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MONITOR DA IMPRENSA
MÍDIA AMERICANA
FCC quer abrandar legislação
Se o Brasil fosse os Estados Unidos a Globo estaria dando pulos de alegria. A Comissão Federal de Comunicação norte-americana (FCC) lançou propostas para amenizar os severos regulamentos a que emissoras de rádio e TV estiveram submetidas há décadas no EUA.
A reforma das antigas regras inclui um "relaxamento" da lei que impedia companhias de possuir uma emissora e um jornal na mesma cidade, e da regra pela qual uma companhia é proibida de ter mais de uma rede nacional de televisão. Os regulamentos implantados sobre a posse heterogênea de meios de comunicação, e de mais de uma emissora nacional, tinham o intuito de diversificar as emissões de rádio e TV.
A matéria de Stephen Labaton [The New York Times, 31/5/00] diz que a FCC também propôs mudanças na maneira de avaliar a audiência das rádios locais, de modo a limitar às companhias a posse de mais estações dentro de determinados limites.
Executivos afirmam que algumas restrições tornaram-se obsoletas à medida que os americanos voltam-se a novas tecnologias como TV via satélite e serviços da internet. Ao mesmo tempo, uma onda de acordos entre corporações levou a níveis inesperados a concentração da indústria de telefonia e de emissoras abertas e fechadas, testando os limites de propriedade impostos pela FCC e pelo Congresso, em 1996.
As propostas poderão ter implicações significativas para fusões recentes ou em andamento na indústria de emissoras e jornais. "O mercado midiático tornou-se crescentemente dinâmico e competitivo, com um número expansivo de fontes de informações e plataformas da mídia. Mais americanos do que nunca estão usando essas opções", disse William E. Kennard, presidente da FCC. "A reportagem atual equilibra interesse público na diversidade das propriedades com a necessidade de eficiência econômica e de competitividade do mercado das indústrias de emissoras", afirma.
Em relação à posse híbrida em uma mesma cidade, a Comissão afirmou que ainda há necessidade de restrições em muitas áreas, mas que em cidades grandes, com muitas fontes midiáticas, "podem haver situações nas quais as antigas normas não necessariamente protegem o interesse público com diversidade e competição".
No caso da posse de duas redes nacionais de TV, a Comissão afirmou que não alterará as antigas regras que proíbem as quatro maiores emissoras – ABC, CBS, Fox e NBC – de adquirir umas às outras.
"A decisão da FCC é um caso didático de ação arbitrária e volúvel do governo", disse Chase Carey, presidente e executivo da Fox. Kennard afirmou que o argumento de Chase confundiu tendências no mercado local com tendências no mercado nacional. Segundo ele, a necessidade urgente de proibir qualquer companhia de controlar o mercado nacional permanece ilesa.
Kennard disse que a grande maioria dos americanos conta com emissoras de TV para obter notícias. Se é assim, dizem alguns críticos, isso apenas demonstra a necessidade de manter em seu devido lugar a regra que limita a posse heterogênea.
"O número cada vez menor de proprietários desses meios não ajuda a democracia", afirma Andrew Jay Schwartzman, presidente do Projeto de Acesso à Mídia (MAC), que promove a diversidade de emissoras. Segundo ele, a evolução da internet já deve exercer fortes influências na decisão das pessoas em seus votos para prefeito. "O grau de controle que poucas grandes forças econômicas em qualquer comunidade podem ter não é menor hoje do que foi no passado", afirma.
Nem um pouco feliz
O editorial de 2 de junho do New York Times não esconde a decepção do jornal quanto ao relaxamento das antigas regras. "É uma má idéia", diz o editorial, "não há evidências de que enfraquecer regras ajuda os clientes".
Além disso, afirma o jornal, as regras existem para preservar algo precioso e frágil na democracia: a diversidade de informações. A Comissão já tem o poder que precisa para conceder isenções quando necessário.
Defensores da nova regra afirmam que uma emissora recém-nascida e financialmente fraca, como a UPN, só poderá ter sucesso se ligar-se a uma maior, como a CBS – recém adquirida pela Viacom. A fusão resultará então em uma CBS ainda maior. A matéria do NYTimes diz que se a Comissão prova que a UPN sobrevive apenas se amarrada com a CBS; então, tem o poder legal de modificar suas regras anteriores e fazer concessões bem fundamentadas.
