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ASPAS
PROFISSÃO PERIGO
Folha de S.Paulo
"Jornalista pode ser condenada a encarceramento", copyright Folha de S. Paulo, 12/8/01
"Olga Kitova, jornalista investigativa e membro da Câmara de Belgorod, poderá ser condenada à prisão. Ela é acusada de calúnia, difamação, interferência em investigação criminal, recusa em prestar depoimento seguida de desacato, ameaça e uso da força contra policial em serviço. Parece, contudo, ser perseguida por ter denunciado corrupção.
Ela foi detida em 21 de março por dez policiais que a agrediram. Liberada três dias depois, foi presa de novo em maio e sofreu um ataque cardíaco. A AI considera que a vida de Kitova estará em perigo se ela for presa novamente.
Peça investigações sobre os maus-tratos e expresse preocupação por sua saúde. Escreva para: Vladimir Vladimirovich Putin, g. Moskva, Kreml, Prezidentu Rossiyskoy Federatsii, Putinu V.V., Russian Federation (fax: 7-095-206-8510)."
HELMUT KOHL
Andrew Gimson
"Culpa maior de Kohl é ter envenenado democracia, copyright The Spectator / O Estado de S.Paulo, 12/8/01
"O suicídio da mulher de Helmut Kohl foi uma tragédia que deu ainda mais visibilidade ao legado perverso do ex-chanceler Helmut Kohl, que já sepultou muita gente ao longo de sua vida. Recentemente, presenciou o sepultamento de sua mulher, Hannelore. No início de julho, durante uma viagem de Kohl a Berlim, ela se suicidou com uma overdose de analgésicos e pílulas para dormir em sua casa em Ludwigshafen, às margens do Reno. A forma como Kohl se desfez do corpo em nada fugiu a seu comportamento usual - um amálgama de elementos mentirosos e cínicos aliados a sua habilidade de dominar aqueles que o rodeiam.
O ex-chanceler reuniu todo o establishment germânico em uma missa de réquiem celebrada em uma catedral católica em intenção da alma de uma protestante que tirara a própria vida. A mídia alemã, praticamente sem exceção, já havia engolido a explicação de Kohl para a morte da mulher: Hannelore sofria de uma alergia angustiante à luz. Nos últimos 15 meses de vida, fora obrigada a se proteger contra a claridade sempre que saía de casa. Os médicos, em vista dos poucos detalhes disponíveis, não puderam identificar a doença da mulher de Kohl, que foi enterrada sem autópsia.
Algumas pessoas afirmam que ela parecia suportar muito bem a luz do dia em seus últimos meses de vida. Um amigo meu viu-a recentemente caminhando pela floresta de Grünewald, nos arredores de Berlim. O próprio Kohl havia feito menção, na véspera da morte da esposa, de passar as férias de verão com ela na Áustria.
Só a revista Stern teve coragem de dizer que a história oficial era pouco consistente. Disse também que há poucas semanas, por ocasião do casamento de Peter, filho do casal, com Elif Sözen, de origem turca, em Istambul, Kohl participou da cerimônia sem a mulher. A seu lado, estava Juliane Weber, sua assistente pessoal. Ela começou a trabalhar para ele em Mainz, em 1964, e há muito tempo é seu braço direito. Jamais saberemos o que a sra. Kohl achava disso.
Kohl e a srta. Weber voaram para Istambul a bordo de um jatinho de Leo Kirch, magnata da mídia. Amigo íntimo de Kohl, Kirch é dono de 40% do grupo Springer, que encampou totalmente a versão oficial da morte da mulher do ex-chanceler.
Os jornalistas alemães há décadas especulam o que se passa de fato entre Kohl e Juliane, mas foi certamente um fato extraordinário a revista tê-la citado em suas páginas, uma vez que os jornalistas alemães se orgulham de não especular sobre a vida particular dos políticos, ou sobre o que for que não tenha a aprovação deles.
Essa prática abnegada é, sob muitos aspectos, admirável, pois sem dúvida confere à imprensa teutônica um tom mais elevado do que tudo que se possa encontrar em Londres. Lord Reeth sentir-se-ia muito mais à vontade lá do que no Reino Unido. Em parte, isto se deve ao fato de que a BBC teve um papel muito importante na formação dos jornalistas alemães do pós-guerra.
Há uma seriedade moral na Alemanha que nós, em nossa frivolidade degradante, acabamos por perder. Todavia, nota-se também uma ingenuidade quase criminosa nos relatos das atividades de uma figura do porte de Kohl, um desejo absurdo de ver no ex-chanceler o que ele espera que vejam, além da sensação de que não seria de bom-tom, além de pouco profissional, fazer perguntas inoportunas.
A pessoa que mais teve de suportar Kohl foi sua infeliz mulher. Nascida em março de 1933, Hannelore Renner, era este seu nome de solteira, já aos 11 anos cuidava dos soldados alemães que paravam em Döbeln, entre Dresden e Leipzig, em trens vindos do front oriental e convertidos em hospitais. Os civis alemães também haviam fugido rumo ao oeste, em direção ao inverno gelado, à medida que os russos se aproximavam.
Hannelore recordava-se de ter visto mães que se recusavam a entregar seus bebês cujas vidas haviam sido ceifadas pelo frio.
Lembrava-se do odor da carne queimada depois dos ataques aéreos. Com a chegada dos russos, viu mulheres serem estupradas, deixando implícito que também ela fora violentada. Passou vários meses como refugiada na dura jornada a caminho do Reno, na região ocidental.
