PROVÃO PARA JORNALISTAS



Nesta edição, os professores Eduardo Meditsch (UFSC) e Sandra Maria de Freitas (PUC-Minas) e o jornalista Elson Faxina, diretor de Formação e Assuntos Profissionais da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), entram no debate. O jornalista Alberto Dines tira das gavetas da memória sua participação num avaliação ancestral do provão, em 1992. Dois traços que se repetem no panorama de hoje: situação precária do ensino e reação corporativa do professorado. Na reportagem de Veja abaixo transcrita, o retrato de um mercado de trabalho congestionado, em que as funções são "repetitivas e burocráticas, ganha-se pouco e sobe-se devagar na vida".




Competência e imparcialidade

Eduardo Meditsch, professor da UFSC



Quando se noticiou pela primeira vez que o Ministério da Educação realizaria um Exame Nacional de Cursos, os professores de Jornalismo da UFSC comemoraram. Confiantes de que construíram um dos melhores cursos do país, e também da dificuldade de ver isso reconhecido quando se está fora do eixo Rio-São Paulo, eu e meus colegas acreditamos por um momento que o que viria a ser o provão traria não só este reconhecimento nacional ao nosso trabalho de décadas, como também um incentivo a seu aperfeiçoamento. Mas, pelo que temos visto até aqui, pela maneira como o governo vem conduzindo o assunto, o nosso otimismo está cada vez mais se transformando em apreensão.

A primeira preocupação que temos é em relação aos critérios de avaliação. O ministro da Educação havia combinado com os reitores das universidades federais uma série bastante completa de critérios, que incluiria desde a capacitação dos professores até a disponibilidade de instalações e de equipamentos adequados, chegando ao número de alunos nas salas de aula. Por estes critérios, a nota do provão não representaria mais do que dez por cento do peso na avaliação dos cursos. Mas, diante da mídia e, portanto, da opinião pública, o ministro traiu as universidades e divulgou apenas as notas do provão como se fossem as notas dos cursos. A atitude nos pareceu uma forma infantil de vingança contra a politização dos estudantes das universidades públicas, que participaram do boicote da UNE, penalizando essas instituições, que tiveram assim um desempenho pior do que o esperado (e, mesmo assim, bem superior ao das escolas privadas).

Diante desta nova realidade - o provão como único critério - preocupa-nos o tipo de prova que irá avaliar os cursos. Como avaliar mais de 3.000 horas/aula através de uma única prova escrita? E quem vai elaborar esta prova? Em relação a isso, só podemos torcer para que o MEC encontre as pessoas certas, e que essas desempenhem bem a difícil tarefa de estabelecer critérios adequados.

Quando a Folha de S.Paulo publicou no ano passado as questões incluídas no primeiro provão, o que mais me surpreendeu foi saber todas as respostas da prova a que foram submetidos os formandos de Administração. Jamais cheguei perto de um Curso de Administração de qualquer nível, não leio livros desta área, mas sabia responder a todas as questões, apenas com as informações a que tenho acesso pela leitura de jornais. Alguma coisa estava muito errada com aquela prova.

O segundo aspecto que nos preocupa é o da imparcialidade: no Brasil, infelizmente, ainda não se aprendeu a separar o Estado do governo, e o atual governo está empenhado numa cruzada contra o setor público. Assim, as mesmas pessoas que, com uma mão, promovem a avaliação dos cursos para melhorar o ensino superior, com a outra mão solapam diariamente as condições de trabalho das universidades públicas, que são as melhores do país.

O sectarismo do governo no desmantelamento a qualquer preço do setor público - mais ao estilo Serjão do que ao que se esperaria dos intelectuais que o dirigem - tem tido um resultado trágico para o ensino superior no Brasil. Nenhuma medida tomada até agora foi eficaz para combater a ineficiência, o corporativismo anti-social, a pequena e a grande corrupção, o tráfico de influências e os privilégios reais que gangrenam o Estado brasileiro. Apenas os funcionários públicos competentes - entre eles os professores universitários sérios - estão vendo ser inviabilizadas as suas condições de trabalho, de uma maneira sistemática e aparentemente irreversível, diante da indiferença dos governantes e da grande imprensa. Por isso, preferiríamos ser avaliados por quem tivesse independência e real interesse na qualidade da formação profissional: a categoria dos jornalistas, os empregadores, a sociedade civil.

