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MONITOR DA IMPRENSA
ÁSIA CENTRAL
De volta ao feudalismo
Fabiano Golgo, de Praga
Vladimir Lênin disse, certa vez, que os países soviéticos da Ásia Central pularam o estágio capitalista na transição do feudalismo para o socialismo. Agora parece que Cazaquistão, Turcomênia, Quirguízia, Tajiquistão, Uzbequistão e Bachcorcostão voltaram ao feudalismo, a julgar pelos governos centralizados em torno de algumas famílias e seus comparsas e o total desinteresse pelos direitos humanos.
Nesse ambiente quase medieval, onde o bem público é visto pelos governantes como espólio próprio, não surpreende que a mídia seja alvo de absurdos devidamente legalizados pelos asseclas dos presidentes.
O líder cazaquistanês, Nursultan Nazarbaev, e o presidente do Uzbequistão, Islam Karimov, eram colegas no antigo Politburo soviético. Usaram de toda a sua influência (fora as informações da KGB) de seus tempos de nomenklatura para chantagear as pessoas "certas" (literalmente certas, infelizmente) e subir ao poder assim que a União Soviética se dissolveu. O presidente da Turcomênia, Saparmurat Niyazov, foi direto do Kremlin, onde ocupou cargos de destaque sob Brejnev, Andropov e Chernenko, para o palácio do governo em Achcabad. Já Imomali Racmonov, do Tajiquistão, era "apenas" diretor de uma das centrais de comando de fazendas coletivas dos tempos vermelhos.
Bem-vindos a Washington
Mas todos os líderes dessas repúblicas da confederação russa são bem recebidos em Washington, graças às riquezas de petróleo e gás natural que representam. A posição estratégica para disputadíssimos oleodutos que os Estados Unidos vêm tentando construir através do território, via Afeganistão ou Paquistão, em direção ao mar árabe, leva os americanos a fecharem os olhos para os horrores antidemocráticos que lá ocorrem.
A situação pior é a da Turcomênia, onde o presidente Saparmurat Niyazov repete o que parece ser comum nesses países outrora soviéticos: pede para ser chamado de "pai". A tendência começou com Stálin (o pai-mór), sendo repetida pelo todo-poderoso bielorrusso Alexander Lukashenko e o uzbequistanês Islam Karimov. Freud talvez explique, pois Niyazov e Karimov cresceram em orfanatos, tendo perdido seus pais para os bolcheviques...
O "pai" turcomênio foi reeleito em 1994 com impressionantes 90% dos votos, sendo que 98% da população habilitada participou do pleito. Baita popularidade? Não. O tribunal eleitoral imprimiu duas vezes o número de cédulas, sob a desculpa de que, no país, falam-se três línguas. As cédulas não-usadas nunca foram exibidas à imprensa e observadores internacionais não foram convidados para acompanhar a apuração. A contagem, pasmem, aconteceu dois dias mais tarde, depois de as urnas passarem a noite no palácio presidencial, sob a vigilância da guarda pessoal do presidente!
Parlamento-família
Aliás, ainda mais interessante, as 50 cadeiras do parlamento foram disputadas por... 50 candidatos, todos do partido do governo, uma vez que é ilegal fundar qualquer partido desde a promulgação da nova Constituição, em 1992. Entre 1989 e 1992 surgiram quatro partidos, que acabaram se unindo. Os poucos corajosos que tentaram fundar novos partidos desapareceram misteriosamente ou foram presos sob variadas alegações.
Para impedir a veiculação de reportagens ofensivas a linha do "pai", até as transmissões da rede de TV ORT, originada em Moscou, são atrasadas em uma hora. Todos os seis jornais de circulação nacional trazem a foto do presidente na capa. Os cinco regionais trazem a foto dos respectivos governadores de estado. O proprietário desses onze periódicos é o mesmo: Saparmurat Niyazov.
