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MEMÓRIA
ASPAS
Vitor Sznejder
Entrevista com Evandro Carlos de Andrade, realizada em 2/3/2000
e publicada no site pessoal do autor, em <http://www.vitorsznejder.com.br>
"Em julho de 2000, Evandro Carlos de Andrade completou cinco
anos à frente da Central Globo de Jornalismo. Antes, trabalhou
por 24 anos como diretor de Redação do jornal O Globo.
Nesta entrevista ele faz um balanço de sua vida profissional,
analisa a Política e conta detalhes de sua vida de ‘estudante
bagunceiro’. Carioca do bairro do Maracanã, flamenguista,
68 de idade, dois casamentos, seis filhos e nove netos, Evandro
é considerado o mais influente jornalista de sua geração.
Dele se diz que é uma personalidade autoritária,
obsessiva e implacável, mas também gentil e cortês.
Não recusou qualquer assunto ou pergunta – das quais não
teve conhecimento prévio.
Foram quatro horas de entrevistas gravadas em duas sessões,
em sua sala na sede da TV Globo no Rio de Janeiro. Leia também
depoimentos sobre Evandro e um texto seu (uma simples, porém
ácida carta).
Depois desses cinco anos de televisão, já se poderia
dizer que você conhece o processo de edição
deste veículo tanto quanto conhecia o de jornais?
Evandro Carlos de Andrade
– Não. Aliás, quando trabalhava em jornal, raríssimas
vezes desci às oficinas, inclusive do Globo. Tenho uma boa
noção geral do processo, e conto sempre com uma excelente
equipe.
Sente falta das ‘pretinhas’, de escrever o seu texto?
E.C.A. – Não sinto
falta. Escrevo quando sinto necessidade de escrever, só;
não é um imperativo orgânico...Mais jovem, sim,
eu tinha a ilusão de que seria escritor - gostava de escrever,
antes de tudo.
Influência familiar? Algum escritor ou jornalista em casa?
E.C.A. – Não.
Havia um tio, meu padrinho - médico homeopata, mas que não
exercia porque era esquizofrênico e tinha consciência
disso -, que lia em casa o tempo todo, era um homem muito culto.
Lia muito e conversava comigo, foi a grande influência cultural
que tive na infância. Ele tinha um quarto só de livros
e só ele podia entrar ali. Eu lia muito histórias
em quadrinhos, o Gibi, o Globo Juvenil, Mirim...
Ainda existe a casa da Rua São Francisco Xavier 352, no
Maracanã, onde você nasceu?
E.C.A. – Não,
infelizmente com a falta de preocupação histórica
as pessoas destruíram esse monumento (risos). Nossa
família vendeu a casa após a morte da minha avó.
Quem retrata muito bem a cultura daquela região do Rio é
o Aldir Blanc. Você se identifica com as suas letras?
E.C.A. – Totalmente,
sou cidadão do Maracanã. A minha região vai
do Largo da Segunda-Feira, ou seja, o Engenho Velho até o
Largo do Maracanã; depois ela avança pelas ruas Visconde
de Itamarati, Santa Luzia, Dona Zulmira e Vinte e Oito de Setembro,
nos seguintes rumos: Praça Saens Peña, um pouco de
Andaraí até a praça Barão de Drumond,
que conhecia como Praça Sete.
Até quando você morou lá?
E.C.A. – Até os
meus 18 anos. O Aldir Blanc expressa o sentimento daquela região
para as pessoas da minha geração, assim como o Noel
Rosa era a expressão da Vila dos meus tios, irmãos
da minha mãe. Eu imagino o Aldir Blanc mais do jeito que
eu fui, mais fã-club, curtindo Dick Farney, a Orquestra
do Glenn Miller, Frank Sinatra, enquanto meus tios eram do samba
do Noel, aquela cultura da boemia, da coisa mais fechada no próprio
bairro. Aliás, não sei porque a associação
de idéias, mas você sabia que o Cartola foi meu contínuo
no Diário Carioca? (sorrisos)
E como ele era, no convívio pessoal?