Precisamos, urgentemente, de avaliação externa: o ensino de jornalismo é, em geral, muito precário, e este problema tende a se agravar com a proliferação de cursos sem condições mínimas de funcionamento (e que acabam, ainda assim, autorizados pelo Mec, que não resiste a pressões de prefeitos e deputados). Mas, neste mar de falta de seriedade, existem também algumas ilhas de competência, e é igualmente importante que elas sejam reconhecidas, não só para que tenham condições de continuar funcionando, como também para que não se perca a noção de que o ensino universitário da profissão é necessário e viável.

A avaliação pode ser um instrumento extraordinário para a melhoria deste ensino, mas também pode ser apenas um argumento falacioso para o partido eventualmente no poder impor o seu programa de governo à sociedade. Vai depender da grandeza e da competência de quem a conduzir.

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Olhos que querem ver

Sandra Maria de Freitas,, professora do Departamento de Comunicação da PUC-MG



Treva Branca, como diz Saramago em seu Ensaio sobre a Cegueira, é o que melhor define o clima dos debates sobre a qualidade do ensino universitário, a necessidade de avaliá-lo e especialmente a aplicação do provão. Acabar com esse estado é fundamental. Avaliar nossas escolas, nosso trabalho, a qualidade dos nossos cursos, é urgente. Já passa da hora. A instituição do provão pode ser vista como um bom começo, assim como a implementação do PAIUB - Programa de Avaliação das Universidades Brasileiras. Mas não se pode parar por ai. Aplicar o provão nos cursos superiores, incluindo agora os de Jornalismo onde será aplicado em 7 de junho de 1998, como vem sendo feito, deve ser apenas o ponto de partida para um processo mais amplo de avaliação. Merece aplauso a iniciativa do provão, apesar das falhas cometidas especialmente na forma de divulgação do seu resultado. Agora é preciso avançar nesse processo. Através da sistematização de experiências diversas que vêm sendo implementadas em várias faculdades e escolas de todo o país.

Essa sistematização pode certamente apontar alguns consensos quanto às metodologias, utilizadas, quanto aos melhores períodos para avaliação, (meio/final de ano/semestre letivo), quanto aos processos de ensino x aprendizagem, quanto às formas de discussão e de divulgação dos resultados junto a professores, alunos, pessoal administrativo e sociedade, quanto aos melhores momentos/prazos para se responder às demandas colocadas (infra-estrutura física, laboratorial, condições de trabalho, docente etc.).

Na Faculdade de Comunicação da PUC Minas, por exemplo, vivencia-se um processo de avaliação desde 1991, quando implantou-se O Programa de Avaliação e Melhoria do Ensino.

O programa tem como linha mestra a formação de comunicadores com sólida base intelectual, ética e técnica. Seu objetivo principal é apontar as principais carências e as suas potencialidades dos cursos de Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade e Propaganda.

Olhar de fora. O primeiro passo desse processo foi promover o que se chamou de "Um Olhar de Fora" sobre o cotidiano da escola. Contrataram-se dois professores consultores externos, que elaboraram um pré-diagnóstico institucional.

O principal problema detectado foi uma total defasagem do Curso de Comunicação da PUC em relação às novas demandas do mercado de trabalho.

O segundo passo foi o de se promover seminário interno, discutir o pré-diagnóstico e os melhores caminhos para se dar início a um processo permanente de avaliação.

Definiu-se uma série de ações em 1991: cursos para o conjunto dos professores, a constituição de uma comissão de avaliação nomeada pelo reitor, em fevereiro de 1992, que coordenou uma Reformulação Curricular e um grupo de estudos sobre comunicação que também seria responsável por pesquisas e projetos especiais.

