissionais é o de se engalfinhar com seus concorrentes no mercado de trabalho. Só então é que parte deles se dá conta de que foi vítima de um curso que não prepara adequadamente, e que lhe foi oferecido como um instrumento imbatível de ascensão social.

A rigor, esse despreparo, só percebido tardiamente, é o resultado de uma somatória perversa de fatores, e nem é possível afirmar que todos eles estejam presentes em todas as escolas superiores que surgiram no país nos últimos anos. Mas em qualquer caso - mesmo para aquelas instituições de maior credenciamento social e técnico -, a inexistência de padrões mensuráveis sobre o destino de seus ex-alunos acabou por colocar todas elas na mesma vala: invariavelmente estiveram acomodadas, paralisadas e indiferentes à necessidade de seu aperfeiçoamento didático-pedagógico, incluídos aí o aparelhamento laboratorial de seus cursos e a qualificação de seu corpo docente, massacrado pelo regime horista de trabalho predominante na rede privada do 3o grau.

Com o provão, tudo isso entrou em crise. A iniciativa do MEC de medir o preparo dos formandos revolveu posturas acadêmicas fossilizadas, espalhou poeira a torto e a direito e colocou em cheque uma burocracia universitária - ou parcela de um empresariado incompetente para assumir todas as dimensões do empreendimento educacional - simplesmente porque introduziu a variável do mercado como termômetro da eficiência do sistema. Não apenas o mercado de cursos superiores que atendem a demanda dos estudantes de 2o. grau, mas também o mercado que absorve os novos profissionais. Nas duas pontas: na entrada, o vestibulando estará atento para o conceito obtido pelo curso que pretende fazer; e na saída, a área de seleção de mão-de-obra estará atenta para o curso feito pelo profissional que se candidata ao posto de trabalho. No miolo dessa trajetória estarão as faculdades e as universidades. É de se esperar que se engalfinhem agora elas próprias, as públicas e as privadas, na disputa pelo prestígio e pelo reconhecimento, sem grandes apelos publicitários ou sem grandes manobras políticas; simplesmente pela qualidade dos cursos que oferecem.

Agora está chegando a vez dos estudantes de jornalismo. A expectativa daqueles que trabalham nessa área de ensino é a de que o pânico será generalizado, embora vaticínios dessa natureza sejam prematuros. O que se sabe, com certeza, é que os resultados do provão em jornalismo vão servir como um teste de fogo para duas concepções que se digladiaram intensamente nos últimos 20 anos em torno da orientação a ser dada a esses cursos.

A primeira delas é comumente identificada como humanista: uma corrente que advoga a formação cultural clássica e geral do jornalista priorizada em relação à sua formação técnica. Na verdade, os defensores dessa linha de pensamento encontram-se há algum tempo na defensiva, principalmente diante das inovações tecnológicas que se espalharam por todas as atividades profissionais. Não houve demonstração lógica que tenham sido capazes de fazer para provar que o melhor jornalista não é aquele melhor qualificado tecnicamente para enfrentar as inovações que se acumulam em sua área profissional, mas aquele que se apresenta melhor estruturado do ponto de vista de sua formação crítico-discursiva. Para os humanistas é mais apropriado ao papel da imprensa na sociedade contemporânea, e ao próprio ofício de reportar, o profissional que detém nas mãos os instrumentos de análise da realidade multifacetada do mundo, e isso só com bagagem sociológica, econômica, política, literária, historiográfica, científica. Carente nessas áreas, ainda que estivesse habilitado a manipular as técnicas todas, o jornalista não seria mais que um neanderthal constrangido: um homem munido de desktops ou de laptops, plugado em redes de princípios impenetráveis, apto para os melhores leads e rápido nas entrevistas, mas montado em cima de um imenso vazio de idéias. E dizem mais: um curso superior de jornalismo jamais teria condições de qualificar seu estudante para os avanços tecnológicos dos quais as empresas se apropriam, e por isso o gap entre a realidade da academia e a realidade do mercado nunca seria superado. A função da educação universitária é outra, justificam. Não deixam de ter razão, embora não expliquem como se processa a absorção dos paradigmas da revolução tecnológica pelo pensamento humanista.

