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MEMÓRIA
Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000)
Alberto Dines
Antes de tudo, um jornalista: foi advogado, deputado, ideólogo do álcool-combustível, constituinte, governador de Pernambuco, líder da resistência à ditadura, historiador e acadêmico.
Aos 13 anos já escrevia no jornal da escola, no Recife. Em 1919, tornava-se profissional no Jornal de Recife. Desde 1921 no Jornal do Brasil: primeiro como noticiarista, depois redator político e em 1924, redator-chefe. Em 1926 tornou-se presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) – voltaria em 1929 e depois em 1960, até a sua morte.
Em 1927 começou a escrever uma coluna dominical no Jornal do Brasil mantida praticamente sem interrupções ao longo de 73 anos. Seu último artigo, "A exclusão da classe média" [veja abaixo], foi publicado no dia em que faleceu, domingo, 16 de julho.
Dr. Barbosa confessava aos íntimos que queria chegar até o dia 22 de janeiro de 2001: assim poderia dizer que viu três séculos – o 19, o 20 e o 21.
Foi além: de patriarca da imprensa passou a um dos patronos. Junto com o seu biografado, Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, o criador e único redator do Correio Braziliense. Imortal não porque fosse membro da Academia Brasileira de Letras, mas porque tornou-se exemplo de dedicação à profissão ao longo de 81 anos. Como militante, como historiador, como teórico e, sobretudo, como seu intransigente defensor.
O segundo livro, O problema da Imprensa (1922, reeditado pela USP em 1988) permanece atual. A reedição coincide com a fase adoidada do nosso jornalismo, quando as redações eram tomadas de assalto por bandos predadores. O prefácio que este Observador escreveu há 12 anos para a reedição encerrava-se assim:
[...] Com figuras desta estatura, com um lastro desta envergadura, com trajetórias assim – harmoniosas e consistentes – é fácil desvendar aos angustiados a inspiração para a continuidade e, aos pessimistas, o ânimo para recomeçar.
O ÚLTIMO ARTIGO
Barbosa Lima Sobrinho
"A exclusão da classe média", copyright Jornal do Brasil, 16/7/00
"A igualdade é pressuposto básico da democracia, que, sem ela, não tem condições de sobreviver. Parece primário, mas a tese é ampla e, com oportunidade, pode ser colocada na atualidade do Brasil. Segundo estudo recente do Bird (Banco Mundial), existe entre nós uma espécie de desesperança crônica que prejudica o desenvolvimento sustentável e, de certa forma, enfraquece a democracia.
Na última edição da revista Veja, o colunista Sérgio Abranches, em artigo intitulado Pessimismo econômico, traz números que deveriam contradizer essa desesperança. Mas ele mesmo reconhece que existe um sentimento de mal-estar econômico tão real quanto a queda da inflação. Que esse desconforto vem do medo do desemprego, das dificuldades para saldar compromissos, da frustração de planos de consumo. Seu artigo finaliza com algum otimismo, dizendo que aos poucos os brasileiros voltarão a ter melhores perspectivas. Uma conclusão com a qual não posso concordar integralmente, sobretudo diante de um governo atual tão distante e indiferente à opinião pública. A longo prazo, números podem resolver e apenas parte da questão. Para a reversão de expectativas para um futuro melhor são necessárias algumas mudanças fundamentais na condução da política econômica. A desesperança não é gratuita e remonta a várias turbulências em que se jogou a nação.
A verdade é que não se pode simplesmente esquecer o passado. Desde o golpe de 64, o país vem sofrendo alternâncias de crises, de confiscos e desilusões. Depois de toda a opressão imposta pelo regime militar, os brasileiros sofreram uma série de golpes frustrantes na economia, desde a crise do México, a moratória, os planos Cruzado, Bresser, Verão, Collor, fechando o ciclo com a desvalorização cambial do ano passado. E tudo isso dentro de duas décadas de atraso, onde o PIB cresceu apenas pouco mais de 0,2% ao ano. Nossa distribuição de renda agravou-se ainda mais, a ponto de ser considerada uma das piores do mundo. Serão explicações razoáveis?
A meu ver, como já escrevi em artigo do mês passado, ocorreu uma espécie de deterioração do sentimento de nacionalidade. Admito também, agravada por uma ruptura nas regras do jogo cooperativo entre os três parceiros da economia: os trabalhadores, os empresários e o governo. É nesse sentido o artigo do deputado Delfim Netto, publicado no jornal Valor (11.07.00), que afirma: ‘É preciso construir instituições que, sem prejudicar a eficiência, garantam aos trabalhadores uma realidade participativa, uma faceta fundamental da aspiração por ‘igualdade’ que persegue o homem. A sobrevivência da democracia exige que eles se percebam parte integrante e respeitada do processo de crescimento da sociedade e não seres alienados para os quais o desenvolvimento material e a liberdade são irrelevantes.’ A seguir afirma ser preciso dar ao cidadão perspectivas de cooperação como parceiros, de liberdade criativa e de relativa igualdade. Essas funções seriam das empresas, mas cabe ao governo criar o ambiente estimulador para esse novo conjunto de regras, o que permitiria a competição sem a perda da perspectiva. E termina seu artigo com um alerta: ‘Crescimento pela competição num regime democrático é o nome do jogo. Mas é preciso cuidado e sensibilidade, porque o fundamentalismo mercadista pode fazer muita coisa, mas não pode garantir a relativa igualdade entre os indivíduos, um valor que eles jamais deixarão de perseguir.’
Vou além e acrescento que para essa tarefa de administração do jogo não se pode contar com o atual governo, não só pela sua falta de sensibilidade, como também pelo fato de ser ele, o governo, o principal foco de desestabilização economico-social. O que concorre para tanta desilusão não são só os espetáculos a que estamos assistindo de corrupção, impunidade, irresponsabilidade generalizada. A perda do sentimento de nacionalidade tem muito a ver com a desnacionalização da nossa economia, com a invasão de empresas estrangeiras, numa espécie de demonstração prática de que o brasileiro é incapaz de gerenciar e produzir, devendo se restringir apenas à função de rentista, como se dizia no século 19.
Todo esse processo provocou a exclusão da classe média do debate e do cenário econômico. Mandaram-na deixar suas empresas para mãos mais eficientes e que fosse viver de aluguel. O governo atual, com essa política, sinalizou com clareza que o Brasil não terá grandes empresas de expressão internacional, não terá suas multinacionais. Não estará aí, justamente nessa política de alienação patrimonial, uma das principais razões da desesperança e do pessimismo atual do brasileiro?
Por tudo isso, quando leio ou ouço esses apanágios antigos do liberalismo como o do Estado fraco, da globalização, da mão invisível, fico imaginando qual será a reação da opinião pública quando afinal acordar e perceber que lhe tiraram tudo e sequer restou o aluguel. Será que teremos de esperar e pagar para ver chegar esse momento trágico? Não será melhor que, sobretudo como obrigação da maior parte dos formadores de opinião, se comece logo a reagir e a defender os legítimos interesses nacionais?"
A TRAJETÓRIA DE UM JORNALISTA
Borges Neto
"O cidadão número 1 do Brasil", copyright Jornal do Brasil, 17/7/00
"O jornalista Barbosa Lima Sobrinho, de 103 anos, morreu às 10h55 da manhã de ontem na Casa de Saúde São José, onde foi internado quinta-feira com problemas respiratórios. Segundo laudo assinado pelo médico Fábio Guimarães de Miranda, chefe do Centro de Tratamento Intensivo da clínica, o quadro infeccioso inicial evoluiu para a falência orgânica generalizada na noite de sábado. O corpo foi levado para a Academia Brasileira de Letras (ABL), onde está sendo velado desde ontem.
O padre e também imortal Fernando Bastos de Ávila celebrará missa de corpo presente no Salão dos Poetas Românticos da ABL às 10h. O enterro será às 11h, no mausoléu da Academia no Cemitério de São João Batista.
Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho foi governador de Pernambuco, presidente da Associação Brasileira de Imprensa e da ABL, deputado, escritor, jornalista, advogado, mas o que em sua longa vida mais lhe agradava recordar era a cidadania de brasileiro. Conhecido como o "senhor Coerência", toda a sua existência foi uma prova de fidelidade ao país em que nasceu.
Quando fez 100 anos, confessou: ‘Vejo que todos me tratam com muita deferência, mas só tenho a dizer que é gratificante levar uma vida digna do ideal de quem ama o Brasil.’ Coerente com sua discrição, fez a revelação não em público mas a sós com um dos seus quatro filhos, Fernando. Na mesma ocasião, no entanto, falou pelos admiradores do acadêmico o então arcebispo de São Paulo, cardeal Paulo Arns: ‘Barbosa Lima construiu um monumento à dignidade e à honradez. Não somos nós que o colocamos sobre o pedestal. Foi ele quem nos elevou até esse nível para que descobríssemos como deve ser o Brasil de hoje e de amanhã. O que mais impressiona é sua luta intransigente em favor da liberdade de expressão e dos direitos da pessoa.’
Mesmo sabendo da inutilidade do esforço que lhe pedia a Executiva Nacional do MDB, não hesitou em lançar-se anticandidato a vice-presidente na chapa da oposição encabeçada pelo deputado Ulysses Guimarães em 1974, quando o país vivia em plena ditadura militar e o Colégio Eleitoral era dominado pelo partido governista, a Arena. Achou que essa era uma forma coerente de lutar pela redemocratização do país numa hora em que o regime militar concebera uma campanha destinada exclusivamente a confirmar o general Ernesto Geisel na Presidência.
Terminada a campanha, disse: ‘Já falei da sacada de palácios e até de altares ecumênicos, mas nunca me senti mais honrado do que quando fui guindado a um estrado de caminhão, quase numa cena de surrealismo, para falar a eleitores que não iam votar, em nome de candidatos que não eram candidatos mas tão-somente pessoas que protestavam contra a marginalização do povo na escolha do supremo mandatário da nação’. Em 1984 foi ele, também, um dos maiores oradores da campanha Diretas-já, que levou às ruas e praças de grande parte do país multidões que queriam escolher o sucessor do presidente João Figueiredo.
Quando em 1937 Getúlio Vargas iniciou o governo do Estado Novo, foi ainda por coerência que Barbosa Lima aderiu ao golpe. Explicou mais tarde: ‘Getúlio foi o presidente que mais lutou em defesa do nacionalismo.’ Teve a dignidade de fazer essa afirmação apesar de, também ele, ter sido vítima desse período autoritário: em 1938, mesmo sendo líder de bancada, foi-lhe cassado o mandato de deputado federal por Pernambuco. Voltou à Câmara, uma segunda vez, para integrar a Assembléia Nacional Constituinte, em 1946, e renunciou dois anos depois para assumir o governo de Pernambuco.
Movido ainda por seu espírito nacionalista, defendeu na Constituinte, em 1987, a emenda popular com 53.334 assinaturas a favor da manutenção do monopólio estatal do petróleo. Pediu até que na nova Constituição fosse estabelecida ‘uma proibição expressa aos contratos de risco’. Achava ele que ‘a tese do monopólio estatal do petróleo é suprapartidária, é dos civis e dos militares, dos estudantes, dos operários, dos profissionais liberais, enfim, de todo o povo brasileiro’. Lembrou, também, que ‘foi do maior movimento popular da história brasileira - O petróleo é nosso - que nasceu a Petrobras’.
