Olhos que querem ver
Sandra Maria de Freitas,,
professora do
Departamento de Comunicação da PUC-MG
Treva Branca, como diz Saramago em seu Ensaio sobre a Cegueira, é o que melhor define o clima dos debates sobre a qualidade do ensino universitário, a necessidade de avaliá-lo e especialmente a aplicação do provão. Acabar com esse estado é fundamental. Avaliar nossas escolas, nosso trabalho, a qualidade dos nossos cursos, é urgente. Já passa da hora. A instituição do provão pode ser vista como um bom começo, assim como a implementação do PAIUB - Programa de Avaliação das Universidades Brasileiras. Mas não se pode parar por ai. Aplicar o provão nos cursos superiores, incluindo agora os de Jornalismo onde será aplicado em 7 de junho de 1998, como vem sendo feito, deve ser apenas o ponto de partida para um processo mais amplo de avaliação. Merece aplauso a iniciativa do provão, apesar das falhas cometidas especialmente na forma de divulgação do seu resultado. Agora é preciso avançar nesse processo. Através da sistematização de experiências diversas que vêm sendo implementadas em várias faculdades e escolas de todo o país.
Essa sistematização pode certamente apontar alguns consensos quanto às metodologias, utilizadas, quanto aos melhores períodos para avaliação, (meio/final de ano/semestre letivo), quanto aos processos de ensino x aprendizagem, quanto às formas de discussão e de divulgação dos resultados junto a professores, alunos, pessoal administrativo e sociedade, quanto aos melhores momentos/prazos para se responder às demandas colocadas (infra-estrutura física, laboratorial, condições de trabalho, docente etc.).
Na Faculdade de Comunicação da PUC Minas, por exemplo, vivencia-se um processo de avaliação desde 1991, quando implantou-se O Programa de Avaliação e Melhoria do Ensino.
O programa tem como linha mestra a formação de comunicadores com sólida base intelectual, ética e técnica. Seu objetivo principal é apontar as principais carências e as suas potencialidades dos cursos de Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade e Propaganda.
Olhar de fora. O primeiro passo desse processo foi promover o que se chamou de "Um Olhar de Fora" sobre o cotidiano da escola. Contrataram-se dois professores consultores externos, que elaboraram um pré-diagnóstico institucional.
O principal problema detectado foi uma total defasagem do Curso de Comunicação da PUC em relação às novas demandas do mercado de trabalho.
O segundo passo foi o de se promover seminário interno, discutir o pré-diagnóstico e os melhores caminhos para se dar início a um processo permanente de avaliação.
Definiu-se uma série de ações em 1991: cursos para o conjunto dos professores, a constituição de uma comissão de avaliação nomeada pelo reitor, em fevereiro de 1992, que coordenou uma Reformulação Curricular e um grupo de estudos sobre comunicação que também seria responsável por pesquisas e projetos especiais.
Pesquisa realizada pelo Departamento de Comunicação Social em algumas empresas de Belo Horizonte - estatais e privadas - e com empresários da comunicação apontava que o trabalho realizado pelo especialista/técnico não satisfazia mais ao conjunto das necessidades das organizações que conhecem a importância do trabalho planejado de comunicação.
Ver e reparar. No caso específico do Curso de Jornalismo, debates realizados com editores de jornais, rádios, TVs e assessores de imprensa/comunicação reafirmaram a importância da formação básica humanística para o futuro jornalista.
Constatou-se uma vez mais a existência de um descompasso escola/mercado/sociedade. Isso evidentemente prejudicava os profissionais - preparados para uma demanda ultrapassada - que deixavam de ser formados para aproveitar as novas oportunidades que se abriam no mercado de trabalho, especialmente com a tendência de "terceirização de serviços".
Por tudo isso ficou clara a importância da construção de um novo projeto pedagógico em sintonia com o momento social, que incorporasse outros elementos na formação dos novos comunicadores, dando-lhes uma forte base humanística e técnica, indispensável ao crescimento profissional e a realização de um trabalho sério e competente que a sociedade e o mercado exigem
O documento da reforma curricular do curso destaca que a busca da melhoria do ensino e da excelência não se esgota com uma proposta de reformulação nos currículos, ao contrario, exige um processo maior e deve ser entendida como um instrumento de revisão das metodologias, abordagens e da incrementação de uma mudança mais substantiva.
No curso de Jornalismo a reformulação do currículo ficou assim:
1- Ênfase na formação humanística - considerando aspectos transdisciplinares da comunicação e a importância do aprofundamento dos estudos de outras áreas do conhecimento;
2- Valorização da formação profissional criando um eixo metodológico ascendente, no qual o estudante terá, desde o primeiro período\semestre, conteúdos programáticos relacionados com as práticas do jornalismo;
3- Entender o jornalismo como sub-campo da comunicação;
4- Oferecimento aos estudantes de oportunidade de realizar, nos projetos experimentais, um aprofundamento das possibilidades de articulação entre os conteúdos disciplinares teóricos e os técnicos - profissionalizantes, criando um espaço de reflexão acadêmica, de experimentação de linguagens e de intervenção social;
5- Racionalização da estrutura curricular, evitando repetições de conteúdos e sobrecarga horária em algumas disciplinas.
