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OBSERVATÓRIO ELEITORAL NEUTRALIDADE, IMPARCIALIDADE,
Alberto Dines Neutro [Do lat. neutru] Adj. 1. Que não toma partido nem a favor nem contra, numa discussão, contenda, etc.; 2. Que julga sem paixão; imparcial. 3. Diz-se de nação cujo território as potências se comprometem a respeitar em caso de guerra entre elas. 4. Não distintamente marcado ou colorido. 5. Indefinido, vago, indistinto, indeterminado. 6. Que se mostra indiferente, insensível; neutral. Imparcial [De im-2 + parcial.] Adj. 2 g. 1. Que julga desapaixonadamente; reto, justo. 2. Que não sacrifica a sua opinião à própria conveniência, nem às de outrem. ~V. estimador --. Isento [Do lat. exemptu.] Adj. 1. Desobrigado, dispensado, eximido. 2. Desembaraçado, livre, limpo: "Padre Marcelino .... limitava-se a aconselhar que atirasse a primeira pedra aquele que se julgasse isento de pecado..." (Cândido Jucá [filho], Noite Insone, p. 121.) 3. Imparcial, desapaixonado, neutro: "E a sua palavra, conciliadora das duas oposições, .... dava a impressão de que nascia de um espírito limpo e isento" (Mário de Alencar, Contos e Impressões, p. 103). 4. Que não tem; desprovido, sem: "Não se metia nas conversas, parecia um roceiro tosco, isento de opiniões." (Graciliano Ramos, Viagem, p. 15.) Objetivo [De objeto + -ivo.] Adj. 1. Relativo ao objeto. 2. Prático, positivo. 3. Filos. Diz-se do que é válido para todos, e não apenas para um indivíduo. 4. Diz-se de fenômeno natural que se determina conforme os critérios científicos vigentes. [Do Dicionário Aurélio Eletrônico Século XXI, versão 3.0] Prossegue, por intermédio da coluna do Ouvidor da Folha de S.Paulo, a discussão sobre as eventuais distorções do noticiário eleitoral do jornal. A discussão é extremamente positiva, útil, edificante. Cria uma consciência crítica. Quebra a aura de infalibilidade da imprensa. Estabelece a noção de que jornais ou jornalistas podem falhar. E como os dois contendores têm razões para sustentar as respectivas posições, evidencia-se que nossos diários, ao contrário do que propõem os "centralistas", não são monolíticos mas liberados, não são controlados mas aleatórios. De onde se conclui: ** A soma de parcialidades não é igual à imparcialidade; ** Isenção não é resultado de múltiplos favorecimentos; ** Neutralidade não significa dar uma no cravo e, outra, na ferradura; ** Objetividade não se alcança combinando subjetividades. Destas constatações somos levados a uma outra, mais importante: esta campanha eleitoral é a mais aberta e a mais exposta desde 1945. Pela simples razão de que a TV, pela primeira vez, assume o seu papel cívico de mediadora. Cumpre ressaltar que embora estejamos falando da corporação ou segmento televisivo, ele foi conduzido e estimulado pela opção singular da rede líder que estabeleceu um paradigma ao qual os demais se submeteram. Os hegemônicos têm obrigações. Caso contrário, rapidamente perderão esta condição. Não pretende este Observador distribuir galardões mas examinar um fenômeno. Com dois desdobramentos imediatos: 1. A televisão como veículo autônomo e concessão pública (e não como veiculadora do horário de propaganda eleitoral garantido e fiscalizado pelo TSE) assume sua função primordial, divulgadora e expositiva, rompendo antigas blindagens, preferências ou manipulações através de critérios de equanimidade claros, explícitos e medianamente compreensíveis. Com tempos iguais – a precedência é secundária – e com candidatos mais ou menos apertados pelas perguntas – como foi a primeira série do Jornal Nacional –, reduzem-se as chances de predileções ou idiossincrasias. 2. O jornalismo diário foi sacudido e jogado para o segundo plano. E não em termos de penetração e audiência, mas porque suas condicionantes espaciais (destaque e distribuição nas páginas ou cadernos), assim como as nuances e sutilezas da palavra escrita, tornam-no mais sujeito às subjetividades e armações. Sem contar com a incontornável desvantagem da atualidade. Jornais saem no dia seguinte (já que não temos vespertinos); portanto, flagram um lapso de tempo passado. Numa eleição dinâmica como esta, a atualidade conta muito. Pergunta: significa que a meta de imparcialidade é inalcançável pelos impressos? Será inalcançável enquanto não nos livrarmos de alguns simplismos: ** A tentativa de quantificar valores humanos – como o próprio desejo de policiar-se e aperfeiçoar-se – é a negação destes mesmos valores. Não se quantificam valores