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MEMÓRIA

ASPAS

Matinas Suzuki Jr.

"Matinas Suzuki Jr. escreve sobre Evandro Carlos de Andrade", copyright Último Segundo, 25/05/01

"Nunca estive profissionalmente próximo de Evandro Carlos de Andrade. Pessoalmente, nos encontramos poucas vezes. Da primeira vez, em um seminário sobre design e jornalismo, em Boston (no qual estavam também presentes Luiz Eduardo Vasconcelos, o atual publisher, e Merval Pereira, diretor de jornalismo de ‘O Globo’), ele me deixou a forte impressão de um homem comprometido com a qualidade do jornalismo e à procura de mudanças para a imprensa - mudanças que marcariam os jornais naquele período.

Evandro foi afável e carinhoso. Esses gestos não coincidiam com a imagem de sujeito durão que não levava desaforo para a casa, coisas que se falavam sobre ele.

Por duas vezes, ainda nos anos 80, quase nos aproximamos profissionalmente, mas as circunstâncias me levaram para bem longe do País e do contato com ele. A partir daí tivemos contatos rápidos - encontrei com ele em um restaurante no Rio, há alguns meses, ficamos de marcar um encontro que nunca se realizou - mas, em uma ocasião pude ainda testemunhar o seu tino jornalístico e a sua capacidade de ação imediata, coisa decisiva nesta profissão.

Descobri que em uma cidade do interior de São Paulo havia um método simples e barato de se fazer exame de prevenção de câncer de útero em mulheres pobres. A cidade tinha índice baixíssimo de câncer uterino, coisa de primeiro mundo. Achei que a história daria uma matéria interessantíssima para qualquer veículo, mas, sobretudo, para o jornalismo televisivo. Liguei para o Evandro sugerindo a pauta e, na mesma noite, uma equipe de reportagem da Globo estava na cidade.

Bem, Evandro nunca desmentiu publicamente a sua imagem de durão e de pessoa que se descontrolava quando alguma coisa o irritava visceralmente. Há uma coleção de cartas a jornais e bilhetes pessoais que enviou aos desafetos da hora com palavras duras que provavelmente magoaram profundamente os destinatários - e fui testemunha de alguns desses casos.

Mas, intimamente e à distância, sempre me pareceu que os repentes violentos de Evandro eram, na verdade, expressões incontidas de uma pessoa exigente, que preferia pôr o rancor para fora -em vez de guardá-lo para um uso bem pior, fruto da ira que vira ressentimento, que é o que normalmente ocorre com muitos jornalistas que se dizem ‘controlados’ ou que são obrigados a se controlar.

Evandro foi um batalhador pela melhoria da qualidade de ‘O Globo’ e do jornalismo - como eu sempre estive na concorrência, podia perceber isso claramente. Ele guardou de tempos mais românticos da imprensa, por exemplo, a exigência do conhecimento da língua. Mas foi um entusiasta das inovações que chegaram aos nossos jornais a partir de meados dos anos 80. Sendo um dos homens mais importantes da imprensa brasileira e um comandante da concorrência, não deixou que algum orgulho sem sentido impedisse um telefonema para saber se poderia visitar a ‘Folha’ e conhecer o que se estava fazendo ali em termos de gestão de um novo jornalismo.

Fiquei também bastante impressionado quando soube que ele, pessoalmente, ligava para algumas pessoas entrevistadas pelo jornal que dirigia para saber se a entrevista publicada era fiel ao espírito da entrevista dada, se havia algum reparo a ser feito etc. Esse gesto demonstrava respeito pela fonte primária da notícia, mas, sobretudo, respeito ao leitor, pois o diretor do jornal estava empenhado em entregar diariamente um jornalismo acurado.

Por sua personalidade e por estar no alto comando da Globo em um período de tanta polêmica, a contribuição de Evandro ao jornalismo ficará para sempre marcada por múltiplas interpretações. De minha parte, além deste pequeno registro pessoal, gostaria de deixar uma nota técnica. Nenhum outro grande jornal brasileiro conseguiu, no tempo em que estou ativo na imprensa, o que o ‘O Globo’ de Evandro e de seus colaboradores nesta área conseguiu em termos de qualidade técnica de reportagem e de cobertura do que antigamente se chamava de ‘geral’.