E.C.A. – Perfeito: modesto,
sempre gentil, bem-humorado, ganhando aquela porcaria. Você
imagina como era o mundo da arte popular, da música popular,
antes do surgimento da televisão? O rádio já
existia mas não produzia estes sucessos financeiros. Isto
se refletia na qualidade de vida dos artistas, que viviam e morriam
miseravelmente. Um talento como Cartola, um clássico... a
gente sente vergonha.
Falando em música, dizem que você conheceu a sua atual
esposa num karaokê. Mas, quem cantava?
E.C.A. – Eu a conheci
num concurso de karaokê em que fui jurado e ela concorrente.
Dei nota seis a ela, embora merecesse mais. Eu sempre sou rigoroso
com as pessoas de quem gosto (risos).
Vamos voltar um pouquinho à sua história: é
verdade que depois da venda do colégio a família enfrentou
uma crise e sua mãe teve de abrir uma floricultura?
E.C.A. – Com a morte
da minha avó houve uma natural tendência dos filhos
à dispersão. Eram nove os meus tios, irmãos
da minha mãe. Oito deles girando em torno do ginásio
Vera Cruz, depois Colégio Vera Cruz, fundado pelo meu avô.
Você também estudou lá?
E.C.A. – Eu nasci e fui
criado no Vera Cruz. Com a venda, os meus tios quiseram seguir cada
um o seu caminho. O mais velho de todos, tio Paulo, era casado com
uma mulher rica e passou a trabalhar no hotel que pertencia à
família do sogro dele. E havia o caçula de todos,
o tio Cláudio, que era dentista. Os demais giravam em torno
do Vera Cruz. O líder era o Eugênio, professor de matemática
e que resolveu ir à luta. Venderam o colégio e a marca
Vera Cruz para Francisco da Gama Lima, na Haddock Lobo. O prédio
da Rua São Francisco Xavier foi vendido para o Senac.
Onde você completou os seus estudos?
E.C.A. – Terminei o ano
de 1945 no Santo Inácio. No ano seguinte minha mãe
resolveu me internar no Pedro II, pelas mesmas razões econômicas...São
crises. No Santo Inácio, eu era bagunceiro e eles me achavam
um jeca! Vila Isabel, para eles, era inacreditável! Mas houve
um momento em que resolvi mostrar do que era capaz: em um mês
fui o primeiro da turma. Mas foi só um mês. O Paulo
Francis, que era da minha turma, registrou nas memórias dele
esse aspecto que me distinguia - da bagunça, claro.
Era o Pedro II de Botafogo ou o de São Cristóvão?
E.C.A. – Prédio
antigo de São Cristóvão, inaugurado pelo próprio
Pedro II e que desapareceu num incêndio. No dia que eu li
as memórias do Pedro Nava, vi que alguns dos inspetores de
alunos em 1946 eram os mesmos do tempo dele, na década de
20.
Meu pai também estudou lá, e gostava muito.
E.C.A. – Eu não
gostei, eu odiava a idéia de ser interno! A primeira noite,
aquele dormitório, a cama colada no canto, aquelas janelas
abertas, a gente ouvindo músicas no rádio do vizinho
distante. Uma tristeza incrível que me deu, eu nunca me enturmei,
nunca me senti bem, as instalações eram horrorosas,
imundas, a comida era muito pobre, o ensino era uma droga...
Mas por que tão ruim assim?
E.C.A. – Pegue por exemplo
o professor de Geografia, Honório Silvestre - nesta altura
tinha quase perto de 70 anos - o exemplo de como não se ensinar.
Ele entrava na sala e ordenava: ‘Escrevam’ e ditava a aula inteirinha,
ou seja, ele na verdade só queria o silêncio daqueles
alunos. Era catedrático...
E você já tinha esse temperamento de hoje? Como se
comportava?
E.C.A. – Eu era muito
indisciplinado, fugia toda noite - eu e mais uns dois ou três
- e não era punido. Faltava para ir ao cinema. Sempre detestei
e fui reprovado. Tinha que ser reprovado em 46. Voltei para
o Vera Cruz, para repetir a quarta série e completar o científico.
E a floricultura?
