OBSERVATÓRIO ELEITORAL

OMBUDSMAN EM QUESTÃO
Bate-boca na Folha desvenda parcialidades

Alberto Dines

A Folha de S.Paulo no domingo, 15/9, à p. A-6, além da coluna semanal do Ouvidor apresenta uma cena surpreendente: uma grande cotovelada assinada pelo editor de Brasil, a respeito de comentários do "defensor do leitor" no domingo anterior. Além do Ombudsman, o jornalão hoje tem o ombudsman do ombudsman.

Fernando de Barros e Silva reclamou das reclamações de Bernardo Ajzenberg contra um excessivo "serrismo" do noticiário em detrimento das legítimas pretensões do "cirrismo" ou "lulismo".

Os dois certamente têm razão e razões. Esse é o problema.

O jornal, apesar do centralismo decisório e dos equipamentos deontólogicos a serviço de uma pretendida eqüidistância, é uma reunião de capitanias com as respectivas subjetividades. Impõe-se aquela que, no momento, dispõe de mais poder de fogo (ou destaque).

O resultado é que, em vez da neutralização das preferências, o jornal dança de um lado para o outro. E como sai todos os dias, esta alternância produz diferentes inclinações e, obviamente, diferentes críticas. Caso explícito de esquizofrenia.

A grande verdade é que a Folha até o momento não conseguiu convencer seus leitores a respeito da sua imparcialidade.

** Não quer Serra porque representaria uma vitória de FHC (por mais que o jornal apoiasse as mesmas restrições do ex-ministro da Saúde à política econômica).

** Não quer Lula para ser coerente com as restrições pessoais que culminaram no famoso bate-boca com o candidato quando este foi convidado para almoçar com a direção.

** Não quer Garotinho por razões óbvias.

** Quer Ciro Gomes. Não porque imagina que vá ganhar mas justamente porque sua vitória é improvável e, neste caso, o jornal exibiria a posteriori uma cobertura independente, desinteressada e insuspeita. "Bagunçar o coreto" com uma coligação que vai de ACM a Oscar Niemeyer e de quebra dando um tremendo empurrão na Força Sindical rende mais barulho do que uma alternância de um grande grupo político para outro.

O alternativo Ciro Gomes é um queridinho às avessas: pelo estrago que, mesmo derrotado, pode causar aos "esquemões" políticos do PT e do PSDB. Como se o New York Times tivesse preferido Ralph Nader nas últimas eleições americanas só para contrariar o elefante e o burrinho dos democratas e republicanos.

A edição de terça-feira (17/9) é uma comprovação desta opção dialética:

** Na primeira página ao alto, a foto de uma ir-re-sis-tí-vel Patrícia Pillar, assediada pelo carinho dos gaúchos, já sem o marido. Deixou de ser cabo eleitoral para substituir-se ao candidato.

** E na página 2 a unanimidade nacional que se chama Mangabeira Unger rasgando a fantasia de pensador político e fazendo ostensiva propaganda do afilhado.

Breve, a coluna do Ouvidor da Folha terá que converter-se em caderno.

Em tempo: Na edição da mesma terça-feira, 17/9, o Painel do Leitor da Folha (pág. A3), numa atitude inusual, publicou apenas duas longas cartas: uma de Arnaldo Malheiros, advogado de José Serra e outra de José Dirceu, presidente do PT. Ciro Gomes não teve do que reclamar. (A.D.)