Esse eixo ascendente pode ser melhor entendido através dos exemplos que se seguem:
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| Período | Disciplina | Produto |
| Primeiro | Introdução ao Jornalismo | Projetos de pesquisa |
| Segundo | TREP | Revisão projetos |
| Terceiro | Jornalismo I | Caderno semestral/MARCO |
| Quarto | Jornalismo II | Cadernos Entrevistas |
| Quinto | Opinativa/Interpretativo | Suplemento/MARCO |
| Sexto | Jornalismo III | Cad. Report. Malditas |
| Sétimo | Edição Jornalística | Pág. HOJE/ESTADO |
| Oitavo | PE | TCC |
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É a partir das disciplinas de Jornalismo Impresso que as demais são trabalhadas. As disciplinas Rádio I e II, TV I, II e III têm produtos diversos como participação em programas específicos de emissoras comerciais, programas próprios na TV Educativa, programas nos canais locais de TV a cabo. Todas atingem públicos que dão retorno concreto.
Novos olhares - Para complementar a vivência dos estudantes nas práticas profissionais adotou-se um Programa de Visitas Técnicas a veículos de BH, merecendo destaque o convênio assinado com o Sistema Estaminas de Comunicação, pelo qual os alunos do sétimo e oitavo períodos ficam três dias na redação - em rodízio nas editorias diversas - produzindo como qualquer outro profissional da casa e sendo avaliados pelo editor e pelo professor.
A articulação com o mercado de trabalho se deu também, e de forma mais sistemática, através da criação de um Conselho Consultivo do curso. O conselho é formado por 14 profissionais, entre empresários, profissionais renomados e representantes das três profissões - Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade e Propaganda. Se reúne de três em três meses e seu objetivo principal é estabelecer uma rede de intercâmbio com o mundo profissional, incorporando organicamente ao curso as inovações do campo da comunicação e as demandas regionais. Participam ainda do Conselho professores - um de cada área -, coordenadores dos três cursos, representantes dos estudantes e da reitoria.
Outra etapa desse processo de aproximação com o mercado/sociedade está prevista para o final de 97 com a implantação do projeto De Volta para o Futuro, que teve início com o levantamento dos endereços e locais de trabalho de todos os ex-alunos formados na comunicação da PUC desde 1975, prosseguiu com a realização de um baile De Volta para o Futuro e que culminará com a criação do Conselho de Ex-alunos. Esse conselho deverá funcionar como apoio à direção da Faculdade e dos cursos em seu processo de avaliação permanente, aos moldes do funcionamento do Conselho Consultivo.
Ver longe. Depois da reforma curricular e da elaboração de uma política de articulação com a sociedade e o mercado-de-trabalho, várias ações foram implementadas, entre elas a elaboração do Programa Comunicação 2021.
Esse programa teve a contribuição dos Conselheiros e tem duas vertentes um Planejamento que pensa a "escola do ano 2021", com marco estratégico no ano 2000 e um projeto de adoção de laboratórios e salas de aulas por empresas públicas, privadas, organizações diversas e pessoas físicas ( especialmente ex-alunos).
O planejamento estratégico está sendo feito em parceria com a Fundação Dom Cabral especializada em administração e negócios - e deverá balizar todas as negociações da direção da faculdade com as empresas na consecução do projeto de adoções. Quanto a esse projeto, o que se espera é a solução de problemas de infra-estrutura de forma criativa e ágil, através da busca de parcerias.
O Programa de Avaliação e Melhoria do Ensino está hoje em nova fase. Além das auditorias internas, que são feitas semestralmente com alunos e professores, a Faculdade de Comunicação também participa do PAIUB.
Até o 1o semestre de 97 foram ouvidos alunos, ex-alunos, professores e quatro consultores externos foram contratados para avaliar os cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas. Os relatórios já estão sendo elaborados.
Soma-se a isso uma pesquisa realizada pelo Instituto Vox Populi, parceiro da faculdade, para avaliar os cursos e prospectar tendências e cenários futuros na área de Comunicação.
Por fim, a Faculdade participa da Pesquisa Nacional sobre Perfil Profissional e Mercado do Trabalho, coordenado pelo Nupem/USP, que está em sua fase final.
Parar, fechar os olhos e ver. Todos esses processos têm acertos e erros, evidentemente, mas têm sido o maior investimento da direção da Faculdade de Comunicação da PUC-Minas e têm balizado suas ações.
É a partir dessa experiência que surge a constatação de que apenas o provão não dá conta de "medir", de "aferir", de "avaliar" a qualidade dos cursos superiores. O provão, no moldes atuais, é pouco. É muito pouco para os olhos que querem realmente ver, para aqueles que têm a convicção de que avaliar é processo e não ação pontual, de que avaliar é a tentativa de por fim àquela "Treva Branca" , de que avaliar a qualidade é um esforço que "obriga-nos a parar, fechar os olhos e ver".