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MONITOR DA IMPRENSA
PRECONCEITO DISSIMULADO
Minorias na mídia
Fabiano Golgo, de Praga
Os búlgaros têm feito questão de exibir à União Européia sua tolerância em relação às minorias étnicas de seu país comportamento único nos Balcãs , querendo assim melhorar suas chances de fazer parte de uma segunda rodada de inclusões no mercado comum do continente. O mais novo ato de relações públicas do presidente Petar Stoyanov foi a criação, em fevereiro, de um núcleo de produção de TV composto por turcos. Em breve, as emissoras estatais vão oferecer programação na língua turca. Os planos são para uma ampliação do projeto para oferecer as outras minorias programas em sua própria língua.
A Bulgária tem apenas 7 milhões de habitantes. Mais de 1 milhão de étnicos búlgaros deixaram o país nos primeiros anos após a derrocada do regime político que impedia a grande maioria de viajar, muito menos emigrar. Convivem no mesmo território quase 1 milhão de étnicos turcos, meio milhão de Rroma coloquialmente conhecidos como ciganos , quase 300 mil macedônios, mais armênios, tártaros, judeus, gagaouz e pomaks.
É claro que é apenas um ponto na longa lista de padrões a serem alcançados pelos países do antigo bloco socialista antes de entrarem para o clube europeu e a Bulgária ainda tem muito a fazer no que diz respeito a reformas econômicas e institucionais. Mas serve como exemplo em uma região tumultuada por ódios étnicos, cuja história é marcada por muito sangue.
"Férias prolongadas"
Durante os anos da ditadura do comunista Todor Jivkov, as minorias viviam sob condições opostas, sendo alvo de resoluções absurdas como a que obrigou, em 1984, todos os turcos a mudarem seus nomes. A lei dizia que ninguém no país poderia ter nomes não-eslavos. Esses "turcos" na verdade são descendentes de famílias que chegaram com os otomanos muitos séculos antes, não conhecendo outra terra que não a búlgura. Casos ridículos brotaram da decisão de Jivkov, como o da então muito famosa cantora Yulduz Ibrahim, um sucesso de décadas no país, que teve que adotar o nome de Suzana Erova. Na hora de dar autógrafos, ela tinha que se esforçar para não escrever seu verdadeiro nome. E programas de auditório da TV estatal viviam se enganando e anunciando a entrada de Yulduz em vez de Suzana. Um repórter do jornal oficial perdeu o posto por ter cometido o mesmo erro.
Jivkov não se contentou com a mudança forçada das identidades da população de origem turca. Em maio de 1989, ele apareceu em rede nacional de TV anunciando que os turcos estavam sendo "convidados" pelo governo búlgaro a irem "visitar" a Turquia. O anúncio foi seguido de forte ação policial, quando as autoridades invadiam as residências turcas e simplesmente os acompanhavam até a fronteira. A população de origem turca se concentrou no setor agropecuário durante as décadas de totalitarismo comunista, e a expulsão oficial começou pouco antes do início da colheita. Áreas rurais inteiras foram esvaziadas sem que houvesse búlgaros com suficiente conhecimento de métodos agrícolas, o que resultou em perda de 3/4 da a colheita do país, que já não dava conta das necessidades da população. A mídia oficial tentou arrefecer os ânimos da população revoltada com a falta de alimentos básicos acusando os turcos de terem destruído o que puderam, antes de "irem passar férias prolongadas" em seu "país de origem" (palavras do jornal Pravda).
O primeiro ato oficial dos que sucederam Jivkov depois da revolução de 1989, para mostrar aos turcos a reversão da política racista anterior, foi convidar a jornalista Neri Terzieva etnica turca para comandar o telenoticiário do horário nobre. Hoje ela é a porta-voz e assessora de imprensa do presidente Stoyanov.
