MONITOR

Anunciantes americanos jogam pesado;
os profissionais também

A.D.


Guerra das revistas americanas com os anunciantes. Está contada no caderno Business do New York Times (29/9): a IBM não gostou da matéria de capa da Fortune (abril, 1997) focalizando o seu presidente.

Mandou cortar toda a publicidade da IBM e da subsidiária Lotus, uma verbinha de 6 milhões de dólares. E proibiu o acesso dos repórteres da revista (grupo Time-Warner) a todos os seus departamentos - censura descarada.

A reação da MPA (Magazine Publishers Association) e da ASME (American Society of Magazine Editors), que reúnem 1.200 títulos e 860 editores, foi imediata e vigorosa: conclamaram seus associados a recusar qualquer pressão para que suas pautas, matérias ou fotos sejam submetidas previamente aos anunciantes.

A edição corrente da Columbia Journalism Review entrou no assunto: "Anunciantes aumentam a pressão sobre as revistas - editores se curvarão?"

A história começou na Esquire quando em fevereiro passado retirou à última hora um conto que poderia ofender a Chrisler Corp. O Wall Street Journal revelou que a empresa automobilística, através da sua agência, havia mandado um protocolo para ser assinado pelas 100 maiores revistas comprometendo-se a submeter previamente qualquer informação provocativa ou ofensiva.

A grande maioria dos destinatários recusou o vergonhoso acordo. Outros capitularam e assinaram - caso do editor da Vogue, que assumiu: "não somos um serviço público, somos um negócio."

A ASME está também preocupada com as revistas que fazem matéria enaltecendo os anunciantes e chegou mesmo a convocar a Cosmopolitan (no Brasil, Nova) para explicar uma perigosa proximidade de anúncios sobre cosméticos com matérias jornalísticas sobre modelos que usam estes cosméticos.

Os anunciantes americanos jogam pesado mas os profissionais não ficam atrás. Mais importante: a mídia, como instituição, não se omite. Cobre tudo e ninguém finge que está tudo bem.

 

Por bem ou por lei:
ética jornalística em Israel

Nahum Sirotsky(*)

 

Jerusalém - Há dias uma senhora da sociedade de Tel Aviv se sentiu ofendida por insinuação feito por colunista local sobre o sentido de um relacionamento. A historia da nota me foi contada no café da Associação de Imprensa como uma piada. Ela já teria passado do que se convencionou ser idade de ter casos. Os colegas especulavam que talvez a jornalista tivesse confundido mãe com filha. Mas, me diziam, o erro lhe poderá custar milhões.

Sem que eu pudesse entender, o assunto desapareceu da imprensa. Aparentemente, achei, ela preferiu matar tudo na primeira noticia e evitar confusão maior. Mas não fora o que imaginara. Ela havia optado por se dirigir ao Conselho de Imprensa e, em carta, exigir satisfação. Esse Conselho, soube, é presidido por ex-ministro da Justiça, um senhor Haim Zadok, de avançada idade e ilibada reputação. Um homem despreocupado de carreiras e posições, cavalheiro da velha escola de boas maneiras e de não se dizer certas palavras em público e jamais na presença de senhoras.

O Conselho foi criado pela própria imprensa antes mesmo da chegada da televisão. A idéia foi a de se evitar qualquer interferência das autoridades na liberdade de expressão. Assumir um código de ética aprovado por toda a mídia, proprietários e jornalistas. O ponto de partida foi o de que a liberdade de expressão não dá o direito de desmoralizar nem indivíduos, nem instituições, sem provas indiscutíveis. Não se traduzia num poder ilimitado mas numa responsabilidade com relação ao individuo, à sociedade e ao Estado. O Conselho não tem o poder de impor penas. Tudo o que pode fazer é recomendar que o responsável pelo erro ou calúnia se retrate publicamente, em seu próprio veículo.

Desde que estou aqui. há cerca de um ano, tomei conhecimento de inúmeras retratações e pedidos públicos de desculpa. A imprensa é mais do que livre e agressivamente crítica. A da direita como da esquerda não dão paz ao governo nem aos políticos, cada uma na sua posição e filosofia. A única censura existente é a militar, que impede a divulgação de informações sensíveis que possam servir o outro lado, o que discorda das políticas vigentes. É uma censura que tem dificuldades crescentes para se impor. Assim, ela não pode impedir que se informe por atribuição a fonte estrangeira. Por exemplo: jornais, rádios, agências de notícia. Não raro se sabe das coisas porque chegam de fora, de outro pais que não se inclui no âmbito coberto nas regras da censura. E há, agora, a Internet. Como impedir que ele penetre no país? Soube-se que teria havido tentativas de interferir na homepage de organizações terroristas, como o Hizbola, sem sucesso. A censura é cada dia mais difícil de se impor devido à penetração das novas mídias... Mas, voltando ao Conselho de Imprensa, seu vice é um advogado jovem, professor universitário, Amnon Shapira, muito ativo. E é ele quem nos observa que a força moral do Conselho é grande porque aceita por consenso. Ele inclui representante dos profissionais, dos proprietários e do publico que, juntos, examinam as reclamações e, se sérias, encaminham tudo ao tribunal de ética, igualmente constituído de três juízes, que decide se há motivo para retratação pública. Evidentemente, nem todos se satisfazem com a decisão. Então, recorrem à Justiça comum. Se é questão inferior a 3 mil dólares é resolvida nos tribunais de pequenas causas, presididos por juízes profissionais, porém sem a participação de advogados. Cada um defende a sua própria causa. Se o indivíduo considera que sua privacidade foi mais gravemente afetada, ou que foi caluniado, e pretende indenização não superior a 300 mil dólares, vão ao Tribunal da Paz, uma primeira instância. Nas subseqüentes recorrem aos tribunais distritais, que podem votar indenizações superiores a um milhão de dólares. O último recurso é o Supremo, que decidirá, antes de mais nada, se sua opinião é justificada pela causa. Ele pode dizer não e tudo termina. Não há tribunal de júri. A Justiça se inspira em precedentes mas tem a liberdade de novas posições ou interpretações. O país não tem uma Constituição. Os Códigos ainda estão em criação dinâmica. É preciso considerar a lei natural, a romana, os precedentes do mandato britânico, da lei otomana, das leis canônicas. Aliás, casamento e divórcio são questões para os tribunais canônicos judeus, muçulmanos, cristãos. Nada é simples neste país onde Abraão, o patriarca, teve a visão do monoteísmo num contexto de civilizações que tinham uma infinidade de deuses e por isso mesmo eram tolerantes quanto às crenças existentes. Agora, os monoteísmos existentes vivem em conflito, cada um considerando a única Verdadeira a sua visão e entendimento do Deus único com quem Abraão teria conversado, umas intolerantes com relação às outras.

(*) Correspondente da RBS no Oriente Médio.



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