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MONITOR DA IMPRENSA

RÚSSIA
Putin contra a mídia

Fabiano Golgo, de Praga

O Glasnost Defense Fund, grupo que monitora a liberdade de imprensa na Rússia, afirma que desde a era soviética não se vê tanta repressão à mídia. Bastou Vladimir Putin, ex-agente da KGB, chegar ao cargo de primeiro-ministro, em agosto de 1999, para que aumentassem as denúncias de jornalistas contra atos de intimidação das autoridades. Somente em dezembro, 88 repórteres foram visitados em casa, tiveram credenciais cassadas sem explicação satisfatória ou sofreram "acidentes". Em janeiro, quando Putin já acumulava as funções de primeiro-ministro e presidente interino, editores da mídia eletrônica e impressa começaram a receber visitas de funcionários do Kremlin.

Ievgueni Kirichenko, diretor-geral da NTV, principal emissora privada do país, afirma que seus repórteres, além de impedidos de chegar perto da Chechênia, não conseguem acesso ao Kremlin para coberturas básicas. A redação é constantemente visitada por agentes da FSB - sucessora da KGB. "Eles sequer batem à porta antes de entrar", denuncia. Kirichenko diz que foi obrigado a mandar sua equipe abrandar o tom, pois teme pela existência da emissora e por sua própria vida.

A estatal ORT, herdeira da soviética Ostankino TV, exalta Putin e suas ações e lê releases oficiais sobre a Chechênia. A emissora atinge 93% do território da Confederação dos Estados Independentes (CEI), que reúne ex-repúblicas da Rússia soviética. Só na Turcomênia as transmissões são editadas, ao estilo estalinista de seu tragicômico presidente/primeiro-ministro, Saparmurad Niyazov.

Na outra estatal, a RTR, predominantemente obediente, um dos comentaristas políticos foi afastado em plena campanha eleitoral por ter feito matéria dizendo que o caso de Aleksandr Khinstein, repórter do jornal Moskovsky Komsomolets, intimado a se apresentar numa clínica psiquiátrica do governo para avaliação mental, lembrava práticas da era Brejnev, quando dissidentes eram internados como loucos. Recentemente, a revista New Reality publicou que pelo menos 98 professores, 103 artistas, 432 estudantes e 81 cidadãos, remanescentes das "clínicas", continuam internados porque enlouqueceram de fato e não têm condições de viver em liberdade.

Mórmons deportados

Khinstein escapou deste destino: teve a "sorte" de não estar em casa na madrugada em que 8 agentes da FSB invadiram seu apartamento e comunicaram a sua mãe que ele deveria se apresentar a uma clínica do Ministério do Interior, a 300 quilômetros de Moscou. Ordem do próprio ministro, Vladimir Rushailo, semanas antes alvo de reportagem de Khinstein sobre corrupção. A clínica em questão é apelidada por seus médicos e enfermeiros de "Hospital Rushailo", porque abriga desafetos do ministro.

O programa de TV Chas Pik (Hora do Pique), espécie de Larry King russo, denunciou o envolvimento direto de Putin numa caça a cultos religiosos, a serviço da cúpula da Igreja Ortodoxa Russa, ligada ao governo. Sob a desculpa de que testemunhas de Jeová, mórmons, pentecostais e outros não passam de seitas, proibidas por lei, uma onda de internações psiquiátricas atingiu líderes e devotos. Em 26 de janeiro, a FSB mandou um pastor pentecostal de Kirov se apresentar para avaliação psiquiátrica, ordem dada também a 6 integrantes do grupo Sentuar. Acabaram liberados pela clinica três semanas depois, durante as quais ficaram incomunicáveis em celas medievais sem luz ou aquecimento.

Um dos psiquiatras, Edvard Bogdanov, declarou: "Se um promotor manda indivíduos para o hospital, não temos poder legal para recusá-los, e aplicamos o tradicional período de isolamento de duas semanas antes da avaliação." Missionários mórmons americanos foram deportados em massa. O consulado russo no estado americano de Utah, sede da religião e onde 97% da população são de mórmons, foi fechado. Grupos judaicos engrossam as acusações de perseguição. E lei aprovada pela Duma obriga a Igreja Católica a enfrentar 15 anos de avaliação antes de receber o status de religião perante a lei, o que a livra de impostos.