morais. A subjetividade objetivada através de cifras ou tabelas comparativas é uma caricatura numerológica. ** De nada adianta medir o noticiário eleitoral, que é apenas uma parte da informação contida num jornal. O espaço opinativo também precisa ser examinado já que esta distribuição ampla das informações converteu a opinião num diferencial entre os veículos. Como o teor ou grau de contundência desses textos opinativos são imensuráveis, a solução será equilibrar o espaço atribuído às diferentes tendências. Esta é uma medição cabível e racional. ** Também pouco adianta concentrar, confinar e equilibrar o noticiário eleitoral num determinado espaço ou caderno. Como tudo conta numa eleição – sobretudo quando se trata da sucessão presidencial com os inevitáveis candidatos de oposição e situação – eqüidade e contenção devem ser estendidas às demais editorias ou seções. O que é publicado na Economia, Cidade, Polícia, Esporte e Cultura também influi na escolha de candidatos. E influi muito. ** Na avaliação, mensuração ou equilíbrio do material opinativo é indispensável considerar não apenas textos, mas também imagens. E não apenas imagens fotográficas, mas as imagens estilizadas (charges, cartuns e fotomontagens) que pela força das distorções têm um indisputável poder persuasório. Pergunta: o que fazer se esses cuidados, critérios e medições forem considerados insuficientes ou mesmo deletérios? Adotar o sistema anglo-saxão de assumir publicamente uma preferência na página dos editoriais (opinião institucional do jornal, não assinada) . O Estado de S.Paulo o fez (editorial na edição de 17/6/02) e jamais precisou contorcer-se em explicações ou justificações. Seus leitores não se sentem lesados porque o jogo é limpo. A manutenção de uma discussão acadêmica em torno da questão da (im)parcialidade, enquanto nas outras páginas corre solto o engajamento, tem algo de farisaica – "para inglês ver", como se dizia antigamente. Pergunta: como ficam os semanários? Pior do que os diários. Em parte como resultado da crise econômica (que aflige a todos nas devidas proporções), em parte como conseqüência direta da crise de identidade, a verdade é que os quatro semanários de informação pouco acrescentaram. Acomodaram-se à condição de acessórios, que não consegue ser compensada pela periodicidade semanal e o maior tempo para investigação e preparação. A substituição de um opinionista de direita em plena campanha eleitoral (Época) e a exploração da vida sentimental pregressa de um alto dirigente de um partido de esquerda (Veja) são amostras, pequenas porém significantes, de uma desatenção ou afrouxamento que percorre o segmento. Quando deixaram de servir aos interesses escusos que distribuíam fartamente fitas, grampos e dossiês, as revistas nacionais perderam o pé. Este tipo de denúncia "não cola" pelo uso indevido e intensivo. Em seu lugar, ficou um vácuo. Bonitinho e inodoro. Pergunta final: então não há jeito, está tudo perdido ou, ao contrário, estamos avançando? Também aqui encontraremos o velho choque universal entre pessimistas e otimistas, entre apocalípticos e idealistas, entre demolidores e construtores. Isenção, neutralidade, objetividade ou imparcialidade não existem em estado puro. Assim como não existe a verdade pura. Existe a busca da verdade, a atitude cândida e despojada de assumir a falibilidade e a precariedade de um processo tão veloz como o jornalístico. Neste sentido, o debate da Folha é um avanço. Tradução mais aproximada da atitude de questionamento. Mas a opção do Estadão, realista, pragmática e transparente, é outro avanço embora sem o contrapeso do contraditório que só um Ouvidor com um mínimo de legitimidade seria capaz de sustentar. A Ética não se compra pronta em seminários ou manuais. A Ética persegue-se, discute-se e, sobretudo, sofre-se por ela. O que nos remete ao campo da especulação filosófica: a melhoria, os avanços e o progresso só ocorrem quando as metas da transformação não são limitadas e estáticas, mas, ao contrário, ilimitadas e dinâmicas. Immanuel Kant falava na "missão interminável" (Unendliche Aufgabe). Millôr Fernandes diz que é preciso verificar permanentemente a energia dos moinhos de vento. Inútil? Cansativo? Quixotesco? Inatingível? Tarefa sempre inconclusa, desafiadora, mutante, porque somos mortais – porém capazes de perseverar. Leia também Bate-boca na Folha desvenda parcialidades – A.D. A subjetividade em xeque – L.A.M.
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