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MONITOR DA IMPRENSA
PESQUISA
O que pensam os jornalistas
Heloiza Golbspan Herscovitz
O que pensam os jornalistas que trabalham para os principais veículos de comunicação de São Paulo sobre a profissão em comparação com jornalistas americanos e franceses. Este é o título da pesquisa realizada por mim como parte de dissertação de doutorado pela University of Florida, defendida em maio de 2000. A pesquisa contou também com entrevistas pessoais com vários jornalistas, entre os quais Alberto Dines e Mino Carta, e vários comentários anônimos escritos por participantes da pesquisa nos espaços abertos dos questionários.
Como foi prometido aos jornalistas que participaram da pesquisa, aqui vão alguns resultados do survey conduzido em 1998. Os dados abaixo são pequena parte do estudo que envolveu muitas outras variáveis e comparações entre brasileiros, franceses e americanos a respeito de outros tópicos não mencionados nesse resumo. Os resultados completos serão publicados no meio acadêmico americano e também no Brasil (revista acadêmica Intercom) ainda este ano.
Características demográficas
Foram distribuídos 1.000 questionários aos jornalistas que trabalhavam em maio de 1998 nos seguintes veículos: O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Gazeta Mercantil, DCI, Veja, IstoÉ, Imprensa, CartaCapital, TV Globo, TV Bandeirantes, TV Cultura, Agência Estado, Agência Folha e Universo Online. Retornaram preenchidos 402 questionários (40,2% da amostra). Desse total, 57,5% são homens (231) e 42,5%, mulheres (171). Eles estão distribuídos por veículo da seguinte maneira: jornais diários, 55%; televisão, 19,4%; revistas, 18,8%; agências de notícias e serviços online, 6,3%.
A média da idade dos jornalistas é 36, sendo que as mulheres são mais jovens (média 34) que os homens (média 38). Aproximadamente 37% dos jornalistas têm entre 25 e 34 anos e 30% têm entre 35 e 44 anos. A maioria (mais de 70%) é original de São Paulo; 11% vieram de estados do Sudeste, como Minas e Rio, 7% vieram do Sul; e 4%, do Nordeste.
Cerca de 73% dos jornalistas se definem como descendentes de europeus. Somente 2,2% se definem como descendentes de africanos e 1,2% como descendentes de povos indígenas. Cerca de 16,1% informaram que têm descendência mista. Cerca de 50,7% se definem como católicos e 31% não têm religião. Além disso, 7% são espíritas, 6,5% judeus, 3.7%, protestantes. Cerca de 47,5% são casados e 41,3%, solteiros.
Na escala esquerda/direita, 65,3% dos jornalistas são de centro-esquerda, com 4,2 de média numa escala de zero a 10, onde zero significa extrema esquerda e 10, extrema direita. A posição de centro-esquerda, no entanto, não se traduz em apoio aos partidos de esquerda. Só 19% dos jornalistas apóiam o PT, por exemplo. Quase 75% da amostra não têm preferência por partido político.
A maioria dos jornalistas tem diploma em Jornalismo ou Comunicação (83,3%) e 6,9% não têm curso universitário. Poucos jornalistas têm curso de pós-graduação: 5,4% têm mestrado.
Preferências
Os resultados confirmaram a hipótese sobre a influência da cultura americana no jornalismo brasileiro. Os jornalistas preferem o inglês (75%) ao francês (26%). O espanhol aparece em segundo lugar: 45% da preferência. A maioria tem interesse em mais de uma língua estrangeira. Quase 59% escolheriam os Estados Unidos se pudessem fazer um curso de pós-graduação no exterior, seguidos pela Inglaterra (18,4%). A França tem apenas 6,6% da preferência. Cerca de 37% escolheriam os Estados Unidos para uma viagem profissional, seguidos pela Inglaterra (14,9 %) e a França (9.7 %). Só 2,1% escolheriam um país latino-americano, e somente 0,2% disseram que viajariam para qualquer lugar do mundo onde estivesse acontecendo um fato "quente".