A boa vontade do governo em relação às minorias existe, mas é atravancada pela falta de fundos. A TV estatal búlgura com dois canais tem pouquíssimos recursos apesar da ampla audiência. A qualidade dos programas é pobre, beirando o amadorismo. As transmissões são interrompidas depois do noticiário da manhã, voltando apenas no meio da tarde, com shows produzidos por estudantes das escolas públicas. Há pouco erotismo, ao contrário dos outros países do antigo bloco (exceção feita à católica hardcore Polônia), e também não se vê muitas cenas de violência, mas porque não são comprados seriados e filmes americanos, por pura falta de dinheiro.
A rádio tem feito um trabalho melhor, pela natureza mais barata de sua produção. Os armênios recebem duas horas diárias de programação doada pela emissora estatal da Armênia.
Ja os Rroma passam por uma situação cômica: não entendem os programas radiofônicos comprados pelo governo para eles. Isso porque não existe uma língua única entre os ciganos, mesmo que todos eles tenham um vocabulário básico quase idêntico. Cada país do Leste e Centro europeus lidou com os ciganos de forma diferente e a Bulgária foi um dos que procurou integrá-los à cultura local. Isso fez com que depois de 4 décadas sob esse sistema as novas gerações tenham aprendido o búlgaro, assimilando apenas algumas palavras ouvidas em casa pelos familiares mais velhos.
Mesmo assim, Svetla Petrova, diretora geral da TV estatal búlgura, comprou um programa televisivo produzido especialmente para os ciganos, o Amare Rroma, da República Tcheca. Acontece que os tchecos também integraram a população Rroma, que fala um misto de tcheco, eslovaco e resquícios de sua língua de origem. Ou seja, aos ciganos búlgaros será, mais uma vez, ofertado um produto que não entendem. Mas o que conta, para o governo, é que os analistas da União Européia computam a atitude oficial como boa vontade em relação às minorias...
Nova política tcheca
Os tchecos se orgulham de serem considerados os mais "culturais" e liberais cidadãos da Europa. Em sua capital, Praga, há mais teatros, cinemas e galerias per capita que qualquer outra capital do continente. Lembram que a Rainha Vitória teria dito que "os boêmios [tchecos] vão à ópera de chinelos... mas vão" em alusão ao fato de serem pobres, na época mera colônia austríaca, mas manterem hábitos típicos da aristocracia e da burguesia dos países mais abonados do continente.
Apesar de ser um país empobrecido pelos anos de economia (mal) planificada, a herança arquitetônica e industrial dos anos sob o império dos austríacos da Casa dos Habsburgos garantiu aos tchecos uma situação privilegiada na retomada do capitalismo democrático. A região da Boemia onde fica Praga e onde se concentra o poder econômico tcheco , atravessou os séculos com a fama de ausência de racismo. Os tchecos foram os únicos (por intermédio de seu rei Rudolfino II) a abrirem sua sociedade para os judeus, logo no início da Renascença. Isso é tido como sinal de longa tradição de aversão ao racismo. O sacerdote católico Jan Hus, um século antes de Martinho Lutero, protestou contra a obrigatoriedade de rezar missa em latim. E vários séculos antes de João Paulo II, criou uma ponte amigável entre seus fiéis e os judeus, causando a ira dos círculos papais, que não demoraram a mandá-lo para a fogueira da Inquisição. Mesmo assim os tchecos insistiram nas relações amigáveis com os judeus, que duraram até a invasão das tropas de Hitler, em 1938-39. A tradição liberal também marcou os 20 anos de independência, entre 1918 e 1938, quando eram o único país da Europa com sistema pluripartidário (nenhum partido era proibido; havia 19) e mercado livre. Até os alemães da região local conhecida como Sudeten tiveram seu direito de expressão garantido e partido político, mesmo que estivessem convidando publicamente a invasão pelos nazistas e defendendo pela mídia escrita e radiofônica a teoria de inferioridade dos tchecos e eslovacos.
