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MEMÓRIA

ASPAS

O Globo

"Jornalismo perde Evandro Carlos de Andrade", copyright O Globo, 26/05/01

"O diretor-geral da Central Globo de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, morreu às 8h15m de ontem, aos 69 anos, no Hospital Samaritano do Rio de Janeiro, vítima de policitemia vera, doença hematológica da qual vinha se tratando há alguns anos. Evandro estava acamado há duas semanas, recebendo freqüentes transfusões de sangue e analgésicos. Ontem, por volta das 5h, seu estado se agravou e a família chamou o hematologista Nelson Spector. Evandro estava com pressão arterial muito baixa e o médico decidiu interná-lo.

A policitemia vera é doença benigna que aumenta a produção de glóbulos vermelhos no sangue. Em uma pequena porcentagem dos pacientes, ela pode levar a outra enfermidade - mielofibrose - provocando o efeito oposto: a redução da taxa de hematócritos. Foi o caso de Evandro. O jornalista conviveu com a doença por quatro anos em estado crônico, mas desde novembro o seu quadro se agravou, quando foi diagnosticada a mielofibrose (a fibrose da medula óssea, que produz o sangue). O corpo foi velado no Cemitério do Caju, onde será cremado hoje, às 9h30m, em cerimônia restrita à família.

Nascido em 17 de outubro de 1931, no Maracanã, onde foi criado, Evandro teve como primeira esposa Myriam Bastos, que lhe deu cinco filhos: Lúcia, Patrícia, Márcia, Guilherme e Bruno. Estava casado com Teresa Andrade desde o fim dos anos 80 e com ela teve o seu filho caçula, Leonardo, hoje com 6 anos. Evandro deixa ainda nove netos.

Muito jovem pisou numa redação de jornal e a imprensa se tornou sua grande paixão. Escreveu sua primeira reportagem em 1951, no ‘Correio Radical’. Dali, foi para o ‘Diário Carioca’, onde logo assumiu a chefia de reportagem."

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"Depoimentos", copyright O Globo, 26/05/01

"‘Evandro foi um jornalista competente, ético e digno, que dedicou sua vida à informação clara e transparente. Além de uma marca, Evandro deixa uma escola na imprensa brasileira’

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Presidente da República

‘Ele entrava na alma do fato. Vai fazer uma grande falta à imprensa brasileira’

ANTHONY GAROTINHO Governador do Rio

‘Quando um grande jornalista desaparece, a democracia é que perde’

CESAR MAIA Prefeito do Rio

‘O jornalismo brasileiro morre um pouco com ele’

FRANCISCO DORNELLES Ministro do Trabalho

‘Fiquei chocado. Lamento profundamente. Era um grande profissional’

PEDRO PARENTE Ministro-chefe da Casa Civil

‘O Evandro foi um grande jornalista e um inesquecível amigo’

PRATINI DE MORAES Ministro da Agricultura

‘A história do jornalismo no Brasil nas últimas décadas não pode ser contada sem considerar o papel exercido por Evandro’

JOSÉ SERRA Ministro da Saúde

‘Solidariedade e compostura. Características permanentes de um grande profissional de imprensa. Era assim que eu via Evandro Carlos de Andrade’

JOSÉ GREGORI Ministro da Justiça

‘Sua lucidez e sua seriedade farão imensa falta a cada um de nós e ao país’

FRANCISCO GROS Presidente do BNDES

‘Ele criou todo um estilo e toda uma geração de jornalistas’

ANDREA MATARAZZO Secretário de Comunicação Social do governo federal

‘A firmeza dele foi fundamental na formação de gerações de grandes jornalistas’

RONALDO CÉZAR COELHO Secretário municipal de Saúde

‘Ele foi responsável pela grande transformação jornalística do GLOBO’

ARTHUR DA TÁVOLA Secretário municipal das Cultura"

Luiz Garcia

"Imparcialidade, independência e exatidão", copyright O Globo, 26/05/01

"Quando Evandro Carlos de Andrade chegou ao GLOBO, em dezembro de 1971, tinha quase 20 anos de profissão. Ele praticamente começara na melhor escola de jornalismo do Rio na década de 50 - a redação do ‘Diário Carioca’, comandada por Pompeu de Souza. Ele chegou a chefiar a redação do jornal, ao lado de Carlos Castello Branco. No início da década de 70, Evandro era um amadurecido veterano, que trabalhara para os dois maiores jornais do país na época, ‘O Estado de S. Paulo’ e o ‘Jornal do Brasil’. (A carreira jornalística teve apenas um hiato, quando ele passou sete meses em Brasília, respondendo a cartas de eleitores para o presidente da República. Por sorte, Jânio Quadros passou apenas aqueles sete meses no poder, e logo Evandro voltaria ao jornalismo, de vez).