Apoio da população

Putin, apelidado o "Pequeno Stasi" - alusão à temida polícia secreta da Alemanha comunista -, deve ser eleito presidente: tem 60% das intenções de voto, enquanto o segundo colocado, Genadi Ziuganov, líder do Partido Comunista, mal atinge os 20%. Enquanto usa a mídia a seu favor, Putin não participa de debates e recrimina a propaganda política dos adversários pela TV, comparando-a à venda de sabão em pó.

A imprensa mundial destaca a repressão russa à cobertura jornalística do conflito na Chechênia. Só jornalistas "obedientes" entram na república separatista. Quarenta profissionais que tentaram furar a barreira foram presos ou expulsos, e o caso do russo Andrei Babitski é o mais famoso [veja remissões abaixo]. Militares e seus porta-vozes dizem abertamente: "Quem não publicar nossa versão é inimigo do Estado"; "Jornalistas que se recusam a mostrar os monstros que são os chechenos não passam de traidores"; "Torcem contra nossa mãe-pátria"; "Não importa o que ocorre na Chechênia, e sim que acabemos de vez com esses assassinos fundamentalistas". Estas são palavras do porta-voz da presidência para assuntos da guerra, Serguei Iastrazembski.

Cercear a cobertura de conflitos não é novidade. Os Estados Unidos não davam acesso livre ao front da Guerra do Golfo, e só liberavam imagens após avaliação. Mas na Rússia é diferente. Praticamente todos os jornais diários são distribuídos por caminhões do governo; mais da metade deles é impressa em oficinas do governo, e nenhum sobrevive sem anúncios oficiais. Portanto, não há vozes suficientes de oposição. Mas a população apóia as ações restritivas do governo, como indicam duas pesquisas da revista Transitions, a primeira de 1995, a última do início de março de 2000:

1) O governo deve ter o poder de interferir na mídia quando julgar isso necessário à segurança nacional?

1995 Sim-46% Às vezes-29% Não-13%

2000 Sim-63% Às vezes-22% Não-8%

2) O governo pode impedir a veiculação de más notícias, que coloquem a imagem do país em perigo?

1995 Sim-45% Não-26%

2000 Sim-60% Não-27%

O governo deve ter o poder de impedir a veiculação de matérias por razões morais?

1995 Sim-45% Não-16%

2000 Sim-49% Não-12%

Esta mesma pesquisa foi feita em vários países do antigo bloco socialista, e só teve resultados semelhantes na Polônia. Na República Tcheca houve o maior índice de repulsa à interferência estatal na mídia.

O governo interfere a torto e a direito no trabalho da mídia. Os cameramen russos estao sendo obrigados a filmar Putin de baixo para cima, tanto para dar a impressao de que ele é mais alto como para criar uma aura de grandiosidade. Isso reflete o absurdo dos métodos do novo Kremlin e expõe os objetivos bem calculados de endeusamento do novo líder.

Vigilância digital

Putin também já deu ordem para a elaboração de um sistema de "monitoração" da navegação dos usuários de internet na Rússia. Criou até comissão para estudar a possibilidade de proibir a existência de provedores privados de Internet. Projeto de lei, a ser votado depois da eleição, restringe a criação de home pages, proibindo as que contiverem "material não-comprovado por dados oficiais" e "ataques à honra de integrantes do governo". Provedores confirmam que a FSB instalou recentemente equipamentos em suas sedes, para monitorar a navegação dos internautas. Já vigora lei que obriga sites de notícias a submeterem seu material à FSB.

A fórmula de controle da mídia russa em período democrático não saiu do livro de receitas de Putin: foi criada em 1996 pela chamada "Família" - o grupo de parentes e amigos de Boris Yeltsin que se articularam para garantir sua reeleição. O primeiro passo: demitir o presidente da TV estatal ORT e pôr no lugar um aliado fiel. Segundo: chamar os jornalistas mais influentes da nação, editores-chefe dos principais jornais, diretores de rádio e TV, privadas e estatais, e avisar: "Se os comunistas ganharem, sua profissão corre sério perigo". Terceiro: em prato separado, convidar o presidente (Igor Malashenko) da emissora privada de maior credibilidade, a NTV, e misturar bem seus interesses com os de empresas privatizadas controladas pela "Família", contratando-o para integrar seu time de estrategistas.