Barbosa Lima Sobrinho nasceu em Recife no dia 22 de janeiro de 1897, filho do tabelião Francisco de Cintra Lima e de Joana de Jesus Barbosa. Depois de aprender as primeiras letras com a mãe, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde iniciou o curso primário. Mas com os pais voltaria pouco depois para Recife. Com apenas 13 anos já escrevia no jornal pernambucano A Província. E em 1917, quando se formou na Faculdade de Direito de Recife e foi nomeado adjunto de promotor local, enveredou definitivamente pelo jornalismo. Começou a colaborar nos jornais da terra, Diário de Pernambuco, Jornal Pequeno e, sobretudo, no Jornal de Recife. Não tardou, passou a escrever também em periódicos de outros estados.
Em 1921 veio definitivamente para o Rio. Chegando com a recomendação do conde Pereira Carneiro, começou logo a trabalhar no Jornal do Brasil, primeiro como repórter da Câmara dos Deputados, depois como redator principal e comentarista político. Graças à memória de que era dotado, ele mesmo reconhecia ter facilidade em reproduzir longas entrevistas que depois escrevia à mão. Só em 1934 chegariam ao jornal as primeiras máquinas de escrever, mas a elas Barbosa Lima nunca se adaptaria: escrevendo à mão tinha mais facilidade de ‘coordenar as idéias e fazer um rascunho’. Em 1924, aos 27 anos, já era redator-chefe do JB. E neste jornal publicaria, praticamente todas as semanas, até o fim da vida, perto de 4 mil artigos, o primeiro dos quais saiu no dia 27 de maio de l921, sob o título O momento literário.
Barbosa Lima foi eleito em 1926 presidente da Associação Brasileira de Imprensa, fundada em 1908. Além do JB, o mais popular da época, havia seis jornais no Rio: Jornal do Commercio, Gazeta de Notícias, O Jornal, Correio da Manhã, Paiz e o recém-fundado O Globo. Consciente da força desses instrumentos de comunicação, Barbosa Lima quis fazer da ABI uma casa que, além de lutar em defesa da liberdade da imprensa, promovesse a maior unidade dos jornalistas. ‘A política surgiu em minha vida pelo exercício do jornalismo. Uma atividade me levou à outra’, disse. Tornara-se eleitor aos 17 anos para votar em Rui Barbosa (que renunciou); 80 anos depois, votaria em Lula. Conheceu 19 presidentes, e em 1992 foi o primeiro signatário da ação em que o país pediu o impeachment de Fernando Collor.
No sobrado que Barbosa Lima Sobrinho e sua mulher, dona Maria José (com quem casou em 1932), construíram há 65 anos (na Rua Assunção, Botafogo) existem mais de 50 mil livros. Espirituoso, gostava de dizer que devia a uma fratura no braço o amor aos livros. Era menino quando caiu na rua e ficou um mês em casa com o braço engessado. ‘O acidente abriu as portas da biblioteca do meu pai e eu li de tudo - de Dom Quixote a dicionários’, contou uma vez. Depois da trintena, já curado, escreveu da melhor forma que soube uma enciclopédia com as coisas que mais o impressionaram. Era o noviciado do escritor. Nem ele soube dizer quantos livros tinha escrito. ‘Uns 30.’ Foram bem mais. Segundo José Augusto Ribeiro, seu biógrafo, o doutor Barbosa escreveu e publicou mais de 50. O primeiro foi, na verdade, uma tradução - O diário de Adão e Eva (1924), de Mark Twain.
De toda a sua bibliografia, um livro ele gostava de citar mais: Japão, capital se faz em casa (1974). Em suas páginas, o autor conclui que para o mundo subdesenvolvido o melhor remédio é investir no próprio povo, e não na entrega das suas riquezas. Em 1937, seus escritos o levaram à Academia Brasileira de Letras (fundada em 1903), da qual foi presidente em 1953.
Sempre gozou de boa saúde. Sofreu um enfarte em 1964 (atribuído a três IPMs a que o submeteu o primeiro governo militar), sem seqüelas. E com 100 anos dispensava óculos: usava apenas uma lupa para ajudar na leitura, já que sofria de glaucoma no olho direito. A preocupação que o doutor Barbosa tinha com o físico começou cedo. Adolescente, gostava de jogar futebol, remar e caminhar. No Rio, torcia pelo Fluminense - o clube fundado em 1902, quando Barbosa Lima tinha 5 anos. Em Pernambuco, mantinha fidelidade ao Náutico, do qual foi centro-avante. No Corinthians Olindense, chegou a artilheiro. Barbosa Lima freqüentou o Maracanã até os 75 anos.
Teve quatro filhos, um dos quais, Roberto, o mais velho, morreu aos 62 anos, vítima de hepatite mal curada. Os outros filhos são Lúcia, Carlos Eduardo e Fernando. Deixa ainda cinco netos e três bisnetos."
Patrícia Santos
"Barbosa Lima Sobrinho morre aos 103 anos", copyright Folha de S. Paulo, 17/6/00
"Morreu ontem, às 10h55, o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, aos 103 anos. Ele estava internado na Casa de Saúde São José (Humaitá, zona sul do Rio), desde a sexta-feira passada.
A morte ocorreu em decorrência de um quadro infeccioso que evoluiu para falência orgânica generalizada, segundo boletim assinado pelo médico Fábio Guimarães Miranda.
Presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e membro da ABL (Academia Brasileira de Letras), Barbosa Lima Sobrinho começou a passar mal na terça-feira, quando sentiu dificuldades para respirar. Após a internação, foi diagnosticado mau funcionamento dos sistemas circulatório, renal e respiratório.
Seu corpo deve ser enterrado hoje, às 11h, no mausoléu da ABL, no cemitério São João Batista, em Botafogo (zona sul).
Vestido com o tradicional fardão dos acadêmicos, o corpo chegou à ABL às 14h30, onde foi velado no Salão dos Poetas Românticos. O caixão foi coberto com a bandeira do Brasil e uma do Fluminense, time carioca para o qual Barbosa Lima torcia.
Hoje, às 10h, será celebrada uma missa de corpo presente pelo padre Fernando Bastos de Ávila, também membro da ABL.
O presidente em exercício, Marco Maciel, decretou luto oficial no país por três dias. O governador em exercício do Rio, Sérgio Cabral Filho, também decretou luto.
Com o jurista Evandro Lins e Silva, Barbosa Lima Sobrinho –um nacionalista convicto e defensor da liberdade de imprensa- encabeçou a petição que deu origem ao processo de impeachment de Fernando Collor, em 1992.
‘O Brasil perde um de seus maiores filhos. Ele andava muito preocupado com a situação do país, por causa da política econômica desnacionalizante’, disse ontem Lins e Silva, 88.
Colaborador do ‘Jornal do Brasil’ havia muitos anos, seu último artigo, intitulado ‘A Exclusão da Classe Média’, foi publicado ontem. Tinha a seguinte introdução:
‘A igualdade é pressuposto básico da democracia, que, sem ela, não tem condições de sobreviver. Parece primário, mas a tese é ampla e, com oportunidade, pode ser colocada na atualidade do Brasil.’
De acordo com Carlos Eduardo e com Fernando Barbosa Lima, filhos do jornalista, o pai havia concluído o artigo poucos dias antes de ser internado. Os dois disseram desconhecer a existência de textos inéditos do pai.
O jornalista deixa três filhos, sete netos, quatro bisnetos e a mulher, Maria José Pereira Barbosa Lima, 92, com quem estava casado havia 67 anos."
Roberto Marinho
"Incansável exemplo de coerência", copyright O Globo, 17/7/00
"Barbosa Lima não tem apenas a característica singular de ter atravessado um século da História do Brasil, como político e jornalista. Mais do que isso, sua carreira tem a marca de uma permanente defesa do que era, a seu ver, o interesse nacional. O político pernambucano e o jornalista brasileiro deixam como legado um exemplo de coerência, que se expressa como exemplo incansável de sua visão patriótica do que era melhor para o país. Não é preciso concordar com todas as suas atitudes e posições para nelas reconhecer um incansável amor pelo Brasil. Ele enriqueceu, ao longo de décadas, a busca de um futuro melhor para todos nós."
Fellipe Awi
"Até no futebol, preocupação com o nível moral", copyright O Globo, 17/7/00
"Há cerca de 40 dias, numa de suas últimas entrevistas, Barbosa Lima Sobrinho falou com autoridade e paixão sobre futebol. Presidente de honra do Fluminense, contou como surgiu o amor ao tricolor e destacou a importância do Maracanã, que completava 50 anos. Barbosa Lima Sobrinho não era um especialista, mas com sua sensibilidade observava detalhes sutis e relevantes.
- Tenho a impressão de que, com o tempo, o futebol se tornou mais técnico. Com essa vocação, os disputantes passaram a ser mais apaixonados. O nível moral do futebol é que está caindo. Quando um jogador sabe que jogada está irregular, continua e faz o gol. É uma paixão tão avassaladora que dirige os jogadores em campo. Antes era diferente. Havia até uma história do Mimi Sodré, que tinha feito um gol e, quando a saída ia ser dada, ele acusou que tinha sido com a mão. Mimi Sodré era um grande jogador e um gentleman. O futebol atual tem muito mais faltas. Tornou-se uma luta muito mais difícil e é por isso que valorizo tanto o jogador moderno. Antigamente, sem tantas faltas, aparecia mais o mérito do jogador. Hoje, com tantas, o jogador sofre bastante.
Barbosa Lima Sobrinho se apaixonou pelo Fluminense ainda longe do Rio e reforçou essa paixão quando veio morar na cidade.
- Não conheço nenhum jogador do time atual. A paixão pelo Fluminense começou ainda em Pernambuco. O clube teve um período em que foi absoluto no Brasil. Passei a ser tricolor. Cheguei ao Rio quando o time que estava no auge. Foi em 1921. Em Pernambuco, minha predileção era pelo Náutico. Os clubes do Rio e o futebol não tinham importância tão grande como hoje.
O intelectual Barbosa Lima Sobrinho também se rendia aos encantos de uma pelada. E, como todo brasileiro, tinha seus jogadores prediletos.
- Praticava o futebol com meus amigos, desde Pernambuco. É difícil citar o grande jogador da história. Tinha grande admiração pelo Mimi Sodré e por um que era oficial da Marinha, chamado Emanuel. Foi um dos grandes que vi jogando. Admirava o Pelé, mas não compartilhava do espalhafato que sempre fizeram em torno dele. Friedenreich teve uma fama extraordinária. Estabelecer uma escala pode ser uma injustiça com alguns.
O Maracanã também fazia parte da vida de Barbosa Lima Sobrinho, que, coincidentemente, morreu no dia em que o torcedor brasileiro recordava, sem saudade, os 50 anos da derrota para o Uruguai, na final da Copa de Mundo.
- A fundação do Maracanã foi um grande estímulo para o futebol brasileiro. Todos os que gostamos de futebol não podemos deixar de lembrar a data, mesmo que traga recordações desagradáveis. Entre os beneméritos do futebol, é necessário incluir os construtores do Maracanã.
Seleção, é claro, era um assunto do qual também não fugia.
- Acompanho os jogos da seleção, mas não com a mesma paixão dos tempos da mocidade. Em minha opinião, o técnico Wanderley Luxemburgo está muito bem escolhido - disse.