O capítulo principal de sua biografia profissional estava para começar. O GLOBO já ensaiava a ofensiva que o transformaria no maior jornal do Rio de Janeiro e num dos mais importantes do Brasil. Evandro seria, ao longo de quase um quarto de século, o mais importante representante e, ao mesmo tempo, interlocutor de Roberto Marinho na redação do jornal.

Era uma situação peculiar: para levar o jornal ao que ele poderia ser, era preciso entender o que ele já era, eliminando o risco de que o avanço não significasse deformação ou perda. Num plano pessoal, Evandro tinha de saber o que Roberto Marinho queria - o que era fácil, porque o diretor-redator-chefe fazia questão de jamais deixar dúvidas a respeito, muitas vezes com ênfase contundente. Mas era preciso também deduzir, ou mesmo intuir, tudo o que ele permitiria que Evandro fizesse.

Certa vez, Evandro contou: ‘O doutor Roberto nunca me deu uma diretriz, nunca me disse 'este é o meu decálogo' ou 'eu penso ideologicamente desta ou daquela forma'. Conversávamos durante horas e eu percebia quais eram os seus objetivos.’

Em outra recordação reveladora das relações entre ambos, Evandro narrou um diálogo iniciado com uma pergunta de Roberto Marinho:

‘Me disseram que a redação está cheia de comunistas. É verdade?’

‘É, doutor Roberto, tem muitos.’

‘E você não faz nada?’

‘Não, por uma razão: é melhor trabalhar com comunista do que com udenista.’

‘E por quê?’

‘Porque comunista sabe o que pode fazer e o que não pode, não é maluco. Os comunistas são profissionais: sabem exatamente o que podem fazer e não dão um passo adiante. O udenista acha que está no poder, resolve fazer o jornal que ele quer e dá uma confusão desgraçada.’

‘Você tem toda a razão.’

E os comunistas, arrematou Evandro, continuaram no GLOBO.

Esse tipo de relacionamento, poucos anos depois estendido aos três filhos de Roberto Marinho, quando trabalharam no jornal, foi a base do crescimento que deu ao GLOBO, em menos de cinco anos, a condição de maior jornal do Rio de Janeiro, consolidada por iniciativas como a circulação aos domingos, a criação dos Jornais de Bairro, a impressão em off-set . Simultaneamente, Evandro mudou o próprio perfil da redação do jornal, desde a sua divisão em editorias especializadas - primeiro momento da modernização da produção jornalística - até a proliferação de colunas e cadernos especializados e terminando com a reformulação visual. A criação da página de Opinião, abrigando artigos representando todas as tendências do espectro político, marcou por sua vez a solidificação de uma linha editorial independente, nem governista nem oposicionista por princípio.

Paralelamente, durante todos os seus anos no GLOBO Evandro batalhou pelo respeito à ética e ao idioma. Defendia o bom português não apenas por razões culturais: era sua convicção que o mau uso das palavras interfere na qualidade da informação. Ele combateu essa interferência tão energicamente quanto lutou contra outra fonte de deformação: o preconceito ideológico ou político poluindo a informação. Eram famosos na redação os exemplares do GLOBO anotados por ele todas as manhãs - às vezes, com uma indignação de rasgar o papel. A indignação se dissolvia até a hora do almoço. As lições sobre ética e estilo ajudaram a formar gerações de jornalistas.

Em 1995, Evandro se mudou para a TV Globo. Em parte, porque a sua missão no jornal podia ser considerada concluída, mas também porque Roberto Marinho e seus filhos queriam impor princípios rigorosos ao jornalismo de televisão. Como Evandro disse certa vez: ‘Ao contrário do GLOBO, onde não recebi nenhuma diretriz do doutor Roberto (apenas conversávamos), aqui na TV Globo recebi diretrizes claras, até para deixar claro que não existem amigos, inimigos, assuntos preferidos, assuntos inventados. Há isenção, independência, imparcialidade, exatidão.’