Em relação à preferência literária (romance, novela, conto), 47,3% dos jornalistas preferem escritores brasileiros, seguidos de escritores americanos (14,7%). Dezessete por cento não têm preferência por nacionalidade nesta área. Os brasileiros são também os autores preferidos de ensaios sobre cultura, sociedade e política (35%), mas os jornalistas preferem americanos ao ler sobre economia e tecnologia (45%). Em cinema, preferem filmes americanos (43,5%), seguidos de mix (26,7%) de filmes de diferentes nacionalidades e europeus em geral (14,7%). Filmes f ranceses são os preferidos por 7,6% dos jornalistas e filmes brasileiros, 2,7%.
Perguntados sobre as publicações estrangeiras que lêem pelo menos uma vez por mês em forma impressa ou via internet, jornalistas apontaram a mídia americana: New York Times (48,8%), Newsweek (38,3%) e Time (38,3%). Em segundo lugar, aparece a mídia britânica: The Economist é lido por 33,3% dos jornalistas e Financial Times, por 24,4%. Le Monde, El País e Clarín são lidos pelo menos uma vez por mês por 22% dos jornalistas.
Cerca de 15,6% dos jornalistas não assistem TV a cabo ou por satélite. Entre os que assistem, 45,3% preferem estações de TV americanas, 37,3% preferem canais americanos e europeus e 1,5% vê somente canais de TV europeus. A CNN é o canal preferido da maioria dos jornalistas que assistem TV a cabo ou satélite.
Satisfação no trabalho
Os brasileiros são os mais insatisfeitos com o trabalho na profissão (11%) comparados a americanos (3%) e franceses (0,4%). Só 17,2% disseram estar muito satisfeitos na profissão, um índice dez pontos abaixo dos americanos (27,3%) e semelhante ao dos franceses (15%). Jornalistas que trabalham em revistas estão mais satisfeitos do que os que trabalham em jornais, televisão e agências de notícias. Jornalistas da Exame estão mais satisfeitos que os jornalistas de outras revistas que participaram da pesquisa. Os jornalistas da IstoÉ estão mais satisfeitos que os jornalistas da Veja. Os jornalistas da Gazeta Mercantil estão mais satisfeitos que os jornalistas da FSP, de O Estado e do Jornal da Tarde. Jornalistas da TV Globo estão mais satisfeitos que os da Bandeirantes e da TV Cultura.
Salário (citado por 76,4%), chance de promoção (69,9%), autonomia (76,4%) e política editorial da empresa (66,7%) são os fatores mais citados como fontes de satisfação profissional. A maioria (90%) pretende continuar na profissão nos próximos cinco anos.
Ética
Em comparação a jornalistas americanos e franceses que responderam às mesmas questões sobre procedimentos éticos no trabalho, os brasileiros que responderam à pesquisa se mostraram muito tolerantes no uso de oito práticas consideradas polêmicas, entre as quais apresentar-se como outra pessoa (61,2% aprovaram, contra 22% dos americanos e 40% dos franceses); importunar pessoas para conseguir informações (75,6% dos brasileiros aprovaram, contra 49% dos americanos e 82% dos franceses); e utilizar microfones e câmeras escondidas (76,6% dos brasileiros aprovaram contra 28% dos americanos). Cerca de 12,4% dos brasileiros aceitam quebrar o sigilo prometido à fonte, contra 5% dos americanos e 4% dos franceses.
Cerca de 60% dos jornalistas não conheciam o código de ética da profissão, 30% conheciam e disseram utilizá-lo no trabalho e 10% conheciam o código, mas não o utilizavam. Entre os que conhecem o código de ética, só 4% concordaram plenamente com a afirmação de que o código está em harmonia com a política editorial da empresa para a qual trabalhavam. Entre os que desconheciam o código ou conheciam mas não o utilizavam (70% da amostra), um terço disse que empregava seu senso ético pessoal no trabalho, e outro terço disse que combinava o senso ético pessoal com as normas da empresa.
{*) Contatos: <Heloiza@journalism.com>
MORDAÇA NORTE-AMERICANA
Controle de informações sigilosas
Membros do Senado norte-americano, liderados por Richard C. Shelby, afirmam que a legislação existente naquele país não garante o sigilo de todos os tipos de informações secretas, dificultando os processos judiciais e pondo em risco os esforços dos serviços de inteligência. O Senado pretende, por meio de declaração recém-divulgada, aumentar a segurança das informações criminalizando seu vazamento.