O argumento para afrouxar as regras, segundo o jornal, é fraco. A FCC já concede isenções das regras em casos raros nos quais, por exemplo, a única chance de um jornal local sobreviver é sendo adquirido por uma emissora.
A preocupação do NYTimes é justificada. Se as regras forem abolidas em cidades grandes, Rupert Murdoch, proprietário de uma emissora de TV de Nova York, poderá comprar o New York Post sem ter que se explicar.
O editorial reconhece que o jornal e a companhia Times em geral são grandes interessados nas decisões da Comissão, tal como qualquer companhia midiática. Mas a grande preocupação, ainda segundo o jornal, é a preservação de grupos diversos, com fontes independentes de notícias e entretenimento.
O editorial afirma que antes de modificar as regras é preciso que a FCC prove os benefícios dos cidadãos comuns com a mudança. Até agora, essa prova não existe.
TEMPOS MODERNOS
Jornalismo de entretenimento
Jornalismo virou piada entre os alemães. Pelo menos entre os leitores da revista Sueddeutsche Zeitung (SZ). Um de seus repórteres, o freelancer Tom Kummer, de 37 anos, comprometeu o nome do veículo ao "inventar" entrevistas com celebridades.
Ivana Trump confessou-lhe aversão a acnes e brotoejas. Courtney Love contou-lhe como usava seus seios como força política. Sharon Stone disse-lhe o quanto amava atormentar homens. Essas são algumas das entrevistas íntimas supostamente feitas pelo jovem Kummer.
De acordo com matéria da BBC (29/5/00), a revista anunciou um possível processo contra o jornalista e publicou um artigo desculpando-se com os leitores. "Nossa credibilidade jornalística sofreu grandes danos", dizia o texto.
A mutreta foi descoberta após provas dadas pela revista concorrente Focus, a partir de suposta entrevista com Courtney Love, a que a cantora fez objeção. O jornalista da Focus, Holger Hotzel, apelidou as entrevistas de Kummer de "conversas com ele mesmo".
Um Kummer nem um pouco arrependido insistiu não ter feito nada de errado, descrevendo seu trabalho como "reportagem montada" – unindo informações de outras fontes –, também batizado de "jornalismo da corda bamba". "Leitores da minha geração querem ser entretidos", disse o jornalista, que mora em Los Angeles e começou a trabalhar na SZ em 1996.
Christian Kaemmerling, editor-chefe da SZ e autor do artigo no qual a revista se desculpa, escreveu que aprendeu "com os colegas da Focus que se pode ser vítima de traições de proporções imensuráveis". "Se a suspeita for confirmada, Kummer não apenas nos traiu, como traiu vocês", diz o artigo.
"Exclusivas"
Um jornalista afirmou ao jornal britânico The Guardian que os editores telefonavam para a redação perguntando aos jornalistas por que não podiam pescar com Bruce Willis, cavalgar com Robert Redford e jogar golfe com Kevin Costner. "Kummer sempre chegava com ótimas exclusivas – como, por exemplo, um convite à casa de Kim Basinger", afirma.
A SZ disse ter interrompido a publicação das matérias de Kummer no ano passado, quando ele foi incapaz de reproduzir gravações de entrevista com a atriz Christina Ricci. A revista já publicou reportagens sobre Courtney Love, Kim Basinger e Brad Pitt, mas não tem razões para suspeitar de sua genuinidade.
Enquanto jornalistas estrangeiros lamuriavam-se por ser sempre os últimos da fila para uma mísera entrevista de 15 minutos, Kummer gabava-se por ter se tornado amigo de diversas estrelas, inclusive durante sessões de musculação na mesma academia.
Segundo Edmund L. Andrews [The New York Times, 2/6/00], o jornalista diz que os editores sabiam de seu método e aprovaram-no.
Talvez o caso mais bizarro seja a reportagem de Ivana Trump, em abril de 1999. Kummer não apenas publicou uma entrevista nunca feita, como também inseriu na boca de Trump trechos de A Filosofia de Andy Warhol. "Não deve haver infelicidade maior que problemas de pele", dizia a "entrevistada". "Acnes não são o problema, pois vão e vêm. Irritações da pele são bem piores e tornam-se insuportáveis quando uma famosa clínica dermatológica nega-se a tratar."