A segunda concepção pode ser simplesmente chamada de técnica. Para os que a defendem, o humanismo de hoje é outro; ele é a tecnologia como nova fronteira do conhecimento; como novo princípio da formação cultural. A noção de que a técnica, a específica do jornalista e a geral do fim do século, pode ser vista como um simples meio de trabalho nega a dinâmica de seu papel na sociedade contemporânea, é anacrônica e disfuncional. Tudo o que é proposto com esse viés conservador não seria mais que uma formulação romântica em vias de extinção: o que vale é a inserção do jornalista na agilidade e objetividade do texto e de sua conexão com as infovias, elementos primais de sustentação de um mundo globalizado. Se a cultura clássica não servir a isso, dificilmente terá outra serventia que não a do diletantismo intelectual. Também não deixam de ter razão, embora não respondam de que forma os cursos de jornalismo que se espalharam pelo país nos últimos anos teriam condições de promover essa nova capacitação profissional.

São essas duas concepções que estarão simultaneamente sendo testadas com o provão de jornalismo. Se os estudantes se saírem mal - e tudo indica que isso vai acontecer de forma generalizada, levando-se em conta os descaminhos pelos quais os cursos passaram nos últimos 20 anos e a tradição de superficialidade com que tem sido tratada a área da Comunicação em geral - as acusações virão de parte a parte. Não será difícil encontrar professores com a sábia reticência no julgamento dos resultados: "eu bem que avisei...".

E se isso acontecer, humanistas e técnicos estarão perdendo uma boa oportunidade de discutirem, juntos, a questão central que os envolve: a verdadeira camisa de força que representa para os cursos de jornalismo a existência de um currículo mínimo fixado pelo MEC e que impede as escolas de procurarem caminhos originais e pertinentes às grandes questões do nosso tempo para a formação que pretendem dar a seus alunos. Na verdade, a aparente dicotomia entre essas duas áreas de orientação filosófica só existe por conta da redução física que matérias do currículo pleno sofrem em razão da obrigatoriedade de cumprimento do que é estipulado pelo governo, o que significa dizer que o provão será feito com base numa articulação disciplinar que reflete uma concepção fenomenológica e específica do início dos anos 80, quando nem a metade dos grandes problemas e questionamentos culturais de hoje estavam presentes no mundo acadêmico e no mundo da imprensa.

Seja como for, está chegando a hora do jornalismo. O cenário possível - e provável - é o do estabelecimento do pânico, como vem acontecendo em outras áreas já avaliadas: um olhar desorganizado para as carências internas de cada curso em cada instituição. A minoria que tem se saído bem se apressa em proclamar o êxito, em alguns casos até com uma publicidade agressiva e incontinenti. Das que se saíram mal, algumas estão agindo de forma irracional e passando ao largo dos problemas principais que devem enfrentar: a ameaça de vestibulares pouco concorridos e de salas de aula vazias, por exemplo, tem provocado demissões de professores em massa em faculdades particulares de São Paulo, como se isso resolvesse alguma coisa. Nem uma nem outra coisa são recomendáveis.

O provão e os resultados que ele tem apresentado remetem a uma discussão maior. Bem pensadas as coisas, a qualificação oferecida ao recém-formado - e que o Estado chama a si na responsabilidade de avaliar - diz menos sobre o curso e mais sobre o projeto que o sistema educacional brasileiro tem a oferecer para uma área profissional específica. No caso do jornalismo, quaisquer que sejam os resultados, o provão pode ser uma chance entre outras de se discutir não só o jornalista que formamos, mas a imprensa que queremos.