De acordo com matéria de Vernon Loeb [The Washington Post, 14/6/00], a declaração emitida pelo Senado gerou forte oposição da advogada Janet Reno e de grupos defensores da Primeira Emenda. Os opositores afirmam que processos criminais não são necessariamente a melhor forma de estancar os vazamentos.
George J. Tenet, diretor da CIA, afirmou em julho ao Congresso que adoraria agarrar um dos responsáveis pelo vazamento de notícias devido aos danos que tais revelações causam "aos esforços de homens e mulheres da inteligência de nossa comunidade e o quanto abusam da segurança dos americanos".
John L. Martin, vencedor de 75 em 76 processos contra espiões, disse que a declaração do Senado é vaga e provavelmente inconstitucional. "Criminalizar os vazamentos não resolverá o problema, apenas o exacerbará."
O Departamento de Justiça, segundo Martin, geralmente opta por não processar suspeitos de espionagem porque é difícil provar que uma pessoa em particular foi fonte de vazamento. E tais casos freqüentemente requerem intimação de repórteres e editores, desrespeitando as disposições da Primeira Emenda. Usualmente, disse ele, a Justiça encoraja a CIA, o Departamento do Estado, o Pentágono e outras agências a punir suspeitos de espionagem e a demiti-los se houver provas suficientes.
O problema do vazamento de informações, de acordo com Martin, não surge de fraqueza da lei existente, mas de uma aversão ao reforço de sanções legais e administrativas. "Os maiores transmissores de informações secretas são ajudantes e simpatizantes da Casa Branca, secretários do Estado, generais e almirantes e membros do Congresso", afirmou Martin. "Se essa declaração for decretada, reforçada e sustentada pelas Cortes, pode-se deslocar a capital do país de Washington para Lewisburg [onde se localiza uma penitenciária federal]."
Segundo Shelby, a declaração emitida pelo comitê sustenta que qualquer fonte do governo que "consciente e deliberadamente revelar qualquer informação secreta", individualmente e sem autorização, é culpado de um crime capital e deve receber multa de cerca de 10 mil dólares, além de permanecer em prisão por no mínimo três anos.
A definição da declaração para informações secretas é direta: "Informações ou materiais que forem claramente registrados sob proteção contra revelações não autorizadas por razões de segurança nacional". Segundo Shelby, tal linguagem não infringe os direitos da mídia sob a Primeira Emenda porque não faz da publicação de informações secretas um crime.
REPÓRTERES MORTÍFEROS
Eficiência suspeita
A bela imagem na liberação das 37 crianças e 3 professoras de um berçário em Luxemburgo, na primeira semana de julho, comoveu, merecidamente, todos que acompanharam o caso. O homem armado e psicologicamente perturbado, que fez de reféns os que estava no berçário, foi, digamos, heroicamente assassinado pela polícia local após 30 horas de tensão.
A artimanha dos policiais consistiu em camuflar a arma em uma câmera que tomaram emprestada da emissora Radio Television Luxembourg, fingindo serem jornalistas escalados para a entrevista exigida pelo suspeito. Ao aproximar-se da "equipe de reportagem", o acusado foi mortalmente baleado.
Segundo editorial do New York Times (6/6/00), o gesto da polícia complicou o exercício do trabalho de repórteres, tornando-o perigoso e, conseqüentemente difícil. Enquanto a polícia festejava o final feliz, muitos jornalistas estavam compreensivelmente horrorizados. Em seu papel de reunir informações, devem munir-se apenas com ferramentas para noticiar, com a única tarefa de, na medida do possível, transmitir o que for mais real e verdadeiro ao público.
O que de crucial mostrou o incidente é o fato de jornalistas serem unicamente jornalistas, e não agentes secretos do governo ou policiais enrustidos. Qualquer confusão, por quaisquer causas, pode tornar muito perigoso o futuro da profissão. Exemplos como esses dificultam a necessidade de convencer partes em conflito que as credenciais de imprensa são sinal de neutralidade; que câmeras não são ameaças e repórteres não andam armados.
CHINA
Mais governo, menos mídia
Na quarta-feira (14/6), a China anunciou maior controle sobre a liberdade de imprensa e instruiu a mídia do país para seguir a linha ideológica do Partido Comunista.
