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MONITOR DA IMPRENSA

HUNGRIA
Mídia (outra vez) amordaçada

Fabiano Golgo, de Praga


A Hungria do ex-revolucionário Viktor Orbán cada vez mais se parece com o regime contra o qual ele lutou nos momentos derradeiros do comunismo, em 1989. Naqueles dias que levaram à remoção da Cortina de Ferro (literalmente: a retirada das centenas de quilômetros da cerca de arame farpado que impedia o livre movimento de cidadãos em direção à Áustria e, em conseqüência, ao mundo capitalista ocidental), Orbán, então com 26 anos, se destacou como um jovem de muita coragem, ao subir em palanques e exigir a reabilitação do líder da revolta húngara de 1956, Imre Nagy, que tentara livrar seu país das amarras soviéticas e acabou assassinado e sem funeral.

Orbán emergiu como um herói da revolução de 1989. Ainda demorou alguns anos até que a população acreditasse que aquele rapaz cabeludo tivesse condições de chegar ao cargo máximo do país. O que acabou acontecendo em 1998, quando seu partido, Fidezs (Federação de Jovens Democratas), saiu vitorioso nas eleições, levando-o ao cargo de primeiro-ministro.

Foi aí que as coisas começaram a mudar no currículo democrata de Orbán. Uma série de ataques à imprensa inicialmente pareceu justificável pelo óbvio conteúdo pesadamente partidário da maioria dos jornais – pendendo ao esquerdismo engajado. Mas o Fidesz acabou extravasando o bom senso ao tentar (e conseguir) implantar leis que permitem o estrangulamento da liberdade de expressão não apenas dos chamados extremistas, mas também de qualquer um que "ouse" ter opinião contrária à do governo, por mais embasada em argumentos racionais.

Opinião e perigo

Vários jornalistas passaram a ser alvo de processos que resultam em multas pesadas, por "crimes" do tipo escrever linhas "ofensivas" a algum político, o que pode significar até um mero discordar de alguma idéia por ele/a defendida.

Como Orbán é da direita liberal, tão apoiada por americanos e britânicos, a imprensa mundial (a cobertura internacional é geralmente feita por eles, mais os alemães, sempre afinados com os americanos) faz vista grossa e mal toca no assunto. Como se fosse um mal menor, considerando-se os fins, ou seja, o alinhamento das instituições e da economia húngaras à cartilha destes países.

A Associação dos Jornalistas Húngaros foi à Corte Constitucional após ação policial perpetrada contra o repórter Attila Varga, do principal jornal de Budapeste, o Nepszabadsag, por causa de um artigo em que ele relatara uma agressão do deputado (pelo Fidesz) Gyula Balogh a seguranças em uma festa. O parlamentar exigiu que o diário desmentisse a história e, com a recusa dos editores, acionou seus advogados baseando-se na nova lei de imprensa aprovada pelo partido em 1º de março deste ano. O jornalista foi levado pela polícia para ser fichado, com foto numerada e impressões digitais, mesmo antes de começar o processo. A Corte decidiu que o relato não era falso – testemunhas e até foto comprovavam agressão do parlamentar –, mas os juízes registraram que o artigo em questão continha opinião, o que, com a nova lei, se transformou em algo perigoso, devido à possibilidade de altas multas.

Espectro revivido

Por causa disso o processo continua, em outras instâncias, para decidir qual será o valor a ser pago pelo crime de expressar opinião. E Varga ficará eternamente fichado, o que significa que, se precisar de atestado de bons antecedentes policiais, o terá com o desagradável registro de ter estado um dia sob custódia policial. Para se ter uma idéia do que isso significa, o repórter em questão não poderá cobrir, como no ano passado, o Fórum 2000, que se realiza em Praga, porque o visto para a República Tcheca exige apresentação prévia na embaixada de atestado de bons antecedentes criminais. Essa controversa regra foi criada recentemente para tentar diminuir o fluxo de iugoslavos, russos e ucranianos, muitos envolvidos com máfias.

