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MONITOR DA IMPRENSA

TV COMUNITÁRIA
O cidadão tem a força

 

Julio Wainer (*)

Cincinnati – O sistema de TVs comunitárias nos Estados Unidos é um fenômeno que vem redesenhando o panorama audiovisual americano. Pulverizado em todo o país, acredita-se que haja aproximadamente 2.000 estações de TV, algumas com até 6 canais. Fui convidado à sua conferência anual em Cincinnati, Ohio, 10 anos depois do primeiro contato como pesquisador da Comissão Fulbright. Na 22ͺ edição do evento, o conceito sofreu uma ampliação para "mídias comunitárias", entendendo que possa agrupar outros meios eletrônicos dentro da mesma filosofia de acessibilidade e interação com a população.

Um dos líderes do movimento Alliance for Community Media <www.alliancecm.org>, Dirk Koning, virá a São Paulo para uma palestra no dia 24 de agosto pelo evento TV pública, canal aberto com a comunidade, promovido pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e o Senac-SP. A partir de um orçamento anual de 50 mil dólares, Koning construiu em sua cidade, Grand Rapids, Michigan, um centro de mídias comunitárias de caráter público, incluindo rádio e informática – hoje com um orçamento anual de 2 milhões de dólares <www.grcmc.org>.

TV a cabo financia

Descrevendo em poucas palavras o que necessitaria de muitas, o sistema de Acesso Público (como são chamadas as TVs Comunitárias) funciona da maneira seguinte: o sistema de TV via cabo é municipalizado. Em contrapartida ao monopólio oferecido pela prefeitura a uma operadora, esta é obrigada a montar, equipar e dotar de verbas anuais uma estação de Acesso Público. Estas estações são verdadeiros centros de produção e exibição, nos quais se disponibilizam gratuitamente estúdios, câmeras, ilhas de edição e demais acessórios para produção de programas de TV.

A mão-de-obra para produção dos programas é voluntária (cinegrafistas, repórteres, entrevistadores etc.) e é arregimentada pelas organizações responsáveis pelo programa. Os poucos funcionários da estação de TV (também chamadas de Centros de Mídia) garantem o funcionamento geral, comandam a sala de controle, dão cursos de operação dos equipamentos e cuidam de sua manutenção.

Qualquer pessoa ou organização pode ter seu programa. Não são permitidas mensagens comerciais; não se aceita o que se chama de material obsceno nem violação de direitos autorais. Outras restrições do gênero também se aplicam. De qualquer forma, não há censura prévia, e a punição recai a posteriori sobre a organização responsável pelo programa, isentando a estação. Não há restrições de ordem política ou ideológica, tanto é que até grupos racistas têm direito a produzir e exibir seus programas – e o fazem.

O bairro fala ao bairro

A estação produz centenas de horas originais por mês – em alguns sistemas chega ao milhar. A maioria dos programas é de talk shows, "esquentados" pela comunicação telefônica ao vivo com a audiência. A qualidade (técnica e artística) dos programa é obviamente inferior à dos programas da TV comercial. Mas isso parece não ter muita importância: os programas têm seu alvo certo. Atraem a audiência pela proximidade do referente e seus personagens. Falam da escola, do bairro, da cidade, dos estabelecimentos locais, dos grupos étnicos e da igreja a que se pertence, dos grupos de interesse com os quais se identificam. Constituem o que se cunhou como "narrowcast" (público dirigido) em oposição ao "broadcast".

Não são as estações de TV comerciais os inimigos das TVs comunitárias. Ao contrário, aquelas se nutrem de idéias e sobretudo de quadros saídos das comunitárias. Para lá migram os melhores programas e talentos – não somente apresentadores ou repórteres, mas músicos, artistas, comediantes, intelectuais, que fazem seu début televisual sob menor pressão.

O ressentimento da TV paga

O verdadeiro embate que se trava nos últimos anos é com as operadoras de TV a cabo, que têm restringidas suas possibilidades de venda de canais, e ainda são obrigadas a desembolsar com o sistema comunitário.