Segundo matéria da Agence France Presse (14/6/00), um porta-voz do partido afirmou que a decisão foi tomada devido à atitude de certas publicações – as quais, para aumentar o lucro, falham como controladoras da opinião pública e divulgam materiais secretos do Estado e da polícia.
O comentário baseou-se em um artigo publicado nos principais jornais nacionais chineses, no mesmo dia. "A propaganda da imprensa deve sustentar a marca do partido, preservando a união, ajustando-se à situação geral e apoiando a estabilidade social", afirmou um porta-voz. "Alguns jornais equivocados publicam visões opostas às do partido, fazendo circular, ao mesmo tempo, pontos de vista ideológicos decadentes." Segundo ele, alguns jornais preocupam-se em divulgar notícias sensacionalistas, enquanto outros ocupam-se em espalhar rumores sobre o governo.
Para brecar tais tendências "nocivas" e firmar a linha do Partido Comunista, será instalado um "sistema de alarme para violações de disciplina e regras da imprensa". Veículos deverão incorporar a campanha ideológica do presidente chinês Jiang Zemin, politizando suas linhas editoriais em favor do partido. A China solicita, também, que todas as publicações tenham um departamento voltado exclusivamente para cobertura de acontecimentos do governo.
JORNALISMO & PROPAGANDA
Compras, compras, compras
Com 11 páginas alardeando sapatos atraentes e uma coluna principal dedicada a acessórios de maquiagem, a nova revista da Conde Nast, Lucky, torna-se um ícone do evidente e crescente consumismo.
Extremamente especializada, a "obra de arte" é isenta de tópicos sobre saúde e relacionamento. Em suas 202 páginas não se encontram as "10 dicas para um coque mais apertado" – artigo comum nas revistas de moda mais fracas. O que vale em Lucky é a exuberância irracional de coisas. O destaque, chamariz incondicional do público-alvo, fica por conta dos preços e estilos.
De acordo com matéria de Alisha Davis e David Nooman [Newsweek, 12/6/00], a revista ultrapassa qualquer limite entre propaganda e editorial. "Temos tudo o que está na revista, mas não estamos vendendo uma lista de mercadorias", disse a editora-chefe Kim France.
A falta de substância, segundo Kim, é uma inovação de Lucky no mundo das revistas de moda. Para repúdio das concorrentes – que consideram Lucky o exemplo mais rude da tendência de transformar revistas em catálogos – e alegria dos comerciantes, meio milhão de cópias para teste chegaram às bancas. Se Conde Nast vender o suficiente, a revista será oficialmente lançada no outono.
Em linguagem feminina e jovem, seguindo a linha da revista Sassy, Lucky apenas segue a onda. A revista Real Deal, da Hearst, direcionada a donas-de casa e ainda em teste, é apenas um de vários exemplos. Susan Ungaro, editora-chefe da Family Circle e membro da diretoria da Sociedade Americana de Editores de Revistas (ASME), afirma que esse tipo de veículo desgastará a confiança dos leitores. Ela teme que, inevitavelmete, as revistas dividam os lucros com as empresas propagandeadas em suas páginas. Ofendido, Steven Florio, presidente da Conde Nast, disse que não sabe de onde veio essa idéia. "Não haverá mistura entre editorial e publicidade em qualquer revista dessa empresa", afirmou. "Publicitários fazem propaganda e editores criam editoriais, e um não tem nada a ver com o outro."
Florio, porém, parece argumentar o impossível. Propaganda e editorial fluem descosturados, mas lado a lado em Lucky. O clima de "consumidores amigáveis", direcionado a determinado produto e apoiado em matérias editoriais cheias de telefones e endereços da web, oferece aos anunciantes um ótimo feedback. A resposta mais direta dos leitores pode ser conferida no sítio da revista, cujo objetivo é encorajar os visitantes a "comprarem seu produto favorito diretamente da Lucky". A página inclui links para os fabricantes dos ítens selecionados pelos editores.
O ambiente de Lucky vai além da celebração das alegrias de comprar. A revista é cuidadosamente planejada para divulgar novos hábitos desenvolvidos pela internet. "Essas novas revistas estão apenas entrando no mesmo barco materialista e acessível estimulado pela internet", diz Ungaro.