O principal diário se chama, ironicamente, Neutra Turcomênia. De posse de uma caixa com dois meses de edições a mim enviadas por um amigo que lá estivera, peguei, sem selecionar, três exemplares. O primeiro trazia doze matérias, todas positivas, sobre Saparmurat Niyazov, mais sete sobre outros assuntos, entre eles a previsão do tempo e o esporte. O segundo trazia nove reportagens sobre as façanhas do "pai", mais seis sobre outros tópicos. A terceira, de um domingo, trazia 19 reportagens sobre as boas ações do presidente... Nada a estranhar, considerando-se que ele renomeou o principal porto da república com seu nome, além de depositar 34 estátuas suas em cidades do território sob seu controle. Para não falar nos inúmeros billboards com os slogans "Povo, Pátria-Mãe e Pai dos Turcomênios – tudo o que precisamos", e a variação "Um Povo, Uma Terra, Um Presidente".
A Constituição "a votre service"
Para completar, outra idéia do bielorruso Lukashenko foi copiada tanto pelo líder da Turcomênia quanto pelos do Cazaquistão, da Kirguízia e do Uzbequistão: apesar de suas constituições limitarem um presidente a dois mandatos, uma vez que eles haviam sido reeleitos antes de sua promulgação consideram-se, oficialmente, no primeiro termo.
O uzbesquistanês, "Pai" Islam Karimov, mal fala a língua nativa; usa o russo, mesmo sendo 72% da população do idioma uzbequistanês. Também instituiu a obrigatoriedade de sua foto aparecer na primeira página dos jornais e igualmente decidiu que a contagem de seu mandato deve ser considerada a partir da promulgação da nova Constituição, o que significa que "concorre" novamente em 2000. Para se ter uma idéia do nível do presidente dessa região, riquíssima em petróleo, no ano passado ele declarou, durante sessão parlamentar: "...[os muçulmanos] devem levar um tiro na cabeça, um por um. Se necessário, dou eu mesmo". Isso porque o grande perigo para os líderes dessas repúblicas, com exceção de Cazaquistão e Quirguízia, é o fundamentalismo islâmico, que não aceita o poder de governos. Por isso há uma constante perseguição aos muçulmanos – outro motivo pelo qual a Casa Branca apóia esses presidentes.
No Uzbequistão há quatro partidos autodeclarados "oposição leal" (Partido do Progresso da Nossa Terra, Social-Democrata, Unidade Nacional e Renascimento Nacional). Há jornais e rádios independentes, apesar dos sete títulos e das treze estações estatais, mas também há uma severa lei que permite botar na cadeia por até quatorze anos qualquer jornalista que "ofender a honra e a dignidade do presidente".
"Abuso de liberdade"
No Cazaquistão, o presidente Nursultan Nazarbaev é visto (e age) como czar. Abocanhou a presidência em 1989 e foi reeleito em 1996. Pode concorrer a mais um mandato de sete anos, em 2003. Também retransmite o canal estatal russo ORT com uma hora de atraso, somente depois de passar pela tesoura local. Seu indicado procurador-geral abriu processo, em abril de 1998, contra exatamente todos os veículos de mídia particulares, por "abuso de liberdade" (sic). No texto do processo, acusava-os de disseminar pornografia (por causa das saias curtas das garotas do tempo) e "não tornar públicos os atos do presidente", explicando que isso vai contra os interesses do povo, que quer ser informado sobre seu governante.
É natural que os juízes da Suprema Corte, também indicados pelo atual presidente, já que antes de 1989 o país não tinha tal instituição, acataram a argumentação e mandaram fechar jornais e rádios independentes. Sobreviveu apenas um, o Dat, mas não por muito tempo. Acabou sendo saqueado, na calada da noite e, afundado em dívidas, não teve dinheiro para comprar de novo terminais, impressoras ou mesmo recabear o sistema elétrico, que fora alvo dos depredadores. Logo em seguida o parlamento aprovou a reinstituição do texto soviético para a lei de imprensa.