Pesquisa realizada pelo Departamento de Comunicação Social em algumas empresas de Belo Horizonte - estatais e privadas - e com empresários da comunicação apontava que o trabalho realizado pelo especialista/técnico não satisfazia mais ao conjunto das necessidades das organizações que conhecem a importância do trabalho planejado de comunicação.

Ver e reparar. No caso específico do Curso de Jornalismo, debates realizados com editores de jornais, rádios, TVs e assessores de imprensa/comunicação reafirmaram a importância da formação básica humanística para o futuro jornalista.

Constatou-se uma vez mais a existência de um descompasso escola/mercado/sociedade. Isso evidentemente prejudicava os profissionais - preparados para uma demanda ultrapassada - que deixavam de ser formados para aproveitar as novas oportunidades que se abriam no mercado de trabalho, especialmente com a tendência de "terceirização de serviços".

Por tudo isso ficou clara a importância da construção de um novo projeto pedagógico em sintonia com o momento social, que incorporasse outros elementos na formação dos novos comunicadores, dando-lhes uma forte base humanística e técnica, indispensável ao crescimento profissional e a realização de um trabalho sério e competente que a sociedade e o mercado exigem

O documento da reforma curricular do curso destaca que a busca da melhoria do ensino e da excelência não se esgota com uma proposta de reformulação nos currículos, ao contrario, exige um processo maior e deve ser entendida como um instrumento de revisão das metodologias, abordagens e da incrementação de uma mudança mais substantiva.

No curso de Jornalismo a reformulação do currículo ficou assim:

1- Ênfase na formação humanística - considerando aspectos transdisciplinares da comunicação e a importância do aprofundamento dos estudos de outras áreas do conhecimento;

2- Valorização da formação profissional criando um eixo metodológico ascendente, no qual o estudante terá, desde o primeiro período\semestre, conteúdos programáticos relacionados com as práticas do jornalismo;

3- Entender o jornalismo como sub-campo da comunicação;

4- Oferecimento aos estudantes de oportunidade de realizar, nos projetos experimentais, um aprofundamento das possibilidades de articulação entre os conteúdos disciplinares teóricos e os técnicos - profissionalizantes, criando um espaço de reflexão acadêmica, de experimentação de linguagens e de intervenção social;

5- Racionalização da estrutura curricular, evitando repetições de conteúdos e sobrecarga horária em algumas disciplinas.

Esse eixo ascendente pode ser melhor entendido através dos exemplos que se seguem:

Período Disciplina Produto
Primeiro Introdução ao Jornalismo Projetos de pesquisa
Segundo TREP Revisão projetos
Terceiro Jornalismo I Caderno semestral/MARCO
Quarto Jornalismo II Cadernos Entrevistas
Quinto Opinativa/Interpretativo Suplemento/MARCO
Sexto Jornalismo III Cad. Report. Malditas
Sétimo Edição Jornalística Pág. HOJE/ESTADO
Oitavo PE TCC



É a partir das disciplinas de Jornalismo Impresso que as demais são trabalhadas. As disciplinas Rádio I e II, TV I, II e III têm produtos diversos como participação em programas específicos de emissoras comerciais, programas próprios na TV Educativa, programas nos canais locais de TV a cabo. Todas atingem públicos que dão retorno concreto.

Novos olhares - Para complementar a vivência dos estudantes nas práticas profissionais adotou-se um Programa de Visitas Técnicas a veículos de BH, merecendo destaque o convênio assinado com o Sistema Estaminas de Comunicação, pelo qual os alunos do sétimo e oitavo períodos ficam três dias na redação - em rodízio nas editorias diversas - produzindo como qualquer outro profissional da casa e sendo avaliados pelo editor e pelo professor.

