Vlado, 22 anos

Victor Gentilli


Datas redondas são mais propícias para lembranças. Os 30 anos da morte de Guevara justificam o volume de noticiário em torno do guerrilheiro argentino. Embora, como alguém já lembrou, os 10 anos e os 20 anos da morte tenha passado quase em silêncio.

Mas no dia 25 de outubro passado completaram-se 22 anos de uma outra morte, muito mais significativa para a história do Brasil. A data não é redonda, mas a coincidência do sábado, o lançamento do livro do general Ernesto Geisel e a presença aqui mesmo, no convívio dos jornalistas, dos personagens centrais do episódio mereceriam registros mais contundentes.

Hoje, Audálio Dantas está no Diário Popular; Dilea Frate é uma das principais produtoras de Jô Soares; George Duque Estrada continua o grande artista gráfico; Luis Weiss é jornalista e colabora no Estadão; Marco Antônio Rocha continua no jornalismo econômico; Paulo Markun é repórter do Jornal Nacional; Ricardo Moraes está na Gazeta Mercantil em Brasília; Rodolfo Konder é secretário de Cultura; Sérgio Gomes está no jornalismo sindical com seus projetos sempre otimistas.

Um jovem de hoje imaginaria que estas pessoas já foram vistas e apresentadas como ameaçadoras para a nação? Pois há pouco mais de 20 anos, um grupo de militares colocou estes jornalistas no centro do cenário nacional, como perigosos comunistas, do então clandestino Partido Comunista Brasileiro. Eles e mais outros tantos que somavam quase quinhentas pessoas estavam nos cárceres da ditadura, com a exceção de Audálio que, com coragem, presidia o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

Num mesmo 25 de outubro, igualmente num sábado, no sombrio ano de 1975, sob o governo Ernesto Geisel, estes e outros jornalistas constituíam "uma das maiores ameaças à soberania nacional". O general Ednardo D’Ávila Melo comandava o II Exército, que os acusava de "subversão".

No dia 25 de outubro de 1975, um sábado, Vladimir Herzog se apresentaria pontualmente às 8 horas na sede do Doi/Codi, na rua Tutóia, em São Paulo. Às duas da tarde, depois de interrogado por Pedro Mira Grancieri, estaria morto. A versão oficial foi de suicídio. O rabino Henry Sobel enterrou-o em área nobre do Cemitério Israelita do Butantã. Na tradição judaica, os suicidas são enterrados nos cantos, encostados aos muros. Herzog morrera sob tortura.

Perdemos há pouco o irmão do Henfil, que já voltou e já se foi, mas nem todos conhecem por inteiro a história da Clarice, mulher de Vlado, que chorou em 1975.

A morte do jornalista Vladimir Herzog, diretor da TV Cultura à época, no sábado, 25 de outubro de 1975, iniciou uma nova fase no combate à ditadura militar.

O lançamento do livro de Ernesto Geisel mostra que já está passando da hora de alguém contar melhor esta história. Seria falsidade dizer que inexistem textos e trabalhos sobre a morte do Herzog. Mas o distanciamento do tempo e a presença entre nós de boa parte dos personagens envolvidos poderia permitir uma interpretação do que de fato significou aquele momento histórico.

Para usar um lugar comum: ainda há lacunas a preencher nesta história.



A reportagem morreu?

V.G.


O Globo Repórter de sexta-feira, 31 de outubro, é exemplo incontestável de que as escolas de comunicação, ao organizarem seus eventos, precisam urgentemente mudar de tema. Roberto Cabrini, num trabalho de sete meses, mostrou que quem morreu não foi a reportagem, mas a desgastada discussão sobre sua morte.

Cabrini conseguiu entrevistar a advogada Jorgina Maria de Freitas, acusada pelo Ministério Público de desviar U$ 600 milhões - é isso mesmo, seiscentos milhões de dólares -, do INSS, numa fraude de proporções gigantescas e, por conseqüência, implicações e implicados em várias esferas. Jorgina é foragida desde 1992, quando foi condenada pela Justiça, e está, hoje, segundo a reportagem, na Costa Rica.

O repórter ouviu a foragida, ouviu o promotor responsável pela acusação, ouviu pobres trabalhadores da baixada fluminense em cujos nomes a advogada solicitava, conseguia e não pagava, indenizações milionárias. E confrontou respostas. Dos dez casos vencidos na Justiça por Jorgina, em apenas um o cliente recebeu o dinheiro. Este cliente foi procurado, conforme a reportagem, mas não quis falar. Está sendo processado e deverá devolver ao INSS os R$ 1,6 milhões recebidos de indenização.