Quarto passo: colocar na panela meia dúzia de promessas, como pagamento dos atrasados de aposentados e trabalhadores "suicidas" das minas de carvão (morrem às centenas), e esquentar com o aval acrítico dos telejornais. Quinto: manter o líder das pesquisas, o comunista Ziuganov, longe do forno da mídia. Sexto: temperar bem com a informação de que ou se dá mais uma chance a Yeltsin ou se requenta o comunismo, que está no freezer. Sétimo: cozinhar em fogo alto até junho (de 1996), mês da eleição, e servir ao povo, sem destampar a panela.

Resultado, à época: 53,8% para Yeltsin, contra 40,3% do prato requentado comunista. A estratégia deu certo, mas não pode ser taxada de censura: apenas manipulação, que apimentava a cabeça dos jornalistas com ameaças de retrocesso. Yeltsin prometeu - e cumpriu razoavelmente - o fim da censura à imprensa. Mas nunca disse que não "influenciaria" a mídia.

Imprensa à míngua

Quando Yeltsin mandou seus tanques cuspirem fogo contra o parlamento, os jornais chegaram a vender 7 milhões de exemplares por dia. Hoje, diários de prestígio como o Isvestia mal atingem os 400 mil. Nezavisimaya Gazeta, importante na fase inicial da imprensa privada, que recusava propostas dos "executivos da Kremlin S/A", está reduzida a quatro páginas. Chegou a fechar, mas foi comprada pelo magnata Boris Berezovsky, que prometeu editoriais neutros sobre questões de governo e recheou as matérias com visões econômicas de seu interesse pessoal.

O Roberto Marinho russo é o banqueiro Vladimir Gusinsky, dono da NTV, que, apesar de poderosa e influente, não atinge metade da audiência da estatal ORT. Ele também é o principal acionista da versão moscovita da Newsweek - a Itogi -, que basicamente traduz matérias do semanário americano e produz meia dúzia de artigos locais. Seu jornal, Segundai, lembra ou o USA Today ou os tablóides britânicos de Murdoch. A exceção no império de Gusinsky é a rádio Ekho Moskvy (Ecos de Moscou), campeã de audiência, a única que promove debates políticos picantes e tem coragem de investigar os porões do Kremlin.

Mas a mídia sofre com a economia russa: simplesmente não há anunciantes. Os maiores negócios do país estão nas mãos de gente ligada ao governo ou de meia dúzia de magnatas.

 

LOS ANGELES TIMES
A retirada do "cereal killer"

Apesar de todas as incertezas que a venda da empresa Times Mirror para a Tribune Co. possa ter trazido, parece certo que o acordo de 6,3 bilhões de dólares encerrou um dos períodos mais turbulentos da história do jornal Los Angeles Times [mais informações na rubrica Entre Aspas, nesta edição, a partir da 3ª nota do chapéu Mídia & Mercado].

Depois de cinco anos como executivo-chefe (ou chief of executive officers, CEO) da Times Mirror e 19 meses como auto-proclamado publisher do Los Angeles Times, Mark Willes sai da empresa deixando fortes marcas em seu principal jornal e mesmo no jornalismo norte-americano. Ao prometer aumentar a circulação do LA Times para 500 mil exemplares/dia, Willes, que assumiu seu cargo sem ter nenhuma experiência com negócios jornalísticos, quase exterminou a credibilidade do maior jornal da segunda metrópole dos Estados Unidos.

Além de ter vendido vários jornais e negócios da Times Mirror, demitido empregados e cortado todos os gastos possíveis, Willes acarretou uma das mais fervorosas discussões éticas no jornalismo recente. Depois propor a aproximação do departamento editorial do comercial - para tentar aumentar as vendas -, Willes foi um dos responsáveis pela divisão dos lucros da revista dominical do LA Times com seu assunto único, o centro esportivo Staples Center [veja remissão abaixo].

