MONITOR DA IMPRENSA

MÍDIA GLOBAL
A crise econômica e os jornais

Leneide Duarte, de Paris

O jornalismo está de luto: a Colômbia acaba de ver desaparecer seu mais prestigioso jornal, El Espectador, fundado em 1887. A última edição circulou no domingo, 2 de setembro, já que o grupo Valores Bavaria, acionário majoritário desde 1997, recusou-se a fazer nova injeção de capital. A tentativa de resistir havia levado o diário a se transformar em semanário dominical.

A história do El Espectador é bela e trágica como seu próprio país. Vítima de dificuldades financeiras, o jornal pára de circular depois de simbolizar para os colombianos a ética da imprensa de um país no qual os compromissos entre o poder e o dinheiro são múltiplos, como no mundo inteiro, com uma agravante: o envolvimento do narcotráfico no funcionamento do governo e das empresas.

Jornal de tradição familiar e filiação liberal (como, aliás, o seu concorrente El Tiempo), El
Espectador
encarnou durante longo tempo uma certa ética na imprensa face ao poder em comparação com seu rival, sempre pronto a aderir ao governo, qualquer que fosse o governo. Apesar dos milhões de dólares injetados ultimamente pelo novo dono Julio Mario Santodomingo, o jornal não resistiu à grave crise. "O desaparecimento do jornal, que foi durante tantos anos um motivo de emulação, nosso concorrente e nossa melhor referência é motivo de desolação para El Tiempo e para o país", declarou o diretor de redação do concorrente.

A crise é mundial

A morte do jornal colombiano infelizmente não é um fato isolado e não se inscreve apenas na complicada história contemporânea da Colômbia. A imprensa escrita vem sendo drasticamente afetada no mundo inteiro pela retração no mercado mundial de publicidade e pelo aumento do custo do papel. A soma desses fatores pode ser fatal para o jornalismo impresso, principalmente o diário. Mas, até o ano passado, o panorama era outro. Segundo a Associação Mundial de Jornais (AMJ), em 2000 a imprensa havia registrado crescimento. Desde 1996, o número de jornais cotidianos crescera em 443 novos títulos, num total de 8.426 títulos em todo o mundo. Esses números representam 392 milhões de leitores de diários em todo o mundo.

No início deste ano, a AMJ havia previsto um crescimento mundial dos investimentos em publicidade de 6%. Novos dados, mais realistas, levam a uma previsão de apenas 1,4% de crescimento do mercado publicitário mundial. Essa é a mais forte queda do mercado desde 1993. Antes, a imprensa escrita crescia em detrimento da televisão. Segundo a AMJ, no ano passado a publicidade representou 87% das receitas dos jornais nos Estados Unidos, 65% na Alemanha, 63% na Grã-Bretanha e 40% na França. Apesar de o Brasil não constar do estudo divulgado na França, estima-se que no país a mídia impressa detenha hoje apenas 20% do total da publicidade, enquanto nos anos 50 do século passado esse número era de cerca de 95%.

Menos publicidade, papel mais caro

Nesse quadro de crise, o aumento do custo do papel é uma agravante para dificultar a vida dos jornais impressos nos quatro cantos do mundo. Os dez maiores grupos americanos em investimento publicitário diminuíram em 12% suas receitas publicitárias no primeiro trimestre deste ano. Em alguns casos, esses cortes foram mais acentuados: a AOL Time Warner reduziu seu orçamento no setor em 29%, a Philip Morris em 27,8%, a General Motors, em 23,7% e a Ford, em 19,2%.

No Brasil, o corte nos investimentos publicitários das empresas também são significativos. Soma-se a esta conjuntura desfavorável a grande desvalorização do real em relação ao dólar e o aumento do custo do papel – que não é necessariamente uma conseqüência da desvalorização da moeda brasileira, já que o preço do papel subiu no munto inteiro. Segundo o Le Monde, o papel jornal aumentou 20% este ano. E nos jornais franceses, o preço do papel representa de 8% a 10% do custo final do produto.

Para driblar a crise

A crise dos diários franceses vem sendo contornada com várias medidas, como a supressão das contratações e auditorias para implantação de processos de reengenharia. Em outros países, como a Espanha e os Estados Unidos, o encolhimento da receita dos jornais gera o problema mais temido pelos profissionais da imprensa: a demissão pura e simples.

Entre os franceses, o jornal Libération congelou as vagas de quem deixa o jornal, fez cortes nos investimentos em divulgação e publicidade, cortou verbas de free lancers e de reportagens e controla seu desenvolvimento nas edições eletrônicas. Para comprimir seus custos, o jornal Le Figaro submeteu-se a uma auditoria. E os cotidianos franceses que ainda não haviam reajustados seus preços este ano passaram a custar mais caro a partir de 3 de setembro. Le Monde, que tivera o último aumento em maio de 1997, passou de 7,50 francos a 7,90 francos (ou 1,20 euro).

Na Espanha, El País e El Mundo estudam no momento o corte de postos de correspondentes nos Estados Unidos. E até mesmo o Wall Street Journal entrou na dança da economia de guerra: em julho, o jornal econômico demitiu 16 de seus 480 jornalistas, depois de ver sua receita publicitária sofrer diminuição de 34%.

O único consolo da imprensa escrita, se é que isso pode consolar, é que a situação não é melhor nos jornais on line. O semanário online The Industry Standard, considerado um símbolo da net-economia, fechou as portas no final de agosto. E para enfrentar a crise publicitária, o New York Times online suprimiu empregos entre os responsáveis por sua versão eletrônica. Na versão impressa, o gigante americano vai diminuir o consumo de papel e reajustar seu preço para enfrentar a crise.