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ASPAS

KISSINGER CENSOR
Argemiro Ferreira

"Ainda o esforço de Kissinger para impor censura à mídia", copyright Tribuna da Imprensa, 3/07/01

"Conforme foi dito na coluna de ontem, a organização FAIR (Fairness & Accuracy in Reporting/Acuidade e Transparência na Reportagem) descobriu que Henry Kissinger se prevalece de sua condição de celebridade para impor censura à mídia nos EUA. Só dá entrevista se o entrevistador se compromete, em alguns casos por escrito, a não fazer perguntas inconvenientes sobre seu passado (inclusive os crimes sobre os quais a Justiça da França e do Chile quer ouví-lo).

O mais insólito é a mídia sujeitar-se à imposição - que, no caso de qualquer outro, repele com indignação. Esse tipo de omissão dos veículos costumava ser cobrado prontamente, quase como fuga ao dever profissional por parte dos entrevistadores. Teoricamente nem presidentes escapavam. Para fugir a certas perguntas, Nixon (em meio à crise de Watergate) e Clinton (no furacão do caso Monica Lewinsky) viram-se obrigados a passar meses sem dar qualquer entrevista.

A que se deve a mudança de comportamento? Talvez à era dos impérios de mídia (como GE e Westinghouse) cujos negócios bilionários vão das revistinhas de fofocas às armas espaciais da Guerra nas Estrelas. Antes do caso Kissinger, a revista do ‘New York Times’ já tinha dito que para entrevistar Roger Ailes, chefão da Fox News, o entrevistador Charlie Rose, da rede pública de televisão (PBS), tivera de prometer por escrito não fazer perguntas sobre política.

Cumplicidade da ABI americana

Em relação a Kissinger, o mais grave é que até organizações jornalísticas parecem mais inclinadas hoje a aceitarem novas regras, a se julgar pelo respeitado National Press Club (Clube Nacional da Imprensa, uma espécie de ABI dos EUA). Dois jornalistas notaram que não fora lida ali, dia 21, nenhuma pergunta a Kissinger sobre o assunto.

Quiseram saber então se o NPC tinha feito ‘arranjo prévio’ com ele. O moderador do NPC, Richard Koonce, cheio de dedos, deu a explicação aos dois, Russell Mokhiber e Robert Weissman, mais ou menos nestes termos: ‘Vocês entendem, era algo muito ‘sensível’ para se perguntar. Kissinger ficou com medo de que a gente entrasse numa discussão que, para a grande maioria das pessoas, exigiria tempo para se entender todo o contexto. Assim, era preferível evitarmos a questão’.

Localizado a um par de quadras da Casa Branca, o NPC geralmente encarrega um moderador de ler as perguntas feitas pelos jornalistas presentes. Assim, presume-se que Koonce tenha excluído as ‘inconvenientes’. O que, segundo a Fair, coloca uma questão: ‘um ex-secretário de Estado é solicitado por um juiz a explicar o que sabe sobre assassinato, tortura e desaparecimentos, se isso não é notícia, o que é?’

Curiosamente, um dos jornalistas com escritório no prédio do NPC é Seymour Hersh, que em 1983 publicou o livro ‘The Price of Power’ (O Preço do Poder), o primeiro a devassar o papel de Kissinger na Casa Branca de Nixon. Hersh é um dos dois jornalistas independentes e com trânsito livre em grandes veículos a furar o barreira compacta que protege na mídia a reputação do ex-secretário.

Os jornalistas e a nova ética

O outro é Christopher Hitchens, que lançou em 2001 o livro ‘The Trial of Henry Kissinger’, para expor provas de crimes de guerra que podem justificar o julgamento de Kissinger em tribunal internacional. Nem Hersh e nem Hitchens são marginais. O primeiro foi a estrela do ‘New York Times’ na cobertura de Watergate, após ganhar todos os prêmios de jornalismo em 1969 pela investigação do massacre de My Lai.

Kissinger, aliás, ainda é um ilustre membro da mídia. Tem contrato especial com a rede ABC, para a qual faz análises de política externa. Além disso, escreve coluna semanal, publicada em dezenas de jornais. Que eu saiba, só um deles, o ‘Washington Post’, tinha o escrúpulo de explicar ao leitor, no pé, que ‘o autor é sócio da Kissinger Associates, que representa corporações com interesses em várias partes do mundo’.

A prática saudável do ‘Post’ devia ser imitada pelos jornais brasileiros nos artigos desse personagem controvertido. Até porque multiplicaram-se os negócios dele na América Latina desde que adotou o sócio Thomas (Mack) McLarty (com quem é dono ainda da Kissinger-McLarty Associates). A ética de McLarty é a mesma: deixou o governo (Clinton) para faturar com as relações feitas ali (como enviado às Américas).

A lógica dos crimes de guerra

Quando Hitchens publicou em ‘Harper’s’ trechos de seu livro, que reclama julgamento de criminoso de guerra para Kissinger, a revista virtual ‘Free Republic’ citou três das acusações: 1. a sabotagem de Kissinger, numa diplomacia paralela privada, às negociações de paz em Paris conduzidas pelo governo do presidente Johnson.

Depois, no governo Nixon, Kissinger prolongou por mais quatro anos a guerra (na qual morreram mais dezenas de milhares de americanos) e acabou assinando o mesmo acordo que poderia ter sido firmado em 1968; 2. a estratégia de Kissinger dos bombardeios secretos do Laos e Camboja (1969-70), enquanto a Casa Branca mentia ao povo americano e ao Congresso (negando que estivesse bombardeando) violou a Carta das Nações Unidas e os princípios de Nuremberg; 3.