Segundo matéria de James Sterngold [The New York Times,, 14/3], ainda que muitos funcionários do LA Times estejam incertos sobre seu futuro, eles se mostraram aliviados ao saberem que a Times Mirror será controlada por uma empresa com conhecimento jornalístico, ao contrário dos profissionais marqueteiros que a família Chandler - que fundou o jornal em 1881 - vinha recrutando a fim aumentar o valor das ações da empresa. "A família Chandler perdeu o interesse em administrar o jornal e só se importavam com os lucros", afirmou Ken Reich, colunista que trabalha para LA Times há 35 anos. Muitos jornalistas do LA Times citam a boa reputação do carro-chefe da Tribune Co., o jornal Chicago Tribune, como sua principal referência em qualidade jornalística.

Trajetória

De acordo com matéria de Felicity Barringer [The New York Times, 15/3/00], Mark Willes expressou sua vontade de "reinventar o negócio jornalístico" logo após ter sido nomeado executivo-chefe da Times Mirror, em 1995. Ainda que os cortes nos custos e a venda de negócios tenham começado antes da chegada de Willes à Times Mirror, estas foram as grandes marcas de sua administração - e que lhe renderam o sugestivo apelido de "cereal killer", uma alusão a sua atividade anterior, com executivo da General Mills. Ele realizou demissões em massa, fechou os jornais Baltimore Evening Sun e New York Newsday e vendeu ou fechou algumas operações de TV a cabo da empresa.

Semanas depois de se auto-nomear publisher do LA Times, Willes anunciou sua audaciosa meta de 500 mil exemplares/dia. Para alcançá-la, dizia Willes, seria preciso atingir as minorias - daí seus investimentos nas seções latinas - e as mulheres. Em uma entrevista, Willes afirmou que atrairia as mulheres publicando artigos "mais emocionais, mais pessoais e menos analíticos".

De acordo com a matéria de Barringer, quando Willes sugeriu que as compensações de editores fossem relacionadas com o número de aspas de mulheres e minorias que seus artigos apresentassem, um editorial do St. Petersburg Times pediu cautela: "Manipular propositadamente novas fontes para satisfazer objetivos de diversidade é uma boa maneira de minar a credibilidade de um jornal."

Durante os 19 meses como publisher, as finanças do jornal cambalearam e seu ideal de cooperação entre o departamento editorial e de negócios foi a pique. Depois da partida de alguns executivos e dos lucros abaixo do esperado, Willes nomeou Kathryn Dowining, uma discípula sua, para ser a nova publisher.

LATimes voltou a crescer nas mãos de Dowining. O volume de anúncios, os quais pareciam ter migrado eternamente para a internet, aumentou em 13,4%. "É francamente um enorme desapontamento pessoal eu não ter mais alguns anos para mostrar a todos a profundidade das mudanças e a força da base que nós estamos construindo", lamentou-se Willes.

Tanto Willes quanto Dowining foram, entretanto, muito criticados por toda a imprensa norte-americana quando, em agosto passado, decidiram efetivamente destruir o muro que separa a redação do departamento comercial. Às escondidas, eles dividiram os lucros da revista dominical do LA Times com o novo centro esportivo de Los Angeles, o Staples Center, assunto único de uma edição da revista.

O escândalo obrigou-os a pedir desculpas a toda redação, publicar um editorial de primeira-página e promover uma investigação, que rendeu 14 páginas em dezembro de 99. Tudo foi feito na tentativa de se salvar a integridade e credibilidade do jornal [veja remissão abaixo].

Em entrevista à repórter Felicity Barringer, Richard Oppel, editor de Austin-American Statesman afirmou que a liderança de Willes teve fortes "efeitos na cultura do jornalismo". "O grande desafio de um CEO é entender o equilíbrio entre inovação e preservação de valores duráveis. A pessoa que desconhece o que vem atrás não tem chance de sustentar a credibilidade de um moderno e atual jornal", aposta o editor.

 

Agora a conversa é outra

Quando a Tribune Company anunciou, em 13/3, que estava adquirindo a Times Mirror Company num acordo de 6,3 bilhões de dólares, a empresa quis dizer que seus jornais terão agora circulação nacional de 3,6 milhões de exemplares diários, com jornais locais nos três maiores mercados norte-americanos - Nova York, Los Angeles e Chicago. Suas estações de televisão atingirão 38,4 milhões de casas e, na internet, a nova companhia será dona de alguns dos 20 websites de notícias com mais de 3,4 milhões de visitantes ao mês. Será a terceira maior empresa de mídia dos Estados Unidos, atrás apenas da Gannett Co., que publica o USA Today, e da Knight Ridder.