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Tribunal no fim do túnel

Marco Antonio Araujo, chefe do departamento de
Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e editor da revista Educação



Ao que parece, o provão veio mesmo para ficar - nem tanto por suas qualidades e mais pelos seus defeitos. É um talento brasileiro esse de tornar essencial o que é acessório, privado o que é público, diagnóstico o que é doença. Na verdade, é algo típico por aqui e vem muito da reiterada cortina de fumaça que se lança sobre as grandes questões nacionais: para cada compra de voto, um escândalo na oposição; para cada Aloysio Biondi, um exército de ufanistas; para cada crise, um bode expiatório.

Talvez fosse o caso de aplaudir a originalidade do ministro Paulo Renato, que, no fim do estreito túnel da graduação, montou um tribunal. Os poucos que lá chegarem serão julgados por todo um passado de erros, que normalmente começa nos primeiros bancos escolares: o 1o grau é um verdadeiro escândalo, o ensino médio sofre uma histórica crise de identidade e o vestibular é a guilhotina menos esterilizada que se conhece para cortar talentos e perspectivas.

O ensino superior, de fato, contribui com o vazio em meio ao caos. É notório que muitas faculdades são apenas fábricas de diplomas. Mas é difícil acreditar que os mecanismos de fiscalização que já existem sejam insuficientes para detectar quem é o picareta que faz do ensino uma mercadoria e quem é o missionário que consegue montar bons cursos. Não haverá nada que o provão demonstre que não possa ser melhor diagnosticado em visitas sérias e periódicas de inspetores e delegados do MEC. Mas seria demais exigir que a máquina do Estado começasse a funcionar, em vez de transferir responsabilidades. Dá para desconfiar que, caso seja constatada a falência do ensino superior, o governo vai aplicar um provão nos cursos vestibulares, e assim retroativamente, até chegar na avaliação da ficha de inscrição do candidato à creche.

O provão sozinho é inócuo. Mas esse governo sabe trabalhar com a opinião pública, que sempre considera um consolo saber que alguma coisa, seja o que for, está sendo feita. De fato, é divertido notar como algumas faculdades entraram em pânico com os primeiros resultados e saíram desembestadas montando cursinhos (e demitindo professores sem titulação) às vésperas do exame do MEC.

Pois está justamente aí, na síndrome persecutória que é desencadeada, o principal motivo da aceitação que o Exame Nacional de Cursos tem tido. Ao pegar o rato pelo rabo, o provão deixa o bicho livre para morder e espernear. O ministro Paulo Renato teve o mérito de despertar indignação. Como pessoas indignadas são movidas por convicções (ou interesses), acaba sendo educativo, neste país sub-reptício, ver elites expondo pontos de vista.

Quanto ao provão dos cursos de jornalismo, sem querer, o MEC estimula o debate sobre a obrigatoriedade do diploma e toma partido, involuntariamente, ao dar ao jornalista o mesmo status do médico, engenheiro ou advogado. Os defensores da reserva de mercado agradecem.

O mínimo que se pode fazer, enquanto há tempo, é patrocinar uma ampla discussão sobre que aspectos serão considerados na avaliação. Quem é do ramo sabe como são híbridas as diversas formações possíveis para um jornalista. Até agora, o único sinal de bom senso é o de considerar, além da formação acadêmica, a experiência profissional dos docentes. Nem só de títulos e pesquisas é feito um professor de jornalismo.

Talvez o MEC consiga resolver uma questão ontológica: como se avaliam jornalistas? Além de alfabetizado, espera-se do foca que ele seja ético. Fora esse frágil consenso, entramos na polêmica sobre qual o perfil ideal desse profissional. É um ser de formação humanística? Um profissional que alia cultura genérica e alguma especialização? É possível mensurar o propagado "jornalismo total"? Jornalismo não é apenas um ofício, como dizem os empresários de comunicação?

Fico imaginando que tipo de questões serão formuladas. Vão pedir para escrever um lead tipo Veja, uma crítica sobre o Gerald Thomas, um editorial elencando os benefícios do neoliberalismo? Vão perguntar que notável empresa foi eleita a melhor do ano pela Exame?

O provão não é para saber se os formandos estão aptos a entrar no mercado? Então, é fundamental perguntar como se transforma um suspeito em culpado, como se fazem campanhas subliminares para eleger presidentes e, principalmente, como se constrói toda uma mitologia em cima da objetividade só para dissimular ideologias e interesses econômicos.