A articulação com o mercado de trabalho se deu também, e de forma mais sistemática, através da criação de um Conselho Consultivo do curso. O conselho é formado por 14 profissionais, entre empresários, profissionais renomados e representantes das três profissões - Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade e Propaganda. Se reúne de três em três meses e seu objetivo principal é estabelecer uma rede de intercâmbio com o mundo profissional, incorporando organicamente ao curso as inovações do campo da comunicação e as demandas regionais. Participam ainda do Conselho professores - um de cada área -, coordenadores dos três cursos, representantes dos estudantes e da reitoria.

Outra etapa desse processo de aproximação com o mercado/sociedade está prevista para o final de 97 com a implantação do projeto De Volta para o Futuro, que teve início com o levantamento dos endereços e locais de trabalho de todos os ex-alunos formados na comunicação da PUC desde 1975, prosseguiu com a realização de um baile De Volta para o Futuro e que culminará com a criação do Conselho de Ex-alunos. Esse conselho deverá funcionar como apoio à direção da Faculdade e dos cursos em seu processo de avaliação permanente, aos moldes do funcionamento do Conselho Consultivo.

Ver longe. Depois da reforma curricular e da elaboração de uma política de articulação com a sociedade e o mercado-de-trabalho, várias ações foram implementadas, entre elas a elaboração do Programa Comunicação 2021.

Esse programa teve a contribuição dos Conselheiros e tem duas vertentes um Planejamento que pensa a "escola do ano 2021", com marco estratégico no ano 2000 e um projeto de adoção de laboratórios e salas de aulas por empresas públicas, privadas, organizações diversas e pessoas físicas ( especialmente ex-alunos).

O planejamento estratégico está sendo feito em parceria com a Fundação Dom Cabral especializada em administração e negócios - e deverá balizar todas as negociações da direção da faculdade com as empresas na consecução do projeto de adoções. Quanto a esse projeto, o que se espera é a solução de problemas de infra-estrutura de forma criativa e ágil, através da busca de parcerias.

O Programa de Avaliação e Melhoria do Ensino está hoje em nova fase. Além das auditorias internas, que são feitas semestralmente com alunos e professores, a Faculdade de Comunicação também participa do PAIUB.

Até o 1o semestre de 97 foram ouvidos alunos, ex-alunos, professores e quatro consultores externos foram contratados para avaliar os cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas. Os relatórios já estão sendo elaborados.

Soma-se a isso uma pesquisa realizada pelo Instituto Vox Populi, parceiro da faculdade, para avaliar os cursos e prospectar tendências e cenários futuros na área de Comunicação.

Por fim, a Faculdade participa da Pesquisa Nacional sobre Perfil Profissional e Mercado do Trabalho, coordenado pelo Nupem/USP, que está em sua fase final.

Parar, fechar os olhos e ver. Todos esses processos têm acertos e erros, evidentemente, mas têm sido o maior investimento da direção da Faculdade de Comunicação da PUC-Minas e têm balizado suas ações.

É a partir dessa experiência que surge a constatação de que apenas o provão não dá conta de "medir", de "aferir", de "avaliar" a qualidade dos cursos superiores. O provão, no moldes atuais, é pouco. É muito pouco para os olhos que querem realmente ver, para aqueles que têm a convicção de que avaliar é processo e não ação pontual, de que avaliar é a tentativa de por fim àquela "Treva Branca" , de que avaliar a qualidade é um esforço que "obriga-nos a parar, fechar os olhos e ver".

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Vara de condão do MEC

Elson Faxina, diretor de Formação e Assuntos Profissionais da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)



A pretensão de aferir a qualidade do ensino nas universidades brasileiras por meio de provões arremessados do "olimpo palaciano" pelo Ministério da Educação toca na questão crucial da avaliação, mas esgueira-se por ela e cai num fosso não menos lamentável que a situação atual do ensino no País.