Por causa desse histórico não-racista, os tchecos ficaram muito ofendidos com as manchetes pelo mundo inteiro sobre um muro construído na cidade de Usti nad Labem, supostamente separando os ciganos dos seus vizinhos brancos. Desde então tem havido um profundo processo de reavaliação do comportamento em relação à população Rroma. Com o presidente Havel à frente, uma campanha de mídia tem sido dirigida à compreensão mútua das diferentes culturas em jogo. Foi criada uma série de programas de rádio e TV tanto para atender as necessidades específicas dos Rroma, como para introduzir o público tcheco na cultura cigana.
O que acontecia antes era uma espécie de apartheid silencioso, sem violência. Os tchecos simplesmente se mantinham separados dos Rroma, sem maltratá-los, mas agindo como se fossem invisíveis.
Cultura cigana
Durante os anos comunistas, os Rroma receberam apartamentos funcionais e foram retirados das ruas. Muitos foram integrados ao sistema de trabalho alheio à cultura cigana, que recusa a labuta diária ou passaram a receber pensões como ineptos. De certa forma, isso criou desconforto entre os tchecos e eslovacos, que passaram a ver os ciganos como privilegiados que não tinham que enfrentar a dura realidade do trabalho nas indústrias pesadas (e perigosas) da economia da época.
Para piorar, sem exceção os apartamentos dos Rroma se tornaram, em poucos anos, verdadeiras lixeiras por causa do hábito deles de recolher objetos jogados fora pelos outros. Por algum motivo, esses objetos, que vão desde bugigangas de metal sem função específica a materiais plástico sem qualquer uso prático, são parte do cenário das residências de ciganos empilhados, às vezes por décadas, para possível futuro uso.
Outros fatos emergiram aos poucos. A maior parte dos Rroma simplesmente não pagava a taxa básica de eletricidade, gás e água. Logo não tinham luz e nem aquecedor em uma região onde o inverno é literalmente de doer nos ossos. O temperamento imediatista de sua cultura os levou a achar meios alternativos para se manterem aquecidos no inverno, em vez de gastarem parte de suas pensões ou salários para o pagamento da taxa básica. A solução mais comum era a queima de toda a madeira encontrada, inclusive a da própria estrutura de seus apartamentos e isto dentro do próprio, o que causou inúmeros acidentes. Esse fênomeno causou grande aversão nos tchecos. Afinal, os blocos de apartamentos (panelaky) eram construídos com o dinheiro de todos, com o suor de muitos e eram de propriedade de toda a sociedade, como pregava a teoria do regime.
Centenas de prédios foram totalmente "consumidos" pelos seus moradores. Ainda hoje a situação é a mesma, embora pelo menos 10% dos 300 mil Rroma da República Tcheca tenham se adaptado à cultura gadja do trabalho com remuneração. Destes, boa parte vive entre tchecos, não sofrendo nenhum preconceito visível.
Mesmo assim, a cultura cigana é gritantemente diferente da eslava. Há uma dedicação especial ao entretenimento por meio da música, da bebida e do sexo. Também há o problema da violência entre os ciganos, que muitas vezes respinga nos tchecos, conhecidos pelo seu fleumatismo e aversão à violência.
De todos os crimes violentos cometidos nos últimos 10 anos, apenas 3% têm tchecos como perpetradores. Os outros são causados pelos iugoslavos (39%), russos (27%) e ciganos (26%). De todos os roubos, a população Rroma é responsavel por 75% dos casos, segundo estatísticas oficiais sobre os últimos 10 anos. Um dos problemas para o setor turístico é que há uma enorme máfia de batedores de carteira no centro da capital, gerando mais de 80 casos (não-resolvidos) por dia, afugentando os estrangeiros e exportando a impressão de que Praga não é uma cidade segura. Esse tipo de dado causa, justificadamente, um atrito entre as duas etnias, pois não é preciso fazer nenhum estudo especial para constatar que os ladrões são, em sua esmagadora maioria, ciganos.