Magda Kovacs, da oposição socialista, atacou a nova lei e vem tentando encontrar apoio internacional para seu protesto, pois acredita que os jornalistas acabam se autocensurando, com medo de processos.

Mesmo antes da criação da nova lei de imprensa, o Fidesz já havia agido como nos tempos de regime autoritário contra o qual seus integrantes lutaram na década de 80. Laszlo Juszt, jornalista famosíssimo por ter tido a coragem de publicar duas reportagens investigativas sobre os crimes dos apparatchiks no veículo oficial do então partido único, durante a fase comunista – depois elevado a editor-chefe e apresentador do programa Kriminális (homônimo de uma revista mensal por ele publicada) na estatal Magyar TV – acabou perdendo o emprego na emissora por ter feito cobertura de um escândalo protagonizado pelo Fidesz: o partido tinha filmado, com câmera escondida, as idas e vindas de um adversário, revivendo o espectro da temida polícia secreta do regime anterior, que tanto aterrorizara a população.

"Bons meninos"

Depois de ser removido do programa (que, com isso, foi extinto), Laszlo Juszt passou por outra situação (in)digna dos tempos de ditadura: teve os escritórios de sua revista invadidos pela polícia antiterrorismo, e seus computadores confiscados para investigação. Obviamente retornaram danificados e sem muitos arquivos. Para completar, a revista recebeu multa de tal valor que obrigou Juszt a fechar a publicação.

Os abusos na Magyar TV são tantos que se trivializaram. Por ironia, o quartel-general da emissora fica em frente à embaixada americana, na Praça Liberdade. Seu monumental prédio foi sede da Bolsa de Valores antes da chegada do regime comunista. Com a rádio estatal e o outro canal público, Dunas TV, é administrada por um grupo indicado pelo governo. Obviamente não se espera isenção ideológica dos telejornais.

A defesa oficial do partido de Orbán é sofismática: o público passou por quatro décadas de mão pesada do governo na mídia, que, na época, visava limitar a visão de mundo da população; então, é natural que alguns temam as novas diretrizes para a mídia. No entanto, segundo o ministro da Justiça, Ibolya David, do Fidesz, a nova lei "apenas evita abusos contra a liberdade de expressão (sic) pelos veículos de informação". Ou seja, Denorex: parece, mas não é. Apesar de muito semelhante ao pré-89, simplesmente não é a mesma coisa "porque é executada pelos bons meninos do Fidesz", ironiza Magda Kovacs.




IMAGENS DO DESASTRE

Leilão do acidente do Concorde

A mídia mundial buscou o mais que pôde uma imagem inédita do Concorde em chamas desabando sobre um hotel francês, em Gonesse, cidade próxima a Paris. Após aflitos e-mails e apressados telefonemas, veículos espalhados pelo mundo conseguiram a foto produzida por um homem de negócios japonês. O valor da imagem foi estimado em 50 mil dólares.

Segundo matéria de Felicity Barringer [The New York Times, 31/7/00], na tarde de terça-feira (29/7), enquanto bombeiros e corpos de resgate dirigiam-se ao local para abafar o fogo e tratar feridos, fotógrafos de agências como Corbis-Sygma, Gamma/FHM e Sipa Press corriam com suas motos em direção às imagens chocantes. Ao mesmo tempo, executivos de agências contatavam editores de fotografia pelo mundo, fechando acordos.

Foram, no entanto, a sorte e reflexo de três amadores que produziram as imagens almejadas pelas audiências noticiosas. Imagens captadas por uma estudante húngaro, a esposa de um caminhoneiro e um executivo japonês, que assistiram à cena sentados em outro avião, no aeroporto de Roissy.

O trabalho dos amadores rapidamente gerou um mini-mercado nervoso que segue os princípios da economia: quanto menos imagens, maior o valor retido nas mãos de vendedores; quanto maior o conhecimento dos compradores de fotos sobre todas as imagens disponíveis, maior sua vantagem ao negociar as compras.