O que para nós parece uma fortuna – digamos, 300 mil dólares/ano –, acaba não sendo suficiente para as despesas mínimas de funcionamento da TV. Para completar, a administração do canal se vê obrigada a buscar recursos em várias organizações do setor público e educacional. Ainda assim, para sobreviver e crescer, as TVs comunitárias se juntam com a força e a filosofia combativas de um movimento social que se articula no Legislativo (local e nacional) e se justifica pela 2ͺ Emenda da Constituição americana, que garante liberdade de expressão a qualquer cidadão.

Ora, a TV é a linguagem contemporânea, merecendo portanto um espaço para o cidadão se manifestar.

Um outro conceito muito interessante, também ligado aos direitos do cidadão, é o que referenda o trabalho educativo com vídeo como um processo de alfabetização audiovisual (media literacy). Com ele se argumenta tanto a necessidade de uma leitura crítica da TV como a emergência do aprendizado da escrita – justamente a função das estações de TV comunitárias. Quem não reconhece, hoje em dia, o direito de alfabetização, a existência das escolas públicas com recursos de todos, a importância dos livros e publicações?

Quadros para a TV comercial

A mesma pressão que originou as TVs Comunitárias – a necessidade de as pessoas se expressarem, aliada às possibilidades técnicas dadas pelo equipamento do vídeo, cada vez melhor e mais acessível – faz também as televisões convencionais se renovarem.

O corpo técnico no Brasil, que com freqüência argumenta que qualquer TV com equipamento de qualidade inferior à da Globo está fadada ao fracasso, mostra na verdade seu desconhecimento do mercado televisual e da motivação do espectador.

De qualidade todo mundo gosta, e é certamente um fator de atração. Mas existem também outros valores no envolvimento da audiência com os programas: a inovação formal, a proximidade, a espontaneidade, a curiosidade, paradigmas que não necessariamente acompanham o equipamento mais sofisticado.

Às vezes, pelo contrário. A 1st person TV (TV em primeira pessoa) é uma das tendências inovadoras nos Estados Unidos e na Europa. Na Inglaterra, tomou forma nos Video Nation, depoimentos isolados que vão ao ar em rede nacional no horário nobre. Nesses programas pessoas comuns falam para a câmera, que também manipulam, de suas angústias, alegrias, das pequenas coisas do cotidiano.

No Brasil, cabelos em pé

Mike Fentiman, criador de um dos muitos produtos da BBC 2, Setor Comunitário, orgulha-se do diferencial de filosofia vigente: "O cidadão comum tem o controle editorial em todas as instâncias do processo", uma atitude que poria de cabelos em pé a maioria de nossos editores. Acontece com certa freqüência um programa ser descartado no fim do processo produtivo pelos autores, sujeitos e objetos da matéria. "Faz parte", diz Fentiman.

Video Nation inspirou Ilan Ziv <www.tamouz.com>, um israelense radicado em Nova York, num projeto radical nos (então) territórios ocupados. Apoiado por produtores locais, cedeu câmeras Hi-8 a palestinos e judeus de diferentes idades e segmentos sociais para que contassem em suas comunidades o processo de paz entre 1993 e 1995. O resultado foi o documentário À beira da paz (At the Edge of Peace), vencedor de vários prêmios internacionais. Apesar da câmera que treme, da baixa definição de imagens, da escuridão de algumas cenas, o espectador não consegue tirar o olho da tela, servindo de referencial a uma TV com ponto de vista totalmente inusitado: a do grupo social a que se dirige. Esse vídeo, que é a seqüência de Palestinian Diaries (Diários Palestinos), com a mesma filosofia, traz a realidade em primeira pessoa: os jovens, as famílias, a vizinhança se posicionando, inclusive com os radicalismos a que têm direito.

Mais adiante, Ilan produziu uma série para a TV israelense nos mesmos moldes do Video Nation: relatos curtos em primeira pessoa. Logo antes do "Jornal Nacional" de Israel se vê um religioso reclamando de seu "fusca" que não funciona, um moça chorando um ano da morte do pai, um deficiente comemorando uma conquista em seu lento processo de reintegração. "Meu objetivo é abrir a televisão", desafia Ziv.