Claus Lutterbeck, que foi correspondente da revista Stern em Hollywood, afirma que "o problema é o fato de ninguém saber, nem mesmo nossos chefes, como as coisas funcionam em Hollywood". "Editores não imaginam como é difícil ter acesso às celebridades", diz. "Acham que gastamos nosso tempo em coquetéis com estrelas de cinema e então alguém como Kummer aparece sem que se possa ter controle sobre seus atos."
FOTOJORNALISMO
Imagens sob vigilância
A mídia francesa não está soltando rojões. Foi aprovada uma nova lei segundo a qual jornais e revistas estão proibidos de publicar fotos que "põem em risco a dignidade da vítima" – como imagens de suspeitos algemados –, apesar de avisos de que esta legislação limitaria a liberdade de imprensa. James Coomarasamy, correspondente da BBC em Paris, diz que a lei sujou a legislação do país com absurdo, perigo e até estilo soviético.
Segundo reportagem da BBC (30/5/00), a lei foi uma resposta à controvérsia gerada pela atuação de fotojornalistas por ocasião do acidente de carro de Lady Di, em 1997. Apesar dos tropeços mútuos e múltiplos entre os fotógrafos, as imagens nunca foram publicadas. Elizabeth Guigou, ministra da Justiça, afirma que os atentatos terroristas em Paris, em 1995 e 1996, incidentes em que alguns jornais publicaram fotos chocantes, também inspiraram as novas regras.
A lei apóia e garante os direitos dos suspeitos criminais – como melhor acesso a advogados e possibilidade de apelo contra veredictos da Corte.
A ministra Elizabeth Guigou afirma que a lei estabelece um equilíbrio entre a liberdade de imprensa e os direitos pessoais dos cidadãos. A maior parte da mídia discorda, reclamando que, agora, algumas das mais poderosas fotos noticiosas nunca serão publicadas.
A revista Paris Match disse que irá ignorar a legislação e lutar na Corte Européia dos Direitos Humanos se for desafiada pelas autoridades. "Em nome da liberdade de informar, Paris Match está comprometida a publicar fotos que contrariam a lei de Guigou", afirma a revista em editorial. De acordo com a lei, caberá aos editores decidir quais fotos infringem as novas regras. Caso desobedeçam, haverá multa equivalente a 14.200 dólares.
Quando a lei foi apresentada ao parlamento, em 1999, houve uma onda de protestos dos jornais. O Le Figaro considerou a lei perigosa à medida que faz a mídia descrever "uma sociedade sem conflitos, sem tensões e sem vida". Apesar dos protestos, o Senado deu à lei apoio unânime.
NEGÓCIOS, NEGÓCIOS
Fuller bate nas onze
Alguns conhecem o escritor Jack Fuller, outros o executivo. Alguns surpreendem-se mais com seu novo livro, The Best of Jackson Payne, narrado por um saxofonista branco submerso em drogas; outros surpreendem-se especialmente com a habilidade com que comanda a produção do Chicago Tribune, em Chicago. Há, ainda, quem se surpreenda mais com seu plano de 8 bilhões de dólares para "engolir" o jornal de Times Mirror.
Naturalmente não são poucas as perguntas que o circundam. Segundo matéria de John McCormick [Newsweek, 5/6/00], a questão mais crucial é se um ex-repórter e novelista tem experiência com negócios e força para consertar o decadente e deficitário Times Mirror.
Sob controle de Fuller, de 53 anos, o Tribune tem sido o jornal mais lucrativo na indústria, com margens de lucro bem superiores às do Mirror. O novo acordo faz de Fuller um dos mais influentes executivos de jornal nos Estados Unidos. Quando a fusão for feita, os rendimentos do Tribune só estarão atrás da Gannett – maior cadeia do país.
Fuller deu início a sua carreira aos 16 anos, como copiador do Chicago Tribune. Foi convocado ao exército e escreveu do Vietnã. Mais tarde trabalhou em um ridicularizado grupo experimental, tendo como colegas de classe Hillary Rodham e Bill Clinton. Retornando ao Tribune, passou de repórter a editor do jornal. Ao longo de sua trajetória, ganhou um Pulitzer e publicou sete livros.