A filha de Nursultan, Dariga, é a diretora não só da agência de notícias oficial, a Khabar, como também de dois canais de TV e três rádios. Havia, no Cazaquistão, cinco canais de TV estatais e 23 independentes. O pai-presidente achou melhor cassar o direito ao uso da freqüência de todos eles, alegando necessidades da soberania nacional, e outorgou-se o direito de decidir quem haveria de receber as novas concessões. Não é de se estranhar que as novas emissoras nunca falem nada contra ele.
Cabeças cortadas
Quando o jornal Delovaya Nedelya ousou escrever o nome do ex-premier (e atual inimigo) Alekzahn Kazhegeldin, só não foi fechado porque pertence ao governo. Mas rolaram as cabeças do editor-chefe e do repórter. Diga-se de passagem, a cabeça do repórter foi literalmente cortada, e depois achada em um lago a 12 quilômetros do palácio presidencial.
No Tajiquistão, 61 jornalistas foram assassinados desde 1992. Outros 106 foram "deportados", embora nativos. Tiveram seus passaportes recolhidos e o registro de seu nascimento no país retirado dos arquivos oficiais e queimados, apagando suas nacionalidades. O presidente Imomali Rakhmonov aceita a existência de partidos de oposição, mas não aceita que a mídia fale neles. Os tajiques vivem sob sangrenta guerra civil (muçulmanos fundamentalistas x não-fundamentalistas), que já matou mais de 30 mil pessoas. Isso permitiu ao presidente declarar estado de emergência e suspender, indefinidamente, as próximas eleições. Alguém duvida que a guerra vá continuar também indefinidamente?
Na Quirguízia, o presidente Askar Akayev se diz democrata, com o endosso oficial de Washington e da World Trade Organization. Nada como governar solo com reservas petrolíferas abundantes... A justificativa americana para catalogá-lo como democrata foi de que seguiu a risca a privatização das estatais, abriu o mercado para importações, sem taxas acima da norma, e promulgou Constituição com todos os quesitos de uma democracia liberal moderna. Mas a distância entre o papel e a realidade é ignorada pelos oficiais da Casa Branca. As fazendas coletivas, por exemplo, foram privatizadas, mas a preço de banana e todas compradas por seus três filhos, quatro sobrinhos, dois primos, mais dezenove parentes da primeira-dama. E seguiu a onda "nova constituição = direito a re-reeleição".
Faltou contar
Não aparecem na contabilidade americana os seis jornais fechados sem justificativa ou os quase 900 mil desempregados (de uma população de cinco milhões). Conhecido por ter combatido, nos anos 1980, uma rebelião de estudantes cansados de ver seus professores mais ousados desaparecerem sem explicações, Askar chegou ao poder via Kremlin, sem precisar fazer campanha. Botou na cadeia seu ex-aliado, o diretor da Ópera Nacional Topchubek Turgumaliev, por tê-lo criticado em uma entrevista a uma revista que também desapareceu das bancas em seguida. Recentemente, declarou que seria capaz de perdoar (e conceder anistia) ao antigo amigo, desde que ele pedisse, ao que recebeu como resposta um "se não cometi nenhum crime, não posso pedir perdão".
Para completar, o desconhecido Bachcorcostão, com sua capital de nome apropriado – Ufa – segue a mesma linha dos vizinhos. Como é a república mais rica da Federação Russa, com seus 88.688 quilômetros quadrados (quase uma França), habitada por russos, tártaros e os poucos bachquires que Stálin poupou, é feudo do presidente Murtaza Rakhimonov, antigo diretor da maior refinaria de petróleo soviética. Sua mulher assumiu o cargo na refinaria, depois da independência, em 1991. Seu sobrinho é presidente do maior banco privado do país. A língua turca predomina, mas o amor aos russos assegura que a mídia seja obrigada a alimentar essa população em igual proporção, o que encarece a empreitada e limita o número de interessados.
Uma rádio que era sustentada pela Voz da América foi fechada em 1997 por "transmitir informações incorretas acerca da economia e política locais". Para não perder o embalo, na mesma semana cortou o abastecimento elétrico das emissoras independentes restantes, por coincidência vítimas de problemas técnicos "permanentes".