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Quem tem medo de avaliação?

Mirian Chrystus, jornalista e professora de
Telejornalismo, Chefe do Departamento de
Comunicação Social da UFMG



Para que serve uma avaliação? A pergunta, ingênua até certo ponto, abre no entanto um cipoal de respostas. Mas talvez até o senso comum reconheça que o objetivo da avaliação de um curso deveria ser uma aferição de caminhos traçados com vistas a possíveis correções de percurso no intuito de melhorar a viagem de todos , alunos e professores.

Para pensarmos se o chamado provão pode ser um instrumento adequado a esse objetivo, gostaríamos de rememorar a avaliação pela qual passou o Curso de Comunicação Social da UFMG dentro do PAIUB - Programa de Avaliação das Instituições Universitárias Brasileiras. Adiantamos, desde já, que a comissão encarregada da avaliação detectou problemas graves e fez críticas contundentes ao desempenho do Curso - o que, na nossa opinião está sendo muito interessante porque detonou um processo de discussão e de tomada de decisões relacionadas ao cotidiano de todos.

Durante três dias, uma comissão formada por um profissional de competência reconhecida ( Miriam Leitão, jornalista da TV Globo), uma professora universitária (Maria Nazareth Ferreira, da USP) e uma ex-aluna ( Flávia Sachetto, assessora de Imprensa da Caixa Econômica Federal - MG) se debruçou sobre um dossiê de quatrocentas páginas contendo o histórico do Curso, elenco de disciplinas, ementas das mesmas e muitos outros documentos. Além disso, a Comissão teve acesso a todas informações que requisitou, aos laboratórios de vídeo, rádio e computação gráfica, bem como a uma amostra dos produtos elaborados nesses espaços laboratoriais. Esses produtos incluem desde vídeos, cadernos de reportagens, jornais impressos e televisivos, peças publicitárias e de computação gráfica, até uma amostra do TV Sala de Espera, programa comunitário realizado por estagiários sob a supervisão de professores do Departamento de Comunicação .O programa tem três anos de existência e já recebeu prêmios internacionais.

Também fizeram parte da programação intensiva da Comissão encontros com professores e estudantes, realizados separadamente. Nesses encontros, o clima foi de franqueza e de confiança no trabalho que a Comissão estava desenvolvendo, por se entender que ele era oportuno e necessário.

Ao fim do terceiro dia, no prazo exíguo de uma hora, a Comissão realizou a leitura do documento de avaliação. Manifestando ter captado aspectos positivos no Curso, mas preferindo se ater aos negativos, por entender que assim daria sua melhor contribuição, o documento apontou problemas tais como a fragmentação no currículo, com a conseqüente repetição de conteúdos ou ausência de outros que considerava necessários; disciplinas mal alocadas na grade curricular; falta de transparência do atendimento de professores a estudantes fora do horário de aula; clima de passividade e desinteresse por leitura entre os alunos; professores da área profissionalizante com dedicação exclusiva e, por isso mesmo, distantes do mercado de trabalho e da renovação proporcionada por ele.

Dias depois, uma assembléia departamental considerou muito bom o trabalho da Comissão e muito pertinentes os pontos levantados por ela, principalmente levando em conto o curto espaço de tempo para a realização dos trabalhos. Tendo isso em vista, relevaram-se alguns equívocos cometidos pela Comissão, como, por exemplo, o entendimento que haveria um desinteresse por parte da Chefia em estimular o Curso a participar de um programa de Televisão por não considerá-lo suficientemente bom para o aprendizado dos estudantes. Só para nos atermos num exemplo, o que acontece é exatamente o contrário, com a indicação de uma consultoria à Reitoria que produziu um alentado volume com todas as recomendações para a instalação de uma TV de baixa potência no campus da UFMG. Caso isso se concretize, o Curso de Comunicação se empenhará de todas as formas , por saber que uma experiência destas é vital para a formação dos seus estudantes.