Existem muitas maneiras de se avaliar o jornalismo -todas elas válidas, por sinal: pelo brilho político, pela posição de independência, pela quantidade de furos, pelo número de colunistas, pela criatividade etc. Mas a mais difícil de todas empreitadas é a de construir a cultura interna de qualidade na reportagem geral e na sua respectiva edição. Como a editoria geral está tradicionalmente associada ao jornalismo vespertino, costuma-se relegá-la ao segundo plano. Erradamente. É na cozinha dos miúdos do cotidiano que mora a alma de um jornal.

Pode existir um jornal grande sem ser grande nessa editoria, mas será uma grandeza sem consistência, sem liga jornalística. Não é à toa que o cargo mais importante na tradição dos jornais americanos era o do editor de cidades. Foram eles que criaram a escola do bom jornalismo.

Ali onde o jornalismo é mais difícil e menos charmoso, o ‘Globo’ de Evandro levou a melhor."

Jornal do Brasil

"Globo discute nomes para a direção de jornalismo", copyright Jornal do Brasil, 26/05/01

"A morte de Evandro Carlos de Andrade, ocorrida ontem, dá início a um processo de sucessão dos mais importantes na estrutura das Organizações Globo, por causa do caráter estratégico do cargo. O diretor da Central Globo de Jornalismo (CGJ) controla todos os programas jornalísticos da emissora, o que inclui Jornal Nacional, o segundo programa de maior audiência da Globo, além de Fantástico, Linha Direta, No Limite e do canal a cabo Globo News. O diretor ainda influi na linha editorial das 113 afiliadas da rede no país. Um dos quesitos do sucessor é sua proximidade com a família Marinho. Entre os cotados estão o diretor editorial e de operações da CGJ, Carlos Schroder, e o diretor de conteúdo da mídia impressa, rádio e internet (Mira), Merval Pereira. O diretor de Jornalismo de São Paulo, Amaury Soares, também é citado como candidato potencial à vaga deixada por Evandro Carlos de Andrade.

Ontem, durante o velório do jornalista, nenhum dos filhos de Roberto Marinho quis comentar a sucessão no jornalismo da emissora. ‘Não vou conseguir falar’, disse o vice-presidente do jornal O Globo, João Roberto Marinho. ‘Este não é o momento’, ressaltou o vice-presidente das Organizações Globo, Roberto Irineu. Caberá aos dois irmão a decisão. Acredita-se que pesará muito a opinião de João Roberto.

Quando Evandro Carlos de Andrade trocou o jornal O Globo pela TV, recebeu um bilhete de João Roberto se dizendo órfão. ‘A importância do cargo vai dar inspiração para a escolha do sucessor, alguém que deixe a família tão tranqüila quanto Evandro deixava. Ele era da mais absoluta confiança. Foram 30 anos de convivência’, resumiu o amigo e jornalista Armando Nogueira, que já ocupou o cargo agora vago.

Até que a família decida sobre o assunto, caberá a Schroder a interinidade do cargo. Apontado por fontes ligadas à cúpula da emissora como nome indicado pelo próprio Evandro, Schroder já desempenha a função há três semanas, desde que Evandro passou a trabalhar em casa por causa da doença e dos efeitos colaterais da medicação.

Apesar de estar presente nas reuniões semanais de comitê e do conselho editorial das Organizações Globo, Schroder mantinha contato direto com Evandro - por telefone, celular e e-mail, este último recurso durante as viagens para tratamento - para a tomada efetiva de qualquer decisão. Como, por exemplo, quando a TV Bahia não cobriu a passeata de manifestantes contra o ex-senador Antonio Carlos Magalhães. Foi Evandro quem determinou que as imagens fossem obtidas de qualquer jeito, pois o fato era notícia.