Narrativas em primeira pessoa

No POV (Pontos de Vista), departamento da TV Pública dos Estados Unidos aberto aos independentes e às inovações formais no documentário <www.pov.org>, Ellen Schneider prepara um programa semelhante. É o ECU (Extreme Close Up), narrativas em primeira pessoa nas quais, mais uma vez, são os personagens que empunham as câmeras. Mas desta vez não é um relato breve, como em Video Nation, mas uma história completa com um personagem que, na sua trajetória, espelha as inquietações dos cidadãos comuns: é uma moça afro-americana que investiga suas raízes, um pai criando o diálogo de seu filho com os avós, com quem é rompido por motivos religiosos, uma moça lésbica tentando reatar com seu pai, um militante ultraconservador, uma família se aventurando no Ártico por seis meses. Dramas da vida comum, que emocionam e dizem respeito a todos nós.

"Estas narrativas são tremendamente eficazes para trazer à discussão assuntos de importância na esfera pública", acredita Patricia Aufderheide, da American University em Washington. Pesquisadora do fenômeno, Patricia (que aliás morou muitos anos no Brasil e estudou profundamente nossa mídia) se refere a essa tendência como o vídeo vernacular. "Este fenômeno me interessa por razões políticas e razões estéticas", resume, enxergando o relato em primeira pessoa como uma fonte de renovação formal da TV.

No Brasil, o diálogo TV comunitária/TV comercial se faz com outros sintomas. Um pressuposto das TVs comunitárias brasileiras no Rio, em Recife ou Santarém, que durante anos se expuseram em praças públicas, num modelo sem precedente no mundo, foi copiado por TV Pirata, Casseta & Planeta e descendentes. Seu maior símbolo, o repórter Brivaldo, da TV Viva (Claudio Ferrario) pode ser visto, muito de vez em quando, em quadro do Domingão do Faustão. Ele mesmo, Fausto Silva, disputa com Gugus, Ratinhos, Leões – e toda a geração de teleartistas e teleformatos de dez anos para cá – fórmulas para que a TV pareça exatamente o que ela não é: uma voz do cidadão comum, uma ponte direta com a vida, espontânea, tal como ela acontece no dia-a-dia da rua.

(*) Produtor de vídeo, professor de Jornalismo da PUC-SP e pesquisador de TVs comunitárias. Viajou a Cincinnati a convite de The Alliance for Community Media, a Federação das TVs de Acesso Público dos Estados Unidos. E mail: <altermidia@paulofreire.org>

 

ÉTICA
A digitalização e os
paradigmas da imagem

 

André Luiz de Barros Leite (*)

A palavra paradigma foi utilizada pela primeira vez em 1962, na obra A estrutura das revoluções científicas, de Thomam S. Kuhn. De uma maneira geral, significa o conjunto de compromissos relativos a generalizações simbólicas, crenças, valores e soluções modelares que são compartilhados por uma comunidade científica (Imagem, pág.157, Lucia Santaella e Winfried Noth, Ed. Iluminuras, 1998). É neste sentido, portanto, que vamos tentar traçar um paralelo entre as novas tecnologias e a manipulação e o uso cada vez maior da imagem como instrumento de convencimento.

É importante lembrar que a invenção da fotografia não aconteceu da noite para o dia. Decorrência direta da câmara escura, ela teve o mérito de transformar em didático o processo de se capturar imagens. A partir daí não parou mais de crescer e encantar gerações e mais gerações. Tão fascinante quanto a captação da imagem, sua manipulação não tardou a aparecer, abrindo assim um manancial semiótico sem precedentes.

Além das manipulações conhecidas, como as feitas por Hitler, na Segunda Guerra Mundial, ou por Stálin, na preservação de seu regime, outras transformações da fotografia aconteceram mundo afora. Um exemplo curioso é a foto autobiográfica "30 Valérios", realizada em 1904 pelo fotógrafo paulista Valério Vieira (1862-1941), que recebeu medalha de prata em concurso nos Estados Unidos: na foto, todos os personagens, pianista, violoncelista, garçom, maître e até mesmo as figuras nos retratos das paredes têm o mesmo rosto, que é o de Valério Vieira. Manipulação precisa, apesar dos poucos recursos disponíveis na época.