Outros pontos mencionados, como a questão da fragmentação do currículo, já estão também sendo objeto de preocupação da Coordenação do Colegiado, que está conduzindo uma Reforma Curricular que deverá estar concluída até o fim de agosto. Esta Proposta de Reforma Curricular visa justamente ao enxugamento das disciplinas e à busca de um perfil generalista do profissional de Comunicação, mais afinado com o mercado e, ao mesmo tempo, com uma formação humanista (já que, na nossa opinião, a sociedade não se confunde com o mercado e suas necessidades).

Também a questão dos professores da área profissionalizante em Dedicação Exclusiva é motivo de preocupação mas está situada no contexto amplo da Universidade, que até agora tem privilegiado o entendimento que este é o melhor regime de trabalho para seus professores - não facilitando nem estimulando a participação fora dos seus muros (o que, com o processo de autonomia, também deverá mudar). De qualquer forma, será sempre um desafio para um curso de Comunicação tentar encontrar um equilíbrio entre os professores que se dedicam à reflexão teórica e aqueles que transmitem o saber da prática (ou da técnica, como querem alguns). Esse equilíbrio entre teoria e prática, que já provocou tantas polemicas, já insuflou tanto os ânimos, continuará sempre a ser buscado, porque talvez se trate de uma meta quase inatingível.

A referência ao PAIUB explica-se apenas para reassegurar a importância de uma avaliação como instrumento de mudanças e, ao mesmo tempo, enfatizar como se trata de um processo difícil e delicado. No caso citado, em que a própria Comissão enalteceu a abertura que encontrou e que possibilitou a realização honesta dos trabalhos, houve acertos, equívocos e a lacuna de não se apontar os aspectos positivos reconhecidos mas não mencionados. Não se trata aqui da reivindicação infantil por elogios, mas a vontade de saber onde estariam também os acertos, os caminhos porventura corretos que o Curso estaria trilhando. Pois, afinal, um balanço que englobasse erros e acertos deveria fazer parte de um processo de avaliação. Mas, de qualquer forma, a avaliação realizada detonou um processo que já estava latente e algumas medidas de caráter prático estão sendo tomadas - paralelamente a um processo mais amplo de decisão. Até os estudantes, percebidos como passivos pela avaliação, resolveram participar das instâncias políticas mediante as quais têm o direito de se fazer representar.

Enfim, pode parecer uma longa digressão, mas o objetivo foi tornar claro que, a princípio, não há porque se temer uma avaliação como o provão, ou qualquer outra. Antes uma avaliação sujeita a equívocos que a ausência de aferição dos rumos de um curso. Porém, é importante se ter consciência de que os próprios métodos de avaliação precisam ser aferidos para que consigam delinear um desenho cada vez mais nítido da realidade que pretendem compreender e criticar. O provão, detendo-se numa ponta do processo, certamente captará dados interessantes - mas precisa ser aprimorado como instrumento de avaliação.

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Metralhadora giratória

Victor Gentilli



1 - O provão vai fortalecer os cursos. Isso é ótimo!

Nenhuma escola de jornalismo, pública ou privada, vai desejar que seus alunos tenham um mau desempenho no provão. Portanto, as escolas vão se mexer. Aliás, o provão dá uma outra nota pela titulação dos professores, o que também ajuda a qualificar professores. Tudo isso é ótimo.

2 - Não há contradição entre o fortalecimento das escolas e a defesa do fim da obrigatoriedade do diploma.

Defendi a proposta Mauro Santayana em dois artigos na imprensa regional do Espírito Santo, em 1987. Fui mal compreendido: entenderam que eu era contra o diploma apenas para jornalistas. Minha posição era (e ainda é) contrária ao diploma, como enfatizava então o projeto, para todas as profissões que não implicassem risco de vida. Vamos lá, em ordem alfabética: advogado, assistente social... Ficam de fora apenas os engenheiros e os médicos.

