MEMÓRIA

EVANDRO CARLOS DE ANDRADE, 1931-2001
O chefe que sabia demitir

Luís Edgar de Andrade

Quando o jornalista Evandro Carlos de Andrade dirigia a redação do jornal O Globo, entre 1971 e 1995, o presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, telefonou-lhe, certa, vez para pedir sua opinião sobre alguém que estava sendo cogitado para um cargo de chefia numa das empresas do grupo: "Você conhece o Cláudio?" Como Evandro conhecia esse Cláudio há muitos anos, referiu-se a suas qualidades e também aos defeitos, que eram poucos. Não foi suficiente: "Diga-me uma coisa, Evandro. O Cláudio sabe demitir?" Houve três segundos de silêncio e Roberto Marinho engatilhou a pergunta seguinte: "Ele é capaz de demitir o melhor amigo?" Antes que tivesse uma resposta, expôs a doutrina da casa: "A principal qualidade do chefe é saber demitir."

Não há dúvida que Evandro Carlos de Andrade tinha essa qualidade. Dependendo do motivo, era capaz de demitir o melhor amigo. Sua prova de fogo foi no dia em que recebeu a instrução: "Vá à TV Globo e demita o Otto." Nesse tempo, Otto Lara Resende escrevia um artigo semanal no Globo e tinha um cargo na televisão. Parece que um dos seus artigos tinha irritado o patrão. "Está bem, doutor Roberto", Evandro limitou-se a dizer. Mas, antes de vestir o paletó, passou na sua sala, bateu uma cartinha se demitindo e mandou a secretária entregá-la. O trânsito no Jardim Botânico não estava ruim nesse dia. Ele chegou à rua Lopes Quintas em 20 minutos. Subiu ao oitavo andar, onde Otto o recebeu, intrigado: "O Roberto ligou para cá duas vezes, aflito, à sua procura. Pediu para você não fazer nada antes de falar com ele." A demissão estava desfeita.

Otto Lara Resende sempre se queixou, porém, do distanciamento do amigo, a cuja personalidade atribuia um componente de frieza: "O Evandro nasceu no pólo. É glacial por natureza" Durante os longos anos em que escreveu o tal artigo semanal no Globo, Otto jamais ouviu um comentário de Evandro: nem para elogiar nem para criticar. O diretor de redação só se importava com o tamanho do artigo, que muitas vezes tentou reduzir. Otto lhe mandava toda semana uma saraivada de bilhetes sem resposta. Mas a longa amizade nunca foi rompida e Evandro lamentou muito quando Otto se mudou, de armas e bagagens, para a Folha de S.Paulo.

Primeira página

Na redação do Globo ninguém erra duas vezes. O primeiro erro significa demissão. O grande turn over dos editores já era uma das características do jornal nos 24 anos em que Evandro foi diretor. Muitos, no entanto, sairam e voltaram. É o caso de Henrique Caban, que foi seu braço direito, como superintendente, antes da transferência para a TV Globo. Segundo uma piada corrente na redação, se Evandro dizia "Mata", Caban executava: "Esfola" Mesmo no caso de um funcionário que traía sua confiança, justiça seja feita, Evandro não era um chefe de memória punitiva. Inúmeras vezes, ele perguntou a Caban, quando alguém, demitido, queria voltar: "Por que é mesmo que tenho raiva desse cara?"

Evandro Carlos de Andrade tinha, desde 1971, o hábito de se levantar às cinco da manhã. A essa hora um dos primeiros exemplares do Globo, trazido por um motoqueiro, já estava à soleira de sua porta, no Parque Guinle, em Laranjeiras. Ele se dava, então, ao trabalho de ler todas as notícias, página por página, da primeira à última coluna, assinalando à margem, com uma caneta esferográfica, qualquer erro ou incorreção, tanto de forma como de conteúdo: "Isso é uma besteira" ou "Que idiotice". Ao se mudar para a TV Globo, as correções continuaram, só que agora via internet. Às seis e meia da manhã, aparecia um "Bom-Dia" na tela do computador de Renato Machado, editor-chefe e apresentador do telejornal Bom Dia, Brasil. A senha significava que o diretor da Central Globo de Jornalismo já estava lendo, com atenção, em seu apartamento, o que iria ao ar na TV uma hora depois.

A preocupação de estilo foi uma marca que Evandro adquiriu, há 50 anos, durante seu aprendizado no Diário Carioca, o primeiro jornal brasileiro com um manual de estilo e o primeiro jornal também a ter um copidesque. Em 1953, o principal reescrevedor do DC era um jovem redator chamado Armando Nogueira. Certo sábado, no mês de novembro, ao chegar ao trabalho, o chefe de redação Pompeu de Sousa entregou-lhe sem ler um calhamaço datilografado: "Reescreva isso". Tratava-se do perfil do promotor Cordeiro Guerra escrito por um foca de 22 anos, aluno do 1º ano de direito. De caneta em riste, Armando preparou-se para corrigir os erros, antes de reescrever o texto. No fim da leitura, a caneta continuava na sua mão, sem ter sido usada. Ele devolveu as laudas: "Matéria perfeita. Não há o que mexer." Pompeu de Sousa, futuro senador por Brasília, que ainda não tinha sido fundada, ficou irritado: "Você é um preguiçoso". Armando contestou: "Nada disso. Passe a vista" Pompeu de Sousa leu a história, lauda a lauda, com atenção. Não encontrou uma vírgula a mais ou a menos. No dia seguinte, domingo, a matéria saiu na primeira página, assinada: Evandro Carlos de Andrade.