Efeito positivo
Entidades americanas apontam o fato de as penitenciárias serem habitadas principalmente por Rroma como um indício de perseguição. Muitos ciganos apontam o dedo para o sistema, que não lhes dá chances iguais, como propulsor da criminalidade entre os seus. E é verdade que, até há pouco tempo, todas as crianças eram submetidas a um teste para decidir em que escola deveriam estudar com opções entre uma escola "normal" e outra para "deficientes". Nesse teste, eram aplicadas perguntas impossíveis de serem respondidas pelos ciganos, envolvendo aspectos culturais ausentes de sua realidade, além de um conhecimento mais ortodoxo da língua somente possível para os que crescem entre tchecos, uma vez que os Rroma não falam corretamente a complicadíssima língua tcheca. Assim crianças ciganas acabavam em salas de aula entre colegas com vários níveis de deficiência mental, submetidas a uma educação muito aquém do desejado.
Sejam quais forem os motivos, a realidade dos ciganos é menos atraente que a dos tchecos. Estes sempre se defenderam com o argumento verdadeiro de que não há violência crônica contra os Rroma (a não ser casos isolados, nada tendo a ver com a psiquê geral) e que as condições de vida deles eram menos privilegiadas por sua própria culpa.
Mas o escândalo internacional do que parecia ser um muro separando os ciganos em uma espécie de gueto levou os tchecos a repensarem seu comportamento.
A mídia estatal respondeu logo: contratou um locutor de origem cigana, proporcionou-lhe curso de radialismo e o colocou na apresentação de vários telejornais (as emissoras têm um sistema de rodízio, portanto o mesmo apresentador pode ser visto em diferentes horários cada dia). Também contratou uma moça que apresenta o programa de maior sucesso entre as crianças, visando acostumar a gurizada aos ciganos antes que tenham consciência da atitude de seus pais em relação a eles.
Durante a tarde, as donas-de-casa são o público-alvo de uma revista eletrônica que tem um casal misto (um tcheco casado com uma cigana) apresentando variedades e curiosidades sobre ambas suas culturas por exemplo, a adaptação de um prato dos Rroma ao tempero tcheco; dicas de decoração pinçando a tradição de um lado e de outro; além de mostrar como os dois se comunicam usando uma mistura de suas línguas.
Outro programa ensina a língua cigana. A professora eletrônica é uma loira tcheca. Serve tanto para os tchecos como para os próprios ciganos das gerações mais jovens, que falam uma mistura das duas línguas, mas não dominam o original de seus antepassados.
Uma telenovela também incluiu um casal misto e as transmissões de futebol acharam na população cigana uma dúzia de excelentes repórteres e locutores, que agora são mais famosos e celebrados que seus colegas tchecos (o que se explica pela maneira mais gesticulante e energética dos Rroma, em comparação com a formalidade tcheca).
Nada disso mudou o fato de que os Rroma ainda vivem relativamente isolados entre os seus, mas espera-se que essa recente integração de ciganos à mídia de massas surta algum efeito positivo nas próximas gerações. É uma iniciativa inédita e única, pois nenhum outro país do mundo oferece a atual fartura de opções e indivíduos da cultura Rroma que se vê na TV tcheca.
MICROSOFT
Esconde-esconde
No dia 10 de abril, o site do Wall Street Journal publicou um furo de reportagem de autoria de John Wilke. A notícia era de que Microsoft poderia ser forçada pelo Departamento de Justiça americano a tornar seu programa de navegação, o Internet Explorer, disponível gratuitamente a seus clientes. A nota, baseada no epicentro da batalha antitruste que a Microsoft vem enfrentando, foi em poucos minutos captada pela Reuters e, em seguida, enviada a rádios e clientes da agência em todo o mundo.
A matéria de Claudia H. Deutsch [The New York Times, 11/4/00] relata que o furo estava sendo transmitido pelas emissoras quando, misteriosamente, a chamada desapareceu do website do WS Journal. A explicação de Dick Tofel, porta-voz do jornal, foi pouco esclarecedora. "A reportagem não estava pronta para a publicação e, por isso, não deveria ir ao ar", declarou.