E.C.A. – Nesta altura
minha mãe abriu uma loja de flores inaugurando um edifício
na rua das Laranjeiras - onde fica atualmente um mercadinho, na
esquina da Cardoso Júnior. Mais tarde a loja foi transferida
para a Av. Nossa Senhora de Copacabana, onde hoje acho que fica
a Caixa Econômica, entre a Constante Ramos e Barão
de Ipanema.
O que você fazia, lá?
E.C.A. – Eu ajudava nas
entregas, ou cuidava da caixa.
E depois?
E.C.A. – Durante dois
anos eu fui vagabundo em Paquetá. Tinha uma ligação
muito forte com Paquetá através de um tio, que tinha
uma casa em frente ao canhão da Praia dos Tamoios. E o vizinho
dele, cuja casa era maravilhosa, tinha ido para São Paulo
acompanhar um dos filhos e aquela casa se transformou em república.
Os vagabundos que ficaram ali eram intelectuais, ouviam e discutiam
música, foi onde me afeiçoei à boa música
- eram sinfonias, óperas... Mas no fim de 1951 eu fui trabalhar
no hotel Novo Mundo, no Flamengo, por exigência da minha mãe.
Você era ‘adicionista’ - o que significa isto? E como um
jornalista e escritor vai trabalhar com números?
E.C.A. – Eu nunca tive
dificuldade com números, ao contrário. E quando encasquetava
com uma certa coisa eu me saía bem.
Você tem fotos ou documentos dessa época?
E.C.A. – Não guardo
absolutamente nada porque não acho que mereça ser
guardado. Isto é a coisa mais sincera...
Está bem, voltemos aos números.
E.C.A. – Estava no hotel
como adicionista, trabalhava na contabilidade, era o cara que fazia
lançamentos das despesas, não tinha computador e ia
muito bem lá. Até que tive uma indisposição
com meu tio: fazendo as contas, vi que estava sendo roubado (o
hotel). Denunciei, e como ao fim de dois meses nada aconteceu,
eu me senti desmoralizado, fazendo papel de bobo. Fui trabalhar
no Plaza Copacabana Hotel, recém-inaugurado, posto de subgerente,
até ir para o Diário Carioca.
Qual foi sua primeira experiência em jornal?
E.C.A. – No Correio Radical,
um pequeno pasquim... resultado da fusão do jornal O Radical
com o Correio da Noite, era propriedade de George Galvão.
Era um jornal ordinário, de polícia, chantagista,
para tomar dinheiro de bicheiro. Eu queria fazer uma experiência
no jornal, mas sonhava ser escritor; e minha mãe conhecia
alguma pessoa que tinha acesso a esse George Galvão e ela
pediu. Eu fui lá ser foca e fiquei apenas dois meses. Fui
ser foca de polícia nesse jornal, num sobrado na Rua da Quitanda.
Houve uma greve, participei, acabaram me mandando embora - isto
foi em 53.
E como entrou no Diário Carioca, que era uma verdadeira
usina de talentos?
E.C.A. – Através
do Renato Portela, que fazia as palavras cruzadas do jornal e que
se tornara meu amigo. Ele sabia do meu desejo e falou com o Luiz
Paulistano que era o chefe de reportagem. Tornei-me logo o foca
preferido do Paulistano. Ele tinha um Fusca de terceira mão,
importado, porque só havia importados, e morava na Penha,
numa casa modesta, era casado, tinha dois filhos, não passava
sem um cachacinha... Eu pensava: se nesta profissão tudo
der certo para mim eu vou acabar chefe de reportagem, tendo uma
casa na Penha e um Fusca - sem beber cachaça, nunca apreciei,
não sou do ramo. Aquilo para mim era uma perspectiva de vida...
Era impossível, na época, imaginar que você
chegaria aonde chegou, não é?
E.C.A. – Eu nunca discuti
meu futuro comigo mesmo, nunca disse ‘eu quero atingir tal cargo’,
ou ‘desejo tal cargo’; as pessoas podem duvidar, mas nunca me passou
pela cabeça que eu seria convidado para nenhum dos cargos
que acabei ocupando. Em alguns casos eu fiquei bestificado, como
ao ser chamado para chefe de redação do Diário
Carioca. Estava no Egito, cobrindo a guerra no Canal de Suez. Tinha
24 anos e o Pompeu de Souza me chamou por telefone para ser o substituto
dele.
