10/06/2003 2/14

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CRISE NO NEW YORK TIMES
Principais editores pedem demissão

Beatriz Singer

Parece cena de filme. Um jovem repórter de 27 anos revela-se fraudador serial de um dos mais prestigiosos jornais americanos. Depois, um dos grandes repórteres desse mesmo jornal reconhece que contratou um estagiário informal para fazer suas matérias, enquanto o próprio repórter, que apenas lapidava os artigos, recebia todo o crédito. O jornal cria então uma linha telefônica e um e-mail apenas para receber reclamações do público. Às quais mal consegue atender, de tão numerosas. Um novo abalo, embora menor, aparece em jornal concorrente, que expôs a troca de farpas por e-mail entre dois célebres repórteres. A crise acaba tomando conta de outras redações, que se sentem obrigadas a rever políticas editoriais e métodos de recrutamento. Enquanto isso, o editor-executivo do primeiro jornal e seu editor-administrativo pedem demissão, gesto que leva o publisher a comentar que a medida foi pelo bem da publicação [ver íntegra abaixo].

Tudo indica que a história um dia vá, de fato, virar filme. Talvez o filme sobre a sucessão de baixas que vem mudando a história do jornalismo americano.

Recentemente, o New York Times vinha sofrendo pressões de diversas naturezas, do público e da própria redação [veja abaixo links para reportagens anteriores]. O primeiro grande abalo ocorreu quando se descobriu que 36 de 73 reportagens de Jayson Blair, de outubro a maio, foram fabricadas ou plagiadas. Cerca de duas semanas depois, o jornal publicava uma retratação e os resultados da investigação interna que ocupou as principais páginas do primeiro caderno. Em seguida, uma sabatina com o editor-executivo, Howell Raines, deixou clara sua impopularidade a todos que ainda não a haviam notado – caso do publisher Arthur Sulzberger Jr.

Passaram-se algumas semanas e o repórter Richard Bragg pede demissão – aceita sem hesitações por Raines –, após receber suspensão de duas semanas. Bragg mantinha um estagiário informal trabalhando sem remuneração e sem vínculos com o Times. O estagiário era praticamente o autor de seus textos, mas o crédito era de Bragg. O repórter, que já ganhou um Prêmio Pulitzer, apenas dera uma breve passada na cidade que constaria como local da reportagem. Quem estava ali, entrevistando e tomando nota de tudo, era J. Wes Yoder, o estagiário, de 23 anos.

Frente à sucessão de incidentes, que expôs grandes falhas na administração e na moral da redação, Howell Raines, editor-executivo, e Gerald M. Boyd, editor-administrativo, resolveram deixar a "old grey lady", apelido do jornalão entre os nova-iorquinos.

Joseph Lelyveld é o mais novo editor, em caráter interino, do New York Times, depois que Raines e Boyd pediram as contas, dia 5/6 – exatamente cinco semanas após o estouro do escândalo Jayson Blair. Arthur Sulzberger Jr., publisher, apoiou a decisão. "Foi o melhor para o Times", disse, reconhecendo estar com o coração partido. Não há ninguém indicado para substituir Boyd.

O choque é grande e não permite que se veja um lado positivo na história. Mas há. "Isto se chama ‘A Hora da Verdade’", afirma Alberto Dines, editor-responsável do Observatório da Imprensa. "Mas é superpositivo. O jornalismo americano vai mudar". Disso ninguém duvida. A torcida é para que o erro sirva de alicerce e, com isso, continuemos nos calcando no exemplo deste grande jornal.

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