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MEMÓRIA EVANDRO CARLOS DE ANDRADE, 1931-2001 Alberto Dines Jornalista completo, dos poucos que restaram: escrevia com perfeição, comandava como grande líder, conhecia tudo da profissão – das doutrinas mais sofisticadas às técnicas mais eficazes. Um estrategista disciplinado e exigente, capaz de transformar aquele vespertino desorganizado e antiquado que foi O Globo no fim dos anos 60 num jornalão moderno, um dos grandes diários brasileiros. Embora não fosse homem de televisão fez uma revolução na Central Globo de Jornalismo procurando a qualidade, a densidade e a continuidade que o jornalismo eletrônico de uma rede comercial de grande porte geralmente menospreza. Tinha caráter, grandeza, sabia bater firme mas também sabia ser generoso e fidalgo. Jogava limpo e claro – uma raridade em nossas redações. Foi um dos poucos jornalistas que o grande Castelinho – seu amigo íntimo, Carlos Castelo Branco – permitiu que o substituísse na memorável "Coluna do Castelo", na página 2 do Jornal do Brasil. A longa amizade entre os dois gigantes da profissão (embora parecessem Mutt & Jeff na aparência) começou no exato momento em que o jornalismo brasileiro ingressou na modernidade: a magnífica experiência do Diário Carioca. Prova e fruto desta bela amizade foi o livro póstumo de Castelo Branco, A renúncia de Jânio – um depoimento (Editora Revan, 1996), organizado por Evandro seguindo precisas instruções do autor. Peça breve e definitiva que esclareceu, 35 anos depois, um dos capítulos mais misteriosos, mais dramáticos e também mais ridículos da história moderna brasileira. Com meio século de contínuo exercício profissional (talvez só interrompido durante os 7 meses de Jânio Quadros, quando foi subsecretário de Imprensa da Presidência) e algumas décadas ocupando as mais altas funções em veículos da maior relevância, jamais deixou-se envolver pelos braços e abraços do poder. Nem permitiu que o seu juízo fosse maculado por preferências ideológicas ou partidárias. Tinha convicções, crenças, opiniões mas, como sempre foi repórter e depois editor, preferia mantê-las sob reserva em vez de exibi-las. Não fazia o jogo da galera nem das galerias. Não procurava o aplauso fácil das corriolas e igrejinhas. Tinha uma tarefa, missão, compromisso consigo mesmo – fazer o melhor. Decentemente. Conviveu com um seleto grupo de monumentos do nosso jornalismo e deles pode-se dizer que foi o legítimo herdeiro – o citado Castelinho, Pompeu de Souza, Prudente de Morais Neto e Otto Lara Resende. Jornalistas e intelectuais em partes rigorosamente iguais, espíritos superiores, representantes daquilo que o Rio de Janeiro produziu de melhor (embora alguns fossem emigrados): cosmopolitismo, cultura, refinamento, estatura moral. Sua geração atravessou duas ditaduras e nesta difícil jornada existencial e profissional estabeleceu um pacto com a democracia. Sem hífens ou apostos. Sem "ismos". Talvez a última fornada de humanismo numa tribo cada vez mais canibal e antropofágica. Bem formado e informado, detestava o lustre e o verniz, não exibia ilustração. Tudo o que sabia estava embutido na sua natureza, no seu modo de agir. Mas permitia-se o deleite de ouvir e falar sobre música clássica. De preferência, de câmara. Com este seu distante amigo, quando a doença já o exauria, comentou sobre as sonatas para piano de Haydn: "Fazem bem", escreveu num e-mail. Lúcido, seco, deliciosamente cético, suas penetrantes e breves observações sobre o gênero humano, sobre nosso elenco político e sobre a fauna jornalística, se colecionadas, comporiam um painel definitivo sobre a vida brasileira contemporânea. Elegante no porte, na postura e na compostura. Mesmo quando desembainhava o florete para desnudar as cassandras, os hipócritas e os donos da verdade. Suas respostas aos diversos colunistas e editores da Folha de S.Paulo são antológicas. A inteligência sempre ganha da arrogância. Evandro Carlos de Andrade é a prova disso. | ||