Cláudio Weber Abramo
"Jornalista foi protagonista em momentos cruciais da vida do país", copyright Folha de S. Paulo, 17/7/00
"Alguém que passa dos cem anos de idade atinge um estado quase automático de admiração pública. A impressão que se tem é que quem chega a essa idade é um resistente.
Pois viver muito é ver muita coisa. E, no Brasil, é ver coisa feia, muita mazela social, muitas promessas não cumpridas e muitas esperanças frustradas.
Barbosa Lima Sobrinho foi testemunha e, muitas vezes, protagonista importante de alguns momentos cruciais da vida nacional, em que muitas dessas promessas e esperanças foram formuladas, transformadas, distorcidas e esquecidas.
Foi jornalista e político, escreveu cerca de 50 livros, integrou a Academia Brasileira de Letras (foi admitido no ano de 1937, quando tinha 41 anos de idade) e durante décadas presidiu a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Seu primeiro mandato data de 1926; o período de gestão ininterrupta à testa da associação iniciou-se em 1978.
Contudo, não foi por nenhuma dessas atividades em particular que ele se notabilizou: a partir de certa época indefinível, situada em algum ponto entre o golpe militar de 1964 e a queda do ex-presidente e atual candidato à Prefeitura de São Paulo Fernando Collor de Mello, Barbosa Lima Sobrinho se transformou em reserva moral da nação.
A ele, o establishment político-cultural recorria quando alguma importante questão nacional exigia um chamamento à razão.
Impeachment
O ponto mais alto desse papel referencial aconteceu quando da abertura do processo de impeachment de Fernando Collor de Mello -foi de Barbosa Lima Sobrinho a assinatura que encabeçou a ação popular que pedia a destituição do ex-presidente, acusado de montar uma máquina de corrupção centralizada no Palácio do Planalto.
Até 1921 (ou seja, até os 25 anos de idade), Lima Sobrinho atuou na imprensa de sua cidade natal, Recife (PE).
Nesse ano, mudou-se para o Rio de Janeiro, passando a trabalhar no ‘Jornal do Brasil’; ocupou diversas funções nesse jornal e com ele manteve uma colaboração regular por toda a sua vida.
Em 1935 foi eleito deputado federal e, durante o Estado Novo (período da ditadura de Getúlio Vargas), presidiu o Instituto do Açúcar e do Álcool.
Em 1945, foi eleito deputado constituinte por Pernambuco; concorreu pela legenda do Partido Social Democrático, então dominante na política brasileira.
O político
Elegeu-se governador de Pernambuco em 1948, uma gestão conturbada por ações judiciais que contestavam a legitimidade de sua eleição.
Ao término do mandato, em 1951, voltou ao Rio de Janeiro, como procurador da República. Voltou à Câmara dos Deputados em 1958, sempre por Pernambuco, mas desta vez integrando a bancada do Partido Socialista Brasileiro.
Cumpriu todo o mandato, até janeiro de 1963. Depois disso, voltou às lides jornalísticas no "JB" e a colaborações com jornais pernambucanos.
A essa altura, Barbosa Lima Sobrinho se notabilizava por posições nacionalistas que manteria durante toda a vida.
Na fase final do governo João Goulart, em 1963, criticava o governo por hesitações na condução da política econômica e por não conduzir de fato as chamadas ‘reformas de base’, que Goulart apregoava.
A história mostrou que não era o momento: a ameaça implicada por essas mesmas reformas serviu de pretexto para o golpe militar de 1964.
Após a edição do Ato Institucional nº 5, que extinguiu os partidos políticos então existentes e instaurou o bipartidarismo no Brasil, Barbosa Lima Sobrinho filiou-se ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro).
O partido reunia a oposição -ou melhor, o que se chamava na época de ‘oposição consentida’, uma vez que os adversários mais agudos do regime haviam sido relegados ao ostracismo, seja por cassação de direitos políticos, seja pela restrição dos espaços de atuação.
A ascensão de Barbosa Lima Sobrinho a uma visibilidade nacional mais ampla ganhou impulso a partir de 1973, quando compôs, como candidato a vice-presidente, a ‘anticandidatura’ de Ulysses Guimarães à Presidência da República.
Realizada por via indireta (a votação era feita no Congresso), a eleição tinha como candidato do partido oficial -a Aliança Renovadora Nacional (Arena)- o general Ernesto Geisel.
Foi a partir de 1978, como presidente da Associação Brasileira de Imprensa, que Lima Sobrinho passou a constituir ponto de referência dos movimentos que buscavam a redemocratização do país.
Liberdade de imprensa
A defesa que fazia da liberdade de imprensa -como direito de informação para o público, e não como simples direito de expressão para jornalistas- e dos direitos de cidadania associava-se a uma posição consistentemente nacionalista em matéria econômica.
O jornalista sempre repetia que os governos militares haviam sido os mais entreguistas da história brasileira.
Com a restauração da democracia formal no país, a partir da eleição (ainda indireta, pela última vez) de Tancredo Neves à Presidência da República, Barbosa Lima Sobrinho firmou-se como um dos mais eminentes representantes do que se passava, então, a chamar de ‘sociedade civil’: organizações da sociedade não ligadas, ou ligadas apenas informalmente, a instituições políticas.
O ponto alto de sua atuação pública aconteceu quando da eclosão do movimento nacional que culminou com a deposição de Collor de Mello, em 1992.
A partir daí, com a gradual transição do foco de interesse das questões políticas para as econômicas, Barbosa Lima Sobrinho viu-se cada vez mais colocado num território que nunca conhecera: o de outsider.
De fato, durante quase toda a sua vida, Lima Sobrinho operou no âmbito de posições politicamente aceitáveis para o establishment.
Mas, inicialmente com Fernando Collor de Mello, e depois com Fernando Henrique Cardoso, suas posições nacionalistas colocaram-no à margem da corrente dominante.
Ao criticar a adesão brasileira ao processo de globalização da economia (‘a transferência do público para os particulares’, dizia) e a desnacionalização que isso implica, passou a exercer uma oposição que já não era admitida, ou mesmo compreendida, pelo establishment: por exemplo, designava a presidência FHC como ‘governo de pigmeus’.
Colocou-se, assim, no que se passou a chamar de ‘contramão da história’. Nos últimos anos de sua vida, o establishment já não tinha mais uso para Barbosa Lima Sobrinho."
Janio de Freitas
"Cultura nacional perde seu maior patriota", copyright Folha de S. Paulo, 17/7/00
"Com a ausência de Barbosa Lima Sobrinho, a cultura brasileira perde o mais completo e incontestado representante, entre os nossos contemporâneos, do patriotismo civil, a idéia lúcida e ativa de compromisso com o país -o povo e suas aspirações, costumes, tradições, os bens e a soberania da Nação.
Se observadas as atividades de Barbosa Lima pelos conceitos e princípios nelas expressos, parece impossível distinguir o político, o historiador, o advogado, o procurador do Estado, o ensaísta e o jornalista que conviveram em uma só pessoa ao longo de quatro gerações. Em todas, a mesma ética intelectual, a mesma clareza de propósito, a coragem da atitude e a lealdade às próprias idéias.
Nos últimos 30 anos de sua vida, Barbosa Lima mais se notabilizou como jornalista, tal como acontecera nos seus primeiros 20 anos de adulto, quando cedo chegou a cargos altos em redações importantes no Rio. No período que agora se encerrou, era o último dos grandes articulistas-ensaístas que marcaram uma fase da imprensa brasileira, voltada para o debate político e para o debate dos temas suscitados pelo propósito, então muito difundido, de formulação de um projeto nacional, tanto político como econômico.
Reflexos, ainda e sempre, daquele propósito, seus artigos na última meia dúzia de anos e suas frequentes entrevistas eram de um inconformado com o presente. Não escondeu a indignação com as privatizações e, sobretudo, a maneira como foram feitas. A prioridade à moeda, ao sistema financeiro e à especulação, em detrimento do social, expunham-se nos seus artigos como uma condenação do presente e do futuro nacional. A atualidade e amplitude dos dados com que argumentava eram extraordinárias.
‘Doutor Barbosa’, como os jornalistas o chamávamos, deu-nos a honra de testemunhar-lhe a vida grandiosa em todos os sentidos. Sua ausência junta-se a outra, menos publicada mas igualmente pesarosa. Brilhante como jornalista, artista, publicitário, caráter e consciência, Hugo Maia, outro sempre combativo das causas sociais e nacionais, morreu em São Paulo.
Doutor Barbosa e Hugo, muito obrigado."
Beatriz Coelho Silva e Roberta Pennafort
"Barbosa Lima Sobrinho encerra sua história", copyright O Estado de S. Paulo, 17/7/00
"O jornalista Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), morreu na manhã de ontem, aos 103 anos. Internado no Centro de Tratamento Intensivo da Casa de Saúde São José, no Humaitá, na zona sul do Rio, desde a última quinta-feira, ele apresentava infecção generalizada, insuficiência renal e problemas circulatórios e respiratórios. Em Brasília, o presidente em exercício Marco Maciel decretou luto oficial de três dias. Maciel vai representar Fernando Henrique Cardoso, que está em viagem oficial a Moçambique, no sepultamento de Barbosa Lima, marcado para hoje às 11 horas, no Cemitério São João Bastista, no Rio.
O corpo do jornalista foi velado durante a tarde e a noite de ontem no Salão dos Poetas Românticos da Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual era o acadêmico mais velho. No caixão foram colocadas rosas vermelhas e a bandeira do Fluminense, seu clube de coração.
Um boletim médico informou que a morte ocorreu às 10h55 e o que estado de saúde de Barbosa teria piorado rapidamente, com uma infecção que evoluiu para falência generalizada de órgãos desde sábado à noite. O corpo chegou à ABL ontem à tarde. Às 10 horas de hoje, haverá missa de corpo presente. Em seguida, um cortejo irá até o cemitério.
Um de seus filhos, o jornalista Fernando Barbosa Lima, afirmou que o pai costumava dizer que era ‘velho demais’ e que deveria ter morrido aos 80 anos. ‘Nós dizíamos: ‘Se você tivesse morrido com 80 anos, não teria derrubado o Collor, lutado contra as privatizações nem feito outras coisas’’, contou. Ontem, o Jornal do Brasil publicou o último artigo de Barbosa, intitulado ‘A exclusão da classe média’."
Wilson Tosta e Roberta Jansen
"Trajetória pessoal confunde-se com vida do País no século 20", copyright O Estado de S. Paulo, 17/7/00
"Ele viveu a 1ª Guerra Mundial e o fim da guerra fria; a gripe espanhola e a chegada do homem à Lua; o golpe militar e o fim da ditadura; a Revolução de 30 e o impeachment de Fernando Collor. Os 103 anos de vida de Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho foram marcados por fatos políticos e históricos, dos quais, em alguns casos, foi apenas testemunha; em outros, foi personagem. Como na resistência à ditadura, quando foi anticandidato a vice-presidente, em 1974, pelo MDB, e no impeachment de Collor, em 1992, em que assinou o pedido que resultou no afastamento do presidente.
‘Quero que alguém encontre nos artigos que escrevi uma só palavra que não tenha sido em defesa do Brasil’, desafiou o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) em 1997, quando completou 100 anos, referindo-se à profissão em que começou em 1912, aos 15 anos, em Pernambuco.