Nunca falou muito sobre essas experiências, tampouco deu detalhes sobre tudo o que acontecera. A exemplo da maior parte dos seus contemporâneos e de seus pais, sua reação aos horrores que testemunhou foi o mais profundo silêncio possível. O que se passara era inenarrável. Aos 15 anos, conheceu Helmut Kohl, então com 18 anos, em um baile.
A família de Hannelore atravessava um período de muita dificuldade. Seu vestido fora feito com retalhos de três bandeiras das quais ela e a mãe haviam removido o emblema da suástica. Em suas próprias palavras, "não havia nada mais prático para quem era pobre e queria dançar". Ela foi uma entre milhões de mulheres alemãs que procuraram desesperadamente levar uma vida normal, assando bolos com o auxílio de um moderno equipamento de cozinha, sujeitando-se às grosseirias dos maridos, aferrando-se com um destemor nascido de uma tolice incipiente a todas as banalidades pequeno-burguesas da última moda.
Hannelore tornou-se uma mulher radicalmente normal. Intérprete formada em inglês e francês, só se casou com Helmut em 1960, "porque nessa época já tínhamos condições de comprar uma lavadora". A solidão de mulher de político tomou conta dela. De dia, Kohl trabalhava; à noite, saía com os amigos para comer, beber e discutir política. Criou praticamente sozinha os dois filhos, defendendo com unhas e dentes sua privacidade; jamais sucumbiu à autocomiseração; granjeou respeito por seu trabalho de caridade, mas era ridicularizada por causa do seu penteado extremamente impecável e pela forma como conduzia os afazeres domésticos.
Nos anos 70, foi preciso erguer um sólido muro de concreto em torno da casa dos Kohl e blindar as vidraças das janelas para impedir ataques de terroristas. Ela raramente ia a Bonn. Em 1998, quando o marido perdeu a chancelaria, Hannelore achou que fosse ver Helmut com mais freqüência em Ludwigshaffen. Ele, porém, deu prosseguimento a sua carreira na qualidade de membro da bancada do Parlamento. Uniu-se aos políticos que migravam para Berlim em 1999, mas logo se viu enredado em uma batalha sem fim para limpar sua reputação.
A acusação que pesa contra Kohl não é a de que foi indelicado com a mulher.
Muitos homens são estúpidos com suas esposas e incapazes de tolerá-las em seus momentos de depressão. A provação da sra. Kohl é, não obstante, instrutiva. Até onde se sabe, ela guardou para si todas as dúvidas que tinha em relação a Kohl, deixando-se explorar por ele. Até onde se sabe, a imprensa alemã reprimiu suas dúvidas em relação à morte dela, permitindo-se ser usada como peça da máquina publicitária de Kohl. O chefão da Bertelsmann, que tem participação acionária majoritária na Stern, já se desculpou pela cobertura de mau gosto e sem profissionalismo do episódio. Os demais órgãos da imprensa expressaram seu horror diante da baixeza a que puderam chegar jornalistas alemães.
Nos seis anos em que fui correspondente estrangeiro em Berlim, a única vez que meu trabalho despertou uma ligeira atenção entre os alemães foi quando chamei Kohl de mentiroso em um artigo para o Daily Telegraph, em 1997.
Depois que a Spiegel reproduziu o artigo, recebi uma enxurrada de cartas e telefonemas de gente comum do povo: 98% das manifestações eram para me congratular por minha intuição. No entanto, não é preciso ser muito esperto para perceber em Kohl um espírito afeito a dar ordens ao sabor de seu gênio atrevido, gerando uma seqüência de falsas expectativas, e cuja idéia de verdade em nada difere de seu cálculo astuto de quanto poderá lucrar com esta ou aquela situação.
Nas eleições gerais de setembro de 1998, o povo alemão destituiu Kohl depois de 16 anos à frente do governo. Pouco mais de um ano depois, em novembro de 1999, começaram a vir à tona detalhes de uma rede secreta de contas bancárias alimentadas por um traficante de armas e outros patrocinadores ainda desconhecidos, aos quais Kohl recorreu para se manter no controle do partido. Tudo levava a crer que amplas ramificações da intrincada rede de favores e compromissos que ele montara desde princípios dos anos 60, quando era estrela em ascensão da Renânia-Palatinado, seria subitamente exposta.
Quem, porém, imaginou que isso fosse possível, superestimou a vontade dos promotores alemães de atacar o lamaçal de corrupção em que havia tempos se achavam atolados os expedientes de financiamento dos partidos políticos. Por outro lado, subestimaram também a resistência de Kohl à derrota, bem como a autocensura que torna inócua a imprensa alemã.
A acusação que se deve fazer ao velho monstro não é a de que não se importou em cuidar como devia da depressão da esposa. Não. Deve-se responsabilizá-lo, isto sim, por ter envenenado as fontes da democracia alemã. Ao se recusar a confessar de onde provinham os fundos ilegais que o sustentavam, e ao destruir também o máximo que pôde das provas ao sair da chancelaria, Kohl minou a legitimidade do sistema.
Ele solapou sem dúvida nenhuma a genuinidade da decisão de substituir o marco alemão pelo euro, um negócio curioso em que apenas um homem com fabulosos talentos políticos e um conhecimento bastante rudimentar de economia teria embarcado.
Esta, contudo, é somente uma das várias reflexões importantes que se podem fazer sobre Kohl. O povo alemão, numa clareza admirável de raciocínio, há muito já se deu conta disso, mas a imprensa do país, não se sabe bem por que, recusa-se a levá-la adiante."
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