Não é de hoje que as imagens causam fascínio aos homens. Culturas primitivas já faziam uso de ilustrações para o sucesso das caçadas e usavam as paredes no interior das cavernas para sustentar suas aspirações. Claro que hoje experimentamos uma valorização das imagens nunca antes vista. A partir do início deste século, a imprensa entrou numa era de sofisticação. Os textos, transformados com o desenvolvimento de novas diagramações, passaram a ter alinhamento visual, dando à página uma leitura linear. Paralelamente, os meios de comunicação impressos se empenharam na pesquisa de novas formas de uso das imagens, que ganhavam cada vez mais importância, apontando para uma iconização das páginas. Como parte desse processo, as fotografias que ilustravam as publicações começaram a ser usadas cada vez em maior escala, os jornais foram crescendo, ganharam uma cor, duas, veio a impressão off-set e foi possível publicar as fotos coloridas. A maximização da foto como suporte de informação ocorre ao mesmo tempo em que a TV se populariza. É o império das imagens.

Enquanto isso, outra revolução se desenrolava à margem das redações: a informática. Foi na década de 80 que surgiram os primeiros computadores capacitados a trabalhar com imagens, os Macintosh. Como reflexo imediato houve a redução do tempo de produção e, obviamente, dos custos.

O fim do original

As novas tecnologias, que não só reforçaram o predomínio das imagens como também expandiram seu uso, multiplicaram suas formas de utilização e, principalmente, transformaram o suporte físico da imagem (no caso de uma foto, por exemplo) em inúmeros pontos de luz na tela de um computador. Obviamente, estamos falando da digitalização da imagem ou da virtualização da informação. Mais do que ajudar a contar uma história, ou simplificar idéias complexas, as fotografias vêm sendo usadas para justificar uma informação, credenciá-las, torná-las verdadeiras.

Ciberespaço, virtualização, hipertexto. Palavras que antes só nos eram apresentadas em livros ou filmes de ficção científica ganharam as ruas, passaram a compor o cotidiano das empresas e trafegam sem nenhum espanto nas conversas mais amenas. Mais do que a frase simplista "o futuro é agora", é preciso entender não só o impacto da revolução dos computadores, como sua velocidade. A era digital é uma realidade, suas conseqüências, um desafio que todos teremos que enfrentar.

Para o sociólogo francês Pierre Lévy, virtual é antes de tudo não uma oposição ao real, mas ao atual. "A virtualização pode ser definida como o movimento inverso da atualização", diz Lévy. Na verdade, a virtualização não é uma desrealização (a transformação de uma realidade num conjunto de possíveis), mas uma mutação de identidade.

Olhar cauteloso

É com olhos cautelosos que entendo a digitalização de imagens. E é muito mais preocupado que aplico palavras como interatividade, modificação ou virtualização. Para Lévy, "no mundo digital, a distinção do original e da cópia há muito perdeu qualquer pertinência. O ciberespaço está misturando as noções de unidade, de identidade e de localização".

Ora, uma vez digitalizada, a foto (que registra um instante do real) deixa de ter um suporte físico para ganhar pontos de luz, que podem ser modificados, adulterados, transformados e/ou adequados às necessidades do momento. "O computador não opera sobre uma realidade física, mas sim sobre uma informação" (Santaella, in Imagem).

Pergunto: em qual imagem podemos acreditar daqui para a frente? E a própria história não pode ser modificada, transformada e provada com imagens alteradas – o que Stálin cansou de fazer? Que ética regula o uso das imagens, sua manipulação?

Na verdade, hoje a edição de fotos não está mais associada à melhor imagem. Mas sim àquela que mais se possa trabalhar, retocar, manipular.

Pode-se, aqui, lançar mão de um outro texto, A precessão dos simulacros, de Jean Baudrillard. Quando fala sobre "a irreferência divina das imagens", Baudrillard lembra que dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir ter o que não se tem. O primeiro refere-se a uma presença, o segundo a uma ausência. É justamente na potencialização dessa dualidade que a manipulação de imagens parece oferecer seus maiores riscos. E é sempre interessante lembrar que o ato fotográfico é fruto do corte, o obturador fragmenta o momento. Uma foto, depois de passar pelo processo de digitalização, fica sujeita tanto à simulação como à dissimulação, a mercê de uma "atualização" do real.

