LADY DI III
Diana, dia seguinte:
ingleses querem mudar
Alberto Dines
Um mês depois, parece que alguma coisa está mudando na imprensa britânica. Carta do irmão da princesa enviada em 17/9 à rodada de emergência do Conselho de Queixas contra a Imprensa reafirmou os termos do seu pronunciamento na abadia de Westminster - Diana foi torturada pela mídia.
Paralela à reunião a portas fechadas do patronado jornalístico travou-se abertamente um debate sobre o comportamento da mídia no caso. Escancarou-se para o público um confronto intra-corporativo extremamente salutar. No Brasil seria impensável, considerando-se o rígido monolitismo armado em torno da ANJ.
O round mais importante foi aquele no qual defrontaram-se o Daily Telegraph (conservador, sóbrio) e o Daily Mail (conservador, sensacionalista) e cujo editor-chefe era nada mais do que o responsável pela Comissão de Queixas contra Imprensa (Press Complaints Comission, PCC).
Frase de Conrad Black, proprietário do Telegraph sobre a esdrúxula situação de um editor sensacionalista presidir um órgão de auto-regulamentação ética: "É a mesma coisa do que indicar Al Capone para presidir uma comissão de inquérito sobre o crime organizado..."
No dia 25/9 foram divulgadas as novas propostas para serem incluídas no Código de Auto-Regulamentação:
* Proibir a compra de fotos (ou vídeos), obtidas através da invasão de privacidade sem a justificativa de interesse público.
* Proibir a publicação de fotos obtidas mediante perseguição insistente ou comportamento ilegal.
* Obrigar os editores a checar antes da publicação como foi obtido o material dos free-lancers.
* Encorajar as agências distribuidoras de fotos a aderirem ao Código de Ética.
* Repórteres, inclusive de rádio e TV, devem se afastar do assunto ou local tão logo seja atendido o legítimo interesse público.
* Ampliar a definição de lugar privado para incluir ambientes (como restaurantes) onde as pessoas esperam estar legitimamente protegidas da intrusão da mídia.
* Definir como de caráter privado (portanto longe da intromissão da mídia), a saúde, a vida doméstica, as relações familiares e a correspondência das pessoas, a não ser em casos de legítimo interesse público.
* Garantir que o nível da intromissão seja compatível ao interesse público.
* Limitar os casos que justifiquem invasão de privacidade a extremo interesse público.
* Proteger da exposição pública aqueles que vivem momentos de dor ou luto.
É claro que entre nós os Lordes da Imprensa continuam achando que a mídia não tem culpa e que os nossos padrões jornalísticos são perfeitos.
Leila Reis
"É consenso popular que todo o morto se torna bom, mas no caso de personalidades a premissa é elevada à enésima potência. E Lady Di foi quase canonizada pela TV. Santa que se colocou a serviço dos oprimidos, Diana também foi a mártir sacrificada pela ‘imprensa marrom’, a ‘sensacionalista’.
É aí que aparece a hipocrisia do veículo. Os fotógrafos que perseguiam o Mercedes de Diana e Dodi al-Fayed se tornaram os piores vilões do mundo, a ponto de serem objeto de editoriais indignados. Os textos recriminaram aquela ‘parte da imprensa’ que passa dos limites para conseguir uma imagem, até matar sua galinha dos ovos de ouro.
Tudo bem levantar a discussão sobre até onde um paparazzo deve ir para obter a foto sem ferir a ética. Mas fazer discurso moralista, ao mesmo tempo que exibe imagens feitas por esses profissionais - para ilustrar a invasão de privacidade que a princesa sofreu durante a vida -, é abusar do cinismo.
Na verdade, todos os veículos - TV, jornais e revistas - querem (e pagam muito por) uma imagem exclusiva sobre qualquer coisa que se refira a celebridades como os membros da família real. São os ‘furos’ como aqueles que a TV mostrou até não poder mais - Diana nadando, malhando, velejando - que dão ibope; por isso estiveram em todos os canais. A sanha moralista só foi amenizada quando foi constatado que o motorista do carro estava alcoolizado e dirigia depressa demais.
Mesmo assim, não houve exceção. Cada notícia sobre a punição dos fotógrafos era dada de maneira quase ufanista, para deixar claro que nem toda a imprensa é farinha do mesmo saco, especialmente aquela emissora.
Seria bom que os profissionais do telejornalismo e dos programas jornalísticos revissem um pouco esse método de ‘enterrar’ personalidades. Afinal, um pouco de sobriedade nunca fez mal a ninguém."
("Morte de Lady Di expõe hipocrisia da TV", O Estado de S. Paulo, 6/9/97.)
Eu não me lembro
TT Catalão
Paradoxo e ironia quando o segurança acidentado no carro da princesa sofre de amnésia. Exatamente em um caso saturado de coberturas, análises, projeções, palpites, hipocrisias, infâmias, cretinismos e até alguns momentos de sincera comoção. A figura central que poderia acrescentar um pouco de verdade a tantas interpretações... não se lembra.
Esse lapso carrega de mais significados a tragédia da celebridade que ora provoca e usa a mídia e ora reinvindica privacidade pois os limites foram rompidos. Ele não se lembra. Ele, que estava no carro, que perdeu um pedacinho da língua (olha outro sinal sobre comunicação lacerada), que ao lado do motorista pode ter perdido para ir mais devagar ou afunda o pé.
E quem se lembra de alguma coisa quando "vive" um acontecimento por tabela? Os consumidores de notícias precisam de absorção de várias fontes de notícias para chegar a algo razoavelmente próximo do que "realmente aconteceu". Claro que ninguém precisa morrer para saber o que é ou como é a morte, nem matar para saber o concreto de ser um assassino. Mas os leit/espectad/ores pouco se lembram (o famoso residual da informação) do que leram ou viram (espiaram seria o termo voyeur para a TV). Ninguém se lembra exatamente por ter lidado com informações, mas ter consumido interpretações. E vida não se vive por tabela.
O que ninguém esperava era amnésia do grande testemunho daquele infeliz momento. Esta é a metáfora do fantástico show de mídia sobre o fato. Uma referência à ressaca e à grande amnésia que os consumidores de notícias sofrem pois preferem filtrar o que interessa, reter o que melhor lhes convier, comentar o mais exótico e deixar de lado a reflexão que porventura ouse alterar alguma atitude ou comportamento. Enfim, vale o que incomodar menos. Por isso sempre simplesmente não nos lembramos.
Esquece o que escrevi, já disse um brilhante intelectual que hoje, no poder, descobriu que a vida por tabela (nos livros) cai no real quando se aprofunda nas contradições. Esquece que dói menos. Ou lembre e remexa nas chagas para evitar que o narciso da sociedade vire narcose social.