Parece, porém, que Fuller decidiu-se pelo mundo do business. Em 1993 largou a redação para ser executivo em tempo integral. Segundo o ex-repórter, a mudança foi confortável, porque lhe permitiu melhorar os jornais do Tribune com novas tecnologias. Liderou os esforços, então revolucionários, para transportar os melhores jornalistas para TV e internet, apesar dos protestos da equipe.
Fuller não falou muito de seus planos para o Times Mirror. A prioridade em sua agenda é inserir câmeras de TV na redação do Los Angeles Times e do Newsday, "parentes" do jornal recém-adquirido.
Apesar de reclamações em Chicago de que Fuller "emagreceu" a equipe do Tribune, seus defensores crêem em uma melhora do Mirror, após a fusão. "Jack se preocupa com jornais", diz Lois Wille, antiga editora do Tribune, "Ele acha que a melhor maneira de mantê-los fortes é ter certeza de que são lucrativos."
Enquanto Fuller conserta o Mirror, o novelista que existe nele tem a missão de desenhar um final feliz.
CAMPANHA ELEITORAL
Palanque eletrônico
"Máscara de Gore é revelada", dizia o subject de um e-mail de Washington. A mensagem apimentada do Comitê Republicano Nacional circulou ofuscantemente nas caixas postais de computadores por todo os Estados Unidos na semana passada. Não se tratava de sugerir corrupção política ou obstrução da justiça, mas de espalhar o relato publicado na revista People de que Gore usava maquiagem. Por meio dessa mensagem, a seção "Perspectiva" da Newsweek dedicou-se a esmiuçar a fofoca.
A infindável competição Gore vs. Bush tornou-se verdadeira cyber-guerra. Segundo matéria de Peter Marks [The New York Times, 1/6/00], de hora em hora e-mails chegam como "lanças digitais" dos candidatos e seus respectivos partidos.
Traiçoeiras, eficazes, funcionais e fofoqueiras, as mensagens materializam via rede a campanha eleitoral norte-americana de 2000.
A audiência mais significativa é de jornalistas. "Dia 52: Repórteres são reféns!" gritava um e-mail do Comitê Republicano em abril. Esta é uma de séries de mensagens do gênero, enviadas para lembrar jornalistas de que havia 52 dias o vice-presidente não lhes tinha concedido uma entrevista coletiva. Com efeito, a mensagem rendeu pauta em jornais e emissoras de todo o país. No "Dia 60", Gore deu a coletiva.
Campanhas eleitorais sempre sussurraram pequenas bobagens escabrosas sobre a oposição nos ouvidos dos repórteres. Mas porque o e-mail introduziu uma nova era de facilidade e conectividade epistolares, criou também uma forma de release super-eficiente e independente de papel. Assim, a cyber-campanha não apenas liga diretamente o mundo político ao jornalístico em segundos, como também permite aos partidos atirar um no outro de acordo com suas vontades.
Assim que a "Mensagem do Dia é emitida", abre-se o pretexto para o lançamento da "Mensagem dos Últimos 10 Minutos". Previsivelmente, chegam e-mails de todos os tipos: úteis, irrelevantes e irreverentes.
"Mensagem via computador é ao mesmo tempo invasiva e discreta", observa Clifford D. May, diretor de comunicação do Comitê Republicano. "E um telefonema, mas não em tempo real." Segundo May, a nova forma de campanha apresenta muitas vantagens. "Não se está interrompendo um jornalista em deadline", diz, "e por e-mail cada um pode levar o tempo que for necessário para compor sua mensagem da forma mais persuasiva possível."
Há um travesso "sabor especial" de imprensa marrom nas campanhas por e-mail, apesar de ambas afirmarem que o outro lado deforma a verdade. As mensagens não só circulam instantaneamente a partir da fonte, como podem ser encaminhadas com a mesma eficácia.
Spams que requerem rápida atenção são, enfim, outra marca da era da mídia instantânea, era em que o destino mais triste de uma mensagem no computador é o desprezo.
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