Há dias, vi a proposta retornar, vocalizada por Gesner Oliveira, do Cade (aquele mesmo que exigiu que a Kolynos virasse Sorriso). A repercussão foi mínima, já que dias depois, o anuncio do provão para jornalistas pelo ministro abortou o debate.

3 - Ser contra o diploma não significa ser contra os cursos. Nem contra o provão

Esse é um ponto que muitos confundem. Imaginam que desobrigar do diploma significa acabar com os cursos. Pelo contrário, com o fim do diploma os cursos são valorizados, mas pelos seus méritos intrínsecos, não pela reserva de mercado que produzem.

Para entender isso, não é preciso olhar além do próprio umbigo, no que se entende por comunicação: o exercício profissional da Publicidade não requer diploma; nem por isso as escolas deixam de oferecer cursos nesta habilitação. E a sua procura, às vezes, é maior do que a de Jornalismo.

Portanto não há contradição entre defender o fim da obrigatoriedade do diploma e ser favorável ao provão. Mas vamos em frente que nem tudo são flores.

4 - Deve haver um provão para professores também

Como disse José Paulo de Andrade, na edição anterior deste OBSERVATÓRIO, "pimenta nos olhos dos outros, é refresco". Pois bem, como gosto de um bom tempero e entendo que o País está precisando de mais condimentos, entendo que é necessário um provão para os professores também.

Sou jornalista, professor universitário (de jornalismo) e funcionário público federal - desses que agora, felizmente, se o projeto continuar andando, vão poder ser demitidos por insuficiência de desempenho. Portanto, quero o provão para mim também.

Por que quero o provão para mim também? Porque, embora, não consiga encontrar um único argumento racional contra o provão, convivo com os estudantes, partilho seus sentimentos e entendo suas angústias. É difícil explicar a um jovem que dedicou os melhores anos de sua vida a um curso (que oferece um diploma porque é reconhecido pelo MEC) que, depois de concluído, ele precisa se submeter a uma nova prova - que poderá desmerecer sua escola e portanto todo o seu esforço.

Assim que saiu o anúncio do provão para jornalistas, conversei com alguns alunos e eles me perguntaram: se é para avaliar as escolas, por que não fazer um provão para os professores. Como bom judeu, respondi, com bom humor, mas muito a sério: "E por que não?"

Mas, atenção: quero o provão para mim também!

5 - É triste ver a UNE do lado errado

Ser jovem é uma qualificação que muitos batalham para preservar, independente da idade. Porque "jovem" é uma palavra forte: agrega valores como ousadia, coragem, desprendimento. Na história, são inúmeros os movimentos encabeçados por jovens, sempre motivados por ideais como progresso, liberdade, igualdade, justiça. A história do Brasil é repleta de episódios onde os jovens, em especial os estudantes, estão na boa trincheira da sociedade civil.

Ver a UNE - e outras siglas históricas - hoje isolada, do lado errado, apenas combatendo o provão, sem argumentos, é muito triste.

6 - O movimento "Fiscalize sua escola" é excelente, mas deve se somar ao provão, não contrapor-se a ele

O Movimento pela Melhoria do Ensino de Comunicação lançou, já há mais de um ano, a campanha "Fiscalize sua escola", com uma cartilha fantástica para que os estudantes de comunicação possam checar a qualidade de seu curso. Pelo que tenho visto, no entanto, o movimento, embora correto e relativamente vigoroso, não tem conseguido alcançar resultados concretos no curto prazo.

Entendo que os estudantes, com apoio dos Enecos e Cobrecos (siglas horrorosas que estão à frente destes belos movimentos), devem ter a coragem e a ousadia de se aliar ao MEC, apoiar o provão e pedir mais.

Optar pelo confronto "Fiscalize sua escola" x "Provão" será não apenas um equívoco político, mas um desastre no objetivo concreto de melhorar os cursos.

7 - O provão fortalece o currículo mínimo que deve ser combatido

Outra grande batalha daqueles que pretendem aprimorar o ensino de jornalismo é o de livrar-se do currículo mínimo do MEC, que, na verdade, torna-se, na prática, currículo máximo. Já se vão quase dez anos da Constituição de 1988, que postula a autonomia curricular, e quase nada se andou nesta direção. Hoje, quase todos os cursos, de Norte a Sul do país, oferecem basicamente as mesmas disciplinas, a despeito da diversidade regional, de interesses e de vocações específicas de cada curso.