Esse é o quadro nas repúblicas apelidadas de "Istãos", os feudos sustentados pelo silêncio de seus clientes ocidentais. Nenhum desses povos jamais conheceu liberdade de imprensa na prática, o que complica a ação de uns poucos corajosos que tentam furar o esquema totalitário que continuou após o desaparecimento do sistema da foice e do martelo. Dizem que agora é o sistema do tiro e da facada.
MASS MEDIA
Estamos bem informados?
Nahum Sirotsky, de Jerusalém (*)
Sou dos dias em que editorial de jornais, como do desaparecido Correio da Manhã, faziam tremer governos, empresas e indivíduos. Mas, paradoxalmente, na chamada era da informação, a mídia parece não ter a mesma influência. O Washintgton Post acabou com o presidente Nixon, antes da internet e da TV a cabo. Mas jornal algum conseguiu sequer reduzir o prestigio de Clinton durante o caso Monica, apesar de todo o empenho da direita americana e dos grupos puritanos fundamentalistas. O que é que há?
A resposta parece estar numa metáfora do que acontecia na Guerra Fria. Naqueles tempos, não tão distantes e já quase esquecidos, americanos e soviéticos estavam na corrida armamentista, período em que houve o maior desperdício de recursos na história das nações. Armas nada produzem. As superpotências tanto se armaram que chegaram à ridícula situação do overkill. Cada uma delas passou a contar com bastante poder nuclear para acabar com a outra várias vezes, o que, evidentemente, não é possível nem em realidade virtual. Até hoje, arruinada economicamente por tal competição, a Rússia dispõe de 22 mil armas atômicas, o bastante para transformar o nosso mundo em pó e dar a Deus a possibilidade de fazer tudo outra vez, inclusive novo Adão e Eva.
Sobrecarga de informações
Estamos sofrendo os efeitos do fenômeno do overload. Vivemos sob tal massa de informações que não conseguimos nos informar. O número de veículos é grande e variado demais. Todos oferecem, num primeiro e superficial exame, as mesmas informações sobre o que acontece em nosso mundo. Na verdade, cada um tem a sua própria versão. Então, poucos indivíduos chegam ao fim do dia com uma idéia aproximada do que realmente aconteceu e acontece. Recebeu demais, não lhe sobra, no meio de seu dia de trabalho tempo para digerir o que leu, ouviu ou viu. Aí, então, ocorre que a pessoa opte por se orientar por um só veículo, e tenda a se tornar dogmático, numa era em que a velocidade das descobertas e transformações deveria fazer de todos nós seres pragmáticos por definição, conseqüência e necessidade.
Desse dogmatismo não ideológico, no máximo, religioso, tem resultado guerras civis extremamente cruéis. Países se dividem em grupos de opiniões opostas, transformando vizinhos em inimigos. Veículo algum, conservando-se no estilo jornalístico tradicional, da chamada notícia objetiva, consegue informar bem. Nem The New York Times, nem Libération, ninguém escapa, pois trazem o mundo até nós mas não nos ajudam a compreender que mundo é esse e o nosso papel dentro dele. Um mundo de ética difusa. A apresentação pura e simples do que acontece – os crimes, a violência, a corrupção – vende e nos torna a todos quase indiferentes e insensíveis, aceitando tudo como inerente a esse nosso mundo e a essa sociedade. Os editoriais não têm o mesmo peso, porque o que era escândalo virou distração, é aceito como o normal. O que interessa é a boa vida.
A massa de informações é uma mostra de exemplos, e não promove modelos da melhor sociedade. Todos os slogans históricos – como os da Revolução Francesa ou americana ou comunista – foram substituídos pelo endeusamento das leis do mercado, que são tão explicadas como a loto.