Quem trabalhava por lá nessa época?
E.C.A. – Carlos Castello
Branco, Armando Nogueira, Prudente de Moraes Neto, Gilson Campos,
Carlos Alberto Tenório, Maneco Muller, Epitácio Timbaúba,
Mariano Junior, José Ramos Tinhorão, Otávio
Bonfim, Jota Efegê, Rui Duarte, Aparecido Baioneta da Silva...
E os cronistas eram Sergio Porto, Antonio Maria, Paulo Mendes Campos...
Vamos dar uma pausa e falar um pouco sobre sua carreira como repórter
político, amigo e interino do Carlos Castelo Branco.
E.C.A. – Depois do suicídio
do Getúlio, eu fiz a cobertura da campanha de Juscelino Kubitschek
(JK) - uma figura maravilhosa, um democrata absoluto, construtor
e criador, entusiasta...
Era um talento natural? Como foi a história da construção
de Brasília?
E.C.A. – JK organizou
uma equipe para ser um presidente construtor! Tinha um programa
de governo consistente, baseado no trinômio transporte, alimentação,
energia, mas não dava ênfase à Educação:
nomeou para ministro seu ex-vice governador, Clóvis Salgado,
figura política apagada e que em nada contribuiu para o progresso
da Educação. Depois de Capanema, na ditadura Vargas,
só recentemente se consolidou a noção de que
a Educação é o principal fator de desenvolvimento.
Qual seria, então, o outro presidente brasileiro da sua
geração que se podia ombrear com Juscelino?
E.C.A. – Pelo espírito
democrático, José Sarney e Fernando Henrique. No espírito
empreendedor, nenhum como JK! Ele não tinha medo de nada,
peitava, corria riscos... Fez campanha e tomou posse sob vetos e
ameaças dos militares! Como estadista, Castelo Branco, general
de espírito democrático, capaz de arrancar o Brasil
do lamaçal em que bracejava em 1964. Apesar de ser militar...
Você acredita que JK foi assassinado?
E.C.A. – Não!
(enfático). O motorista, o Geraldo, estava muito velho,
deve ter dormido no volante...Já eu acho que a Zuzu (Angel)
foi assassinada. Mas ele não, ele não ameaçava
mais nada, eles não tinham razão para ter ódio
de JK! Ele só foi cassado porque teimou de ser candidato
a presidente em 65 e aí criou um impasse para o Castelo Branco.
Essa questão da Educação, como você
a colocou, é muito complicada e leva gerações...
E.C.A. – Isto é
trabalho para 20 anos, no mínimo. O Brasil tem condições
de investir (em educação). A minha convicção
é a seguinte: só a observação e o invento
transformam o homem. A religião, a arte, consolam o nosso
desespero por nos sabermos mortais, mas só o conhecimento
é que muda a nossa espécie ao longo da História.
Para ser competitivo você é obrigado a ter um sistema
educacional muito bem organizado, que generalize esse conhecimento.
Não sendo assim, tudo se resume ao comer e estar vivo, e
você só vive do que mata...
Mas que filosofia mais pessimista, Evandro!
E.C.A. – Pessimista por
quê? Isto é fundamental: você mata para viver.
Você vive de quê? Qual é o mineral que te alimenta?
Granito, areia, pedras preciosas? Vegetal, você não
matou?
Não que eu saiba...
E.C.A. – Ah, você
não matou? Ora, a vida se reproduz através da vida
e por isso a vida é necessariamente cruel, ela só
evolui por meio da destruição do mais fraco, ela é
seletiva. Na democracia, o sistema de mérito, por exemplo,
é muito justo; existem dez vagas, concorrem mil sujeitos.
Os melhores vão ganhar bem, ter casa confortável,
carro, e os outros vão gramar a sua mediocridade. Me explica
então por que um sujeito burro, que nasceu com insuficiência
de neurônios e lapsos de sinapse, vai ser menos bem aquinhoado
dos prazeres da vida do que o outro, mais bem dotado pela natureza.
É porque a vida é cruel, ela quer a eliminação
do mais fraco. E por isso todo mundo acha justo premiar (ou castigar)
a diferença.
Mas nos EUA há pelo menos igualdade de oportunidades...