A missão não pedia um jornalista de televisão, que Evandro não era naquele momento, mas um especialista em boa imprensa - o que ele sempre fora. Assim, durante seis anos, marcados pelo crescimento e a transformação, dentro de padrões éticos seguidos à risca, a Globo foi uma segunda casa para Evandro. Era um regime de até 12 horas diárias, fora o telefone sempre presente. ‘Nunca trabalhei tanto na minha vida,’ ele contou, poucos meses atrás, menos se queixando do que constatando como era perene a sua capacidade de mergulhar no trabalho.

Num depoimento, Evandro disse: ‘Entrei na TV Globo aos 64 anos, com espírito de João XXIII, que fez o Concílio Vaticano II e só saiu quando Deus chamou. É possível que, se os Marinho concordarem, eu também só saia quando Deus chamar.’ Foi como aconteceu.

Roberto Marinho

"Um querido companheiro de jornada", copyright O Globo, 26/05/01

"Eu não conhecia Evandro Carlos de Andrade pessoalmente quando começamos a conversar sobre a possibilidade de sua vinda para O GLOBO, como chefe de redação.

Mas, fora outras que descobri com o passar do tempo, ele tinha duas qualidades marcantes, nítidas à primeira vista: franqueza e lucidez. Eu sabia que não poderia dispensar qualquer das duas num auxiliar de primeira linha, que viria juntar-se a nós na luta para levar O GLOBO a uma posição de liderança na imprensa brasileira. São virtudes também preciosas num amigo, como Evandro logo veio a ser, meu e de toda a minha família.

Estamos nos despedindo de um querido companheiro de jornada, que leva tanto a nossa admiração profissional como o nosso afeto pessoal."

 

Beatriz Coelho Silva e Sônia Apolinário

"Morre o jornalista Evandro Carlos de Andrade", copyright O Estado de S. Paulo, 26/05/01

"Jornalistas e políticos foram ontem ao Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, velar o corpo do jornalista Evandro Carlos de Andrade, que morreu ontem, aos 69 anos, vítima de policitemia vera, doença que aumenta a produção de glóbulos vermelhos. Andrade era diretor-geral da Central Globo de Jornalismo desde 1995. Antes, havia passado 24 anos como diretor do jornal O Globo.

De acordo com o irmão Fernando Andrade, a doença não o impediu de trabalhar, mas no últmo mês ele não saía mais de casa. ‘Ele despachava em sua residência, e trabalhou até a última sexta-feira, quando começou a sentir-se mal’, disse o irmão. ‘Ontem pela manhã, às 5 horas, fomos obrigados a levá-lo ao Hospital Samaritano, mas ele morreu pouco depois.’

Evandro Carlos de Andrade escreveu sua primeira reportagem em 1951, aos 18 anos, no Correio Radical, um jornal que teve vida curta. Depois foi trabalhar no Diário Carioca e logo tornou-se chefe de reportagem. Nos anos 60, Andrade foi para Brasília e passou pelas sucursais do Jornal do Brasil e do Estado, onde foi diretor a partir de 1967. Em 1971, assumiu a direção de O Globo. Na TV Globo, mudou o perfil dos jornais regionais e criou a GloboNews, que entrou no ar em 1996. O velório foi acompanhado pelo presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, e sua mulher, Lily Marinho.

Sucessão - Integrantes da família Marinho não quiseram falar ontem da sucessão de Andrada à frente da Central Globo de Jornalismo. Assim, voltou a circular a especulação, que aponta Merval Pereira, diretor de Jornalismo do Infoglobo, como provável sucessor. Mas outro nome também estaria sendo cogitado: o do atual diretor de Jornalismo da Globo em São Paulo, Amauri Soares. Os dois se esquivaram de fazer comentários.

‘Desconheço qualquer coisa sobre isso’, declarou Merval. ‘Isso é assunto a ser tratado pelos acionistas.’ Soares fez o mesmo. ‘Não quero falar sobre isso’, disse."



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