Serviços eletrônicos tendem a pagar menos que revistas; tablóides tendem a pagar mais. Acordos de negociação de fotos costumam ser abertos e fechados em 1 hora, o que significa que editores e produtores têm apenas este tempo para calcular quanto pagar para desbancar concorrentes, se vale a pena engolir o preço ou esperar por nova imagem até o deadline.

A rota percorrida pela foto demonstra o sistema de ações entre as partes negociantes. Buzz, pequena agência londrina de fotos, ouviu falar da foto um dia após o acidente. O homem de negócios japonês chegou à Buzz por intermediários e enviou a imagem por e-mail ao computador pessoal de um colega de Steve Lake, sócio da Buzz.

Sabendo que as fotografias foram tiradas através da janela de um avião com câmera comum, o empregado da Buzz não sentiu urgência, mas quando abriu o e-mail chegando em casa, voltou atrás. "Ele as gravou em disquete e correu para seu carro", disse Lake. "Copiamos tudo na agência e percebemos quão boas eram as imagens."

Eram 20h em Londres e os jornais estavam a cerca de uma hora do deadline. O acidente ainda era notícia importante, mas já estava em seu segundo dia. No primeiro dia, a imagem obtida pelo jovem húngaro, adquirida e distribuida pela Reuters, dominou as primeiras páginas. Não se podia dizer se as fotos do executivo eram apenas uma variação da imagem já publicada ou se apresentavam dados inéditos.

Após pesquisar discretamente serviços eletrônicos, Buzz concluiu seu pioneirismo e começou uma saga de telefonemas a jornais britânicos. "Não sabíamos o preço exato", disse Lake. Calcularam cerca de 7 mil dólares e sugeriram 25 mil. Após uma hora, o Mirror fechou acordo e ganhou os direitos de publicação no Reino Unido.

No dia seguinte, enquanto as imagens dominavam a primeira página do Mirror, Lake conversava com Bild, uma publicação alemã. Diversas agências de fotos, coversaram com Lake, alegando que uma agência minúscula como Buzz não poderia fechar acordos de direito internacionais por meio de uma linha telefônica. Lake concordou e permitiu à agência Sygma que assumisse os próximos acordos, garantindo uma porcentagem a Buzz.

No final da manhã, um formidável negociante da Sygma fechou a venda das imagens para Newsweek, U.S. News & World Report e People. A Newsweek comprou os direitos da foto por cerca de 20 mil dólares. A revista considerou a qualidade da imagem, que não poderia estar na capa ou ser públicada em duas páginas.

Quão rápido fotografias perdem valor? "Depende do impacto da reportagem noticiada", afirmou uma jornalista da U.S. News. "Fotos amadoras tiradas durante o bombardeio em Oklahoma foram ícones." Segundo ela, a imagem do desastre obtida pela estudante húngara "permanecerá na mente das pessoas por muito tempo."




JORDÂNIA

O príncipe internauta

Na Jordânia estão ocorrendo debates que envolvem multidões, pela internet. A importância do evento é tanta que o príncipe Ali bin Al-Hussein, irmão e chefe de segurança do rei Abdullah, apareceu nas telas dos internautas – os quais, muitos, referiram-se a ele como simplesmente "Ali".

Sediado no grande portal Nets.com.jo, o chat recebeu a visita do príncipe, que veio defender-se pessoalmente "contra todos que sujam o nome das Forças Armadas e dos Serviços de Segurança."

Segundo matéria de Thomas L. Friedman [The New York Times, 25/7/00], a internet abriu espaço para a discussão do que foi censurado no papel. No sítio do Cairo Times, nova publicação egípcia, pode-se conferir, em chamadas vermelhas garrafais, todos os textos censurados na versão impressa, e o leitor pode ler matérias que a censura vetou. "O Arquivo Proibido – Veja o que a censura cortou de nossa edição impressa", exibe, provocante, a página principal do Cairo Times.