"E daí?", pergunta a especialista em alta tecnologia Esther H. Dyson. De acordo com ela, as fusões e a formação de conglomerados têm sido a saída mais corriqueira encontrada pelas empresas de todos os ramos para sobreviver e obter mais lucros na nova geopolítica mundial. Dyson esqueceu-se, entretanto, que negócios jornalísticos são ainda negócios muito particulares, sendo que a formação de impérios afeta não só as finanças das empresas mas também toda a estrutura do jornalismo.

As fusões têm sido, no geral, o caminho encontrado pelas empresas de mídia para abocanhar as "novas mídias", com ênfase especial para as TVs a cabo, internet e todo o ramo de entretenimento. A grande questão é saber agora se o novo formato destes impérios (dirigidos pelos lucros e pelo entretenimento) irá afetar a qualidade da velha mídia ou seja, a dos jornais impressos.

Os grandes veículos que a Tribune Co. conquistou ao comprar a Times Mirror foram principalmente três jornais da velha mídia: The Los Angeles Times e The Baltimore Sun, em Los Angeles, e Newsday, em Nova York. Somados ao Chicago Tribune, da Tribune Co., estes jornais dão conta dos três maiores mercados dos Estados Unidos.

Segundo matéria de David Barboza [The New York Times, 13/3/00], o fato surpreendeu até mesmo funcionários da Tribune Co., acostumados às aquisições ligadas a televisão e internet. Executivos da empresa afirmam que a fusão faz parte de uma estratégia de elevar a qualidade das novas mídias por meio de um trabalho conjunto entre profissionais de TV, internet e impressos.

Scott Smith, publisher do Chicago Tribune afirmou que a empresa não pretende assolar a integridade jornalística de seus jornais, mas tenta encontrar sinergias e um novo modo de levar informação de qualidade para seus leitores e consumidores.

Ainda segundo Smith, a empresa é fiel aos seus preceitos éticos e não pretende sobrepujá-los em nome dos lucros. "É verdade que as margens de lucro dos jornais da Tribune Co. aumentaram significativamente nas últimas décadas, mas nós temos mais jornalistas do que uma década atrás - e alguns são mais talentosos."

Segundo a matéria do New York Times, a Tribune Co. ainda não tem planos de desenvolver um jornal nacional, mas planeja criar um espaço onde repórteres de jornais impressos, internet e televisão possam trocar informação e produzir seu material mais próximos uns dos outros.

 

COLÔMBIA
O exílio ou a vida

Depois de ser ameaçado de morte pelas FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Francisco Santos, editor-chefe do El Tiempo, o maior jornal colombiano, partiu em 11 de março para o exílio. Santos, que foi seqüestrado pelo Cartel de Medellín em 1990 e libertado oito meses depois, é o mais proeminente jornalista da longa lista de profissionais que foram mortos ou se auto-exilaram desde o ano passado, na Colômbia. Depois de 30 anos de guerra civil entre traficantes de drogas, rebeldes de esquerda, gangues paramilitares de direita e as forças de segurança do governo, a Colômbia se tornou, segundo informações do Comitê de Proteção a Jornalistas, de Nova York, o segundo país mais perigoso do mundo para jornalistas - o primeiro lugar é da Argélia.

Segundo media watchers colombianos, quase 170 jornalistas foram mortos desde 1977, sete dos quais em 1999. Outros dez jornalistas partiram para o exílio no ano passado.

De acordo com matéria de Karl Penhaul [Yahoo News!, 11/3/00], além de trabalhar e ser membro da rica família dona do El Tiempo, Santos fundou um movimento de paz em 1996, "No Más!", e organizou demonstrações de rua em toda a Colômbia para pedir o fim da luta armada e dos freqüentes seqüestros. Tanto no El Tiempo quanto nos movimentos que organizava, Santos era um fervoroso crítico das FARC - a maior força rebelde do país, com 17 mil guerrilheiros - e da ELN (Exército da Libertação Nacional), um pouco menor.