Bastam alguns números para mostrar o tamanho da estrutura que o diretor comandará. Somados os quadros de Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Recife, a CGJ tem 1,5 mil funcionários - 500 só no Rio, sede da Globo News.

Há quem estime em 30% o percentual de arrecadação que a CGJ represente no montante da emissora. Está no Jornal Nacional o valor mais alto de anúncio em rede nacional entre os programas da casa: R$ 160 mil por uma inserção de 30 segundos. Na novela das 20h, carro-chefe de ibope da Globo, o valor é R$ 150 mil. O terceiro lugar na tabela também é ocupado por um jornalístico, o Fantástico, em que um comercial desta duração custa R$ 130 mil.

Os números de medição de audiência também mostram a importância e a função estratégica do cargo. Com 40 pontos de média, o JN só perde para a novela das 20h, que registra médias em torno de 45 pontos. Fantástico e Globo repórter, com 35 de média, alternam-se na terceira posição.

Muitos amigos foram ontem ao Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, prestar a última homenagem ao jornalista Evandro Carlos de Andrade. Entre eles o presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, os senadores José Sarney (PMDB-AP), Pedro Simon (PMDB-RS) e Antonio Carlos Magalhães Júnior (PFL-BA). O clima de consternação e admiração tomou conta capela B, onde foi velado o corpo do jornalista."

***

"Obituário/Evandro Carlos de Andrade (1931 - 2001)", copyright Jornal do Brasil, 26/05/01

"Nascido no bairro do Maracanã, Evandro Carlos de Andrade gostava de acentuar essa origem de cidadão da Zona Norte. Viveu ali até os 18 anos. Os tios eram do samba, admiradores de Noel Rosa e Cartola (que mais tarde seria contínuo de Evandro, na redação do Diário Carioca). Estudou no Colégio Vera Cruz, fundado pelo avô, passou um ano (1945) com os jesuítas, no Colégio Santo Inácio, em Botafogo, onde foi colega de turma de Paulo Francis; e outro no Pedro II, em São Cristóvão. Antes de tornar-se jornalista, trabalhou numa loja de flores que sua mãe abriu em Laranjeiras e na contabilidade do Hotel Novo Mundo, no Flamengo. A primeira redação, aos 18 anos, foi a do Correio Radical, na Rua da Quitanda, no Centro. O jornal era resultado da fusão entre O Radical e o Correio da Noite. A linha era a do mais escrachado sensacionalismo. Evandro começou pela reportagem de polícia. Pela mão de Renato Portela, ingressou no Diário Carioca, o matutino que introduziu o lead na imprensa brasileira e a renovou sobretudo pelo brilho do texto. Era quem retocava, diariamente, o artigo do redator-chefe, J. E. de Macedo Soares, publicado na primeira página e com força suficiente para derrubar ministros. Numa redação cheia de estrelas - Carlos Castello Branco, Prudente de Moraes Neto, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto -, impôs-se e passou a chefiá-la aos 24 anos, em substituição a Pompeu de Souza, que o escolheu para o posto. Soube da indicação quando cobria no Egito, em 1956, a crise do Canal de Suez. A mudança da capital, do Rio para o Planalto Central, tornou-o um dos pioneiros da reportagem e do colunismo políticos em Brasília, com breve passagem pelo Jornal do Brasil. No meteórico governo Jânio Quadros, foi assessor de imprensa do presidente. Após a renúncia de Jânio, em agosto de 1961, ficou em Brasília, como repórter político de O Estado de S. Paulo. Logo passaria a chefe da sucursal e diretor do jornal na capital, cargo em que permaneceu até 1971. Assumiu a chefia da redação de O Globo no Rio, em 1972. Encontrou um jornal provinciano, vespertino, de apoio à ditadura e centrado nas notícias de cidade. Ao longo dos 23 anos em que permaneceu na direção da redação, melhorou o jornal, dando-lhe caráter nacional e peso político. ‘Era uma redação antiga e à antiga’, afirmava, ao comentar as mudanças. Declarava-se um diretor de redação ‘papista’, referindo-se à lealdade com a família Marinho. Chegou a pedir demissão duas vezes, mas em ambas foi demovido da idéia. A sintonia com Roberto Marinho e, depois, com seus filhos, levou-o a assumir a direção geral da Central Globo de Jornalismo. Tal como no jornal, mudou o jornalismo da TV, com ênfase na ampliação e numa nova apresentação da notícia, assimilada a tendência mundial à valorização de ‘âncoras’. Participou da criação da Globonews, criou novos cenários e substituiu rostos (foi na sua gestão que o locutor Cid Moreira deixou de ser ‘a cara’ do Jornal Nacional ). Evandro sentiu-se mal em casa ontem às 5h e foi levado para o Hospital Samaritano, onde morreu às 8h15, em conseqüência da doença hemotológica policitemia vera. A doença aumenta a produção de glóbulos vermelhos, levando a uma diminuição de células disponíveis. Era casado, teve seis filhos e nove netos. Seu corpo será cremado hoje de manhã, no Cemitério do Caju, numa cerimônia só para a família."