O jovem rei Abdullah, que entende mais de globalização que qualquer líder árabe atualmente, decidiu recentemente privatizar a mídia da Jordânia porque percebeu que seu império jamais se modernizaria sem jornais com notícias de verdade. Enquanto isso o mundo árabe faz feio. Em gesto vergonhoso no começo de julho, o Egito prendeu Saad Eddin Ibrahim, especialista em democracia da Universidade de Cairo, sob acusações tolas. Pior ainda, diversos comentaristas escreveram editoriais apoiando sua prisão, por ter tido ligações com a União Européia e porque defende a normalização com Israel.

Na Cidade Velha, democratas palestinos começam a resistir a Yasser Arafat. Jornalistas locais inauguraram um sítio, Amin.org, em que se publicam todos os artigos censurados por editores locais ou por oficiais de Arafat.




GRÃ-BRETANHA

Pedofilia na boca do povo

Mídia, políticos e polícia condenaram o News of the World, tablóide britânico, no dia 24 de julho, acusando-o de publicar fotos e nomes de pedófilos declarados.

A repreensão gerou conflitos, uma vez que parentes de vítimas de pedofilia aprovaram o gesto do jornal. Os pais de Sarah Payne, de 8 anos, cujo assassinato iniciou debate sobre como lidar com crianças violentadas sexualmente, acharam conveniente a publicação de 110 mil ofensores convictos. O News of the World afirma que o caso de Sarah Payne motivou a publicação. "Todo inglês possui um pedófilo vivendo a uma milha de sua casa", dizia a primeira reportagem do tablóide, na qual foram publicados os primeiros 49 nomes. O jornal, maior tablóide semanal do país, afirma que o assassinato de Sarah "provou que o monitoramento policial dessas perversões não é suficiente" e que estão revelando "quem são e onde estão."

De acordo com matéria da Agence France-Presse (24/7/00), o jornal disse ter apoio público massivo para sua atitude, mas entidades oficiais não aceitaram o gesto. Tony Butler, porta-voz da Associação de Chefes de Policiais, afirmou que "a atitude do jornal terá efeito contrário e porá a vida de crianças em risco por colocar ofensores sexuais em regiões escondidas e marginalizadas". Segundo ele, sua previsão é baseada em casos anteriores de publicações que resultaram em ameaças à proteção de crianças.

"Experiências passadas mostram que quando pedófilos são publicamente identificados, alguns deles se escondem temendo ataques", disse Paul Cavadino, porta-voz da Associação Nacional para Cuidado e Restabelecimento de Ofensores, que considerou o News of the World "grosseiramente irresponsável". "Pedófilos vão a outro lugar, mudam seus nomes, impossibilitando ação policial", afirmou.

Pessoas envolvidas com trabalhos sociais afirmam ter recebido ligações de acusados indignados com suas identificações publicadas no jornal.

O primeiro-ministro Tony Blair, apesar de encontrar-se no Japão, concedeu entrevista à TV, afirmando que o Parlamento pensa em aprovar uma declaração permitindo identificação eletrônica de pedófilos da comunidade.

O News of the World foi fortemente atacado pela mídia britânica. O liberal Guardian afirma que a publicação da lista foi "tão boa quanto dar às crianças fósforo e gasolina, mas alertá-las a não tocar fogo". O conservador Daily Telegraph disse que a campanha "é, no mínimo, tão provável de provocar violência contra ofensores que cumpriram sentença, quanto de salvar qualquer criança de abuso". O News of the World permanece inabalável às críticas e pretende prosseguir sua campanha.




AOL-TIME / WARNER

Fusão sob pressão

A NBC, controlada pela General Eletric Co., está se juntando à Walt Disney Co., parente da ABC, para discutir e questionar até que ponto a fusão AOL-Time Warner é executável em se tratando de concentração injusta de poder.