Se Lucky é mais hábil que outras revistas femininas, é, também, mais humilhante. "Constrói-se o estereótipo de que compras é tudo com que as mulheres querem gastar seu tempo", afirma Gloria Jacobs, editora da revista Ms.
JUSTIÇA INDONÉSIA
Revista derrota ex-ditator
A Corte Suprema da Indonésia encerrou o caso Time vs. Suharto, antigo líder nacional, no dia 6 de junho. O júri determinou que não houve difamação contra Suharto por parte da revista. O artigo que levou o ex-líder à justiça dizia que Suharto e sua família acumularam 15 bilhões de dólares durante suas três décadas no poder.
Segundo matéria de Mark Landler [The New York Times, 7/6/00], a Corte negou o argumento de Suharto de que o artigo feriu sua reputação. "De acordo com a evidência, está claro que a matéria não foi fabricada, mas baseada em fatos", decidiram os três juízes da corte de Jacarta. Os juízes também respeitaram a recusa da Time em revelar suas fontes confidenciais.
Denny Kailimang, um dos advogados de Suharto, afirmou que a Corte apenas sustentou o argumento da Time de que as informações presentes no artigo já haviam aparecido em outra publicações, sem preocupar-se com os detalhes do texto. Kailimang disse que sentiu-se ofendido com a cena ridícula de uma Corte indonésia apoiando e cumprimentando uma publicação estrangeira, contra o homem que outrora dominou o país. "Isso é algo totalmente novo para a Indonésia", afirmou.
A imprensa comemorou a decisão deliciando-se com a nova liberdade de imprensa da era pós-Suharto. A vitória foi cantada também por advogados e civis, que viram a decisão como um sinal de que a Corte não foi manipulada– algo anteriormente corriqueiro. "Isto é um grande incentivo ao jornalismo na Indonésia", disse Sabam Siagian, colunista e ex-editor do Jakarta Post. "Suharto não é totalmente inocente, mas não é o Suharto de anos atrás."
CNN
Feliz, pero no mucho
O contraste entre a estrondosa festa de comemoração dos 20 anos da CNN e a atual situação da emissora é gritante. Enfrentando uma de suas maiores crises, a CNN encarou neste mês de junho sua audiência mais baixa em 9 anos.
De acordo com matéria de Jim Rutenberg [The New York Times, 5/6/00], executivos e empregados da companhia vêm procurando desesperadamente entender o motivo da queda. Ao mesmo tempo, a CNN deverá ser propriedade na futura empresa resultante da fusão Time-Warner/AOL, o que tornou executivos da emissora mais esperançosos e ainda mais inquietos.
Ted Turner, fundador da CNN, parecia eufórico na comemoração, mas um fato é inevitável: com a mudança de propriedade, Turner continuará vice-presidente do conselho e consultor sênior da emissora, mas não terá mais o controle direto que exerceu ao longo de 30 décadas. Esta função passará a ser exercida por Robert W. Pittman, presidente da AOL. Dias antes da festa de aniversário, Turner afirmou ao Los Angeles Times que se sentiu ofendido com seu novo papel e, devido ao seu desgosto, associados afirmaram que ele poderia interromper a fusão Warner/AOL.
Executivos afirmam que Turner estava enfurecido menos por sua nova função que pelo fato de não ter sido consultado quando a nova grade foi desenhada. Na quinta-feira (8/6), Turner mudou repentinamente de humor. "Feliz! Eu estou feliz!", disse a um repórter. "Pode-se estar infeliz em uma semana e feliz na outra, certo?"
Tom Johnson, presidente do conselho da CNN, parece mais preocupado com a mudança de posse da emissora. Segundo ele, a AOL pode querer intrometer-se no jornalismo da emissora. Stephen M. Case, presidente do conselho da AOL, e Pittman, afirmam que não pressionarão a emissora a transmitir reportagens de imprensa marrom para aumentar o índice de audiência. A CNN espera que a AOL contribua apenas para aumentar a exposição das notícias, mantendo o jornalismo da emissora independente da empresa que a comprou.