A manipulação de imagens não consta em nenhum dos numerosos parágrafos da Lei de Imprensa ou mesmo do Código Criminal. Mas é um "crime" que acontece aos montes, várias vezes ao dia, pela Internet. Enfim, um crime cuja incidência só pode crescer à medida que aumenta a capacidade do hardware, que os computadores ficam mais velozes e capazes de realizar cada vez mais tarefas. Abusos muitas vezes justificados pelos fechamentos apertados de edições, pela concorrência e por inúmeros outros motivos.

Obviamente, as leis que regulam e asseguram os direitos autorais e éticos precisam ser revistas, atualizadas. Uma apuração superficial ou uma declaração mal-interpretada pode gerar uma distorção de fatos no texto jornalístico. A tradução disso no fotojornalismo pode ser interpretada como a manipulação de imagens. Só que há uma soberba diferença. Na manipulação de imagens não há lugar para uma interpretação errônea ou para uma "apuração superficial". Quando se altera uma imagem, isso é feito por livre e espontânea vontade. Assim, abre-se uma nova discussão no campo da ética jornalística, que muito tempo ficou restrita a discussões sobre coleta de informações em "off" e em "on", além de outras questões de aspecto muito mais filosófico. Hoje, mais do que nunca, precisamos da ética para discussão de um assunto prático, físico em nosso cotidiano: a manipulação de imagens.

Como remunerar o autor

As questões também passam por resolver o problema de como ser remunerado na era da virtualização. Neste caso, é fundamental atentar para o que diz Pierre Lévy:

"Hoje, se quisermos utilizar uma foto num serviço multimídia on line, é preciso antes de mais nada pagar direitos ao proprietário da foto. A foto é como um microterritório. Está fora de questão utilizá-la sem ter comprado ou alugado o terreno previamente. Essa coerção bloqueia consideravelmente a inovação econômica e cultural no ciberespaço. O pequeno empreendedor inovador simplesmente não teve os meios de pagar os direitos, e neste caso o proprietário não ganha nada; o autor vê sua idéia confinada a um círculo restrito e o surfista da Net fica privado da imagem. A solução consistiria, portanto, não em suprimir completamente o direito autoral, mas em substituí-lo por sistemas de contagem contínua do consumo de informações pelos usuários finais. A aquisição da informação sobre o uso poderia ser feita, por exemplo, no momento da decodificação da mensagem. Deste modo o proprietário não seria lesado, e o fornecedor de serviços poderia contar com a foto (por exemplo) sem ter que desembolsar de antemão uma soma da qual geralmente não dispõe. Pagar-se-ia, assim, a informação da mesma maneira que a água ou a eletricidade: por débito em conta. Mas com uma diferença significativa, pois seria como se cada gota comportasse seu próprio microcontador. Assim, a foto poderia ser copiada, empregada, difundida o quanto se quisesse, sem nenhuma limitação. Só que seria acionado automaticamente com a imagem, doravante líquida e ubíqua, o pequeno programa que registra a decodificação e efetua automaticamente um débito minúsculo na conta do consumidor e um crédito ínfimo na do autor ou do proprietário..."

A proposta de Lévy poderia resolver o lado econômico da questão. Mas ainda restam as indagações éticas. Essas, com certeza muito mais complexas de serem solucionadas, mas que necessitam, com urgência, começar a ser discutidas.

Na outra ponta do assunto fico com Santaella:

"A evolução galática das imagens, desde as imagens de sombras de Platão até as fotografias documentais e aquelas manipuladas por computador, torna necessária uma reconsideração do assunto. A semiótica, apesar de não estar imune ao logocentrismo, tem fornecido ferramentas para analisar a questão da mentira ou da verdade nas imagens sem uma tendência logocêntrica...

... a semiótica das imagens tem feito avanços ao investigar imagens como um sistema de signos autônomos em relação à linguagem verbal. O resultado de nosso estudo nos levou a concluir que as imagens podem ser usadas para asseverar ou enganar sobre fatos da dimensão semântica, sintática e, com certas reservas, também pragmáticas"

Por fim, fica a reflexão: exatamente no momento em que as imagens parecem ser usadas para comprovar tudo é que devemos mais desconfiar das aparências – uma espécie de antítese da expressão que tornou popular São Tomé – ver para não crer!