Busca angustiante
A Internet poderia ter sido uma reação. Mas, nos primórdios nada mais foi do que um novo e mais rápido meio de comunicação. E tornou mais angustiante a vida dos que procuram saber e se interessam. A incrível massa de informações recebida desorienta os inexperientes e, principalmente, àqueles sem bases culturais para compreender o que recebem. A escola, não esqueçamos, tem a função de nos dar as bases para o entendimento. Revolucionário foi o hipertexto com suas bifurcações labirínticas e infindáveis. Mas uma cabeça sã tornou-se ainda mais essencial, pois só assim se pode fazer as escolhas do que se deseja, fixar limites para se poder ter os elementos para a história que se quer contar: a reportagem, o artigo, a tese de doutorado etc. E pouca gente tem tais virtudes e habilidades.
Então, o resultado é a sensação e a frustração de não se ter chegado a completar coisa alguma. A sensação de não se poder ser suficientemente informado. A confusão mental em que vive a maioria dos indivíduos no nosso mundo faz com que ou se dogmatizem em autodefesa ou se alienem. É preciso fortes bases culturais, o afastamento, o tempo de reflexão para sobreviver mentalmente são ao impacto do que se recebe quando se surfa. E isto além do que se tem pelos veículos convencionais..
Suspeito que a reduzida influência da opinião dos veículos resulte desse overload, da sobrecarga de informações sobre a cabeça do ser humano. O homem renascentista podia ser imaginado como aquele que podia tudo saber, e houve alguns assim. Mas não o homem do século 20. Ele, coitado, só pode saber um tanto de um pouquinho do que lançam sobre ele. E viver cada vez mais confuso com relação ao todo.
Sites de esclarecimento
Existem bons trabalhos sobre este paradoxo. Em <www.reuters.com/rbb/research/overloadframe.htm> há os resultados de pesquisa encomendada pela Agência Reuters. Ela também oferece um guia para a "estratégia da boa informação" em <www.reuters.com//rbb/research/gisframe.htm>.
Outra boa dica é <www.geocities.com/Tokyo?Subway/7854/abs.htm>. Aconselho ainda <www.freepint.co.uk/guide>.
São bons começos para nós, da profissão, que encaramos nossa missão com seriedade e consciência da responsabilidade que nos cabe. A mídia impressa, principalmente, terá de se conscientizar que lhe cabe nesse tempos, mais do que nunca, o principal papel no contexto das mídias de informação. Só a mídia impressa pode/deve assumir o papel de guia dos indivíduos, de fornecedora das bases para o entendimento. Na internet, a maioria se perde nos oceanos de informação. Afoga-se. Os eletrônicos, como rádio e televisão, têm, óbvio, recursos mais amplos de sintetizar e explicar, mas com a desvantagem de passar rapidamente pelos nossos olhos e ouvidos.
Nada, absolutamente nada tomará o lugar do impresso que tiver editores inteligentes, criativos, sem medo de inovar. De assumir a função de bússola para o indivíduo e as sociedades. Em meio à sobrecarga de informação, se não houver resistência os poderes nos transformarão em meros instrumentos de sua vontade, condicionando-nos pela informação. É agora que estamos chegando ao 1984 de George Orwell. Agora é que há todas as condições para que os governos se informem até de como dormimos. Agora é que o Big Brother, com mensagens de igualdade e outras mentiras tradicionais, pode assumir. Leiam e evitem-no.
(*) Correspondente Zero Hora/RBS
PESQUISA
Jornal Nacional, antes e
depois de Cid Moreira
Alguns leitores têm demonstrado interesse em comentários mais aprofundados sobre os 30 anos do Jornal Nacional e seu papel na formação da audiência brasileira. Mantendo a tradição de divulgar estudos acadêmicos na área de Comunicação, o Observatório da Imprensa aproveita a oportunidade para publicar, nesta edição, o trabalho "Novas estratégias políticas na Globo? O Jornal Nacional antes e depois da saída de Cid Moreira", de Mauro P. Porto, bolsista de Doutorado da CAPES no Department of Communication da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA).