Com a queda da audiência, Johnson disse que poderá haver mudanças na linha editorial. O debate chegou ao interior do estúdio da emissora, onde ouviu-se discussões sobre a eficácia de produzir programas mais atraentes. Johnson afirmou que ele e outros executivos resistirão à tentação – tal como a empresa toda deve fazer.
O grande problema da CNN é o fato de multidões só sintonizarem na emissora quando procuram por notícias de última hora de determinado incidente bombástico; mas "passeiam" por outros canais quando não há grandes notícias. A situação da CNN piorou quando passou a competir com a Fox News e com a NBC. "Creio que esses fenômenos são cíclicos", afirmou Case.
A CNN pretende reforçar a cobertura internacional com mais agências e ampliar a divulgação de notícias pela internet e por TV interativa com ajuda da AOL, mas os planos ainda estão em estágio embrionário. Para mudar o quadro dramático de seu índice de audiência, a CNN vem discutindo com a Nielsen Media Research – serviço de audiência na TV – a possibilidade de ampliar as medidas ao considerar notícias recebidas por celular e computador.
O que preocupa a Warner e a AOL, no entanto, é manter o bom humor de Turner e evitar conflitos. Isso talvez explique o fato de a emissora, minutos antes da grande comemoração dos 20 anos da CNN, ter designado um executivo publicitário para cada repórter que cobria o evento para suas respectivas organizações.
RETALIAÇÃO DO KREMLIN
A prisão de Vladimir Gusinsky
Jornais do mundo inteiro amanheceram a quarta-feira (14/6) manchados por notícias sobre a liberdade de expressão na Rússia. Vladimir Gusinsky, proprietário da única emissora nacional de TV independente (NTV), foi preso na terça (13/6) – em ação que políticos liberais chamaram de agressão ao livre discurso.
De acordo com matéria de Peter Graff [Reuters, 13/6/00], Gusinsky está na prisão para um interrogatório, sob suspeita de posse ilegal de propriedades estatais que valem cerca de 100 milhões de dólares. As autoridades têm 10 dias para acusá-lo formalmente.
O presidente russo Vladimir Putin, que se encontrava fora do país, disse que o incidente foi uma surpresa para ele, e que irá investigar o ocorrido. "Espero que as autoridades acusadoras tenham fundamentos suficientes e sustentação na lei para tomar essa atitude", afirmou.
Aliados d e Gusinsky, liberais e até alguns de seus piores inimigos disseram que viram a prisão como um ato puramente político. Gusinsky, proprietário da empresa Media-Most, é considerado grande crítico do Kremlin e, "coincidentemente", a ordem de prisão foi proferida pelo chefe da promotoria pública do Kremlin.
Em programa na NTV, também de Gusinsky, dúzias de jornalistas, comentaristas e liberais foram chamados para discutir o ocorrido. "Como posso convencer investidores estrangeiros de que eles podem confiar neste país?", disse Boris Nemtsov, um dos convidados ao debate e líder do partido de direita.
A Casa Branca manifestou-se. "Preocupamo-nos com a liberdade de imprensa da Rússia, e essa preocupação foi expressa diretamente pelo presidente dos Estados Unidos para o presidente russo", afirmou Joe Lockhart , porta-voz da presidência norte-americana. "Queremos estudar o caso", disse. No momento do incidente, Clinton foi ao ar em uma das rádios de Gusinsky, amplamente ouvida, dando entrevista exclusiva em gesto de solidariedade com a mídia privada russa.
Gusinsky está em Butyrsky, uma prisão construída no século 18, em Moscou. Outros detentos de "altos postos" estão em prisões mais modernas. "Prenderam-no intencionalmente no final do dia, de forma que ficamos proibidos de contatá-lo até o dia seguinte", disse.
Segundo matéria de Michael Wines e Michael R. Gordon, [The New York Times, 14/6/00], a detenção de Gusinsky coroou semanas de pressão do governo sobre a Media-Most. Há poucas semanas, a redação de um dos jornais de Gusinsky sofreu invasão de "oficiais mascarados". Nos últimos dias uma equipe do Kremlin fechou uma emissora de TV em São Petersburgo e anunciou planos de requisição de licença para todos os jornais do grupo. Além disso, Putin não se tem mostrado muito amigável aos jornalistas, chamando-os de "inúteis" e de "traidores".