Lançar mão de um provão para mensurar o ensino é a demonstração de uma enorme incapacidade de se produzir uma avaliação necessariamente consistente. É o espécime mais fiel da própria banalização da educação no Brasil gerada nos bastidores da preparação para os concursos vestibulares, através do culto à decoreba, maquiada de conhecimento, implementado pelos cursinhos que fazem a pinguela entre o 2º. e o 3º. graus em todo o Brasil.

Acreditar que um provão terá capacidade para mensurar a qualidade do ensino é, no mínimo, um atestado de desconhecimento total de todas as condicionantes que compõem e interferem no processo da formação profissional, das multiformas de aquisição de conhecimento e das particularidades individuais na exteriorização do aprendizado e da manifestação das capacidades profissionais.

Não há nenhuma dúvida da necessidade urgente de se implementar uma avaliação séria de nossas universidades. O compadrio que tomou conta de nossas instituições de ensino - para citar apenas um elemento dessa enorme teia de problemas - tem criado imensas levas de profissionais sem capacidade teórica nem técnica para exercer as mais diversas profissões. Por isso, a iniciativa do Governo Federal de dar prioridade à avaliação de nossas instituições de ensino superior merece nota 10. Pena que o expediente utilizado para dar cabida a essa prioridade faça essa mesma nota despencar tanto, merecendo o conceito: Reprovado. Afinal, ver no provão o instrumento capaz de corrigir estas distorções é fugir da responsabilidade, é tentar um atalho na certeza de errar o cerne da questão.

Este provão tem uma única serventia: avaliar a proposta de educação do atual governo. E a nota que se pode, então, dar ao governo é, sem dúvida, arrasadoramente baixa. É uma proposta de educação soft, para um governo soft; uma avaliação neoliberal para um governo que ostenta esse mesmo matiz sem jamais aceitá-lo.

Mas esta pretensa forma de avaliação se torna ainda mais grave quando se tenta aplicá-la ao vasto campo do ensino da comunicação. Terá o provão a capacidade de avaliar a competência do futuro profissional de compreender os novos sistemas de comunicações e as novas linguagens que exercem, sempre mais, crescentes determinações sobre a cultura, a política e a economia? Dará conta esse provão de avaliar como os novos profissionais absorveram, ou não, uma consistente abordagem dos aspectos filosóficos, teóricos e técnicos que devem fazer parte da formação dos comunicadores? E o que dizer de uma consistente reflexão acadêmica, da prática política e técnica, para que sejam equacionadas as demandas da sociedade em relação a sua atuação no universo das comunicações?

Para simplificar mais: terá condições o provão de mensurar o conhecimento acumulado sobre a função social do comunicador como produtor de conhecimento e de cultura? Será capaz de avaliar essa atividade profissional especializada na captação, formulação, estruturação e disponibilização de informações, que devem ser usadas pelos indivíduos para situarem-se diante da realidade? E o que dizer das chances de aferir os fundamentos éticos prescritos para a conduta dos jornalistas assimilados pelo novo profissional? Ou ainda, é o provão um instrumento capaz de avaliar a capacidade do novo profissional em manifestar atitude de cidadania adequada ao exercício profissional dos jornalistas, a partir do reconhecimento das expectativas e necessidades da sociedade em relação ao seu papel social e ao produto da sua atividade?

O que dizer da interpretação da realidade social na qual o profissional se insere, com instrumental da filosofia, da sociologia, da antropologia e das demais áreas do conhecimento, para dar conta das etapas anteriores da história humana possibilitando a crítica de fatos concretos e o reconhecimento dos processos da comunicação humana para então especular sobre as possibilidades de futuro da sociedade e com ele contribuir? E o que dizer da necessidade de compreensão da natureza das linguagens e dos fenômenos lingüísticos envolvidos nos sistemas contemporâneos de comunicação e, em particular, no processo de produção jornalística, abrangendo imagem, som, texto, as dimensões gráfica, audiovisual e multimídia, e seus correspondentes recursos sintáticos e gramaticais?

