Qualidade de Ensino,
"Avaliação pra Valer"
Vitor Fraga,
Coordenador Geral da Enecos - Executiva
Nacional dos Estudantes de Comunicação Social
Há mais de dois anos a Enecos -
Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social
- vem discutindo a questão da qualidade do ensino
superior. No ano passado, lançamos a campanha "Fiscalize
sua Escola!", até agora o nosso maior passo
nessa luta. Através do material produzido (cartazes,
cartilhas, dossiês), procuramos ampliar a discussão
para cada escola, para cada sala de aula, para cada
departamento. O espírito da campanha, mais do que
simplesmente fiscalizar, era despertar o interesse para a
discussão, mudar hábitos viciados, propor uma cultura
alternativa ao chamado "pacto de mediocridade".
Tudo começou em 1994, com a
"Análise Descritiva das Escolas de Comunicação
Social do Brasil", uma verdadeira radiografia da
situação dos cursos. Ao todo, 44 escolas responderam à
pesquisa, e o "diagnóstico" não foi nada
animador: nenhuma delas cumpria a já defasada
resolução 02/84 do MEC, que regulamenta os cursos de
comunicação. Mas, e agora, o que fazer? Em julho de
1995, em Brasília, realizamos o I Seminário Nacional
pela Qualidade de Ensino em Comunicação, com mais
de 200 estudantes, e a presença de entidades como a
Fenaj, a Abecom, a Compós, a Intercom, a Fittert e a
UCBC. O resultado foi a criação do Movimento pela
Qualidade de Ensino em Comunicação, que tornou-se um
espaço privilegiado para discussão e formulação de
propostas para a melhoria da qualidade do ensino. Em
setembro de 1996, publicamos três documentos, enviados a
todas as escolas, iniciando a discussão de parâmetros
de qualidade de ensino, fiscalização das escolas e
formação profissional do estudante.
Paralelamente, em julho de 1996, a
Enecos lançou a "Fiscalize sua Escola". A
idéia era fazer de cada estudante um defensor da
qualidade do ensino. A campanha ganhou força, várias
escolas fizeram debates com o tema, e os professores e
departamentos também se inseriram nela. Reuniões de
departamento, salas de aula, pátios e corredores
tornaram-se espaços de discussão; foram produzidas
esquetes teatrais, recitais de poesia e música, enfim,
atividades para todos os gostos que estimulavam o debate
sobre a qualidade dos cursos. Cada escola buscou resolver
os seus principais problemas, e a cartilha da campanha
serviu como uma espécie de roteiro, que foi adaptado a
cada realidade.
Tudo isso fomentou a discussão no
dia-a-dia, pois é aí que se dá a verdadeira mudança.
Os estudantes são favoráveis a uma avaliação
institucional. A Enecos também é. Mas para tanto, é
preciso fazer uma discussão ampla do papel do ensino de
comunicação, dos projetos pedagógicos dos cursos -
muitos deles são apenas um amontoado de disciplinas
desconexas, que não formam um comunicador social. Além
disso, há cada vez menos relação entre o ensino, a
pesquisa e a extensão; é preciso fomentar pesquisa,
estender o conhecimento para além dos muros da
universidade, integrar a graduação e a
pós-graduação. Os laboratórios, quando existem,
estão completamente defasados, as novas tecnologias da
comunicação ainda estão muito distantes das escolas.
É claro que cada região tem a sua realidade social,
acadêmica e profissional, e isso tem que ser respeitado.
Achamos que o "provão" do
MEC é uma avaliação incompleta e ineficaz, porque não
leva nenhum desses pontos em consideração. O que
precisamos é de uma avaliação séria, que pretenda
melhorar a qualidade do ensino. Não adianta fazer um ranking
das escolas e continuar permitindo a abertura
indiscriminada de cursos que desde o início não têm a
menor condição de estar funcionando. Queremos uma
avaliação que respeite as diferenças regionais e
interfira no processo de formação do estudante como um
todo, de forma coerente e responsável - e não apenas no
final, quando já não há mais como mudar nada. Queremos
uma avaliação permanente, que transforme a realidade do
ensino, que mude a cultura da mediocridade.
Queremos uma Avaliação pra Valer!

Sugestão de teste doméstico
M.M.
Se o provão vai ter algum efeito, é a
próxima geração de leitores que dirá.
Os jornais de hoje são, em relação
aos de trinta anos atrás, melhores em alguns aspectos,
piores em outros. Não é possível atribuir qualquer dos
méritos contemporâneos - boas editorias de economia,
por exemplo - à exigência do diploma. Os jornalistas
competentes de hoje continuam sendo os que, tendo
estudado ou não jornalismo, freqüentaram bons
ginásios. Suspeita-se, ao contrário, que o diploma
obrigatório só arrasta para baixo o padrão médio.
O ponto é este: que padrão temos, que
padrão queremos.
Em sua edição de 21/8/97, O Estado
de S.Paulo teve a boa idéia de republicar a crítica
de Anatol Rosenfeld sobre o filme 2001, de Stanley
Kubrick. O jornal pode se orgulhar tanto da
republicação como da publicação original, em 1968.