E.C.A. – Aqui também
há igualdade de oportunidade nos muitos níveis em
que a sociedade se organiza - ou você acha que o traficante
não está usando as oportunidades dele? O forte vai
realizar do seu jeito, através da inteligência, esperteza,
maldade - o que seja. Isto é um jogo bruto o tempo todo...
A propósito, há quem o considere duro, violento,
obsessivo, implacável, além de fidalgo, cortês
etc. Como você se classifica?
E.C.A. – Eu sou a favor
do Poder exercido com autoridade! Porém, para haver equilíbrio,
é indispensável a liberdade de imprensa. Liberdade
é o bem maior de todos, porque ela permite que o tempo todo
você avance; não se avança sem liberdade. A
prova é que os regimes ditatoriais no Brasil, depois de um
salto inicial de desenvolvimento, estagnaram na repressão
e na auto-satisfação esterilizante. Esses saltos de
desenvolvimento se deram ao custo da truculência, da privação
da liberdade e da corrupção. Ela é (a corrupção)
uma das condições humanas e é a cobiça
assegurada pelo conforto da censura que leva o homem a ceder à
tentação do conforto ilegítimo.
Voltando ao seu temperamento...
E.C.A. – Eu me acho duro,
severo no exercício da minha atividade profissional, porque
eu tenho que ser. Eu não tenho espírito de turma,
não tenho grupo de amigos, profissionais que eu proteja;
eu nunca toleraria formação de igrejinha, de grupinho
no lugar que eu trabalhasse! Eu trabalho voltado exclusivamente
para o bom resultado!
Você foi repórter político, colunista, cobriu
o Congresso... e no entanto se confessa um aristocrata no sentido
platônico do termo, o governo dos melhores...
E.C.A. – Eu não
acredito em regime representativo. Acho o Congresso um fator de
estagnação, um Poder conservador, reacionário
por natureza. A profissionalização do político
é ruim para a sociedade e para a democracia - ele passa a
ser um condômino daquilo e não é mais representante
do povo. Defendo o regime dos melhores. O voto obrigatório
e massivo degradou a qualidade do Congresso. O voto facultativo
ajudaria a melhorar a representação, porque só
votaria quem tivesse consciência de sua cidadania... E ninguém
deveria profissionalizar-se como deputado, vereador, presidente.
Dois mandatos no máximo - e volta pro trabalho, meu caro!
Você já se imaginou na política partidária?
E.C.A. – Eu seria um
péssimo político, mas estaria num partido democrata,
sempre defendendo a liberdade - o bem principal. Eu era contra a
ditadura militar, contra o primarismo com que se exerceu o poder...
O Getúlio foi melhor que os militares por uma razão:
o governo Getúlio, no período da ditadura, foi um
governo civil. Sustentado pelo Exército, mas era civil. O
exército é uma instituição mediocrizante,
o sujeito é só obediência, a carreira dele é
feita para crer em valores que bloqueiam, como o patriotismo, e
sobretudo a obediência cega, às vezes humilhante.
Você não livra nem o presidente Castelo Branco?
E.C.A. – O Castelo era
uma exceção dentro das Forças Armadas, ele
era um intelectual e um democrata preocupado com a democracia. A
visão de democracia de Geisel era completamente diferente,
sem falar no Figueiredo...Como foi possível que se entregasse
a essa gente um país como o Brasil? O Castelo era um estadista,
ele e o Getúlio foram os dois maiores e com o JK o trio de
ouro no exercício da política no Brasil.
Continuo insistindo: e o Fernando Henrique?
E.C.A. – Para mim, é
o Getúlio da ditadura, o Castelo Branco e o JK. Todos tiveram
de fazer concessões, porque é impossível governar
sem tampar o nariz - é impossível, no regime democrata.
Agora, pode anotar: o futuro dirá que o maior reformador
do Brasil terá sido o Fernando Henrique. É difícil
avaliar, no curso de um mandato, o resultado. Mas quem fizer a análise,
mais tarde, desta época incrivelmente turbulenta no mundo
todo, parecida com tempo de guerra, dará o devido crédito
ao Fernando Henrique. Não é comum, em nenhum lugar
do mundo, que o poder seja ocupado por alguém tão
preparado como ele.