Seguramente o maior problema mesmo é que na raiz desses descasos verificados no ensino está o próprio governo. As causas do desensino são muito conhecidas: os baixos salários, a não fiscalização dos cumprimentos de normas e regulamentos criados pelo próprio Ministério da Educação; a transformação da educação em mercadoria e não em direito social, tendo como sintoma a proliferação de faculdades e universidades sem a menor chance de garantir qualidade de ensino, etc. No campo da comunicação o disparate é ainda maior: das mais de 130 escolas de comunicação funcionando no país, nem 10% delas cumprem a resolução 002/84 do MEC, que regula o currículo mínimo e as exigências laboratoriais para o funcionamento dos cursos de comunicação. É bom lembrar que essa senil resolução não contempla sequer as inovações nos sistemas de comunicação destes últimos 13 anos.

O que o MEC tem feito para renovar esta resolução ou ao menos para fazer as escolas cumprirem a que vige agora? Nada! Ao contrário, a profusão de cursos autorizados, ao que tudo indica à revelia da Comissão de Especialistas, composta pelo próprio MEC para analisar estes casos, é um insulto, que atende apenas as necessidades de lucro desmesurado de faculdades e universidades particulares, que mais se assemelham à picaretagem que a instituição de ensino.

O documento aprovado pela Fenaj em seu congresso extraordinário, realizado dias 24 a 26 de julho passado em Vila Velha, Espírito Santo, aponta alguns caminhos como trilhas coerentes para a melhoria da qualidade no ensino de comunicação. O principal instrumento para essa conquista é o envolvimento de professores, estudantes, profissionais e empresários da área no âmbito da formação profissional. É essa compreensão que precisamos cobrar o Ministério da Educação, a de que é absolutamente impossível realizar qualquer forma de avaliação séria à guisa de uma vara de condão.

O que parece mais grave é que o grupo "inventor" do provão, ao que parece tão adepto do ensino-consumo, sequer está aqui buscando reforço na teoria do mercado para implementar a melhoria na qualidade de ensino. O mais óbvio seria, então, envolver os "consumidores" do ensino no processo da avaliação da qualidade do que recebem, do que adquirem. Possivelmente é porque o engenhoso grupo, de turno no MEC, se apercebeu que os estudantes não são consumidores atônitos, abestalhados, capazes de avaliarem a qualidade sem o necessário engajamento numa reforma séria do ensino em nosso país. Mas essa predisposição estudantil cheira a perigo. Estudante só pode ser visto como consciente quando pinta a cara; jamais quando descobre que é capaz de pintar o "sete" e, mais ainda, de pintar um novo quadro da comunicação para o país.

É uma pena que ao se falar em avaliar seriamente o ensino no país o governo lance mão de um instrumento tão inviável, tão improdutivo, tão inoperante para os fins desejados. A avaliação na forma como está proposta serve especialmente para dar cobertura à mediocridade que impera em setores corporativos dentro das próprias universidades. A única "vantagem" nesse provão é fornecer números, Correio Braziliense, pontuações, tudo tão procurado hoje por certo setor da imprensa que prefere os números que as idéias, dados vazios em vez das discussões. Há certos números, como os fornecidos por instrumentos como o provão, que ajudam a inferir as próprias inferências já previamente concebidas, jamais para contribuir nas discussões em busca de soluções plausíveis, oportunas e necessárias à oxigenação do conhecimento no país.

Esperávamos muito mais seriedade do atual governo. É de se esperar que um governo que promete ser sério deva no mínimo forçar a abertura da "caixa preta" das universidades para uma ação mais eficaz, envolvendo professores, estudantes, profissionais e representantes empresariais da área na própria avaliação.