(*) Jornalista formado pela PUC-Campinas, mestrando na área de Comunicação e Mercado da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero

 

RÚSSIA
Dossiê da censura

 

Fabiano Golgo, de Praga

Os dias de glasnost (abertura ou transparência) já se foram há muito. No início imperou uma euforia sadia, com todo mundo falando por horas a fio todo tipo de teoria sobre a história antes proibida. Diz-se, no país, que a Rússia tem um "passado imprevisível". Naqueles tempos de franqueza, um jornal chegava a vender 7 milhões de cópias diárias, tamanha a fome da população por notícias críveis, depois da longa dieta imposta.

Contam os russos que a euforia acabou em 1993, logo após o conflito com a Duma, quando Yeltsin mandou os tanques abrirem fogo contra a câmara baixa do parlamento, matando políticos e destruindo parte do histórico prédio moscovita. Também acabaram mortos ou feridos 72 jornalistas – em ataques perpetrados pelas milícias que apoiavam o presidente: 90% das queixas de violação dos direitos da imprensa foram contra os partidários de Yeltsin.

O Kremlin é patrocinado e efetivamente administrado por oito megaempresas – das antigas estatais, hoje privatizadas, que exploram as riquezas naturais da Rússia, às importadoras que abastecem os shopping centers e as butiques, símbolo máximo dos novos ricos russos. A camiseta de grife internacional veste hoje os antigos apparatchiks. Status na nova economia de mercado é tudo para o moscovita rico.

Fantoches ideológicos

Com a mídia impressa diária atrelada à necessidade de sobreviver ao atual desinteresse generalizado por jornais, os poucos donos de montanhas de rublos (literalmente, considerando-se o baixo valor da moeda) fazem desses veículos seus fantoches ideológicos. E como eles são os mesmos que estão por trás do governo central, obviamente o celebram por meio de seus brinquedinhos da notícia.

O texto nesses jornais é tão obviamente faccioso que gerou larga rejeição pelo público, que desde sempre está acostumado a não levar a sério a imprensa. Dizia-se, nos tempos de Brejnev, que havia notícia para o jornal e notícia para a cozinha. E como o nome do jornal oficial era Pravda, que significa verdade, então se dizia também que havia um Pravda para a cozinha e outro Pravda para o Pravda... Desnecessário explicar.

A mídia russa é centrada em Moscou. Aliás, o país gira em torno da capital. Mais ou menos como o Rio de Janeiro nos tempos de capital federal. Há muitos títulos de diários, mas os principais são Nezavisimaya Gazeta, de Boris Berezovsky – que acaba de comprar também o Kommersant –, peixe grande do governo, que escalou como editor-chefe um conhecido aliado do partido de Yeltsin, Vitaly Tretyakov; Novaya Gazeta e Obshchaya Gazeta, de propriedade de dois conglomerados de empresários, também ligados ao Kremlin; Moskovsky Komsomolets, com circulação de 1 milhão de exemplares, sob o olhar direto do prefeito Yuri Lujkov.

Ainda há o afamado Argumenty i Fakty, que já teve seus dias inteligentes e desengajados. Outro de destaque é Izvestia. Mas houve um racha no jornal, que desaguou em um novo veículo, Novye Izvestia. Não se pode dizer que algum deles apresente um trabalho imparcial, porém.

Governo, o grande pai

Um fato curioso, mas revelador, é que os jornais russos não dependem de anúncios comerciais para sua sobrevivência: são sustentados pelos grupos aos quais pertencem. Esses grupos usam o dinheiro de suas fontes de renda primárias e garantem seus jornais. Outro ponto que deve ser considerado é que as impressoras são do governo federal. Os diários têm que ser impressos nas subsidiadas casas de impressão estatais. Para completar, com exceção de dois títulos, todos os outros são distribuídos por caminhões do governo federal.

No passado, o jornal Financial Times fez um acordo para a geração de matérias especiais para o Izvestia, mas a coisa não durou. Também a revista Newsweek, que tinha lançado um semanário local chamado Itogi, acabou vendendo a maior parte de suas ações, e agora meramente libera seus artigos para tradução. The New York Times tentou um laço editorial com o Moscovsky Novosti, mas fez as malas depois de seis meses.