Se o provão vier isolado, desacompanhado de outras medidas, vai enfraquecer este movimento (que nunca foi forte) e dificultar mais ainda a quebra do currículo mínimo: os cursos vão colocar todos os seus esforços para melhorar apenas naquilo em que são iguais aos outros.

Assim, estudos de realidade regional, disciplinas de pesquisadores que ofereceriam uma personalidade original a um curso vão ser desestimuladas, já que não vão poder ser avaliadas numa prova igual para todos os alunos de todos os cursos de jornalismo do Brasil.

8 - O ensino de jornalismo vai continuar sem prática?

Os cursos de jornalismo hoje, em sua maioria, têm problemas graves. Um deles é que as disciplinas práticas de habilitação em jornalismo ou são oferecidas por professores que estão no mercado e reproduzem este mercado sem espírito crítico, ou o são por docentes distantes do mercado.

Mas em qualquer profissão, a boa experiência prática é feita no estágio, com supervisão da universidade. E no jornalismo? Vamos continuar com o anacronismo da proibição do estágio?

Como o provão vai se sair dessa? As questões práticas vão ser feitas como?

9 - O ensino de jornalismo vai continuar sem teoria?

Outro problema é a ausência de discussão teórica de jornalismo. Isso mesmo: na grande maioria dos cursos, as disciplinas práticas são de jornalismo; as teóricas, de comunicação. Com o agravante de que as disciplinas teóricas, raríssimas exceções, juntam na mesma turma alunos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas, Turismo, Radialismo etc.

Cadê a reflexão teórica específica do jornalismo? Como o provão vai se sair dessa? O que fazer com as questões teóricas?

10 - Vestibular x provão. Será que não é a mesma coisa?

Estou aqui apenas sugerindo que façamos uma experiência: que tal confrontarmos as notas no provão com a relação candidato/vaga quatro anos antes, lá no vestibular. Se der muito parecido, que é a minha hipótese, pode significar que são os alunos que fazem as escolas melhores ou piores, não a qualidade do curso ou dos professores. Como conseqüência da hipótese, os cursos das universidades públicas, que sempre conseguem os melhores alunos, já partem de um patamar superior. Mas vamos ao próximo ponto:

11 - Quem tem que ter medo do provão são as escolas privadas

Devagar com o andor com a minha própria hipótese. Além de contarem com os alunos que não conseguiram ingressar nas universidades públicas, com as exceções de praxe, os cursos privados não fazem pesquisa e não qualificam docentes. As universidades públicas, apesar de tudo, contam com alguns professores com dedicação exclusiva, fazem pesquisa etc. As particulares, em sua maiores, remuneram os professores como horistas.

São as escolas particulares, portanto, que devem ter medo do provão. Aliás, o resultado do primeiro provão já demonstrou que tal argumento é consistente: de um modo geral, as universidades públicas deram um "banho" nas escolas particulares.

12 - Vejam o presente que o governo está dando para os cursos particulares

Mas, atenção: as escolas particulares estão recebendo um presente, de graça, do governo (uma grande pauta, mas a imprensa não percebe e não vê a noticia). Inúmeros professores aposentados de universidades públicas nestes últimos anos (vários deles mestres e doutores às custas do erário) estão encontrando guarida nos cursos particulares. Tais cursos não gastaram um tostão na qualificação destes professores, mas vão receber no provão, de graça, a pontuação decorrente dessa titulação. Que vai ser retirada das universidades públicas que, com dinheiro do contribuinte, investiram na capacitação destes professores.

13 - Por que os cursos de medicina estão de fora do provão?

Sei muito pouco. Parece que é pressão corporativa. Gostaria de entender melhor. Como estamos no OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, não poderia deixar de encerrar sem esta sugestão de pauta.

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