Para Michael McFaul, estudioso de política, Putin está cometendo uma estupidez. "O incidente prova que ele não está no controle – o que é ruim – ou que ele está no controle – o que também é ruim", disse.
Alguns analistas, inclusive Gusinsky, atribuem a culpa aos sucessivos ataques que a Media-Most vem sofrendo a Aleksandr Voloshin, chefe da equipe do Kremlin. Aliado à oposição a Gusinsky, Voloshin tentou – e falhou – subornar o dono da Media-Most durante a recente campanha eleitoral. "Se Putin não for hipócrita, deve demitir Voloshin", afirmou Nemtsov.
Segundo Gareth Jones [Reuters, 14/6/00], o diretor geral da Media-Most, Jan Zamani, afirmou que essa é a primeira prisão política que apareceu na era de Putin. "Quando retornar a Moscou me informarei de todos os aspectos do caso", assegurou Putin, acrescentando que Gusinsky deve grandes somas de capital a credores, entre eles o Estado.
O advogado Genri Reznik obteve autorização para visitar Gusinsky na cela, dividida por mais dois prisioneiros acusados de "crimes econômicos". "Ele está determinado a permanecer firme", disse Reznik.
Abriram a gaiola
No dia 16 de junho, Gusinsky foi solto, mas recebeu ordens para não sair do país. Após informa-se, Putin considerou a detenção "excessiva", apesar de negar sua relação com aspectos políticos. Para o presidente russo, Gusinsky foi preso como homem de negócios, não como jornalista.
Segundo matéria da BBC (16/6/00), a mídia russa indignou-se com o ocorrido, descrevendo-o como mais um exemplo de acusação sem fundamento e prova de que o governo está disposto a tudo para atingir seus objetivos.
NÚMEROS DE AUDIÊNCIA
TV perde público
O centro de pesquisa Pew Research Center for the People and the Press enviou na semana passada uma de suas periódicas reportagens sobre o estado da mídia. Como sempre, o resultado não animou: apenas 48% dos americanos acompanham de perto notícias nacionais, o que representa uma nova baixa em relação aos índices anteriores. Entre jovens adultos, apenas 31% afirmam gostarem de acompanhar as notícias.
O jornal, geralmente grande sofredor no declínio de número de leitores, revelou uma queda modesta (de 68% para 63%), mas em noticiários de TV – considerada a grande fornecedora de informações – o colapso foi surpreendente por sua velocidade e profundidade: enquanto em 1994 74% dos entrevistados assistiram ao noticiário da TV no dia anterior, neste ano apenas 55% o fizeram. O tempo dedicado ao noticiário também caiu: em 1994, 37% dos entrevistados assistiram a, no mínimo, uma hora de noticiário no dia anterior, enquanto neste ano o número caiu para 23%.
O resultado da pesquisa mostra que a audiência de noticiários locais segue a mesma tendência: 56% dos adultos assistem a noticiários locais na TV, em contraste com os 77% de 1993.
Logicamente essa baixa foi canalizada para a internet. Um terço dos adultos consomem, hoje, suas notícias pela rede. Quanto mais a notícia online se expande, mais a TV vai sendo rejeitada.
Mas fazem sucesso as emissoras de notícias de TV a cabo – que mantiveram estagnada sua evolução. Cerca de 33% de telespectadores informam-se pela NBC – que conta com a CNBC e com a MSNBC – ou pela Fox News. A fórmula dos "sobreviventes" é fornecer informações igualmente substanciais e relevantes. Inversamente, a TV aberta oferece cada vez mais lixo, de forma que a queda no número de audiência não é culpa apenas da internet: as notícias nas redes de TV é que não são confiáveis. Segundo a pesquisa, apenas um terço dos adultos acreditam no que vêem na ABC, na CBS e na NBC. Sensacionalismo e preconceito foram agentes dessa perda de confiança.
O Pew Research Center constatou também que os entrevistados com acesso à internet confiam mais em sítios de notícias do que em emissoras de TV. A CNN é um bom exemplo. Eleita a mais confiável entre as emissoras, 40% afirmaram confiar fortemente nos noticiários da TV, enquanto 54% depositam grande confiança na CNN.com.