No início do ano, o comandante supremo das FARC, Manuel Marulanda, anunciou que tinha algumas "dívidas para acertar" com diretores de mídia. "Vocês pensam que estão acima do bem e do mal, ou intocáveis, porque são diretores de mídia que trabalham para grandes monopólios?", perguntou Marulanda. Na Colômbia, todos os lados da guerra civil rotineiramente ameaçam jornalistas quando matérias não são favoráveis a determinado grupo armado.

A notícia das ameaças de morte contra Santos vieram a público quatro dias depois que Fernando Gonzalez Pacheco, que trabalhou como âncora de TV e mais recentemente apresentava um game show, anunciou que estava deixando a Colômbia devido a ameaças de morte.

Em agosto, os colombianos ficaram chocados com o assassinato de um dos mais importantes comediantes do país, Jaime Garzon, que também trabalhava como jornalista. Há suspeitas de que ele tenha sido assassinado pelas forças paramilitares de direita, que estavam descontentes com o diálogo que o comediante mantinha com o governo e com guerrilha ELN para tentar chegar a um acordo de paz.

 

MULTIMÍDIA
Interação e trabalho dobrados

Acabou-se o tempo em que jornalistas de veículos impressos faziam apenas aquilo que a profissão lhes determinava - escrever histórias sobre o que viam. A aposta é de Mike Schneider, repórter da agência de notícias Associated Press em matéria para Yahoo! News (14/3/00).

Há 15 anos, quando Michael Griffin, editor de política do Orlando Sentinel entrou para o jornal, ele apurava e escrevia uma matéria por dia. Hoje, além de editar textos do jornal impresso, Griffin atualiza o website do Orlando Sentinel, dá entrevistas para as rede de televisão da empresa-mãe Tribune Co. e faz pontas nas estações de rádio.

"Muitos repórteres de jornais impressos estão se tornando mestres em todas as mídias", escreveu Mike Schneider.

Um dos maiores exemplos dessa sinergia é o próprio Orlando Sentinel. Além de ser dona de muitos jornais por todos os Estados Unidos, a empresa-mãe Tribune Co. possui, com outros sócios, um canal local de TV a cabo, websites e inúmeros acordos com as rádios de Orlando.

O resultado desta mistura é evidente até para quem vê tudo de fora. Jornalistas do Sentinel fazem reportagens ao vivo para a TV a cabo Central Florida News 13, repórteres da TV contribuem com textos para a redação do jornal e alguns fotógrafos são vistos carregando câmeras de TV. "As pessoas estão adquirindo notícias de inúmeras fontes, e nós queremos que elas retirem [as notícias] de nós", afirmou Jane E. Healy, editora-executiva do Orlando Sentinel.

Certamente o salário dos repórteres que costumavam se dedicar a uma matéria por dia não acompanhou a expansão da quantidade de trabalho que eles agora realizam.

 

COMPORTAMENTO
Embargo jogado às traças

As eleições primárias que decidirão os candidatos para a eleição presidencial de novembro nos Estados Unidos inauguraram uma nova discussão ética para o jornalismo do país. Desde as primárias do estado de New Hampshire, no início de fevereiro, alguns veículos de mídia decidiram quebrar o embargo eleitoral que lhes é imposto e vêm divulgando os resultados de pesquisas de boca-de-urna horas antes do término das votações.

Em 7 de março, durante a "Super Terça" - primárias realizadas nos estados mais importantes do país e que definem 1/3 dos delegados nacionais -, os visitantes de websites ou telespectadores do canal Fox News souberam, horas antes do fechamento das urnas, da vitória do vice-presidente Al Gore sobre Bill Bradley, para a candidatura pelo Partido Democrata, e do triunfo de George W. Bush, pelo Partido Republicano.

Nos Estados Unidos, a pesquisa de boca-de-urna é feita pela Voter News Service (VNS), um consórcio entre as redes de televisão ABC, NBC, CBS, CNN e Fox News, e a agência de notícias Associated Press. Os resultados são passados para as organizações de notícias em intervalos regulares durante todo o dia de votação, mas um embargo eleitoral as proíbe de veicular qualquer resultado até o fechamento das urnas.

Embargos na divulgação de resultados de boca-de-urna antes do término das votações são comuns na maioria dos países democráticos. É um instrumento que procura evitar que eleitores sejam influenciados ou deixem de votar devido aos resultados.