Difícil: o nacionalismo acentuado caracterizou a militância política e profissional de Barbosa, que escreveu 3.600 artigos e 80 títulos, entre livros, conferências e coletâneas. Atividade que garantiu a quem era o mais velho jornalista em atividade no País um lugar na Academia Brasileira de Letras (ABL) já em 1938.
Nascido no Recife em 22 de janeiro de 1897, Barbosa Lima Sobrinho era filho do tabelião Francisco de Cintra Lima e de Joana de Jesus Barbosa Lima.
Descendente de tradicionais famílias nordestinas, foi batizado com o nome de um tio, que foi governador de Pernambuco de 1892 a 1896 e senador pelo Amazonas de 1923 a 1929. Seus primeiros artigos foram escritos aos 13 anos, para um jornal escolar. Aos 15, já era colaborador de A Província.
Barbosa graduou-se em direito em 1917, na Faculdade de Direito do Recife, e foi nomeado promotor. Paralelamente, dedicou-se ao jornalismo, como colaborador do Diário de Pernambuco, Jornal Pequeno e Jornal do Recife, de 1919 a 1921. Em abril de 1921, transferiu-se para o Rio de Janeiro e ingressou no Jornal do Brasil. Dois anos depois, tornou-se redator-chefe da publicação, dedicando os dez anos seguintes exclusivamente ao jornalismo.
Chegou à presidência da ABI em 1926 e foi reeleito em 1929. ‘Fui o mais jovem e o mais velho presidente da Associação Brasileira de Imprensa’, orgulhava-se. Em seu segundo mandato, trabalhou pela unificação das três entidades de classe dos jornalistas que existiam no Rio. ‘Para fazer essa fusão, era preciso que todos nós nos convencêssemos de que precisávamos renunciar aos nossos mandatos para eleger um presidente comum’, contou ele ao Estado, em 1997. ‘Elegemos, afinal, Herbert Moses.’
O presidente da ABI não aderiu à Revolução de 30, por considerá-la uma disputa entre oligarquias, sem projeto consistente. Mas acabou admitindo o que considerou avanços, especialmente na legislação trabalhista, trazidos pelo governo de Getúlio Vargas. Iniciou a vida política eleito deputado federal pelo Partido Social-Democrático de Pernambuco, em 1934. Defendeu o fechamento do que apontava como organizações extremistas: a Aliança Integralista Brasileira (AIB), de inspiração fascista, e a Aliança Nacional Libertadora (ANL), de orientação esquerdista.
‘Tomei todas as atitudes que deveria tomar em todas as idades’, afirmou Barbosa, em entrevista ao Estado, quando chegou ao centenário. Em 1937, Barbosa foi solidário ao golpe de Vargas que instituiu o Estado Novo. Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras no mesmo ano.
Durante o Estado Novo, Barbosa presidiu o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), onde teve como assessor Miguel Arraes, que começaria na política sob sua liderança, nos anos 40. No fim da ditadura Vargas, ajudou a preparar o primeiro programa do PSD e, sob liderança de Agamenon Magalhães, colaborou na criação do partido em Pernambuco. Acabou eleito deputado federal constituinte. No Congresso, em 1947, foi contrário à cassação dos mandatos do Partido Comunista do Brasil (PCB), que teve o registro cancelado em 1948.
‘Nunca fui comunista’, afirmou Barbosa, em 1997. ‘Mesmo na mocidade, quando aceitava as idéias do Partido Socialista alemão, eu me considerava partidário do socialismo contra o comunismo.’
A acusação de simpatia pela esquerda, porém, perseguiria Barbosa quando foi governador de Pernambuco, eleito em 1947, por uma diferença de apenas 565 votos sobre o segundo colocado, Manuel Campelo Júnior, lançado pela coligação UDN-PDC-PL. Suspeitava-se que a polícia espionasse Barbosa e grampeasse os telefones do palácio do governo. O governador chegou a enfrentar tentativas de afastá-lo judicialmente do cargo, feitas pelo adversário derrotado nas urnas. A última delas, um recurso ao Tribunal Superior Eleitoral, foi acatada, mas não houve tempo para que Campelo Júnior assumisse o cargo, que acabou transferido ao sucessor eleito, Agamenon Magalhães, em 1951.
PSB – De volta ao Rio, Barbosa foi nomeado procurador.
Em 1958, elegeu-se deputado pelo PSB de Pernambuco, integrando-se à Frente Parlamentar Nacionalista, aliança criada para combater o capital estrangeiro e a remessa de lucros ao exterior. Como parlamentar, foi um dos autores do projeto de Código Nacional de Telecomunicações, em 1960, e apoiou, no mesmo ano, a eleição de Jânio Quadros para presidente da República. Barbosa apoiou Jânio, mas repudiou sua renúncia, em 1961, que considerou uma tentativa de golpe.
Mesmo criticando o governo Goulart, por entender que o presidente vacilava em assumir uma posição nacionalista, Barbosa opôs-se ao golpe de 64. Décadas depois, embora considerasse a Revolução de 30 o episódio mais importante da história do Brasil, apontaria o golpe de 64 como o pior momento.’Não tenha dúvidas que eu sofri muito mais em 1964’, revelou.
Durante o regime militar, Barbosa defendeu os direitos civis e denunciou a censura à imprensa. ‘A liberdade de imprensa não existe sem a liberdade de informação, que não é um direito do jornalista, mas do público’, ressaltou, certa ocasião. Suas posições o colocaram em uma posição de destaque na oposição à ditadura, o que o levou a ser convidado, pelo MDB, para ser candidato a vice-presidente na chapa de Ulysses Guimarães à Presidência.
Era uma anticandidatura: a eleição era indireta, em um colégio eleitoral controlado pela ditadura, cujos candidatos pela Arena a presidente, general Ernesto Geisel, e a vice, general Adalberto Pereira dos Santos, já eram vencedores antes da ‘disputa’. Mas os dois oposicionistas usaram a campanha para percorrer o País, denunciar o autoritarismo e organizar o MDB. Geisel venceu, mas os resultados da estratégia foram colhidos em 1974, quando a oposição elegeu 16 dos 22 senadores.
Sempre nacionalista, Barbosa protestou duramente contra a adoção de contratos de risco para exploração do petróleo, em 1976, acusando-a de antinacionalista. Ele também denunciou o terrorismo de direita, que a partir daquele ano atingiu com bombas várias instituições.
Em 1978, voltou à presidência da ABI e, desde então, reeleito sucessivas vezes, não saiu mais do cargo. Foi como presidente da entidade que assinou o pedido de impeachment de Fernando Collor, em 1992, representando a sociedade civil rebelada contra o escândalo de corrupção protagonizado por Paulo César Farias, ex-tesoureiro de Collor. Barbosa considerava essa a situação política mais complicada que enfrentou.
‘Como presidente da ABI, submeti o convite ao conhecimento da associação, e só quando ela concordou aceitei ir a Brasília, juntamente com o representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)’, recordou, em entrevista ao Estado, três anos atrás. ‘Foi uma grande alegria poder contar com correligionários que pensavam como eu.’ No governo Fernando Henrique Cardoso, Barbosa opôs-se às privatizações de estatais e acusou o governo de vender o patrimônio público a preço vil. Em 1996, foi autor de algumas das ações judiciais que contestaram a venda da Companhia Vale do Rio Doce.
Acidente – Apesar dos mais de 100 anos, Barbosa se manteve em atividade até quase o fim da vida. Lia diariamente livros, especialmente romances de escritores brasileiros, e jornais, com a ajuda de uma lupa, além de escrever um artigo semanal para o Jornal do Brasil.
Mantinha a rotina de ir à ABI até se acidentar em casa, quando quebrou uma perna, em 1999. No mesmo ano, no carnaval, foi homenageado pela escola de samba União da Ilha, com o enredo Barbosa Lima, 101 Anos do Sobrinho do Brasil.
Licenciado da presidência da ABI e confinado em sua residência, em Botafogo, na zona sul do Rio, pela insegurança que sentia mesmo depois que a fratura se consolidou, Barbosa se entristeceu. Não aceitava a idéia de usar cadeira de rodas. ‘Jamais serei velho de arrastar os pés’, disse a um amigo.
Protestava contra a fisioterapia, por considerar que o estavam transformando ‘em um playboy, com aquele short’. Considerou ‘indignidade’ a sua internação, quando seus problemas respiratórios se agravaram, no dia 13.
Apesar dos 103 anos, marcados pela política e pelo jornalismo, Barbosa considerava o mais emocionante momento de sua vida a fase em que se casou, em Cambuquira (MG), com a mulher, Maria José, há 68 anos, com quem teve quatro filhos. ‘Sou um pernambucano que se casou com uma paulista numa cidade mineira.’"
O Globo
"Dignidade que superou os limites do tempo", copyright O Globo, 17/7/00
"Quando completou 100 anos, em 22 de janeiro de 1997, Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho disse que, em vez de festa, preferia que a data fosse celebrada como um ato político. ‘Seria mais agradável’, afirmou na ocasião. Sua morte - ontem, às 10h50m, por falência de órgãos generalizada - foi o último ato de um homem que superou as limitações do tempo: até o fim, aos 103 anos, manteve firme sua pena de jornalista, sem nunca abrir mão da contestação e da liberdade para opinar e influir nos rumos do Brasil. Barbosa Lima Sobrinho era casado desde 1932 com Maria José, de 93 anos, e deixa três filhos. O velório foi realizado na Academia Brasileira de Letras (ABL) e o enterro será hoje, às 11h, no mausoléu da ABL no Cemitério São João Batista.
- Ele se preocupava muito com o povo brasileiro, com a falência da classe média. Meu pai saiu na hora certa da batalha, porque daqui para a frente não seria a mesma coisa - disse o filho Fernando Barbosa Lima, de 65 anos, lembrando que o pai disse que gostaria de morrer em casa, lendo.
Na quinta-feira, poucas horas antes de ser internado na Casa de Saúde São José, no Humaitá, e com dificuldades de respirar desde terça-feira, escreveu seu último artigo para o "Jornal do Brasil", com o qual colaborava desde 1921. Ao longo de 79 anos, a única interrupção nesse trabalho ocorreu em 1973, quando apresentou sua anticandidatura à vice-presidência da República na chapa de Ulysses Guimarães, pelo MDB, num ato simbólico de resistência à ditadura.
No seu artigo ‘A exclusão da classe média’, publicado ontem, Barbosa Lima Sobrinho volta ao tema que sempre lhe foi caro durante toda a vida: a defesa do nacionalismo. ‘Não será melhor que, sobretudo como obrigação da maior parte dos formadores de opinião, se comece logo a reagir e a defender os legítimos interesses nacionais?’ indaga ele, no final.
Em 1978, quando o Brasil ainda lutava contra a repressão, Barbosa Lima assumiu pela terceira vez a presidência da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Nunca mais a deixou, sendo sucessivamente reeleito desde então. Ocupara o cargo em 1927 e 1930, com gestões inovadoras que uniram todas as entidades jornalísticas do país. Em seus documentos, quando tinha de indicar qual era sua profissão, nunca abriu mão de dizer que era jornalista. Exerceu, no entanto, muitas outras atividades.