Mauro P. Porto (*)
Em 1º de abril de 1996, uma importante mudança teve lugar na televisão brasileira. Depois de apresentar o noticiário Jornal Nacional durante os seus primeiros 27 anos de existência, Cid Moreira não estava na tela como apresentador naquela noite. Ele apareceu por alguns segundos, mas desta vez apenas para ler o editorial, uma das inovações do período. Nos dias seguintes, este seria o único papel daquele que durante décadas apresentou o noticiário mais importante e popular da televisão brasileira. Cid Moreira foi uma presença constante nas residências dos brasileiros durante um período de profundas mudanças na sociedade e na política brasileiras. Como conseqüência, sua imagem estava profundamente vinculada à imagem da Rede Globo.
Quais foram as conseqüências desta mudança para o conteúdo do telejornal, particularmente no que se refere à cobertura de temas políticos, econômicos e sociais? Por que a Rede Globo substituiu Moreira e seu parceiro principal, Sergio Chapelin, como apresentadores do Jornal Nacional? Qual a relação entre estas mudanças e a estratégia política da emissora? Estas são algumas das questões a serem discutidas neste artigo. Através de uma análise de conteúdo do telejornal, será demonstrado que a mudança teve um impacto na forma como a Globo representa o mundo da política, levando a um papel mais ativo e interpretativo dos apresentadores. Este artigo discute as principais explicações existentes com relação a estas mudanças e sugere que elas podem ser melhor entendidas se contextualizadas em termos da nova estratégia política da emissora.
O texto está organizado da seguinte forma: primeiro, apresento as mudanças ocorridas no Jornal Nacional em 1996, incluindo a substituição de Cid Moreira. Em seguida apresento a hipótese principal da pesquisa e a metodologia utilizada para a análise de conteúdo, bem como os resultados da análise de 24 edições do telejornal entre julho de 1995 e agosto de 1996. Nas conclusões discuto os resultados da análise e as implicações das mudanças no Jornal Nacional para a política e a democracia brasileiras.
O velho e o "novo" Jornal Nacional
Inaugurado em 1º de setembro de 1969, o Jornal Nacional teve um papel ativo e importante na vida política nacional. Vários autores ressaltaram o papel político do telejornal da Globo, destacando em particular sua cobertura noticiosa parcial e "governista". Um breve estudo sobre os seus primeiros dez anos de existência sugeriu que o noticiário se caracterizava pela manipulação das notícias e pela desinformação, refletindo a ideologia conservadora da emissora (Carvalho, 1980). Obviamente, este tipo de cobertura jornalística era resultado, em grande medida, da censura e do controle que a ditadura militar exercia sobre os meios de comunicação. Entretanto, mesmo após a abolição oficial da censura aos meios de comunicação em 1980, o jornalismo da Globo continuou a revelar sua aliança com o regime autoritário. A emissora deliberadamente distorceu informações com objetivos políticos durante os últimos anos da ditadura. Particularmente importante foi a cobertura da campanha "Diretas-Já", em 1984, por eleições diretas para presidente. O Jornal Nacional se recusou inicialmente a cobrir a campanha e só nas vésperas da votação pelo Congresso da emenda Dante de Oliveira é que o noticiário mudou a sua atitude, apresentado uma cobertura mais completa e menos parcial da mobilização de massa que tomava conta das ruas (Lima, 1988; Tosi, 1995). Quando ficou evidente que o regime militar estava em seus últimos dias, a Rede Globo se juntou ano novo bloco de poder que estava se formando em torno da candidatura de Tancredo Neves, apoiando sua eleição indireta pelo colégio eleitoral (Amaral e Guimarães, 1988).
Com o retorno da democracia em 1985, a Rede Globo continuou a desempenhar um papel político importante. Segundo alguns autores, a ascensão de Collor em 1989 nas primeiras eleições diretas para presidente foi favorecida pelo cenário construído pelos meios de comunicação (Rubim, 1989; Lima, 1993). No caso do Jornal Nacional, estudos indicaram uma cobertura disproporcional e favorável ao candidato Collor de Mello (Lima, 1993, pp. 106-107). Quando denúncias revelaram um esquema de corrupção no governo Collor, um novo movimento de massas ganhou as ruas exigindo o seu impeachment e uma CPI foi formada pelo Congresso. Como no caso da campanha das "Diretas-Já", a cobertura inicial dos comícios pelo Jornal Nacional foi caracterizada por uma forte presença de fontes e versões do governo, evitando-se referências aos vínculos entre Paulo César Farias e o presidente (Porto, 1994, pp. 141-142). Mas em outubro de 1992, quando o relatório da CPI foi divulgado considerando o presidente culpado e iniciando o processo de impeachment, a Rede Globo ampliou a cobertura do escândalo e apresentou uma cobertura mais isenta (ibid.). A emissora passou então a apoiar o afastamento do Presidente que havia ajudado a eleger em 1989.