Amostra do padrão:
"Inadaptado, portanto, à
natureza, o homem viu-se obrigado a adaptar a natureza
às suas necessidades e criar um mundo artificial em que
pudesse viver. O homem tinha que ser deficiente para ser
eficiente. Não possuindo um equipamento de instintos que
comandassem pela hereditariedade o seu comportamento
adequado, nem automatismos de reações adquiridos logo
no início da vida, ele tinha que aprender por tentativas
e erros numa escala inconcebível no mundo animal e por
isso manteve a flexibilidade adaptativa que o distingue
como ente em constante devir."
O Estadão e o Jornal do
Brasil continuam oferecendo a seus leitores, em meio
à massa de "embrulha e manda", material de
primeira linha que faz lembrar suas décadas gloriosas. A
Folha é mais recente no âmbito do padrão culto,
mas publica algumas vezes por semana autênticas jóias. O
Globo tradicionalmente não tem fumaças
intelectuais, mas já percebeu que não pode consolidar
seus trunfos em relação ao concorrente se não
continuar avançando nesse território.
Teste curioso seria perguntar aos
jornalistas de cada um dos quatro grandes jornais se
lêem ou não o filé mignon que cada um deles publica.
O Provão dos que sentam nas carteiras,
Mônica Macedo (*)
Desde a "primeira edição" do Provão, em outubro
de 1996, a população sabe, através da mídia, que os
estudantes posicionaram-se contra a avaliação proposta pelo
MEC. Em raras ocasiões, entretanto, os meios de comunicação
foram até as faculdades ouvir os debates das salas de aula e
centros acadêmicos, coisa que tiveram suficiente oportunidade
para fazer, sobretudo no primeiro ano em que a prova foi
aplicada, quando somente os cursos de engenharia civil,
administração e direito estavam sendo avaliados. Praticamente,
a única fonte que obteve espaço significativo na imprensa foi a
UNE.
Sem querer entrar, aqui, na polêmica sobre a
representatividade dessa entidade, gostaria de sublinhar a
necessidade de os meios de comunicação investigarem o assunto
nos locais em que as discussões são travadas e não apenas por
meio dos representantes estudantis. É como se bastasse ouvir
depoimentos de deputados para compreender os problemas de uma
comunidade.
A rejeição que o Provão encontrou entre os estudantes
representa mais o ceticismo quanto às formas de fazer a
avaliação dos cursos e a dúvida sobre os seus resultados do
que a recusa de se deixar avaliar.
Vou citar o caso que acompanhei mais de perto. A primeira vez
que os estudantes da Unicamp ouviram falar do projeto de
avaliação dos cursos universitários que o governo pretendia
implantar dizia-se que os critérios seriam amplamente
esclarecidos e discutidos com a comunidade acadêmica... Tudo o
que houve foi a visita de um representante do MEC, que reuniu-se
com professores para apresentar o projeto. Logo em seguida, os
alunos ficaram sabendo, pela mídia, que o Provão já tinha data
e hora marcadas.
Depois disso, dizia-se que o Provão serviria tão somente aos
propósitos do MEC e não a uma comparação entre as faculdades.
Pois a primeira grande notícia que se teve depois da prova foi
um ranking dos cursos, publicado por uma das revistas de
maior circulação nacional.
Agora, a polêmica sobre o Provão ressurge neste
Observatório da Imprensa para falar de sua aplicação nos
cursos de jornalismo. A questão é: o que o Provão quer provar?
Se se quer constatar que falta aos estudantes uma base mais
sólida de conhecimentos gerais, já existem os resultados dos
exames de seleção para os cursos de treinamento, oferecidos por
alguns jornais aos recém-formados. Se se quer verificar a falta
de investimento das faculdades em capacitação do corpo docente
e em pesquisa, isto já está bem claro. Tanto que algumas
instituições de ensino superior já começaram a exigir que
seus professores estejam necessariamente vinculados a programas
de pós-graduação, o que aliás também não garante, por si
só, a pesquisa científica.
A todas essas dúvidas somaram-se, recentemente, as
discordâncias dentro do próprio governo quanto aos critérios
de concessão do título de "Universidade" a
instituições de ensino superior. O governo insiste que a meta
não é transformar todas as instituições em universidades (o
que implica na produção de pesquisa), mas estimular a
formação de centros universitários, voltados basicamente ao
ensino. Entretanto, nenhum pedido que chegou ao MEC, até agora,
se enquadra nessa categoria. Todos querem transformar-se em
Universidade. É claro. Basta ouvir o público dessas
instituições. O diploma de uma "universidade" é
muito mais valorizado do que o de uma "instituição de
ensino superior".
A proposta de realizar uma avaliação dos formandos e das
faculdades não é encarada necessariamente de maneira negativa
pelos estudantes. Em algumas carreiras, inclusive, este tipo de
prova já é exigido há vários anos, sendo requisito
necessário para o exercício da profissão. Porém, no caso em
questão, quem o Provão quer contemplar? Se a meta é que
os donos de estabelecimentos de ensino tenham liberdade para
conduzir seus cursos como melhor lhes pareça e ao governo caiba
avaliá-los, em que momento serão ouvidos aqueles que
cotidianamente participam da universidade, ou seja, professores e
alunos? É pagar para ver.
(*) Mônica Macedo, recém-formada em jornalismo, é
pesquisadora do Labjor