Examinemos os políticos atuais: Antônio Carlos Magalhães,
por exemplo?
E.C.A. – Antônio
Carlos Magalhães nas circunstâncias do Brasil é
um grande político, porque tem uma extraordinária
percepção do sentimento do povo. Ele, na Bahia, como
o Sarney, no Maranhão, andam na rua sem segurança.
ACM é hábil, sabe até onde vai, não
ultrapassa o ponto, tenta ocupar todo o espaço que estiver
disponível. Indiscutivelmente um grande político!
Dizem que ele orienta a pauta, recomenda notícias...
E.C.A. – Se se refere
à TV Globo, isso é apenas uma piada de mau gosto.
A palavra ‘recomendação’ nunca foi pronunciada para
mim pelo Roberto Irineu, nem pelo João Roberto, ou José
Roberto na prática meus diretores. A única orientação
que recebi foi a de fazer um jornalismo respeitável, isento,
imparcial, objetivo, exato, urgente, respeitando a lei, o direito
das pessoas, as testemunhas, as vítimas, isto é a
única razão da minha vinda para cá - foi nestes
termos e foi para sinalizar isto mesmo! Se é assim com quem
me emprega, chega a ser ridículo imaginar que eu pudesse
receber recomendação de qualquer estranho ao meu trabalho.
Há gente honesta, escrevendo sobre televisão?
E.C.A. – O Ivan Ângelo
é uma camarada honesto. O Estadão procura ser isento.
O Gabriel Priolli implica com o nosso jornalismo, o que o torna
um pouco parcial, mas merece respeito. Já na Folha (de
S.Paulo) não há ninguém. O Otavinho não
permite. Fui recebido por ele gentilmente, numa visita que fiz ao
jornal, quando estava no Globo. Mas eu sei, porque tenho informação
de dentro do Conselho Editorial, que a ordem lá é
perseguir a Globo, mesmo que seja com injustiças e mentiras.
Em que medida os anunciantes de remédios podem influenciar
os rumos editoriais, no atual escândalo dos genéricos?
E.C.A. – Não temos
interesse comercial nenhum a defender - não queremos saber
quem são nosso anunciantes, isto não nos interessa.
Só queremos saber o seguinte: se similares ou genéricos
forem bons para o nosso telespectador, se a relação
de preço for boa e os remédios reconhecidos pela entidade
oficial, nós vamos dizer isso persistentemente. Nós
vamos alertar o nosso telespectador. Para nós, a diferença
entre similares e genéricos é burocrática,
pura e simplesmente porque a Vigilância Sanitária declarou
bons tanto os similares que estão à venda quanto os
genéricos. Logo, tanto faz se é similar ou genérico,
porque nós não vamos alterar coisa nenhuma na maneira
como tratamos desse assunto.
Gostaria de saber exatamente a história de sua indicação
para o cargo de diretor do Globo pelo José Luís Magalhães
Lins.
E.C.A. – Eu era assessor
de imprensa do Jânio Quadros quando ele renunciou. Fiquei
em Brasília pelo Estadão, a convite do Fernando Pedreira.
Era repórter político e em 66 ele veio para o Rio
para ser diretor e me indicou para ser diretor lá. Fiquei
como diretor do Estadão em Brasília de 66 a novembro
de 71. O José Luís era concunhado do Pedreira, porque
a Vivi Nabuco tinha se separado do marido Antônio Carlos de
Almeida Braga - e estava casada com Fernando Pedreira. Então
Pedreira era naquele momento concunhado do José Luís.
Eles conviviam, naturalmente, e o Fernando Pedreira fazia referências
elogiosas a meu respeito.
Moacir Padilha era o diretor de redação do Globo,
mas não se sabia com câncer terminal. Eu devia ir no
começo de 72 para SP ser chefe de redação do
Estadão. Tudo já estava acertado com o Pedreira. Aí
o Castelo entrou uma dia na minha casa para dizer: ‘Olha, o Roberto
Marinho está te convidando para ser diretor do Globo’. Virei
para o Castelo e disse: ‘Por que não você?’ E o Castelo:
‘Porque ele não me convidou.’ O Zé Luiz tinha me indicado.