Nas eleições presidenciais de 1994, a cobertura jornalística da Globo foi novamente objeto de discussão e investigação. Nos primeiros meses da campanha, a cobertura do Jornal Nacional concedeu mais tempo e "enquadrou" mais favoravelmente a candidatura do ex-ministro da economia, Fernando Henrique (Albuquerque, 1994). Posteriormente, talvez em razão de uma legislação que exigia imparcialidade no tratamento das candidaturas, o telejornal apresentou uma cobertura mais equilibrada. Todavia, a ênfase no Plano Real contribuiu para estabelecer um cenário favorável ao candidato oficial do governo (Maciel e Fabrício, 1995).
Estes breves exemplos sobre o papel político do Jornal Nacional ilustram uma tendência conhecida: o desenvolvimento de uma cobertura parcial que tende a favorecer as fontes e posicionamentos do governo federal. Durante este período histórico de profundas transformações, Jornal Nacional foi apresentado por Cid Moreira. Mas em 1º de abril de 1996, Moreira e seu parceiro principal, Sergio Chapelin, foram substituídos como apresentadores. Para ocupar suas posições, a Rede Globo escolheu dois de seus jornalistas, William Bonner e Lilliam Witte Fibe. A mudança de apresentadores não foi, todavia, repentina. Cid Moreira já estava apresentando as notícias em companhia de diferentes profissionais, principalmente Fibe, nos meses que antecederam sua saída. Mas a partir de abril de 1996 o perfil da televisão brasileira se transformou. Cid Moreira estava ausente das telas dos aparelhos de TV dos brasileiros quando o noticiário mais importante do país foi ao ar. Esta inovação foi importante porque, entre outros motivos, significou a substituição de profissionais que se limitavam a ler as notícias por jornalistas que também atuavam como editores. Depois da mudança, Bonner passou a atuar como editor do noticiário nacional e Fibe do noticiário econômico, aproximando-os do estilo dos âncoras do telejornalismo norte-americano.
A saída de Cid Moreira refletiu um processo de mudança no telejornalismo da Rede Globo que já havia começado há algum tempo. Em julho de 1995, o diretor de jornalismo da emissora Alberico de Sousa Cru, foi substituído por Evandro Carlos de Andrade, então diretor de redação do jornal O Globo. A mudança foi importante por substituir um profissional vinculado ao tipo de cobertura política praticado pelo Jornal Nacional no passado por um profissional oriundo da imprensa escrita, menos relacionado ao passado do Jornal Nacional. Alberico de Sousa Cruz esteve envolvido em um dos episódios mais polêmicos da história da TV brasileira: a edição, pelo Jornal Nacional, do segundo debate entre Collor e Lula, em 1989. Vários analistas interpretaram a edição do debate como uma flagrante manipulação do processo político em favor do candidato Collor de Melo e pesquisas de opinião revelaram que o debate e sua edição tiveram um importante impacto nos resultados eleitorais.