O porta-voz da Microsoft Mark Murray tampouco deu maiores justificativas, afirmando apenas que "essa idéia parece ilógica, à medida que a Microsoft já fornece o Explorer de graça".
Não é a primeira vez que algo dessa natureza é visto em sítios noticiosos. Segundo o o NY Times, em 1998, o mesmo Wall Street Journal e o Dallas Morning News publicaram notícias sobre o escândalo de Monica Lewinsky e Bill Clinton. Algumas horas depois, ambos os jornais retiraram as publicações e as transformaram, para novamente irem ao ar numa versão mais precisa.
A nova era da comunicação, cada vez mais rápida, abre vãos imensos para derrapadas fenomenais como essas. Uma das ordens primeiras do jornalismo a precisão vem sendo substituída por uma ordem comercial: a rapidez. E o jornalismo vai, aos poucos, perdendo sua (bela) forma original.
Quanto mais veloz for a transmissão das notícias, melhor o veículo que as publica. Esta parece ser a nova lógica difusora de furos muitas vezes banais e algumas vezes falsos.
A reportagem do do website do WS Journal não apareceu na versão impressa do veículo.
REINO UNIDO
Eurofobia à inglesa
O tradicional jornalismo inglês está pondo em dúvida a famosa fidedignidade pela qual é conhecido. Pelo menos aos olhos da Comissão Européia, autora do recente Press Watch relatório que acusa alguns jornais do Reino Unido de preconceituosos e "eurofóbicos".
Segundo a Comissão, a "sujeira ultranacionalista" dos jornais ingleses mantém o público alienado das atividades das lideranças políticas européias. A acusação vai mais longe, dando conta que os jornais britânicos enganam deliberadamente seus leitores quando o assunto é a União Européia.
Alguns exemplos são citados na matéria da BBC News (13/3/00). O Sunday Telegraph relatou em uma reportagem que a Comissão gastou 18 milhões de libras esterlinas em projetos de ajuda fictícios, em Ivory Coast. O jornal julgava ser aquele o pior abuso de capitais de projetos já vistos na história da UE. O ato negligente foi negado pela Comissão sob o argumento de que projetos em Ivory Coast são financiados com fundos locais, e não com dinheiro da União Européia.
Outro jornal da "lista negra" é o Daily News. Segundo o Press Watch, o jornal sustentou que "a Corte Européia de Justiça estaria estabelecendo poderes ilimitados para interferências nas leis existentes no Reino Unido". Sobre o caso, a Comissão respondeu que "ilimitado é o alarmismo do Daily News".
O Express, mais um exemplo, relatou que os burocratas de Bruxelas planejavam forçar o Reino Unido a desistir de seus lavatórios tradicionais e aderir aos europeus. A Comissão novamente nega, embora confirme que serão permitidas promoções de banheiros do "estilo continental" no território inglês.
Trevor Kavanagh, editor-chefe do Sun, outro jornal na mira da Comissão, é mais direto. "Somos céticos porque consideramos a UE corrupta e antidemocrática", afirma. Segundo ele, "não é possível aceitar as decisões da União sem criticá-la".
O líder britânico da Comissão, Geoffrey Martin, explica que esse fenômeno deve-se ao fato de o Reino Unido ainda enxergar a UE como um "corpo estranho" tentando impor-se sobre o território inglês. Martin acrescenta que "a cobertura preconceituosa dos jornais influenciou a TV e o rádio".
ABC NEWS
Cenas do mesmo capítulo
Pensar em um Thiago Lacerda ou em uma Tiazinha entrevistando FHC pode parecer um belo exercício de imaginação. Na realidade da mídia norte-americana, no entanto, o improvável tem tido cada vez mais espaço e o porquê é um só: aumento da audiência.
No dia 22 de abril, em comemoração ao Dia da Terra, irá ao ar na ABC News trechos da ridicularizada entrevista que a estrela hollywoodiana Leonardo DiCaprio fez com o presidente Bill Clinton. Não é a primeira vez que o ator entra no campo midiático e não será a última: está sendo considerada a possibilidade de DiCaprio entrevistar o já famoso menino cubano Elian Gonzalez, de 6 anos.