Aos 20 anos, formou-se em direito em Recife, sua cidade natal. Três anos depois, mudou-se para o Rio de Janeiro. Além do jornalismo, envolveu-se com a atividade política. Na década de 30, foi eleito pela primeira vez deputado federal por Pernambuco e iniciou a construção de uma trajetória marcada pelo nacionalismo: ‘A convicção fundamental que guiou minha vida é o nacionalismo. O Brasil não deve se dobrar a potências estrangeiras. Enquanto eu tiver capacidade para escrever, esta será minha luta’, disse em janeiro último, no seu aniversário de 103 anos.
Em 1938, foi presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Chegou a governador de Pernambuco em 1947. Para se manter no poder teve de enfrentar um processo aberto por seus adversários que durou um ano. Abriu mão de advogados de defesa e atuou em causa própria, vencendo quatro advogados.
Quando deixou o governo do estado, em 1951, Getúlio Vargas estava em seu segundo mandato. Barbosa Lima lembrava-se da década de 50 como uma das mais ricas do século por causa da Petrobras: ‘Basta esta consagração da Petrobras para redimir sua biografia (de Vargas). Pois a Petrobras é fundamental’, afirmou numa recente entrevista. A venda da Vale do Rio Doce, em 1997, ano de seu centenário, foi considerada por ele um ato criminoso.
Ele sempre transformou suas experiências e idéias em livros. Ao longo da vida, escreveu cerca de 50, dos quais um de seus preferidos era ‘Japão, o capital se faz em casa’ (1973), em que tentava explicar por que um país como o Brasil não conseguiu chegar a se tornar uma potência mundial como o Japão. Outro favorito era ‘A presença de Alberto Torres’ (1960). A verve contida em seus artigos e ensaios fez com que fosse eleito aos 40 anos, em 1937, para a Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual foi presidente em 1953 e 1954.
Em 1992, aos 95 anos, o incansável Barbosa Lima cumpriu seu papel histórico ao ser designado, pelos partidos de oposição e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), como o primeiro signatário do pedido de impeachment do presidente Fernando Collor. Tendo participado ativamente do processo que culminou na saída do Palácio do Planalto do então presidente, o jornalista e advogado nonagenário, que virou símbolo para os jovens que saíam às ruas com a cara pintada, dizia ter o ‘sentimento de dever cumprido’. ‘Fico com a impressão de que Deus foi responsável por que, aos 95 anos, eu pudesse desempenhar essa função’, disse o homem que viraria enredo de uma escola de samba carioca, a União da Ilha, em 1999.
Durante o processo de impeachment, Barbosa Lima não poupou esforços. Não satisfeito apenas em assinar o papel, fez parte do grupo que foi a Brasília entregar o documento ao Congresso. ‘Ele foi sem nos avisar. O médico descobriu, viajou no mesmo vôo e só no aeroporto o vovô descobriu’, lembraria a neta Maria Fernanda anos depois, durante a comemoração do centenário do avô. ‘Ele deu uma bronca no médico, dizendo que não precisava ser seguido.’
Barbosa Lima nunca encarou sua saúde como um problema. Pelo contrário. Já centenário, não recusava uma boa feijoada. Até poucos anos atrás, o homem apaixonado por natação (foi nadador e remador) e futebol (centroavante amador na juventude, chegou a dirigir o clube Náutico Capibaribe, em Recife, e no Rio era torcedor fanático e presidente de honra do Fluminense) ainda se gabava de dar 400 vigorosas pedaladas por dia em sua bicicleta ergométrica. Talvez por isso nunca tenha sido um freqüentador de clínicas e hospitais. Ele, porém, creditava sua longevidade e disposição a um outro tipo de exercício: o intelectual, sempre a serviço do país.
Além do glaucoma que o fez perder a visão do olho direito e da cirurgia feita no ano passado, para a colocação de um parafuso no fêmur - quebrado em conseqüência de uma queda - Barbosa teve, ainda em 1965, um infarto, atribuído por todos os conhecidos às tensões geradas pelo regime ditatorial que tomava conta do país. Naquela época, o ferrenho defensor da democracia e da liberdade teve a casa revirada atrás de provas de sua participação no Governo João Goulart e enfrentou três inquéritos policiais militares.
A família também cumpriu um papel fundamental na vida de Barbosa Lima Sobrinho, principalmente a mulher, Maria José, com quem se casou depois de vencer, com uma observação antológica, a resistência do pai da moça, Horácio Gonçalves Pereira, advogado paulista quatrocentão, que queria evitar o casamento a qualquer custo. O futuro sogro tentou provocar a desistência de Barbosa dizendo que Maria José não sabia cozinhar, passar, lavar, costurar. O pretendente, então redator-chefe, respondeu de pronto: ‘Trabalho no jornal que tem a maior seção de classificados do país. Se quisesse uma empregada, não viria a São Paulo procurar’.
Desde então, Maria José tornou-se a companheira dileta de todas as horas e situações. Ela convenceu Barbosa Lima Sobrinho a trocar uma casa no Leme por um terreno em Botafogo, nos anos 40. Ali, supervisionou sozinha a construção de um sobrado que acomodou não apenas o casal como as dezenas de milhares de livros que o jornalista acumulou ao longo de sua vida. Do casamento nasceram quatro filhos: Roberto (engenheiro, morto aos 62 anos, em 1994), Fernando (também jornalista, produtor de TV), Carlos Eduardo (advogado, de 61 anos) e a dona de casa Lúcia (59), que deram sete netos e quatro bisnetos ao patriarca, um homem que viveu seu século intensamente, do início ao fim."
O Globo
"No velório, amigos lembram amor pelo país, copyright O Globo, 17/7/00
"O corpo do jornalista Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho foi velado ontem no salão dos poetas da Academia Brasileira de Letras (ABL) por familiares, imortais, políticos e artistas. Durante o velório, uma bandeira do Fluminense e outra do Brasil foram postas sobre o caixão, que chegou à ABL às 14h30m. Hoje, às 10h, haverá missa de corpo presente rezada pelo padre e acadêmico Fernando Bastos de Ávila. O enterro será às 11h, no mausoléu da Academia, no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Antes, o cortejo passará em frente à Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
Presidente da ABL, Tarcísio Padilha lamentou a perda do amigo e jornalista.
- Ele foi um dos pais da pátria. Era um enamorado das causas nacionais. Hoje estamos mais pobres com sua ausência. O Brasil perde uma de suas referências - disse ele, lembrando que, na próxima quinta-feira, aniversário de 103 anos da Academia, haverá uma sessão-saudade, às 16h, em homenagem ao imortal.
Um dos quatro filhos de Barbosa Lima, o advogado Carlos Eduardo, de 61 anos, disse que seu pai estava sempre atento a todos os acontecimentos:
- Ele era um homem lúcido e extremamente dócil, compreensivo, altamente democrático.
- Ele era a maior figura que o Brasil produziu neste século. Um homem íntegro, um verdadeiro patriota, que esteve sempre à frente de grandes causas como as Diretas Já e o impeachment de Collor - lembrou o ex-presidente da ABL e sócio remido da ABI, Arnaldo Niskier.
O acadêmico Antônio Olinto também ressaltou o amor que o jornalista tinha pelo país:
- Com uma posição nacionalista íntegra, ele queria de fato que o Brasil fosse uma grande nação. Era um modelo de homem público, escritor, para mim, o homem mais importante do século 20.
Para o imortal Josué Montello, Barbosa Lima ‘soube ser um grande brasileiro’.
- Ele era o que sobrava de uma geração representativa da cultura brasileira, que me precedeu na ABL. Sempre tive por ele o maior carinho, respeito e admiração. E uma grande afeição que foi consolidada pelo tempo. Poucas pessoas tiveram a fidelidade dele à solução de problemas. Barbosa soube ser homem de letras, político e, acima de tudo, um grande brasileiro.
Presidente da Fundação Biblioteca Nacional e ex-ministro da Educação e Cultura, o acadêmico Eduardo Portella também esteve no velório.
- É uma perda para a Academia, para a cultura brasileira e para nossa cidadania - avaliou. - Ele era um servidor da causa pública.
- Ele não era apenas um grande homem e um grande jornalista. Era um patrimônio moral e intelectual do Brasil. Homens com a estatura dele são raros. Nós, na verdade, perdemos um ser que é História. Poucos como ele conseguiram isso de maneira tão indelével - apontou o poeta e acadêmico Carlos Nejar.
O ex-governador e candidato à Prefeitura do Rio, Leonel Brizola, chegou à ABL às 18h, na companhia de Miro Teixeira, líder do PDT na Câmara.
- Achávamos que esse dia nunca ia chegar, que íamos antes dele - disse Brizola. - Ao longo dessa vida, Barbosa Lima construiu um círculo tão amplo, que fomos nos filiando. Ele tornou-se uma espécie de patriarca dessa nação. Todos nós nos sentimos profundamente abalados. Se o país se inspirar nos exemplos de dignidade e, sobretudo, de patriotismo dele, essa nação não terá o que temer no futuro.
Uma hora depois, o também candidato a prefeito César Maia chegou ao velório. Depois de cumprimentar cordialmente seu adversário político, rezou em frente ao caixão.
- Espero que as escolas e os políticos brasileiros olhem para o exemplo do Barbosa Lima para tomar um banho de patriotismo e construir assim um Brasil muito melhor - disse Maia, que permaneceu por dez minutos no velório.
Também estiveram ontem na ABL Cícero Sandroni, um dos membros do Conselho da ABI; Mauro Dória, conselheiro do Fluminense, time do qual Barbosa Lima foi eleito presidente de honra no ano passado; o candidato a prefeito do Rio pelo PSB Alexandre Cardoso; o deputado federal Vivaldo Barbosa; o secretário estadual de Justiça, João Luiz Pinaud; e Marcelo Cerqueira, presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros, do qual Barbosa Lima era membro desde 1935.
Do Recife, o presidente nacional do PSB, Miguel Arraes, lamentou a morte:
- Perco um amigo, alguém determinante em minha vida, e o Brasil perde uma das grandes figuras desse século. É difícil encontrar alguém com a firmeza de posição de Barbosa Lima. Com o tempo, suas convicções foram acentuadas, ao contrário de outros que com o tempo vão mudando de posição. Era uma pessoa voltada para os interesses sociais."
O Globo
"Impeachment, a última das grandes batalhas", copyright O Globo, 17/7/00
"De toda uma longa vida dedicada ao país, como jornalista, político e advogado, um episódio em especial é lembrado, com orgulho, pelos amigos de Barbosa Lima Sobrinho. Foi em 1992 quando ele, aos 95 anos, tornou-se uma espécie de guardião oficial da legalidade e moral do país, ao ser designado como o primeiro cidadão a assinar o pedido de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. E, no último grande episódio histórico do qual participou ativamente, mostrou mais uma vez, como lembra o jornalista e escritor Cícero Sandroni - conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) - sua preocupação democrática com a valorização não de apenas um único homem, mas das instituições.
Depois de ter acompanhado atentamente, como jurista, a elaboração do documento que tiraria Collor do poder, entrou em cena o Barbosa Lima Sobrinho jornalista.
- Quando Ulysses Guimarães pediu ao doutor Barbosa que assinasse o requerimento do impeachment, ele consultou todo o conselho da ABI. Fez questão de cumprir esse rito para mostrar a importância que dava à instituição - conta Sandroni, que entre 1998 e 1999 foi diretor-secretário da ABI. - O doutor Barbosa queria que ela permanecesse ativa no diálogo da política brasileira. Em todos os momentos recentes da vida pública em que houve necessidade de manifestação, ele assinou todos os documentos como presidente da ABI.