O documento ora aprovado pela FENAJ e que começa a ser discutido com os demais segmentos envolvidos na formação profissional, tais como escolas/professores, estudantes e empresários da área, aponta premissas claras e pontua compromissos concretos para melhorar a qualidade do ensino de comunicação, com ênfase no jornalismo. Através do Movimento pela Qualidade no Ensino de Comunicação, fundado em 1995, profissionais, professores e estudantes da área assumiram compromissos e estão dispostos a arregaçarem as mangas para dar um novo rumo ao ensino neste país. Compete a um governo sério dar todo o apoio a essas iniciativas, inclusive capitalizando-as; e o Ministério da Educação não poderá perder essa oportunidade quase ímpar. Estamos dispostos a colaborar, falta apenas que o governo faça a sua parte.

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DEPOIMENTO
Aventuras de um
avaliador da ECA-USP

Alberto Dines



Em setembro de 1992 (ainda residindo em Lisboa), fui convidado pela Reitoria da USP, dentro de um programa de avaliação geral, a participar de um grupo que examinaria o desempenho dos cursos de Jornalismo e Editoração.

A seleção dos avaliadores levou em conta uma boa experiência no mercado profissional e alguma vivência acadêmica. Meus companheiros: José Hamilton Ribeiro (jornalista) e Wander Soares (editor de livros), estes ex-docentes da ECA, eu da PUC-RJ (10 anos), além de uma passagem pela Universidade de Columbia (NY) como professor-visitante.

Durante cinco dias trabalhamos intensamente com professores, alunos, avaliando a produção acadêmica, estatísticas, etc. Nosso relatório, embora destacasse a ECA no quadro nacional, fez sérios reparos à excessiva teorização e ao distanciamento das necessidades do mercado nos dois cursos. Foram feitas sugestões drásticas.

A avaliação foi encaminhada ao corpo de professores, que sequer a examinou ou discutiu. Meses depois, numa matéria publicada pela Folha de S.Paulo sobre a avaliação geral feita na USP, altamente favorável aos padrões de ensino (e, pelo teor, aparentemente soprada pelos professores), registrava-se que a nota mais baixa recebida pelos Cursos de Jornalismo e Editoração devia-se ao fato de que os avaliadores eram desprovidos de experiência acadêmica.

O relatório não mencionava o corporativismo. Mas a matéria da Folha escancarou-o.
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Sem vagas e com falso glamour

Esdras Paiva *



"Os vestibulandos pensam que vão ser estrelas, viajar pelo mundo e conhecer presidentes e artistas", diz Dione Moura, chefe do Departamento de Jornalismo da Universidade de Brasília, jogando água fria no suposto glamour da profissão. A realidade é bem diferente. Trabalha-se muito - quando se acha emprego - em funções repetitivas e burocráticas, ganha-se pouco e sobe-se devagar na vida. O mais comum, no entanto, é abandonar a profissão depois de alguns anos. Há quem sobreviva, mas é minoria. Os bons postos estão todos ocupados, vagas são abertas a conta-gotas e ninguém tem planos de abandonar o emprego que conquistou a muito custo (inclusive este repórter) - uma péssima notícia para os quase 5.000 novos profissionais que se formam todos os anos. Para piorar, as faculdades, na maioria, são péssimas e não preparam ninguém para o mercado de trabalho.

Marina Oliveira, 22 anos, repórter há três meses do Correio Braziliense, está aprendendo a profissão agora, no dia-a-dia. "O que me atraiu para a carreira foi justamente o corre-corre e a quebra constante da rotina", entusiasma-se. Para quem faz questão de insistir, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília continuam a ser os melhores endereços de trabalho.

Jornalismo
Duração do curso 4 anos
Faculdades 76
Vagas 12.300
Candidatos 58.000
Profissionais no mercado 29.000
Formandos por ano 4.600
Salário inicial (em reais) 1.200
Salário no auge 10.000
Auge 15 anos
Jornalismo


Dica: os jornais estão contratando cada vez menos. A oportunidade está nas assessorias de imprensa, que funcionam como uma espécie de antijornalismo - às vezes escondendo notícias, muitas vezes mentindo.
(*) Artigo reproduzido de Veja, 20/8/97, pág. 79, reportagem de capa, "Navegando num mar de profissões". Copyright Veja.

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