Em entrevista ao Boston Globe, Andrew Kohut, diretor do centro de pesquisas, disse que a avaliação ilustra "quão grande pode ser o impacto da notícia via internet, especialmente sobre os noticiários da TV". "Esse é um grande exemplo da evolução tecnológica", disse o historiador televisivo Alex McNeil. "A TV, devido ao avanço tecnológico, foi a razão da morte dos jornais noturnos e de revistas cheias de figuras", afirmou. "A nova tecnologia está tornando obsoleta a predominância da televisão."
"O acesso à informação instantânea é muito importante", diz Carl Gottlieb, sub-diretor do Projeto para Excelência em Jornalismo, referindo-se à internet. Com a explosão da tecnologia no mercado acionário, atualizações constantes do preço das ações tornaram-se uma nova e promissora commodity, o que leva à questão de se a TV ainda tem algum papel funcional nesse setor.
Apesar do boom eletrônico, a internet ainda não é rainha da mídia. Segundo Tobe Berkovitz, professor de comunicação da Universidade de Boston, a rede não é a fonte principal de informações quando ocorrem grandes eventos, mas sim a TV. "O noticiário da noite durará até quando a televisão durar", diz.
REPRESSÃO PALESTINA
Yasser Arafat dixit
Palestinos não entenderam por quê, no dia 15 de junho, a coluna regular de Maher Alami não foi publicada no jornal Al-Istiqlal. Em seu lugar estava a foto do colunista com barras de prisão superpostas a seu rosto, com uma nota explicativa: "O jornalista Maher Alami desculpa-se por não escrever sua coluna ‘Considerações finais’ nesta semana. Aparentemente, ela começou a incomodar algumas pessoas".
Ao ser preso, na semana anterior, Alami foi informado de que Yasser Arafat ordenou pessoalmente sua detenção, aparentemente porque chamou atenção a corrupções do governo, criticando o fechamento de emissoras de TV e alardeando a greve de professores que já dura meses.
De acordo com matéria de Lee Hockstader [The Washington Post, 16/6/00], o jornalista não foi acusado de um crime, mas, como outros críticos palestinos proeminentes, foi persistente demais, sabendo as regras de Arafat.
A repressão a que jornalistas e comentaristas palestinos vêm sendo submetidos coincide com o impulso final para se chegar a um acordo de paz com Israel. "Se as vozes da repressão ficarem cada vez mais altas, haverá dificuldades para assinar um acordo final", disse Bassem Eid, diretor de um grupo de Direitos Humanos palestino baseado em Jerusalém.
Essa prática, cujo objetivo é fazer com que jornalistas se auto-censurem, é comum sob o domínio de Arafat – de acordo com analistas e ativistas palestinos dos direitos humanos. Prendendo apenas alguns críticos, silencia-se os outros. Ultimamente, contudo, autoridades têm sido menos seletivas: apesar de a lei garantir liberdade de expressão e independência da imprensa, policiais palestinos invadiram e fecharam uma emissora de TV e uma de rádio, ambas privadas, há cerca de três semanas. No dia seguinte, a polícia fechou outra emissora de TV privada, Al-Mahed, prendendo seu dono, Samir Qumsiyya, líder da associação de emissoras privadas palestinas. Na mesma época, a polícia deteve Fathi Barqawi, diretor de outra rádio palestina.
"Basicamente, não aceitam críticas", afirmou Mohammed Najib, jornalista palestino que dirige um grupo independente de mídia chamado Free Voice. "Pagamos por nossas liberdades com rios de sangue nos últimos 30 anos. Não nos sacrificamos pela polícia federal. Queremos uma democracia tão dinâmica quanto a de nosso vizinho, Israel", disse Khaled Amayreh, jornalista palestino.
Oficiais palestinos tendem a não comentar as detenções, particularmente quando as acusações não têm fundamento. Recentemente, o general Abdul Fattah Jaidy, chefe de segurança pública, deixou claro que não hesitará em punir críticos incômodos. "Sempre que a mídia tentar criar algum tipo de ansiedade e depois transmiti-la ao público, tentaremos precavê-la", disse. "Se ultrapasssar o limite, pararemos o veículo". Segundo ele, raramente o fechamento de uma emissora de TV é permanente. "Queremos apenas supervisioná-la, guiá-la", afirmou.
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