Efeito dominó

A revista eletrônica Slate, da Microsoft, foi o primeiro veículo a desrespeitar o embargo, divulgando em seu website resultados de boca-de-urna durante as primárias de New Hampshire, Carolina do Sul e Michigan horas antes do término da votação. Slate, que soube dos resultados de boca-de-urna de forma irregular - já que não faz parte do Voter News Service -, decidiu interromper seu desrespeito ao embargo depois que o consórcio ameaçou processá-la, no final de fevereiro.

"É nosso trabalho encontrar a verdade e publicá-la, e não promover democracia", afirmou o editor-executivo de Slate, Jack Shafer, ao repórter J. D. Lesica [Online Journalism Review, 6/3/00] quando indagado sobre os problemas que a quebra do embargo poderia acarretar.

Na mesma semana, entretanto, a revista National Review ocupou o lugar de Slate e divulgou em seu website os resultados de boca-de-urna enquanto os eleitores ainda votavam para as primárias no estado da Virginia. As visitas ao site foram tão intensas durante todo o dia de votação que o servidor da National Review chegou a falhar.

O descompromissado Matt Drudge, sujeito que ficou famoso por divulgar fofocas na internet como se fossem fatos e que sempre se desvencilhou dos parâmetros éticos do jornalismo [é dele a frase "sou repórter, não sou jornalista"], também embarcou na divulgação das pesquisas de boca-de-urna antes do fim das votações. Em seu website, Drudge ofereceu, durante as primárias da Virginia, links para as revistas Slate e National Review, possivelmente por não ter conseguido os números das pesquisas por si só.

Tanto Drudge quanto a National Review repetiram a estratégia durante a "Super Terça". Eles tiveram, entretanto, que competir com a rede de TV Fox News, que durante noticiário do meio da tarde teve um de seus âncoras afirmando: "Se você é um investidor [da campanha] de Bradley, desista".

Ao anunciar que naquela noite a Fox News transmitiria uma entrevista com o candidato George W. Bush, o mesmo apresentador insinuou, às 16hs, sua vitória: "Ele estará de bom humor".

De acordo com a agência de notícias Reuters [Yahoo!News, 8/3/00], até mesmo a tradicional rede de televisão CNN deixou de respeitar o embargo. Em noticiário que antecedeu em alguns minutos o fechamento das urnas, a CNN anunciou que John McCain teria, segundo pesquisas de boca-de-urna, vencido Bush nas primárias republicanas em Connecticut e Massachusetts, mas que o governador do Texas havia vencido em Maine, Maryland e Missouri.

Visão contrária

"Todos nós sabemos que os resultados de boca-de-urna correm por meio de telefonemas ou e-mails entre jornalistas, políticos e outros membros da elite. Por que não deixar as portas abertas e convidar o público para a festa também?", perguntou o editor-executivo de Slate, Jack Shafer, ao repórter J. D. Lesica [Online Journalism Review, 6/3/00].

Shafer tem razão quanto ao acesso da "elite" americana aos resultados da boca-de-urna. De acordo com matéria de Lesica, milhares de executivos de notícias, jornalistas, políticos e cabos eleitorais têm acesso aos resultados das pesquisas praticamente em tempo real, números que são omitidos do público por diversas horas.

Entretanto, para Evans Witt, que foi diretor-executivo da VNS e hoje é comentarista dos resultados de boca-de-urna para a NBC News, a atitude de Shafer foi "um erro egoísta e descuidado".

"Jornalistas freqüentemente têm informações que eles não dividem com o público por questões de embargo. O sistema atual foi desenhado para permitir que jornalistas possam preparar uma reportagem depois de terem tempo de digerir e considerar os resultados de uma eleição. É terrível para o jornalismo quando se publica algo ‘cru’, dados parciais que podem estar errados ou podem ser mal entendidos - especialmente se isso pode desencorajar as pessoas a votar", disse Witt.

 

MANIPULAÇÃO
Assim é se lhe parece

O editor da revista de esquerda Living Marxism Michael Hume reiterou perante a Alta Corte de Londres as acusações que sua revista vem fazendo ao serviço de notícias britânico ITN (Independent Television News) sobre o envolvimento emocional de dois jornalistas durante a cobertura da guerra da Bósnia, em 1992. A ITN, que levou o caso à justiça, defende que a revista Living Marxism atacou a integridade profissional de seus jornalistas ao acusá-los de manipular e distorcer imagens da guerra.