A emissora, segundo matéria de Seth Sutel [Associated Press, 25/7/00], enviou um documento à Comissão Federal de Comunicações (FCC), pedindo que imponham um compromisso reforçado à AOL-Time Warner, para não privilegiar emissoras da Time Warner em detrimento de outras.

Richard Cotton, advogado principal da NBC e autor da carta, escreveu que "a entidade fundida terá incentivo econômico e habilidade de assegurar vantagem competitiva substancial ao discriminar conteúdos provenientes de companhias não filiadas, tanto na TV interativa quanto na internet."

Ed Adler, porta-voz da Time Warner, disse que as companhias já arquivaram a questão levantada pela NBC para discutir com órgãos reguladores e repetiu que a entidade promete manter as portas de suas emissoras a cabo abertas a outros provedores de conteúdo. "Temos compromisso com o consumidor de fornecer o mais amplo e melhor conteúdo disponível, sem considerar quem o está fornecendo", afirmou.

A Disney também mostrou preocupação, mas sugeriu medidas mais radicais. No começo de julho, oficiais da companhia pediram para a FCC exigir que a Time Warner separe sua possessão de distribuição midiática de suas propriedades de produção, o que a Time Warner julgou "besta."

As companhias temem que a Time Warner dê preferência a filmes, shows, musicais e outros conteúdos feitos por seus próprios subsidiários, tais como Warner Brothers, CNN e HBO.




POST vs. TIMES

Veneno que vende jornal

O New York Post parece estar saindo de sua linha política local. Apesar de sua posição reconhecidamente conservadora, seus artigos, manchetes e colunistas tendem a atiçar e comemorar erros alheios.

Segundo matéria de Felicity Barringer [The New York Times, 24/7/00], para políticos e observadores da mídia, o Post de 15 de julho foi o primeiro veículo a acusar a primeira dama do candidato ao Senado do Partido Democrata Hillary Rodham Clinton de usar argumentos anti-semitas em campanha, há 26 anos.

O fato de o Post odiar Hillary já é conhecido de todos. Defensores da primeira dama afirmam ter evidências sobre a teoria "Post-odeia-Hillary", como a esboçada na manchete da primeira página, "vergonha de Hillary", a qual sucedeu seu encontro com Suha Arafat, esposa do líder palestino. Ódio, porém, é uma palavra fraca para o que guia o Post. Partidos terão sempre um lugar no jornal dirigido por Rupert Murdoch, presidente do conselho da News Corporation, companhia com parentesco com o Post. Além disso, a cobertura diária do jornal é produto da adrenalina de jornalista e do desejo de ser rápido, preciso e melhor.

"Quando um jornal cisma com alguma coisa, são vorazes em dar continuidade às críticas", disse Dan McLagan, diretor de comunicação da campanha de Lazio, candidato de oposição ao Senado. "Isso vale para o Post, para o Daily News e para o New York Times."

Críticos conservadores, no entanto, sempre defenderam o Post, julgando-o um contrapeso ao liberal New York Times.

George Arzt, consultor de relações públicas do Post, disse que, ideologicamente, "se uma história serve, perfeito. Se não serve, será examinada. Se não serve, mas vende jornal, publicamos". Por suas palavras, entende-se o porquê da publicação de as alegações sobre o anti-semitismo de Hillary. Já para Xana Antunes, editora do Post, a reportagem foi apenas uma boa matéria, bem apurada.

Hillary negou a acusação e o presidente Clinton procurou o Daily News para fazer o mesmo. A notícia espalhou-se, e jornais e emissoras trouxeram a questão para nível nacional. O Post, no entanto, permaneceu na liderança de cobertura da notícia, publicando inúmeras matérias sobre a acusação.