Em uma entrevista da época Barbosa Lima disse que aquele momento era um dos mais significativos da sua vida, embora lembrasse que o mais importante acontecera em 1973, quando Ulysses Guimarães e ele lançaram-se anticandidatos à Presidência da República, ‘como dois dom Quixotes sem o Sancho Pança’.
Para o jurista Evandro Lins e Silva, que chefiou a banca de advogados de acusação do ex-presidente Fernando Collor de Mello, a presença de Barbosa Lima Sobrinho no episódio do impeachment ‘era uma segurança, muito animadora’.
- Ele era uma capacidade não só como escritor e jornalista, mas também como jurista. Era um homem de bem, que defendia o Brasil contra a corrupção, defendendo a Constituição - afirma Lins e Silva, também membro da Academia Brasileira de Letras. - O Brasil perde um grande homem, que até os 103 anos ainda produzia. A ausência do grande mestre quebra o foco de resistência contra a política econômica de alienação do patriotismo nacional."
O Globo
"Luto de três dias para homenagear Barbosa", copyright O Globo, 17/7/00
"A morte do jornalista Barbosa Lima Sobrinho foi sentida por todo o país. O presidente em exercício, Marco Maciel, decretou luto oficial de três dias no território nacional, a partir de hoje. Três estados também decretaram luto: Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. O presidente Fernando Henrique Cardoso, que desembarcou ontem à noite em Maputo, Moçambique, para participar da terceira conferência dos chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, lamentou a morte do jornalista:
- É uma perda enorme, um homem da maior importância para a cultura brasileira - disse Fernando Henrique. - No avião, antes mesmo de saber que ele havia morrido, comentei que uma das coisas que eu li que mais me impressionaram foram as crônicas do Barbosa Lima quando ele era do ‘Jornal do Brasil’ ou do ‘Correio da Manhã’, não me recordo, nos anos 30, em que ele fez crônicas sobre o Congresso Nacional de uma estatura enorme, de uma compreensão do processo político enorme. Além do mais, com a longevidade dele e com a pregação contínua pela democracia, deixa uma marca profunda no Brasil - afirmou.
O vice-presidente Marco Maciel, que vem ao Rio para o enterro, declarou:
- Barbosa Lima Sobrinho, conterrâneo, a quem desde cedo aprendi a admirar, marcou sua extensa e sobretudo intensa vida por uma coerente conduta nas diferentes atividades que desempenhou: na política, no jornalismo e como escritor. Seu desaparecimento nos deixa, ao lado de uma vasta contribuição intelectual, o exemplo de uma conduta marcada por princípios éticos.
No Rio, onde Barbosa Lima morou grande parte da sua vida, o luto oficial de três dias foi decretado pelo governador em exercício, deputado Sérgio Cabral Filho:
- O Brasil perdeu hoje um dos maiores brasileiros do século - disse. - O doutor Barbosa foi um grande homem. Um exemplo de cidadão que sempre lutou em favor da liberdade de expressão e da democracia.
O prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde, também decretou luto e lamentou a perda:
- Era um homem admirável, de coerência e luta por ideais, teve fidelidade por suas idéias. Admiro as pessoas que mantêm um percurso permanente - declarou.
Em Pernambuco, terra natal do jornalista, o luto oficial será de oito dias. O governador Jarbas Vasconcelos, que vem para o enterro acompanhado do prefeito do Recife, Roberto Magalhães, e do ex-prefeito Pelópidas Silveira, amigo do acadêmico, lastimou a perda.
- Ele foi um dos brasileiros de maior destaque do século XX, e um presente que Pernambuco deu para o Brasil - disse Jarbas Vasconcelos. - Foi um dos maiores governadores pernambucanos. Nunca esqueceu seu estado, referindo-se a ele em livros e artigos. Como articulista, sempre foi uma voz lúcida na análise dos problemas brasileiros e na defesa dos mais carentes, sua preocupação constante até a morte. Nunca deixou de lutar pela liberdade, pela justiça social e de posicionar-se contra qualquer forma de opressão.
O governador de São Paulo, Mário Covas, também decretou luto, de três dias, pela morte do jornalista:
- Há tanto tempo o país convive com a personalidade de Barbosa Lima Sobrinho que todos nós já o considerávamos eterno - disse Covas. Mas o tempo é o senhor das coisas e tira hoje ao Brasil e aos brasileiros este grande homem, cujas preocupações únicas eram a verdade e a justiça. Sob sua égide, tornou ainda dignos o jornalismo e a política. Atravessou o século com destemor e ousadia, para deixar um legado exemplar. Anticandidato uma vez, será para sempre o vitorioso da liberdade e da democracia."
Jornal do Brasil
"Rosas vermelhas para Barbosa Lima na ABL", copyright Jornal do Brasil, 17/7/00
"Apesar do dia chuvoso, muitos amigos foram ontem à Academia Brasileira de Letras prestar a última homenagem a Barbosa Lima Sobrinho. O clima de consternação, respeito e, principalmente, admiração tomava conta do Salão dos Poetas Românticos, onde foi velado o corpo do imortal. Vestido com o fardão da Academia e coberto por rosas vermelhas, sua expressão era de descanso. Todos faziam questão de ressaltar a genialidade do jornalista que simbolizava como ninguém a soberania do país. O momento de maior comoção foi quando a neta Fernanda e o amigo e ex-governador Leonel Brizola estenderam a bandeira do Brasil sobre o caixão. ‘Achei que só a bandeira do Fluminense era pouco, tinha que ter uma Bandeira Nacional’, justificou a neta. O ato foi aplaudido por todos os presentes.
‘A pátria está órfã. Poucos homens puderam mostrar seu amor ao país de tal maneira. Hoje nós estamos pobres’, lamentou Tarcísio Padilha, presidente da ABL. Um dos três filhos de Barbosa Lima, Fernando, revelou que o pai gostaria de ter morrido em casa lendo um livro. ‘Como um guerreiro, ele soube sair na hora certa’, disse.
Do lado de fora, a bandeira do Brasil a meio mastro representava o luto da nação. Coroas de flores chegavam a toda hora. O Partido Comunista, o governador do Rio, Anthony Garotinho (que está em Londres), o governador em exercício, Sérgio Cabral Filho, e também a diretoria do Fluminense, time de coração de Barbosa Lima, foram alguns dos que enviaram flores.
Com os olhos em lágrimas, Leonel Brizola falou emocionado sobre a profundidade e a amplitude de Barbosa Lima Sobrinho. ‘Era preciso que alguém sistematizasse a obra de Barbosa para que as novas gerações não percam o exemplo que ele deixou’, sugeriu. Depois de cumprimentar a família e cobrir o caixão com a Bandeira Nacional, Brizola saiu dizendo: ‘Perdemos o nosso combatente.’
Na saída, um encontro inesperado, mas amigável. O ex-governador encontrou o também candidato à prefeitura César Maia. Os dois se abraçaram e cordialmente se despediram. César entrou no salão e lembrou a amizade que tinha com o jornalista. ‘É o que o Brasil tem de mais ético. Deu um banho de patriotismo e ética para a construção de um Brasil melhor’, afirmou.
‘É a maior figura que o Brasil produziu neste século, um homem reto, íntegro, um verdadeiro patriota. A academia chora, a ABI chora, todos nós choramos a perda dele’, disse o escritor Arnaldo Niskier, que presidiu a academia em 1998 e 1999. Na Sala dos Fundadores, ao lado do velório, um vídeo exibia entrevistas antigas do jornalista, expondo seu pensamento nacionalista.
Os filhos contaram que, enquanto estava internado, Barbosa Lima dizia: ‘Estou aqui na CPI da morte, tiraram meu sapato, minha roupa, tiraram tudo.’ O jornalista foi levado para o hospital na quinta-feira, após escrever artigo para o JB. Com dificuldade para respirar, a família acreditava que ele estivesse com pneumonia e acreditava na cura.
Na quinta-feira, dia 20, será prestada uma última homenagem ao imortal. Durante a Sessão da Saudade, parentes, amigos e acadêmicos lembrarão da vida e da obra de Barbosa Lima Sobrinho.
Jornal do Brasil
"Maciel decreta luto de 3 dias", copyright Jornal do Brasil, 17/7/00
"O presidente da República em exercício, Marco Maciel, decretou ontem luto oficial de três dias pela morte do jornalista Barbosa Lima Sobrinho. Ao desembarcar em Maputo, capital de Moçambique, Maciel mostrou-se abalado. ‘Foi uma perda enorme, ele era um homem de grande importância para a cultura e o processo político brasileiro’, disse.
Em Pernambuco, o governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) decretou luto oficial de oito dias pela morte de Barbosa Lima Sobrinho, e ofereceu à família a colaboração do governo, se desejasse fazer o funeral no Recife.
O governador em exercício do Rio de Janeiro, deputado estadual Sérgio Cabral Filho, decretou luto oficial de três dias a partir de hoje pela morte do jornalista. O mesmo fez o governador de São Paulo. Segundo Mário Covas, Barbosa Lima será, para sempre, um vitorioso na defesa da liberdade e da democracia.
O senador Pedro Simon (PMDB-RS), velho amigo de Barbosa Lima, pedirá hoje à Comissão Representativa do Congresso Nacional uma sessão solene em homenagem a Barbosa.
O líder do governo na Câmara, deputado Artur Virgílio Neto (PSDB-AM), lembrou embora tenha sido signatário do pedido de impeachment de Fernando Collor de Mello, por entender que o então presidente quebrara as regras da democracia, Barbosa Lima negou-se a apoiar a campanha ‘Fora FHC’, contra o presidente Fernando Henrique. ‘Ele combatia Fernando Henrique, mas não defendia sua deposição ou a quebra das regras constitucionais’, disse Virgílio."
REPERCUSSÃO
Folha de S. Paulo
"Repercussão", copyright Folha de S. Paulo, 17/7/00
"Fernando Henrique Cardoso, presidente da República, em viagem a Maputo, capital de Moçambique:
‘É uma perda enorme. Barbosa Lima Sobrinho é um homem da maior importância para a cultura brasileira.’
Marco Maciel, presidente da República em exercício:
‘Barbosa Lima Sobrinho, conterrâneo e quem desde cedo aprendi a admirar, marcou sua extensa e, sobretudo, intensa vida por uma coerente conduta nas diferentes atividades que desempenhou: na política, no jornalismo e como escritor. Seu desaparecimento nos deixa ao lado de uma vasta contribuição intelectual, exemplo de uma conduta marcada por princípios éticos.’
Mário Covas, governador de São Paulo:
‘Há tanto tempo o país convive com a personalidade de Barbosa Lima Sobrinho que todos nós já o considerávamos eterno. Mas o tempo é o senhor das coisas e tira hoje ao Brasil e aos brasileiros este grande homem, cujas preocupações únicas eram a verdade e a Justiça. Sob sua égide tornou ainda mais dignos o jornalismo e a política. Anticandidato uma vez, será para sempre o vitorioso da liberdade e da democracia.’
Itamar Franco, governador de Minas Gerais:
‘(Ele era) uma figura extraordinária no seu aspecto humano e com uma visão patriótica que estamos perdendo. Poucos brasileiros conseguiram compreender o momento atual. Barbosa Lima foi um deles. Oxalá possam esses homens adormecidos enxergar o Brasil que a gente quer.’