De acordo com matéria de Howard Rosemberg [Los Angeles Times, 12/4/00], também não é a primeira vez que um ator assume o papel de jornalista. Por exemplo: o telejornal matutino da CBS, cuja audiência é extremamente baixa, optou por contratar a atriz Mariette Hartley.
Essa prática parece crescer e tornar-se comum no jornalismo norte-americano. Como se não bastassem as megafusões entre companhias de mídia, uma espécie de fusão inusitada parece crescer inexoravelmente: a do jornalismo e do entretenimento. O perigo dessa junção é achar graça nas notícias e levar a sério o que supostamente deveria entreter.
A ABC News é a rede de televisão que mais tem feito do jornalismo uma piada. Quando não é um DiCaprio entrevistando o presidente, são outras "mancadas" que fazem do jornalismo uma festa de incertezas. Não é à toa que o mês de abril tem sido infernal à emissora.
Pouco foi noticiada na ABC a absolvição de Alexis Herman, secretária do Trabalho do governo Clinton. Segundo Thomas Oliphant [The BostonGlobe, 11/4/00], após a investigação multimilionária promovida por um conselho independente, a acusação foi comprovada falsa. Em outras palavras, após se empenhar em inflar o assunto e escandalizar os telespectadores, a ABC praticamente ignorou o resultado da investigação: Herman é inocente e as acusações são falsas.
Há dois meses, a emissora noticiou em tom sinistro a acusação contra Abdul Rahman, um homem de negócios de Cingapura indiciado por contribuir ilegalmente com o Partido Democrata em nome das irmãs Weaver (antigas parceiras numa firma de consultoria de Alexis Herman). A reportagem do caso foi distribuída tendo como pano-de-fundo a "investigação Herman". Mais tarde, constatou-se que não havia ligações evidentes entre Herman e Rahman.
Embasadas em acusações falsas e depoimentos que em nada revelaram uma possível irregularidade de Herman, este foi mais um capítulo das "novelas" da ABC News. Entretenimento apenas para quem curte humor negro.
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA
A alternativa digital
É com razão que o presidente Bill Clinton anda preocupado em salientar a importância do jornal impresso. Um dos mais tradicionais jornais dos Estados Unidos está interrompendo sua circulação para para adequar-se à era eletrônica e fornecer informações via internet.
O Journal of Commerce deixará de circular a partir de 31 de maio e passará a ser uma revista semanal, a JoC Week. O presidente da companhia, Bill Ralph, explica o motivo. "É insustentável manter um jornal com circulação de 17 mil exemplares", diz.
A revista eletrônica, segundo matéria da Associated Press (12/4/00) será complementada com o website, que fornecerá aos assinantes atualizações diárias e notícias de última hora por e-mail. Segundo Ralph, a decisão partiu dos próprios leitores.
O Commerce, jornal de negócios mais antigo dos Estados Unidos, cobre assuntos de comércio, transportes e seguros desde 1827. Em 1848, foi um dos seis jornais nova-iorquinos que fundaram a Associated Press.
Nos anos 40 e 50 deste século, o Commerce foi um dos principais jornais de negócios norte-americano, ao publicar as programações e horários de trens e navios, até então pouco divulgadas por outros veículos. Com a era eletrônica, as empresas de transporte encontraram outra saída para divulgação dessas informações.
No ano passado, o jornal passou por uma série de mudanças, incluindo contratação de um novo editor e mudança no formato. Nada disso, no entanto, pôde evitar seu fechamento. A maior queda de circulação do jornal foi constatada em 1999.
A JoC WEEK está prevista para entrar no mercado no começo de junho.
O grupo Journal of Commerce é propriedade do grupo Economist, sediado em Londres. O Economist, por sua vez, pertence em 50% ao conglomerado midiático britânico Pearson.
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