Ignorando a ideologia, o Post, veículo cuja circulação diária é de 463 mil cópias, continua tentando ampliar seu appeal. Mas o que compram os leitores? Desde abril, cinco eventos dominaram a primeira página do jornal: a corrida ao Senado de Nova York, o destino do New York Knicks nos jogos da NBA, o retorno de Rocker à cidade, a morte do cardeal John O’Connor, e a decisão de Giuliani, prefeito de Nova York, em abandonar seu casamento e a briga pelo Senado.

Apenas a morte de O’Connor, no entanto, causou aumento de vendas do jornal. Qual, então, é a alma do Post? Partidarismo ou espírito competitivo jornalístico, combinado com respeito pelo que é justo? Para Antunes as coisa são bem mais simples. A cobertura das notícias acusadoras, segundo ela, deram continuidade a artigos previamente publicados. "Você conta a notícia, confere os fatos e imprime o que vai vender no dia seguinte", afirmou.




RÚSSIA

Reviravolta no caso Gusinsky

Procuradores desistiram do caso contra o barão da mídia russa, Vladimir Gusinsky, dando fim, no dia 27 de julho, ao drama que durou três semanas e que expôs reclamações do magnata de que o Kremlin estava tentando intimidar opositores.

O caso, de acordo com matéria de Angela Charlton [Associated Press, 27/7/00], foi descartado por falta de evidências.

Barões de negócios, jornalistas e observadores internacionais temeram as movimentações contra Gusinsky, proprietário da Media-Most, uma vez que assinalam autoritarismo do presidente Vladimir Putin. O ato de eliminar as acusações pode significar uma cooperação de Putin com magnatas cujo poder político sempre foi boicotado.

A sociedade russa deu boas vindas à quebra do processo. Investidores estrangeiros e a comunidade de negócios russa, porém, não gostaram. Enquanto muitos saúdam uma política dura contra corrupção e acordos internos, eles temem uma reversão para o autoritarismo do privado, o qual, crêem, pode ser pior.

No dia 28 de julho, oligarcas russos teriam um encontro com Putin, o que significa um segundo passo para se chegar a um entendimento entre governo e magnatas. "Para oligarcas, a reunião é importante para se acalmarem; para Putin, é importante para acalmar os negócios mundiais", disse Vyacheslav Nikonov, diretor da Fundação Politika. Gusinsky, um dos alvos preferidos de crítica de Putin, foi notavelmente deixado de fora do encontro.

O dono da Media-Most permaneceu preso por quatro dias em junho, sob acusações de desvio de verbas estatais. Documentos de sua companhia foram apreendidos e Gusinsky foi proibido de sair do país. Jornalistas afirmam que o caso eram um tentativa de amordaçar a mídia.

Não se sabe o que levou procuradores a largarem o caso. Advogados de Gusinsky reclamaram por semanas que as evidências do estado eram cômicas. À época das acusações, todos os veículos da Media-Most foram mobilizados para denunciar seu caso, mas nos últimos dias, Gusinsky andava reticente. Quando seu caso foi descartado, o barão voou imediatamente para a Espanha, em visita a sua família. Os rumores são de que Gusinsky fechou acordo secreto com o governo.




IRÃ

Cizânia na mídia islâmica

Dois dos maiores provedores de notícias islâmicos, a agência IRNA e o diário conservador Kayhan, iniciaram uma guerra verbal sem precedentes no Irã.

A briga, segundo matéria da Associated Press (26/7/00), expôs publicamente acusações mútuas de "estar nas mãos de estrangeiros" e de ser pró-Israel. A disputa, primeira dessa natureza desde a revolução islâmica de 1979, coloca a IRNA, agência próxima ao presidente reformista Mohammad Khatami, contra Kayhan, o qual é ligado ao líder iraniano aiatolá Ali Khamenei.

Khamenei, pondo lenha da fogueira, criticou "certos jornais e a mídia" por criar "assuntos que não são reais e sem importância". O líder ainda pediu para que o governo se concentre em "problemas reais, como a crise econômica e o desemprego de jovens."