Jarbas Vasconcelos, governador de Pernambuco:
‘Barbosa Lima Sobrinho foi um dos brasileiros de maior destaque no século 20 e um presente que Pernambuco deu ao Brasil. Enquanto viveu, ele não deixou um só minuto de lutar pela liberdade, pela justiça social e de se posicionar contra toda e qualquer forma de opressão.’
Marco Aurélio de Mello, ministro e presidente interino do STF (Supremo Tribunal Federal):
‘Um homem público que sempre teve uma preocupação muito grande com o nome do Brasil. Toda sua trajetória foi voltada para a realização do objetivo por ele traçado. O Brasil não perde porque existem continuadores da sua obra, mas o sentimento geral da sociedade é de perda.’
Paulo Costa Leite, ministro e presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça):
‘Barbosa Lima Sobrinho sempre teve o nome escrito nos anais da história dos que lutaram em defesa da Justiça e da democracia no Brasil. Agora que nos deixa, em um momento de tão poucas referências de coerência e coragem, fica uma sensação de vazio. Nos resta a esperança de que ele se torne para as novas gerações um exemplo a ser seguido.’
Roberto Freire, senador (PPS-PE):
‘O país perdeu um homem da resistência democrática, que marcou este século. Eu, particularmente, sinto essa perda como brasileiro e pernambucano. Ele sempre teve uma preocupação muito grande com o problema da poupança nacional. Foi um homem que tinha uma visão muito clara do que é interesse nacional.’
Pedro Simon, senador (PMDB-RS):
‘O Brasil perde um de seus homens mais brilhantes e, principalmente, um dos mais honrados da sua história’.
Ruy Mesquita, diretor-responsável de ‘O Estado de S. Paulo’:
‘Embora tendo posições sistematicamente opostas às nossas, foi de uma coerência exemplar, fiel a suas idéias.Teve papel importante para o país presidindo a ABI. Foi um defensor da democracia, da liberdade de imprensa. Tão ou mais coerente que ele, só mesmo Luiz Carlos Prestes.’
Paulo Cabral, presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais):
‘Não podemos fugir do lugar-comum. O Brasil ficou mais pobre e a imprensa perde um grande vulto. Barbosa Lima Sobrinho era um paradigma, um símbolo da imprensa livre do Brasil. Todos nós da imprensa lamentamos sinceramente a sua morte.’
Goffredo da Silva Telles Júnior, advogado, professor-emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Fadusp):
‘Barbosa Lima é retidão, firmeza de opiniões, ética, modelo de comportamento diante de uma longa vida. Uma lição admirável para pessoas de nossa geração.’
Evandro Lins e Silva, 88, jurista e membro da ABL:
‘Barbosa era uma figura símbolo e emblemática do Brasil. Devemos reverenciar sua memória e os serviços relevantíssimos que ele prestou ao Brasil. Sua pureza e sua conduta diante da vida eram louváveis. O Brasil perde um de seus maiores filhos de toda sua História.’
Dalmo Dallari, advogado e professor da Fadusp:
‘É um personagem da história brasileira. Uma figura exemplar pela absoluta coerência e pelo desprendimento em relação a vantagens pessoais de qualquer espécie. É preciso que as novas gerações sigam o exemplo dele, não apenas em palavras, mas na prática.’
Roberto Romano, professor de ética e filosofia política da Unicamp:
‘Barbosa Lima Sobrinho significa um valor que nos últimos anos perdemos muito: o valor do patriotismo. Se nós pensarmos que são 103 anos de vida em defesa democracia, podemos dizer que é um pouco do Brasil que está sendo perdido hoje.’
Fernando Barbosa Lima, jornalista, filho de Lima Sobrinho:
‘Ele trabalhou até o fim, foi um grande guerreiro e soube sair da luta na hora certa. Ele estava ligado a tantos aparelhos que, se conseguisse se recuperar, não seria mais o mesmo. Tenho certeza que, se meu pai pudesse escolher, teria escolhido morrer em casa, lendo um livro.’
Tarcísio Padilha , 71, filósofo, presidente da ABL:
‘A visão universal que ele tinha das coisas possuía um lado nacionalista, um sentimento de amor pelo Brasil. Sempre foi bastante firme em seus pontos de vista, mas era profundamente civilizado, por isso respeitava o diálogo e as opiniões divergentes. Ele foi um dos pais da pátria. Poucos homens tiveram tanto amor pelo país como ele teve.’
Nélida Piñon, escritora, integrante da ABL:
‘Para nós brasileiros, Barbosa tem um sentido imortal. Tínhamos nos acostumado com sua imortalidade moral, por isso é uma realidade muito difícil e muito penosa pensar que ele morreu. Ele não era amado porque intimidava, mas porque permitia o diálogo que abraçava as melhores causas humanas.’
Josué Montello , escritor e membro da ABL:
‘Ele era um homem com muitos caminhos. O que caracterizava Barbosa era a fidelidade ao Brasil. Guardamos dele a melhor memória, de um homem que quis um mundo melhor.’
Paulo Sérgio Pinheiro, cientista político:
‘Talvez nenhuma outra figura de intelectual brasileiro tenha passado todo o século numa linha de tanta coerência e consistência como Barbosa Lima Sobrinho. Um caso muito raro.’
Oscar Niemeyer, 93, arquiteto:
‘Barbosa Lima Sobrinho foi um homem que sempre lutou nas mesmas trincheiras que eu. Fica a imagem de um homem que entendia a vida e a injustiça que está por aí, um exemplo nesse momento tão difícil da vida do país.’
Jornal do Brasil
"Depoimentos", copyright Jornal do Brasil, 17/7/00
"‘Foi uma perda enorme. Barbosa foi um homem que teve importância fundamental para a cultura brasileira. No avião, antes mesmo de saber que ele tinha morrido, falei que me impressionaram as crônicas de Barbosa Lima no JB, sobre o Congresso. São de uma estatura enorme, de uma compreensão profunda do processo político. Sua pregação contínua pela democracia deixou uma marca profunda no Brasil’ - Fernando Henrique Cardoso, presidente
‘Barbosa Lima Sobrinho, conterrâneo a quem desde cedo aprendi a admirar, marcou sua extensa e, sobretudo, intensa vida por uma coerente conduta nas diferentes atividades que desempenhou: na política, no jornalismo e como escritor. Seu desaparecimento nos deixa, ao lado de uma vasta contribuição intelectual, exemplo de uma conduta marcada por princípios éticos’ - Marco Maciel, vice-presidente no exercÍcio da Presidência
‘Foi uma longa vida dedicada ao bem comum. Político, escritor e humanista que deixa um exemplo extraordinário para quem quer se pautar pela dignidade no trato das questões de interesse público’ - Michel Temer, presidente da Câmara dos Deputados
‘Barbosa Lima Sobrinho sempre teve seu nome inscrito nos anais da história dos que lutaram em defesa da Justiça e da democracia no Brasil. Agora que nos deixa, em um momento de tão poucas referências de coerência e coragem, fica uma sensação de vazio. Nos resta a esperança de que ele se torne para as novas gerações um exemplo a ser seguido.’ - Paulo Costa Leite, presidente do STJ)
‘Nós nos habituamos a ouvir Barbosa Lima Sobrinho nos momentos de crise. Sua voz era a voz em defesa dos menos favorecidos, do Brasil que ele sempre sonhou e desejou inviolável. Vai nos fazer muita falta’ - Reginaldo de Castro (presidente da OAB)
‘Barbosa era um símbolo da dignidade e da resistência democrática de um país tão carente de dignidade e de sentimento democrático como é o Brasil. Esperamos que essa semente que germinou por três séculos renda frutos’ - Sepulveda Pertence, ex-presidente e atual ministro do STF
‘O Brasil perde uma personalidade marcante por uma longa e fecunda existência. Deu ao Brasil testemunho de honradez’ - Dom Eugenio Sales, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro
‘Barbosa Lima era um homem que sabia o valor da democracia porque passou a vida lutando por ela’ - Arthur Virgílio, lÍder do governo no Congresso
‘A história de vida do Barbosa se confunde com a história do Brasil na luta pela democracia e pela ética. Como jornalista e político é um paradigma para atuais e futuras gerações’ - Deputado José GenoÍno (PT-SP)
‘Barbosa Lima Sobrinho era uma das últimas referências nacionais de moral e dignidade. Ele sempre colocou o país acima de seus interesses pessoais’ - Senador Pedro Simon (PMDB-RS)
‘Barbosa Lima Sobrinho sempre esteve à frente das lutas democráticas do país. É uma grande perda’ - Elizabeth Silveira, vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais
‘Foi uma perda irreparável, um prejuízo para o Brasil. Barbosa Lima participou de todos os fatos importantes deste século sempre com postura sintonizada com os anseios do país e do povo brasileiro’. - Deputado Inácio Arruda (PC do B-CE)
‘Ele foi um presente que Pernambuco deu ao Brasil’ - Jarbas Vasconcelos, governador de Pernambuco
‘Há tempo o país já convive com a personalidade de Barbosa Sobrinho, e todos já o considerávamos eterno. Mas o tempo é o senhor das coisas. Ele deixa ao Brasil e aos brasileiros seu grande exemplo, cujas preocupações únicas eram a verdade e a justiça’ - Mário Covas, governador de São Paulo
‘Barbosa Lima é um homem símbolo do Brasil. Era tão extraordinário que no dia de sua morte saiu o artigo de domingo que, há 70 anos, escrevia no JORNAL DO BRASIL. Ele era um homem de mais de um século, mas faz falta à atualidade brasileira porque combatia a alienação do patrimônio nacional. O Brasil perde o que os gregos chamavam de ‘um varão de Plutarco’. Não conheço nada na vida de Barbosa Lima que possa ser chamado de pecado, ele tinha uma honradez absoluta. O país está de luto, perdeu um dos filhos mais ilustres, competentes e honrados de sua história’ - Evandro Lins e Silva, jurista
‘Barbosa Lima vai ficar imortalizado como uma figura fantástica no jornalismo, na cultura e no esporte. Foi um século de serviço à cultura. No ano passado ele foi homenageado pelo Fluminense com o título de presidente de honra. Nada mais merecido’ - David Fischel, presidente do Fluminense
‘Intelectual e jornalista brilhante, cidadão exemplar, patriota, Barbosa Lima Sobrinho foi um dos mais notáveis filhos deste país. Todos nós devemos nos sentir honrados por termos sido seus contemporâneos’ - Ferreira Gullar, poeta
‘Ele foi um homem raro, extraordinário. Num momento tão difícil para o Brasil, a perda de Barbosa Lima é irreparável. Ele deixou uma lição de perfeição para todos nós. Eu o amava muito’ - Lygia Fagundes Telles, escritora
‘Se havia uma unanimidade nacional, ela se chamava Barbosa Lima. Ele era um cara valente, brilhante e, graças à longa vida que teve, brigou por grandes causas ao longo desse século’ - Sílvio Tendler, cineasta
‘Barbosa Lima Sobrinho foi, acima de tudo, um lutador. Sempre defendeu os interesses do Brasil e nunca se desviou desse caminho’ - Celso Fontenelle, presidente da OAB-RJ
‘Barbosa Lima Sobrinho simbolizava a nossa eternidade, era uma espécie de âncora para os brasileiros. No momento em que ele parte, ficamos com a sensação de não termos quem nos sustente. Era um homem de muita força, presença e modernidade, uma das pessoas mais extraordinárias que o Brasil concebeu. Sua morte me choca profundamente’ - Ivo Pitanguy, cirurgião plástico e membro da ABL
‘Um exemplo de cidadão que lutou pela liberdade de expressão e a democracia’ - Sérgio Cabral Filho, governador em exercício do estado do Rio
‘Barbosa Lima foi um grande brasileiro, e defendeu seus ideais até o fim. Foi um dos maiores jornalistas que o Brasil teve neste século’ - Luiz Paulo Conde, prefeito do Rio
‘O Brasil perde um lutador aguerrido, que defendia as instituições e a justiça social’ - Cesar Maia, candidato a prefeito do Rio"
O Estado de S. Paulo
Repercussão, copyright O Estado de S. Paulo, 17/7/00
"Marco Maciel, presidente em exercício – ‘Conterrâneo a quem desde cedo aprendi a admirar, (Barbosa Lima) marcou a sua intensa vida por uma coerente conduta nas diferentes atividades que desempenhou: na política, no jornalismo e como escritor.’
