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MONITOR DA IMPRENSA

BIELORRÚSSIA
A senzala de Lukashenko

Fabiano Golgo, de Praga

 

Assim que Alexandr Lukashenko foi eleito presidente, a imprensa já não muito livre da Bielorrússia começou a ser atacada ferozmente por seu governo. Para um homem que diz na TV que Adolf Hitler poderia ser entendido melhor se seus "oponentes" não se centrassem "apenas" no Holocausto, não é de surpreender. Desnecessário dizer que Stálin também foi "redimensionado" por ele para aparecer nos livros escolares como um homem que apenas tentou fazer da "grande nação russa" um grupo coeso e "resistente aos poderes satânicos do Ocidente".

Esse mesmo presidente adora cantar em entrevistas de TV e pede para ser chamado de "pai" Lukashenko. Em novembro de 1996, ele fechou a câmara única, o Soviet Supremo, para dar lugar a um sistema bicameral. A idéia em si soa democrática, sintonizada com boa parte do mundo. Seria assim se não tivesse o próprio presidente escolhido a dedo cada um dos 110 deputados e dos 64 senadores do novo sistema.

Além disso, apesar de ter sido eleito em 1994, achou-se no direito de estabelecer como início oficial de seu mandato o dia da proclamação da nova Constituição (também filha sua), em 1996 – o que o manterá no cargo até 2001. Mas como seu mandato, de cinco anos, deveria terminar neste 1999, os sobreviventes (literalmente) do Soviet Supremo – que seguiu funcionando apesar de declarado ilegal pelo presidente – tentaram promover eleições em maio. Lukashenko, então, começou a multar ou prender jornalistas e fechar jornais que publicassem informações sobre "pleitos ilegais ou entidades inexistentes" (i.e., o Soviet Supremo). Detalhe: o Soviet Supremo da Bielorrússia é reconhecido por todos os países do mundo, com exceção da Rússia.

Rotativas no exterior

Há seis jornais independentes na Bielorrússia: Belorusskaya Delovaya Gazeta, Narodnaya Volya, Naviny, Pahonya, Nasha Niva e Svobodnye Novosti. Nenhum deles tem suas rotativas no país e são impressos na Lituânia ou na Polônia. Para contrabalançar a oposição, há outros seis jornais diários publicados em Minsk, todos do governo.

No ano passado, o Congresso aprovou uma lei que impede a publicidade das estatais em jornais que não sejam do governo; 82% das empresas existentes na Bielorrússia são estatais...

As manchetes dos jornais oficiais sempre mostram as bravuras do presidente-pai, as promessas de melhores colheitas e melhor produção industrial e doses de nacionalismo russo. Sim, russo. Stálin deu cabo de metade da população que podia ser denominada bielorrussa, ou seja, russos brancos. Lukashenko é russo de sangue: seus pais foram mandados ao território para repovoá-lo conforme a estratégia stalinista, que repetiu o feito nos países bálticos e em várias outras regiões da imensa União Soviética. Por isso Lukashenko simplesmente proibiu o uso de letras do alfabeto cirílico, que eram exclusivas dos bielorrussos. Na verdade, essas letras existiam no russo tradicional, mas foram eliminadas em uma reforma antiga, que não vingou onde hoje é a Bielorrússia. A grafia local teve que se adaptar à medida.

Lukashenko fez alarde sobre uma possível união de irmãos eslavos (leia-se Rússia, Bielorrússia e Iugoslávia), tentando assustar a Otan durante a guerra na Iugoslávia. Em seguida declarou a um canal de TV iraniano que "em breve" China, Irã e Rússia iriam se unir em uma organização militar nos moldes da Otan, para "evitar a repressão mundial pretendida pelos Estados Unidos".

Champanhe importado

Enquanto o povo passa fome, Lukashenko promove festas na capital, como a do Natal passado, em que cada um dos habitantes teve direito a uma garrafa de champanhe gratuita. Em plena recessão de inverno, foi a única coisa que a maioria teve à mesa: não havia sequer pão nas prateleiras por duas semanas. O filho do presidente, Victor, depois de consumir algumas dessas garrafas – estas importadas –, resolveu dar tiros dentro de uma boate famosa. O fato não mereceu uma linha nos jornais oficiais.