Para o analista Daryush Abdali, o conflito entre os dois se acirrou por causa da eleição presidencial, prevista para 2001. "Essa briga está se tornando um problema real para o regime e o assunto preferido de estações de rádio estrangeiras em Farsi", disse.

O conflito começou após publicações do Kayhan alertando que a maioria de jornalistas pró-reformistas, próximos a Khatami, recebeu dinheiro da Human Rights Watch, organização sediada nos EUA, "para realizar reformas de estilo norte-americano no Irã". A IRNA, cuja maioria dos jornalistas foi acusada por conservadores de apresentar tendências pró-reforma, respondeu descrevendo reportagens do Kayhan como uma campanha organizada contra aliados de Khatami, o que, por sua vez, gerou contra-ataque no diário.

A agência, então, ameaçou publicar revelações contra o jornal "belicoso", o qual, segundo a rival, é controlado por "elementos suspeitos e invisíveis, pró-Israel e hostis ao presidente."

A briga mobilizou sítios de internet, serviços a cabo e outras publicações - incluindo o jornal estatal Iran -, os quais se colocaram contra Kayhan e acusaram-no de utilizar uma linha "violenta" de ataque.

Em junho, o chefe da IRNA, Ferydoon Verdinejad, criticou o fechamento de 18 jornais, quase todos reformistas, e disse que tal gesto é contrário aos princípios de democracia, independência e das próprias colocações do regime. A agência foi, então, incentivada por leitores e antigos jornalistas do Kayhan a formar uma campanha de denúncias, após reclamar de ameaças anônimas via telefone e de presença de bomba na redação do jornal Iran.




PAPEL vs. BYTE?

Mídia impressa vai bem, thanks

A seis meses de século 21 e as previsões de extermínio de jornal impresso parecem longe de se tornar realidade. Os principais jornais norte-americanos, à exceção do Washington Post, divulgaram ganhos maiores no segundo trimestre, confundindo experts financeiros que previram a morte de diários desde o advento do rádio e da TV até o surgimento da internet.

De acordo com matéria de Steve James [Reuters, 24/7/00], no dia 24 de julho via-se nas ruas jornais como USA Today, The New York Times, The Los Angeles Times, The Boston Globe, The Chicago Tribune, The Wall Street Journal e outros indo bem, obrigado. O declínio na circulação e o aumento do preço da impressão foram compensados com ganhos em anúncios.

Segundo Ed Atorino, analista de indústria de jornal da Wasserstein Perella Securities, "o jornal impresso está superando as expectativas financeiras em todo o país". "Eu achava que as expectativas para o segundo trimestre eram muito conservadoras, mas o crescimento da publicidade foi maior e mais bem vindo do que esperava a Wall Street", disse. Atorino acha que o medo da internet está se tornando algo distante. "Há mais ganhos que perdas em jornais impressos."

Os ganhos do segundo trimestre superaram as estimativas da Wall Street, com contratos publicitários mantendo o fornecimento de combustível às companhias midiáticas, cuja expansão estende-se à internet. "Observe-se os números da Knight Ridder: tiveram 6 milhões de dólares com anúncios na internet e 16 milhões em teles", afirma Atorino, "a nova mídia, então, está gastando muito dinheiro em mídia tradicional, beneficiando jornais impressos."

Leland Westerfield, da PaineWebber, foi, também, surpreendido. "Os resultados mostram, entre outras coisas, que o jornal se encontra em estágio no qual precisa se provar tão bom na versão impressa quanto na online", afirma, referindo-se à entrada de grandes jornais em sítios.

Para John Sturm, presidente e chefe executivo da Associação de Jornais dos EUA (NAA), a surpresa é sinal de que o ano que vem é promissor ao negócio. "A internet não tem sido grande problema", disse, acrescentando que a maioria dos grandes jornais diários nos EUA tem, agora, seus próprios sítios noticiosos, o que atrai uma legião de leitores leais por causa da permanência do veículo na comunidade local.



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