Ruy Mesquita, diretor-responsável do Estado – ‘Embora tendo posições sistematicamente opostas às nossas, foi de uma coerência exemplar, fiel às suas idéias. Teve papel importante para o País na presidência da ABI. Foi um defensor da democracia, da liberdade de imprensa. Tão ou mais coerente que ele, só mesmo Luís Carlos Prestes.’
Oscar Niemeyer, arquiteto – ‘Ele era um sujeito fantástico que passou a vida inteira defendendo o País. A notícia deixa triste a todos.’
Raymundo Faoro, advogado e ex-presidente da OAB – ‘Jamais conheci alguém que tenha amado tanto o Brasil e acreditado tanto no futuro glorioso do País.’
Roberto Marinho, jornalista, empresário e acadêmico – ‘Ele não tinha apenas a característica singular de ter atravessado um século da história do Brasil, como político e jornalista. Mais do que isso, sua carreira tem a marca de uma permanente defesa do que era, a seu ver, o interesse nacional.’
Mário Covas, governador de SP – ‘Vindo de um século cada vez mais distante, atravessou o nosso com destemor e ousadia, para deixar um legado exemplar que vencerá os anos e ganhará o milênio. Anticandidato uma vez, será para sempre o vitorioso da liberdade e da democracia.’
Mário Lago, ator e compositor – ‘Eu fico cada vez com mais pena do Brasil.’
Celso Furtado, economista – ‘Era uma pessoa especial. Sempre o admirei por ser o brasileiro que mostrou coerência na denúncia dos problemas brasileiros por um século.’
Evandro Lins e Silva, advogado, acadêmico – ‘Ele é tão admirável que, aos 103 anos, sua morte faz falta imediata ao País. Barbosa Lima Sobrinho é um símbolo do Brasil, uma figura emblemática, com probidade pessoal e intelectual.’
Tarcísio Padilha, presidente da ABL – ‘O Brasil encontra-se na orfandade, porque Barbosa Lima Sobrinho tinha amor pelo Brasil. Ele era bastante firme na defesa de seus pontos de vista, mas era também o homem do diálogo e do respeito ao próximo.’
Maria da Conceição Tavares, economista – ‘Com ele morre também o século 20, pois Barbosa Lima Sobrinho esteve atuante em todos os fatos da nossa vida política nesse período.’
José Genoíno, deputado federal (PT-SP) – ‘Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho sintetiza a história da luta pela democracia e pela ética. Ele foi e continuará sendo um marco, pela sua postura de coerência como jornalista e político.’"
O Globo
"Repercussão", copyright O Globo, 17/7/00
"‘Eu o estimava muito. É uma figura importante do Brasil que desaparece. Ele deixou um exemplo de patriotismo e lutava pela nossa soberania. O Barbosa era um sujeito fantástico, muito decente. É uma perda muito grande. Será uma figura para a gente lembrar com saudade e muito respeito.’ OSCAR NIEMEYER Arquiteto
‘Barbosa Lima Sobrinho sempre teve o seu nome inscrito nos anais da história dos que lutam em defesa da Justiça e da democracia no Brasil. Agora que nos deixa, em um momento de tão poucas referências de coerência e coragem, fica uma sensação de vazio.’ MINISTRO PAULO COSTA LEITE Presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ)
‘O Brasil perdeu um grande homem, uma de suas principais cabeças pensantes. O país vai sentir a sua falta, pela postura sempre correta que teve.’ ITAMAR FRANCO Governador de Minas Gerais
‘Embora tendo posições sistematicamente opostas às nossas, foi de uma coerência exemplar, fiel às suas idéias. Teve papel importante para o país na presidência da ABI. Foi um defensor da democracia e da liberdade de imprensa.’ RUY MESQUITA Diretor responsável do jornal ‘O Estado de S. Paulo’
‘Não é apenas a morte de um intelectual e sim de um guerreiro, aliás o maior que o Brasil já teve. Ele lutou até o fim nesse mar de lama que o Brasil está vivendo.’ LYGIA FAGUNDES TELLES Escritora e acadêmica
‘Apagou-se um farol importante no país, uma referência política, social e cultural. Barbosa foi um exemplo de coerência no cenário brasileiro e sua morte é uma grande perda.’ LUIZ CARLOS BARRETO Cineasta
‘Era um homem admirável, daqueles que precisavam ficar para semente. Ele participou dos acontecimentos mais importantes do século, sempre com uma estatura moral inquestionável.’ ANTONIO TORRES Escritor
‘A história do Barbosa Lima Sobrinho se confunde com a luta pela democracia no Brasil. Ele sempre esteve presente nos principais momentos do país e transmitiu muita coerência, tranqüilidade e fé no futuro do Brasil. Era um otimista jovem, apesar da avançada idade.’ JOSÉ GENOÍNO Deputado (PT-SP):
‘Nós nos habituamos a ouvir Barbosa Lima Sobrinho em momentos de crise. Sua voz era a voz do menos favorecido, do Brasil que ele sempre desejou e sonhou inviolável.’ REGINALDO DE CASTRO Presidente da OAB
BIOGRAFIA
ABI
"Barbosa Lima Sobrinho", copyright ABI <www.abi.org.br>
"Barbosa Lima Sobrinho (Alexandre José B. L. S.), advogado, jornalista, ensaísta, historiador, professor e político, nasceu em Recife, PE, em 22 de janeiro de 1897. Eleito em 28 de abril de 1937 para a Cadeira n. 6 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Goulart de Andrade, foi recebido em 13 de janeiro de 1938, pelo acadêmico Múcio Leão.
É filho de Francisco Cintra Lima e de d. Joana de Jesus Cintra Barbosa Lima. Estudou o curso primário na Capital Federal, concluindo-o em Recife. Na mesma cidade, iniciou o secundário no Colégio Salesiano, terminando-o no Instituto Ginasial Pernambucano. Em 1913, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife, onde colou grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1917. Foi adjunto de promotor do Recife, em 1917, e advogado no período imediato ao de sua formatura. Colaborou na imprensa pernambucana, no Diário de Pernambuco, no Jornal Pequeno e, principalmente, no Jornal do Recife, onde escreveu a crônica dos domingos, de outubro de 1919 a abril de 1921. Colaborou ainda na Revista Americana, Revista de Direito, Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, no Correio do Povo, de Porto Alegre, e na Gazeta, de São Paulo.
Mudando-se para o Rio de Janeiro, dedicou-se ao jornalismo. Trabalhou no Jornal do Brasil desde abril de 1921, a princípio como noticiarista, mais tarde como redator político e, desde 1924, como redator principal. Mantém, até hoje, um artigo semanal nesse jornal. Na Associação Brasileira de Imprensa, exerceu a presidência nos períodos de 1926 a 1929; a presidência do Conselho Administrativo de 1974 a 1977; e novamente a presidência em 1978-80 e nos períodos subseqüentes, até o de 1990-92. Foi proclamado Jornalista Emérito pelo Sindicato da categoria de São Paulo.
Eleito deputado federal por Pernambuco para o triênio 1935-37, foi escolhido líder de sua bancada, membro da Comissão de Finanças e relator do Orçamento do Interior e Justiça.
Foi presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool, de 1938 a 1945, quando tomou posse da cadeira de deputado federal por Pernambuco, na Assembléia Constituinte de 1946. Na Câmara dos Deputados, em 1946, foi membro da Comissão de Finanças e designado relator do orçamento do Ministério da Guerra. Renunciou à cadeira de deputado em 1948, para assumir, a 14 de fevereiro do mesmo ano, o cargo de governador do Estado de Pernambuco, exercendo o mandato até 31 de janeiro de 1951.
Foi procurador da Prefeitura do Distrito Federal e professor do ensino superior nos cursos de Ciências Sociais e Econômicas. Regeu a cadeira de Política Financeira e, mais tarde, a de História Econômica, na Faculdade de Ciências Econômicas Amaro Cavalcanti, do Estado da Guanabara. Deputado federal por Pernambuco para a legislatura 1959-1963, integrou, nessa Casa do Congresso, a Comissão de Justiça.
É sócio benemérito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto dos Advogados do Rio de Janeiro; benemérito da Associação Brasileira de Imprensa e sócio correspondente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e do Instituto de Advogados de São Paulo; sócio efetivo da Sociedade de Geografia; sócio honorário do Instituto Histórico de Goiana (PE); presidente de honra do XIV Congresso Nacional de Estudantes; professor honorário da Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife; presidente do Pen Clube do Brasil em 1954; membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa; membro do Instituto de Direito Público e da Fundação Getúlio Vargas.
Recebeu a Medalha Quadragésimo Aniversário da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1981); o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco e o Prêmio Imprensa e Liberdade, conferido pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (1984); o Prêmio Governo do Estado do Rio de Janeiro e o título de Cidadão Benemérito da Cidade do Rio de Janeiro (1987); o Prêmio Juca Pato, conferido pela União Brasileira de Escritores; o Prêmio San Tiago Dantas (1989); e a Medalha Tiradentes (1992), conferida pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.
Na Academia, foi secretário-geral em 1952; e presidente em 1953 e 1954; diretor da Revista da Academia em 1955-56, diretor da Biblioteca de 1957 a 1978 e tesoureiro de 1978 a 1993.
PRINCIPAIS OBRAS
LÍNGUA E LITERATURA : Árvore do bem e do mal (1926); O vendedor de discursos (1935); A questão ortográfica e os compromissos do Brasil (1953); A língua portuguesa e a unidade do Brasil (1958); Os precursores do conto no Brasil (1960).
DIREITO, ENSAIO, HISTÓRIA, JORNALISMO E POLÍTICA : O problema da imprensa (1923); Pernambuco e o Rio São Francisco (1929); A verdade sobre a Revolução de Outubro (1934); Interesses e problemas do sertão pernambucano (1937); O devassamento do Piauí (1946); A Revolução Praieira (1949); A Comarca do Rio São Francisco (1950); Artur Jaceguai (1955); Sistemas eleitorais e partidos políticos. Estudos constitucionais (1956); A auto-determinação e a não-intervenção (1963); Desde quando somos nacionalistas (1963); Presença de Alberto Torres (1968); Japão: o capital se faz em casa (1973); Pernambuco: da Independência à Confederação do Equador (1979); Antologia do Correio Braziliense (1979); Estudos nacionalistas (1981); Assuntos pernambucanos (1986)."
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