 

Folha de S. Paulo

"Morre Evandro Carlos de Andrade, diretor de jornalismo da Rede Globo", copyright Folha de S. Paulo, 26/05/01

"Morreu ontem pela manhã, no Rio, o diretor-geral da Central Globo de Jornalismo, o carioca Evandro Carlos de Andrade, 69. O jornalista, que ocupava o cargo na Globo desde 95, tinha uma doença rara, a policitemia vera, que aumenta a produção de glóbulos vermelhos e a viscosidade do sangue, acarretando complicações como trombose e hemorragia.

Ele foi o responsável pela implementação de mudanças no jornalismo da emissora nos últimos anos. Em sua gestão, o ‘Jornal Nacional’ deixou de ser apresentado por Cid Moreira e Sérgio Chapelin. Moreira apresentou o ‘JN’ por 27 anos, até ser substituído por William Bonner, em 96. A mudança visava dar mais credibilidade ao telejornal. Com a entrada de Bonner e Lillian Witte Fibe como apresentadores, o ‘JN’ passou a ser apresentado por seus próprios editores.

Reservado, Andrade evitava as entrevistas. Torcia pelo Flamengo e foi repórter esportivo no início da carreira, mas se destacaria na cobertura política.

Começou sua carreira no início dos anos 50. Entre 1954 e 1961, trabalhou no ‘Diário Carioca’, jornal dirigido por Pompeu de Sousa, que implementava na época uma série de inovações estilísticas trazidas dos Estados Unidos.

Andrade fazia parte de uma geração de profissionais que incluía Armando Nogueira e Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha. Em 1958, dividiu o cargo de chefe de redação do ‘Diário Carioca’ com Carlos Castello Branco. Escrevia uma coluna de bastidores da política chamada ‘Dia-a-Dia do Catete’ (então sede da Presidência).

Entre fevereiro e agosto de 1961, foi assessor da Presidência da República, na gestão Jânio Quadros, em Brasília. Após a renúncia de Jânio, passou pelo ‘Jornal do Brasil’ e ‘O Estado de S. Paulo’.

Desde 1971, quando entrou para ‘O Globo’, Andrade fazia parte das Organizações Globo. Foi responsável pela reforma gráfica do jornal, em 1995. No mesmo ano, foi convidado para ocupar a direção-geral da CGJ (Central Globo de Jornalismo), da TV Globo.

Desde que teve diagnóstico da doença, procurou tratamento nos EUA. Ao voltar de férias, havia pouco mais de um mês, começou a trabalhar em casa. Ontem, passou mal e foi levado ao hospital Samaritano, na zona sul do Rio, onde morreu às 8h15. Quem assume seu lugar na Globo, interinamente, é o diretor de planejamento da CGJ, Carlos Schroder.

O corpo foi velado ontem, no cemitério do Caju, e será cremado hoje pela manhã, em cerimônia familiar. Andrade deixa a mulher, Teresa, seis filhos e nove netos."



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