Os principais méritos do programa:

- Investir num caso durante sete meses.
- Recuperar um assunto (aparentemente) antigo e envelhecido.
- Ouvir - ou pelo menos tentar - todos os envolvidos no caso.
- Apesar da qualidade indiscutível do trabalho, algumas questões podem ser levantadas para debate:
- O Jornal Nacional de sexta-feira fez suspense sobre o caso, falando apenas em "novas e surpreendentes revelações de um assunto de 1992". A entrevista foi feita, como Cabrini registrou de forma discreta, no início de outubro. Certamente havia um prazo de segurança exigido pela foragida - que chegou a fazer cirurgia plástica - mas deixou-se entrevistar de rosto inteiro. Creio que tenha sido justo esperar. Mas o suspense não seria uma forma de sensacionalismo?
- A edição talvez tenha sido muito cinematográfica. Efeitos, trucagens, cenas gravadas a posteriori etc. , tudo isso funciona bem como espetáculo televisivo. Mas será justificável como jornalismo?
- Por fim, a questão central: o Globo Repórter viu a malandragem, mas não a explicou. O segredo das indenizações milionárias estava na correção dupla. No cálculo da advogada, ela corrigia o valor da indenização pelo salário mínimo e depois aplicava a correção monetária. Este o segredo da multiplicação do dinheiro. O programa se limitou a mostrar os dois lados: mostrou o promotor acusando-a de dupla correção; e mostrou Jorgina negando, dizendo que dupla correção só ocorreria se usasse o mesmo indexador duas vezes. Como ela corrigiu com dois indexadores (salário-mínimo e ORTN), segundo ela, não houve bi-correção. Quer dizer: o Globo Repórter mostrou os dois lados sem explicar ao telespectador que um lado estava correto (a versão do promotor) e o outro era ostensivamente falso (a versão da foragida).



Rupert Murdoch e Norberto Bobbio

V.G.


Artigo na edição passada deste OBSERVATÓRIO tratava de Rupert Murdoch e remetia a Norberto Bobbio. Assomado pelo poder de síntese, fiz referência a um capítulo de um livro de Bobbio, que julgo fundamental para uma reflexão sobre o jornalismo. Errei. O capítulo A grande dicotomia: o público e o privado, não está no livro a que me referi, mas em Estado, Governo, Sociedade, e o capítulo A democracia e o poder invisível, outro texto fundamental, este sim, está em O Futuro da Democracia. Ambos da Editora Paz e Terra.

Muito sinteticamente, as teses de Bobbio destes dois artigos podem ser resumidas no seguinte esquema:

- Democracia pode ser definida, também, como "o governo do poder público em público".
- Parece uma contradição, mas não é. O termo público pode ter dois sentidos: oposto a privado e oposto a secreto.
- A idéia moderna de privacidade surge com a democracia moderna. Na democracia representativa, as pessoas podem votar e ser votadas. Uma ou outra opção significa uma escolha pela prioridade pela coisa pública ou pela coisa privada.
- Quem vota, opta prioritariamente pela vida privada. Preserva sua privacidade posto que se abstém de cuidar da coisa pública. Delega este poder a outrem.
- Quem é votado opta prioritariamente pela vida pública, opta por exercer o poder. Abre mão parcialmente de sua privacidade pelo direito de cuidar da coisa pública em nome de todos.

No entanto, as esferas públicas e privadas se interpenetram. O exemplo mais evidente é o seguinte: se um governante usa recursos públicos em sua vida privada, a imprensa tem o direito – e o dever – de, a despeito do direito à privacidade, dar publicidade ao fato.

Este é, com enorme probabilidade de imprecisão, um esquema das idéias centrais de Norberto Bobbio sobre a questão. Não substitui uma leitura atenta e cuidadosa dos textos.

Acrescentaria o seguinte:

Artistas, atletas e outros profissionais que de alguma maneira optam por dar visibilidade pública à sua atividade também em certa medida abrem mão de parcela de sua privacidade.

Não estou aqui para defender os paparazzi; tampouco oferecer argumentos àqueles que, desconhecendo todos os padrões da ética, invadem e dão publicidade às vidas alheias.

Este texto tem o único objetivo de esclarecer as possibilidades de debate propiciadas pelo desafio proposto por Rupert Murdoch. Ele é autoritário, prepotente e invasivo. Isto não significa que também devemos sê-lo ao aceitar a legitimidade de seus argumentos.

Mesmo que não concordemos.

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