Outro fato curioso, mas não surpreendente em termos de Rússia, é que o órgão destinado à regulação da atuação da mídia, o Sudebnaya Palata, tem seus membros apontados pelo presidente... Deveras democrático e confiável...

Mais: como em quase todos os países do antigo bloco comunista, grupos americanos fundaram um jornal em inglês, o Moscow Times. Embora às vezes assumisse a face de periódico para expats (imigrantes temporários), na verdade costumava apresentar magnífico trabalho investigativo e a tradicional imparcialidade americana, com seus textos insípidos mas cheios de data confiável.

Digo "costumava" porque surgiu um probleminha com os vistos de trabalho e permanência de boa parte do staff, que tive que sair do país, o que acabou minando o desempenho do jornal. Nota-se hoje um certo desânimo nos que ficaram, e inexperiência nos novos contratados – desta vez, jovens aventureiros em lugar dos repórteres high profile de antes.

Como o bom humor russo gera inúmeras anedotas, aí vai mais uma: os jornais não publicam erratas, pois se acredita que isso suje a reputação do veículo.

TV adere ao show

Especialmente entre 1987 e 1991, as emissoras de TV eram abarrotadas de programas de bate-papo, discutindo os anos de medo. Depois, com a poeira baixa, a economia em frangalhos e o inverno de sempre com a falta de comida de sempre, filmes hollywoodianos e game shows substituíram a auto-análise eletrônica.

Os emissoras nacionais de grande porte são ORT, RTR, NTV, CentrTV e TV 6. A ORT é encabeçada pela filha de Yeltsin, Tatyana Dyachenko [a chefe da afamiglia do Kremlin, o grupo de empresários "mafiosos" que enriqueceu da noite para o dia com a privatização das gigantescas estatais soviéticas], mais os amigos Serguei Yastrjembsky e Vladimir Berezovsky.

A RTR é dirigida por um amigo do presidente, Nikolai Svanidze. Ele deu um exemplo de sua imparcialidade quando demitiu a âncora Svetlana Sorokina por ter feito um comentário desfavorável à então em voga idéia de imprimir mais rubros para pagar aposentados e mineiros. A NTV é a campeã de audiência. Pertence a Vladimir Gusinsky, o Roberto Marinho ou Silvio Berlusconi russo, pessoalmente ligado ao governo e cheio de intenções políticas. Há ainda a CentrTV – comandada por Lujkov, o prefeito de Moscou!

A linha editorial das emissoras de TV é claramente pró-governo, fazendo olhos grossos à corrupção generalizada e à deterioração fatal da economia.

Profissão-perigo

Na Rússia, ser jornalista com alguma aspiração de independência é um risco de morte. Foram assassinados 79 somente em 1998. Vladimir Listyev, um pioneiro repórter investigativo que fez sucesso no início da abertura de Gorbachev, virou presidente da TV estatal, mas acabou como tantas mentes livres do país: assassinado, em caso nunca esclarecido (quase regra geral nesses morticínios politicamente motivados).

Atualmente, qualquer revelação de impacto é plantada por sobreviventes da KGB ou partidos políticos e lideranças empresariais engajadas. São esses grupos os responsáveis pelas melhores matérias investigativas dos últimos tempos, mas sempre impulsionadas por interesses ocultos contra alguém (são reportagens-denúncia). Não são invenções, mas informações cuidadosamente vazadas.

Em 1996, às vésperas das eleições presidenciais, Yevgeny Kiselyev, o editor de um dos maiores jornais russos, publicou: "A partir de agora, vamos deixar de ser imparciais". O medo de uma vitória dos comunistas levou a grande maioria dos veículos a quebrarem o vetor máximo do jornalismo.

Aleksei Simonov, presidente de um órgão chamado Defensores da Glasnost, uma espécie de Observatório da Imprensa russo, declarou em março à Rádio Europa Livre, baseada em Praga (por ironia, no prédio que abrigava o parlamento-marionete local) que perdera as esperanças de um futuro imediato melhor para os jornais russos, uma vez que o colapso total da economia de seu país assegura a falta de possíveis fundos provenientes de publicidade. Isso, segundo ele, significa uma entrega total à dependência do governo.



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