Em relação ao Chile, Kissinger deu luz verde da Casa Branca à espionagem para o assassinato do general René Schneider, que defendia a Constituição e, por isso, não admitia qualquer golpe contra Salvador Allende, escolhido presidente pela maioria dos eleitores.

Um leitor da ‘Free Republic’ refletiu bem a posição de parte dos americanos, numa carta. No primeiro caso, disse que era uma questão entre os americanos (Johnson vs. Nixon) e o resto do mundo nada tinha ver com a história. No ítem 2, alegou que os ‘porcos comunistas’ do Laos e Camboja tinham mais é de ser bombardeados e massacrados. E no terceiro ponto afirmou que se Schneider defendia a posse de Allende é porque não passava de um comunista e foi bom se livrar dele."

 

ALEMANHA
Jornal do Brasil

"Fidelidade de Kohl é posta em dúvida", copyright Jornal do Brasil, 14/07/01

"O suicídio de uma ex-primeira-dama doente e deixada de lado por seu marido que a traía com sua secretária. O rumor levantado na edição especial da revista alemã Stern publicada no dia do velório de Hannelore Kohl, mulher do ex-chanceler Helmut Kohl, além de chocar a população levantou fervorosas críticas num país onde até agora falar sobre a vida pessoal de políticos era um tabu.

A reportagem sugere que a depressão de Hannelore, provocada por uma rara alergia a luz - que a impossibilitava de sair de casa durante o dia e a obrigava a evitar flashes de máquinas fotográficas - teria se agravado por causa da solidão. Seu marido, o ex-líder alemão que governou o país por 16 anos, segundo a revista, ficaria mais tempo em Berlim e deixaria sua mulher sozinha na casa de Oggersheim.

A Stern vai mais fundo ao questionar o comparecimento de Kohl no casamento de seu filho acompanhado de Julianne Weber, secretária do ex-chanceler há 30 anos. ‘Hannelore Kohl deve ter se sentido profundamente machucada pelos rumores e especulações sobre a relação dos dois’, comentou a revista.

A assessoria de Kohl afirmou que Hannelore estava impossibilitada de ir à cerimônia por causa de sua doença. ‘Nas rodas do partido, algumas perguntas eram feitas. Não havia mesmo como a mãe ir ao casamento do filho? Por que Kohl levou Weber com ele? Uma fonte diz ter certeza de que Hannelore Kohl perdeu parte de sua vontade de viver naquele dia’, acrescenta a revista.

ÉTICA - Cientistas políticos afirmam que a reportagem representou um marco na imprensa alemã, que até agora evitou tocar em assuntos ligados à vida sexual de políticos e personalidades públicas. ‘Acho que nada será como antes na política alemã. Há tanta competição na mídia. A proteção de privacidade que existia está começando a desmoronar’, diz o cientista político Dietmar Herz, da Universidade de Erfurt.

O colunista Franz Josef Wagner, do jornal Bild, de grande circulação no país, atacou a Stern: ‘Vocês escrevem nas entrelinhas que Kohl empurrou sua mulher para a cova, que ela não estava tão doente, que ela foi destruída pela solidão. Eu nunca tinha lido nada como isto na minha vida. Por que vocês estão manchando o túmulo de uma mulher que nada fez contra vocês?’

Tomas Osterkorn, editor da revista, defendeu-se alegando que ‘quando a mulher de um homem que governou o país por 16 anos se mata, isto toma uma dimensão política’. ‘Isto destrói a ilusão de um casamento íntegro. O suicídio levanta questões sobre Helmut Kohl.’"

 

Reuters

"Caso extraconjugal de Kohl cria debate na mídia alemã", copyright Reuters, 13/07/01

"Uma reportagem da revista alemã Stern sobre um suposto caso extraconjugal do ex-chanceler Helmut Kohl quebrou o antigo tabu do país de não invadir a privacidade de líderes políticos e detonou um intenso debate sobre ética nos meios de comunicação. Cientistas políticos e comentaristas concordavam na sexta-feira que a capa da Stern desta semana representava um marco histórico e, provavelmente, incômodo. A revista sugere que a mulher de Kohl, Hannelore, tirou a própria vida por se sentir negligenciada e traída pelo marido.

‘Sempre houve boatos no governo sobre o fato de Kohl ter uma amante, mas a Stern quebrou o tabu de uma vez por todas’, disse Dietmar Herz, cientista político da Universidade Erfurt. ‘Acho que daqui para frente tudo será diferente na política alemã’, acrescentou. ‘Há muita competitividade entre os meios de comunicação. O acordo tácito que havia sobre o respeito à privacidade já vinha rachando. Agora, ele se esfacelou de vez’.

Em Bonn, a cidade que serviu de capital da Alemanha Ocidental no pós-guerra, os jornalistas sempre souberam sobre os casos extraconjugais dos políticos, mas nunca escreveram a respeito deles. Esse acordo tácito começou a ruir dois anos atrás, quando o governo mudou-se para Berlim, uma cidade grande e mais agressiva. O colapso final deu-se na semana passada. Em uma edição especial publicada no dia do funeral de Hannelore, a Stern afirmou que a mulher do ex-chanceler, que se matou na semana passada, sentia-se abandonada pelo marido.

A revista afirmou que os sofrimentos provocados pela alergia dela à luz, uma doença rara que a obrigava a ficar confinada em seu quarto escuro, somou-se à ausência do marido, que passava muito tempo em Berlim."



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