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MEMÓRIA

EVANDRO CARLOS DE ANDRADE, 1931-2001
Um círculo, vínculos
(*)

Alberto Dines

Em meados de março deste ano pedi por e-mail ao Evandro que concedesse um depoimento ao Observatório da Imprensa, a propósito do programa que faríamos sobre os 110 anos do Jornal do Brasil e as reformas anunciadas para recuperá-lo. Evandro, já doente, entendeu que eu lhe pedia um depoimento escrito para o nosso site e prontamente mandou algumas linhas. Expliquei que gostaríamos de gravar um depoimento. Recusou. Um ano antes recusara outro convite alegando que "não estava com a cara boa".

O depoimento que mandou e nunca foi publicado é este:

Caro Dines: meu abraço. Aqui vai:

Dez anos atrás, era o centenário do JB e eu tive o prazer de prestar meu depoimento sobre o período em que lá trabalhei. De lá para cá, as coisas não correram bem para o grande jornal. Agora, entretanto, somos informados de um esforço consistente para lhe devolver a
posição historicamente merecida. Com a reforma feita por Odylo Costa, filho, na década de 50, o
JB viveu quase meio século de reconhecimento público da sua alta qualidade jornalística. Faço votos que os próximos dez anos sejam de firme recuperação do conceito que já gozou.

(a) Evandro Carlos de Andrade

Neste exato momento, no dia em que morreu Evandro [segunda, 25/6], este pequeno depoimento encaixa-se com outros fatos, ganha outra dimensão. Explica muita coisa.

O Globo, jornal que Evandro ajudou a recriar, demitiu hoje com uma nota na primeira página de apenas oito linhas o seu mais famoso colunista, Ricardo Boechat. Sem maiores explicações.

No dia 6 de dezembro de 1973 – 28 anos atrás – fui demitido do cargo de editor-chefe do Jornal do Brasil depois de uma passagem de quase 12 anos. "Por indisciplina", segundo me foi informado. A nota de três linhas, seca e malvada, foi publicada na página 3. Para humilhar. Dirão alguns que nada mudou.

Evandro, então diretor do Globo, bom amigo apesar de concorrente, indignou-se com a violência. Passou uma descompostura no JB na Coluna Swann (8/12/73) que começava assim: "O Jornal do Brasil deveria ter escrito ontem o seguinte..." (seguiu-se um currículo tão minucioso que o utilizei na orelha das primeiras edições de O Papel do Jornal).

Trocaram-se os papéis neste aziago 25 de junho em que desaparece o generoso e rigoroso Evandro Carlos de Andrade. Fecham-se círculos, armam-se vínculos e fica evidente que muita coisa está mudando em nossos jornais. Não é a Parca na sua faina, é a alma que está ficando pequena.

(*) Publicado no Último Segundo <www.ig.com.br>, 25/6/01



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