O dia em que entramos no Primeiro Mundo
(e a nossa imprensa atolou-se na Banda B)
A.D.
Em raro uníssono de otimismo, os jornalões do dia 7 de abril abriram suas páginas para anunciar a revolução que levará os brasileiros às portas do paraíso: a entrega das propostas de 15 consórcios que concorrem à exploração da banda B (privada) de telefonia celular.
Como entre a entrega das propostas e a entrega do primeiro celular deve transcorrer um intervalo de, pelo menos, 15 meses pergunta o ingênuo cidadão-leitor: "Por que tanto estardalhaço, não haveria outra boa notícia menos remota?"
Resposta: comemorava-se duplo feito - a privatização em larga escala das telecomunicações nacionais e a entrada maciça dos grandes grupos jornalísticos em áreas vizinhas (mas alheias) à emissão periódica de informações.
Trocando em miúdos: os maiores grupos brasileiros assumiram o conceito da diversificação. Bandearam-se do negócio da notícia para outros negócios não muito afins. Pior: não avisaram aos desavisados leitores que, doravante, estarão abarracados no perigoso terreno baldio do conflito de interesses.
Empresa Jornalística tem compromissos constitucionais
Se uma fábrica de salsichas expande-se para a suinocultura ou se uma fábrica de biscoitos deriva em direção à produção de farinha isto não afetará o modo como uma sociedade se informa e se forma. Mas quando a grande maioria dos grupos jornalísticos afastam-se das suas atividades-fim - sem dispensar as garantias e privilégios constitucionais -, passando a atuar como concessionários do Governo Federal, parceiros de empreiteiras, bancos e grupos internacionais não-jornalísticos, então estamos diante de um fato muito grave.
Antes de rabo preso no leitor, agora os grupos jornalísticos ficarão de rabo preso nas vicissitudes das concessões, das voláteis associações internacionais e no imponderável rodamoinho da globalização (que seus opinionistas tanto deblateram).
Como os envelopes com as propostas não foram abertos, ignora-se a exata composição dos consórcios, mas o mercado sabe (o mercado sabe tudo!) que estão incluídos o Estadão, a Folha, o grupo Globo, a RBS e o JB (por via indireta). Aparentemente, nem a Gazeta Mercantil nem a Abril animaram-se a aventurar-se em campo tão distante da sua atividade principal, embora esta última esteja entalada até o pescoço na TV a cabo (mais perto do show-business internacional do que propriamente do jornalismo).
Evidência dos perigos desta tangência é o fato de que nenhum jornal ou revista que cobriu a espetacular inauguração da Era da Banda B (inclusive a Gazeta Mercantil, sempre empenhada em contextualizar suas informações) registrou a metamorfose que ocorreu nas entranhas do jornalismo brasileiro.
Prova de que o leitor deve ficar alerta com o noticiário da mídia sobre telefonia celular é a manchete de primeira página do Estadão (domingo, 13/4) anunciando que graças à Banda B serão criados 97 mil postos de trabalho até 2001. Ora viva! E por que não se faz a urgente matéria mostrando o lastimável estado da telefonia celular em São Paulo? Porque telefonia celular virou assunto da diretoria.
Porque não esperaram pela alteração do 222?
A derrapagem da grande imprensa brasileira ocorre justamente quando o deputado Aloysio Nunes Ferreira (eventual-futuro-ministro da Justiça) promete propor a revisão drástica do famigerado Artigo 222 da Carta Magna, que impede a presença de pessoas jurídicas e grupos estrangeiros como proprietários de empresas jornalísticas.
A razão é simples: o patronato jornalístico nacional não está muito interessado na entrada de grandes concorrentes internacionais no reservado mercado da mídia, trazendo padrões de qualidade diferentes dos aqui praticados.
Preferem capitalizar-se enviesadamente através do esquema Banda B. Ou fingir que a concorrência internacional já começou.
A importação de cadernos não é abertura do mercado
O acordo do Estadão e do JB com o Wall Street Journal, deste último com a Fortune ou da Gazeta Mercantil com a Foreign Affairs são bem-vindos. Constituem um saudável esforço de enriquecimento editorial dos respectivos produtos, indício da agonia do jornalismo marqueteiro com sua vocação de nivelar as audiências pelos padrões mais baixos.
Mas isto nada tem a ver com a imperiosa necessidade de se derrubar as barreiras protecionistas que mantêm o "moderno jornalismo brasileiro" alheio ao esforço de requalificação e resistência ao "televisionismo" no qual se empenham os jornais de qualidade do Primeiro Mundo.
A Manchete já teve acordos de republicação com a Time e a Veja foi licenciada da Newsweek sem que o jornalismo brasileiro tivesse sido significativamente afetado.
A compra de um caderno semanal fechado, com o selo da qualidade do WSJ (ou Journal, para os mais íntimos), é um avanço, pode propiciar um termo de comparação entre dois padrões de qualidade editorial.
Mas não significa o fim da reserva de mercado que protege aqueles que são os mais ardorosos propugnadores do fim da reserva de mercado para outras áreas.