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MEMΣRIA
PAULO FRANCIS (1930-1997) Edney Silvestre (*) No antigo escritório da TV Globo em Nova York, na Terceira Avenida, o "estúdio" nada mais do que uma modesta tapadeira pintada, até ser demolido em uma providencial reforma posterior ficava dentro da redação. Mesmo. Tapadeira, luzes, câmera e fios viviam em incômoda proximidade a monitores de tevê, telefones e máquinas de fax, computadores, salas de edição de imagem, a sala do diretor, a cabine para gravação de locução, uma porta lateral (oficialmente vedada a entradas e saídas) e, evidentemente, as mesas dos repórteres e produtores. Como acontece em redações do Oiapoque ao Yang-Tsé, ali todos conversavam, digitavam, discutiam, discavam e falavam ao telefone, se chamavam, respondiam, comentavam, criticavam, riam, lamentavam, abriam e fechavam portas & gavetas ininterruptamente, do momento que chegávamos ao momento que saíamos. Enquanto tudo isso acontecia, Paulo Francis tinha que gravar direto, sem interrupções os comentários que fazia diariamente para o Brasil. Francis, ao contrário da maioria dos comentaristas de televisão, jamais tinha um texto preparado com antecedência, nunca leu um telepronpter (aquela máquina que passa o texto em frente à pessoa enquanto a mesma câmera vai registrando a imagem). Talvez até porque fosse profundamente míope. Os óculos que usava na vida real tinham lentes grossas, daquelas que nos bancos escolares do século passado a gente costumava chamar de "fundo de garrafa". Em cena, quase todo mundo sabe, os óculos que colocava no rosto eram vasados, não tinham lentes. Óculos cenográficos, como cabia a quem tinha tanta paixão por teatro. Francis, simplesmente, subia ao estúdio faltou contar: ficava uns cinqüenta, sessenta centímetros mais alto do que o resto da sala, como um pequeno palco , olhava para a câmera e falava. O tempo que fosse necessário. Dois, três, cinco, dez minutos dependendo do entusiasmo com que elogiasse ou esculhambasse a situação, o evento, o filme, a peça, o político, o ator, a modelo, a soprano, o maestro, a orquestra, a exposição ou que quer que lhe despertasse interesse. Francis tinha opinião sobre tudo. Sempre radical. E nunca tão cimentada que não merecesse ser revista. Improvisar? Para ele era tão natural quanto piscar. Mas falar, dentro daquela redação, enquanto as câmeras rodavam, exigia o (quase) impossível: não apenas que todos se calassem, como também que os telefones e faxes não tocassem, que portas não batessem, que campainhas não soassem etc etc. Até acontecia. Mas não na primeira, na segunda, terceira ou quarta vez. E a cada repetição Francis ficava: a) mais brilhante; b) mais contundente; c) mais colérico com as interrupções. O resultado era uma torrente de palavrões, ditos com intensidade susficiente para abalar o centro de Manhattan. Cá entre nós, era um espetáculo à parte. Que terminava quando finalmente o milagre da gravação sem interrupções se fazia com um baita sorriso dele, como se nada demais tivesse acontecido. Francis, então, descia do estúdio (palco?), pegava suas coisas, punha seus livros embaixo do braço e saía para o mundo. Quase sempre assoviando ou cantarolando algum trecho de música erudita. E, sempre, pela porta proibida. (*) Jornalista, repórter da Rede Globo e ex-correspondente da emissora em Nova York; texto publicado originalmente em <http://www.paulofrancis.com/main/main.htm>
Paulo Francis, 60 dias depois Alberto Dines [rolar a página] Tragédia no mar e lembrança de Paulo Francis A.D. | ||