E o Castelo reforçou: ‘Você prefere ser segundo em
São Paulo ou primeiro no Rio?’. A resposta era e foi óbvia.
Qual era a sua imagem do Globo, naquele momento?
E.C.A. – Era o grande
jornal do Rio, sem dúvida nenhuma, mas estava posicionado
como um jornal de apoio irrestrito ao regime. Em Brasília,
a marca era que o Globo tinha apoiado em editorial a invasão
da universidade... isso causou uma mágoa muito grande no
público, sobretudo entre os moços, os universitários.
E como foram os contatos iniciais com o Dr.Roberto?
E.C.A. – Na primeira
vez, estivemos apenas os dois, na casa do Cosme Velho. Ele queria
me ouvir, saber o que eu achava que deveria ser um jornal moderno,
ágil... Me chamou para uma nova conversa em que estava o
Rogério (Marinho, irmão de Roberto)
E ao ‘fechar negócio’, o que ele disse?
E.C.A. – ‘Eu não
agüento mais levar tanto furo!’ (sorrisos) Embora ainda
estivéssemos no apogeu da ditadura, o Dr.Roberto já
tinha a percepção de que aquilo ali não ia
durar. Era ruim. Começamos então, eu, o Zé
Augusto Ribeiro e o Henrique Caban, a mexer no jornal tendo como
meta principal conquistar a mocidade, a universidade. O caderno
de vestibular foi idéia do Caban, assim como o suplemento
do Vestibular.
E os Jornais de Bairro também, não?
E.C.A. – Não.
Bairros foi o Dr. Roberto. E não foi uma coisa assim, ‘vamos
planejar um jornal assim e assim...’ É: ‘quero em uma semana’
(risos). ‘Caderno de TV? Sim, quero para domingo.’ E saiu
numa semana, e saiu no Domingo.
Como ele passava o seu desejo, suas intenções?
E.C.A. – Ele nunca foi
de ditar diretrizes. Conversava horas comigo, contava como foi com
o pai, como era isso, como era aquilo. E ali eu percebia como era
a personalidade dele, bom de lidar, humilde, atento, receptivo.
Quando se estabelece uma relação de empatia as coisas
vão bem.
Acha, mesmo, que para corrigir os erros de ‘Notícias do
Planalto’, livro de Mário Sérgio Conti, você
teria de escrever outro cartapácio ainda maior?
E.C.A. – Isso é
um exagero meu, né? Na verdade, 80% do que está escrito
ali coincide com o que a gente acha que aconteceu. O erro fundamental
é citar as fontes e, no final do livro, as pessoas com quem
conversou. Você como leitor presume que toda referência
a uma pessoa que tenha sido fonte tenha sido checada, o que não
ocorreu. Digo que não ocorreu comigo. Ele cita um episódio
engraçado, no livro, em que o Dr.Roberto pergunta a mim o
que achei sobre um texto dele. ‘Posso ser franco?’, pergunto no
livro. Resposta: ‘Mais ou menos!’
É engraçado mas não foi comigo. Foi com o
Merval (Pereira Filho, atual diretor de Redação do
Globo), o autor não voltou a mim para verificar se tinha
acontecido. Além disso, deu um tratamento injusto ao Armando
Nogueira, o verdadeiro autor de uma barreira interna contra toda
a poluição no telejornalismo - e as pressões
militares - e só os panacas não sabem o terror e a
resistência na Globo durante a ditadura. A tentativa permanente
de se noticiar as coisas como se passavam, aqui dentro, no tempo
da ditadura. Tentar driblar a censura. Diretas já, a pressão
que o Dr. Roberto sofreu para não dar destaque foi uma coisa
louca...
Quem vai escrever a biografia do Dr.Roberto – você?
E.C.A. – Não tenho
esse convite, não receberei e nem aceitarei, não sou
biógrafo. Nem pensar, não tem lógica, não
aceitaria, não aceitarei. Me faltaria isenção.
E a sua própria biografia?
E.C.A. – Não tenho
biografia. Toda autobiografia é um grande equívoco.
Porque é cheia de omissões e bastante incompleta,
já que nunca li a narrativa da morte do autor, escrita por
ele mesmo."
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