Dois dias depois de sancionar outra lei, desta vez proibindo qualquer empregado do governo (a maior parte da força de trabalho) de dar declarações a jornais não-oficiais, o Comitê de Proteção aos Jornalistas, de Nova York, declarou-o inimigo oficial da imprensa. Quem sabe isso agradou ao presidente, que gosta de tudo bem oficial.

 

MÍDIA & MERCADO
O mal do sucesso

Nahum Sirotsky, de Tel-Aviv (*)

 

As somas fantásticas que vão sendo pagas pela compra de portais e máquinas de pesquisa (search engines) da Internet indicam que o mercado considera que seu grande futuro está no e-commerce, na venda de tudo pela rede. Não há outra explicação plausível, pois a receita publicitária não justificaria tais cifras. Qualquer um dos portais conhecidos é mais visitado do que quaisquer media impressos. E já começam a competir com a TV a cabo.

Ignoro quanto cobram por espaço. Se for proporcional às visitas, como na mídia convencional, dependentes do leitor ou do espectador, os preços teriam de ser altíssimos. Não há empresa no mundo que sacrifique sua presença em outras mídias para fica só na net. E as verbas publicitárias não são ilimitadas. Nunca esquecerei a revista Colliers, americana, onde escrevia gente como Ernest Hemingway, e que pagava milhares de dólares por colaboração. Ela morreu do "mal do sucesso", pois chegou a oito ou nove milhões de exemplares de venda sem condições de cobrar do anunciante o preço equivalente. Parece-me que Life enfrentou sorte semelhante. Foi o efeito da chamada "lei dos retornos decrescentes", pela qual chega-se a um ponto em que o sucesso resulta em falência. Ninguém escapa dela.

A net também não conseguirá. Mas há um vastíssimo mundo de bilhões de indivíduos com potencial de consumo. Nada mais confortável do que escolher o que se quer e pagar via Internet com cartão de crédito. Mas, obviamente, é preciso atrair a visita do surfista, daí os preços pagos pelos portais conhecidos. E quem investiu esses bilhões todos se dispõe a tudo para recuperá-los com lucro. Eles já oferecem e-mails grátis, notícias, curiosidades, música. E aumentarão ainda mais as promoções. Os meios chamados convencionais se vendem pela inteligência com que apresentam a notícia, a informação...

Diz-se que os profetas morreram há séculos e que só os tolos profetizam em nossos dias. Diria que, pela lógica, a net não deverá acabar com a mídia convencional, ao menos não com aquela que souber escolher seu público e satisfazê-lo em suas necessidades de informação – as políticas como as de entretenimento ou modas.

É fantástico o que se consegue nos 16% de sites abrangidos por cada portal ou search engine. Há mesmo de tudo para quem saiba pesquisar. Mas, para começar, quem é que lerá um romance inteiro na telinha? Ou as informações das bibliotecas já digitalizadas? Terá mesmo é que imprimir.

A impressão que tenho, e a certeza que mais se aprofunda em mim, é que a net fará com que parte da mídia convencional, a que irá sobreviver, melhore de qualidade. Teremos jornais com mais profundidade em suas análises do que vai pelo mundo ou pela vizinhança. Mais criativos na linguagem e abordagem do que já fazem. Paginação mais dinâmica. E interatividade maior entre cada jornal e seus leitores.

O impresso que souber entender que seus serviços não podem se limitar ao publicado, que opere para satisfazer a necessidade de mais abrangência e detalhes do leitor, este ganhará espaço. Quem não entender que deve manter o mais íntimo e direto diálogo com o leitor, desaparecerá. De forma geral, a mídia convencional vem cometendo o erro de tentar ser de massa, o que jamais conseguirá quando comparada com os números já alcançados pela mídia eletrônica e, agora, pela net. Não será o primarismo que preservará o leitor, ou espectador, mas o além do que se obtém da Internet sem esforço de pesquisa. A mídia impressa será a mídia das elites, e terá de ser preparada com essas elites em mente. Quem não entender este fato morrerá do mal do sucesso.

(*) Correspondente em Israel da RBS-Zero Hora-Rádio Gaúcha)

 

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