Em 1997, a revista publicou matérias que acusavam os jornalistas Penny Marshall e Ian Willians, da ITN, de terem tomado partido dos muçulmanos e "fabricado" imagens que sugeriam a existência de campos de concentração mantidos por bósnios de origem sérvia. A imagem de um muçulmano raquítico atrás de uma cerca de arame farpado, que rodou o mundo em 1992, teria sido, de acordo com a revista, manipulada [veja remissão abaixo]. Os arames seriam restos de uma cerca atrás da qual estava a equipe de filmagem, e não os muçulmanos. As vítimas estariam ainda em um campo de refugiados de onde poderiam partir quando quisessem.

De acordo com matéria da ITN [ITN Online <www.itn.co.uk>, 10/3/00], o editor da Living Marxism declarou ao júri acreditar que os jornalistas eram culpados por tomar partido. "Eu senti que eles [os jornalistas] se envolveram emocionalmente com a história e apresentaram imagens sensacionais das vítimas - apesar de saberem que as imagens poderiam ser interpretadas como cenas de um campo de concentração."

Segundo Hume, há uma tendência no jornalismo de se fazer comparações "fáceis e casuais" entre o Holocausto e conflitos do globo, o que distorce o passado e a história. De acordo com o editor, essas comparações também distorcem o presente porque "reduzir uma guerra civil e complexa a uma reprise da Segunda Guerra Mundial, onde os sérvios se tornam nazistas, é uma simplificação barata que pode barrar o entendimento de tudo. Isso se torna uma desculpa para a ignorância", afirmou Hume.

ITN - que fornece reportagens para as emissoras de TV privadas do Reino Unido - nega qualquer possibilidade de manipulação, e por isso decidiu processar a revista pela manchete de capa "A imagem que fez o mundo de bobo", de janeiro/fevereiro de 1997, que trouxe a foto do muçulmano raquítico em suposto campo de concentração.

O editor de Living Marxism defende, entretanto, que todo o caso - tanto a suposta manipulação por parte da ITN quanto o ataque da revista à integridade dos jornalistas - deveria ser julgado por um tribunal popular. "Eu acredito em liberdade de imprensa e no direito do público de avaliar por si só a verdade, e não acredito que isso deva ser decidido pelo ITN ou pela Alta Corte", declarou Hume.

 

ÁFRICA DO SUL
A herança do apartheid

A Comissão de Direitos Humanos da África do Sul (SAHRC, em inglês) iniciou, em 6 de março, uma audiência pública com alguns de seus membros e editores de jornais para avaliar a presença de racismo na mídia do país. A freqüência de estereótipos raciais na imprensa foi apontada por um relatório produzido pela SAHRC no ano passado, que constatou que o negro continua sendo tratado pela mídia sul-africana como "incompetente" e "criminoso".

Segundo matéria da agência de notícias Reuters [Yahoo!News, 6/3/00], a audiência, com duração prevista de cinco dias, foi iniciada pela pesquisadora Claudia Braude, que em seu relatório para a SAHRC afirma que os jornais fazem uso de imagens e de textos que reforçam o estereótipo racial. "Nós fazemos parte de uma na qual cultura algumas pessoas são descritas como sendo melhores do que outras em termos de raça. [O racismo] é visível e possível de ser determinado", declarou Braude.

Em meados de fevereiro, cinco editores de veículos de mídia que supostamente trariam estereótipos raciais em seu conteúdo foram intimados a depor na audiência. Ainda que tenham concordado com a importância da discussão, os editores afirmaram que a intimação coloca em perigo a liberdade de imprensa na África do Sul, e ameaçavam não comparecer às audiências. Advogados que representam os editores na audiência afirmaram que nenhum exemplo substancial de racismo foi levantado pela SAHRC.

Mesmo depois do fim do regime de segregação racial, a maioria das grandes empresas de mídia da África do Sul continuam a pertencer a homens brancos, o que reforça a tese de que o racismo ainda está presente na imprensa do país.

 

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