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APURAÇÃO NEGLIGENTE
Pautas que não querem calar

Nelson Cunha (*)

Gostaria de ver a imprensa brasileira menos preguiçosa na cobertura da campanha presidencial. Não me interessa ver reproduzido nos jornais o bate-boca entre candidatos: isto só interessa a eles próprios. Ao se prenderem a superficialidades sepultam o principal e conseguem esconder suas inconsistências. A imprensa come mosca e passa a vender só fuxico no jornal. Conversa de comadres é barata, e qualquer estagiário de jornal sabe como adubá-las.

O que interessa ao Brasil-eleitor é saber se as propostas dos candidatos são factíveis, diante das limitações financeiras do Estado e do esgotamento da capacidade contributiva da sociedade. Este negócio de dizer que vai fazer isto e aquilo quando a economia crescer 5% parece desculpa de devedor falando a cobrador pela fresta da porta: "Quando arrumar emprego eu passo lá e pago" ou "Volta aqui na semana que vem, quem sabe?", ou "Tenho umas contas perdidas por aí, se receber!". A receita de todos é a mesma: exportar ou morrer!

Aviso aos barões

Ora, estão contando com o ovo no fiofó da galinha. Parece até preleção de técnico nos vestiários: "Façam isto e aquilo e a vitória será estrondosa". É preciso saber se o adversário vai deixar fazer o "isto e aquilo". A receita para toda empresa falimentar é aumentar a venda e o lucro, mas será que tem gente querendo comprar? A nossa imprensa deveria cumprir seu papel social, que é escarafunchar o fundo das questões econômicas, analisando, à luz dos recursos financeiros disponíveis, se as promessas dos candidatos são apenas mais peças de decoração, como logotipos, jingles, slogans etc.

Mostrem ao público quanto custa cada uma destas promessas, e inibam os candidatos que têm compulsão para enganar. Seria uma maravilhosa contribuição para o futuro. Caso a imprensa argentina tivesse alertado o público de lá sobre o verdadeiro estado das finanças das províncias (financiando-se nos bancos a juros criminosos) os argentinos não teriam financiado com suas poupanças estes maus administradores provinciais.

O veneno demagógico acabará por levar nosso país ao fundo do precipício, com a olímpica complacência da imprensa nacional. Senhores barões da imprensa brasileira, abram os cofres para o jornalismo investigativo, ou vosso valioso patrimônio irá por água abaixo se mais um falsário for eleito presidente. E como os há!

(*) Médico

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