[Pesquisas diárias realizadas pelo IBOPE revelaram que o apoio a Lula parou de crescer e começou a cair logo após o segundo debate e sua edição pelo Jornal Nacional (Straubhaar, Olsen e Nunes, 1993, p. 133). Segundo o diretor de jornalismo da Globo na época das eleições de 1989, Armando Nogueira, a edição do debate foi feita contra sua orientação. Nogueira acusou um de seus subordinados (Alberico de Souza Cruz) pela edição "burra" do debate (entrevista à Gazeta Mercantil, 4 de junho de 1996, p. 3). Alberico, por sua vez, negou que tenha participado da edição do debate em diversas entrevistas, insistindo, todavia, que a edição foi correta do ponto jornalístico (Entrevista a Vieira, 1991, pp. 64-65, e à revista Imprensa, n. 92, maio de 1995, p. 46)]
As razões para a saída de Moreira foram bem diferentes daquelas que levaram Globo a escolhê-lo em 1969 para apresentar seu principal programa de notícias. De acordo com José Bonifácio de Oliveira, o Boni, então vice-presidente da emissora, Moreira havia sido escolhido por causa de sua boa aparência e voz suave. O objetivo era o de atrair a audiência feminina das telenovelas que eram transmitidas antes e depois do Jornal Nacional (Mello e Souza, 1984, p. 226). Em 1996, a Rede Globo escolheu jornalistas com o objetivo de mudar a imagem da emissora em um período de declínio crescente dos seus índices de audiência.
Depois da mudança de apresentadores, Cid Moreira ficou responsável durante algumas semanas pela leitura dos editoriais do Jornal Nacional e Sergio Chapelin passou a apresentar o programa Globo Repórter. Outra novidade foi a introdução de um comentarista, o cineasta Arnaldo Jabor, que passou a tratar com humor e ironia diversos temas, principalmente com relação ao processo político. Jabor passou a ser criticado por sua atitude simpática ao presidente Fernando Henrique e se envolveu em episódios polêmicos. Em 29 de maio de 1996, Jabor utilizou o seu comentário no Jornal Nacional para acusar o Congresso de estar dominado por práticas de corrupção. A reação do poder legislativo foi imediata, incluindo a tentativa por parte de alguns parlamentares de incluir punições mais severas na lei de imprensa que estava sendo discutida pela instituição [Uma lei em discussão", Correio Braziliense, 2 de junho de 1996, p. 37].
As razões da saída de Cid Moreira
a) Uma resposta aos desejos da audiência?
Tendo considerado o papel histórico do Jornal Nacional e as mudanças que tiveram lugar em 1996, passo agora às possíveis explicações da decisão da Globo de substituir o principal apresentador do telejornal mais popular do país. Uma primeira possibilidade é a de que a emissora apenas respondeu aos desejos de sua audiência. Após 27 anos na tela, Cid Moreira poderia ter alcançado uma exposição excessiva e os brasileiros poderiam estar cansados da sua imagem. Mas esta hipótese não explica as mudanças. Uma pesquisa do instituto Data-Folha na cidade de São Paulo, nos dias 4 e 5 de maio de 1995, revelou que 88% dos espectadores eram favoráveis à permanência de Cid Moreira como apresentador do Jornal Nacional ["Cid Moreira deveria ficar, diz pesquisa", Folha de S. Paulo, TVFolha, 17/3/96, p. 7. O Datafolha entrevistou 1.080 pessoas]. Logo após a substituição de Moreira como o apresentador principal do telejornal, a revista Imprensa solicitou ao Instituto Gallup uma pesquisa para avaliar a reação da população com relação à saída de Cid Moreira ["Quem é o melhor?", Imprensa, n. 104, maio de 1996, pp. 36-41. O Instituto Gallup entrevistou 627 pessoas na cidade de São Paulo entre 27 e 30 de abril de 1996]. Antes de tudo, é importante ressaltar que a audiência notou a mudança. Dos 541 indivíduos (86% da amostra) que afirmaram assistir ao Jornal Nacional, 77,8% perceberam a substituição dos apresentadores. Além disso, a maioria do público preferia o par Moreira-Chapelin em relação aos novos apresentadores, Bonner-Witte Fibe, em todos os itens de comparação. Quando se solicitou aos que possuíam o hábito de assistir o Jornal Nacional que dessem notas individuais para cada apresentador, variando de 0 a 10, Cid Moreira recebeu uma média de 9,2, Sergio Chapelin 8,8, William Bonner 8,0 e Lillian Witte Fibe, 7,2. Quando perguntados sobre qual par transmitia mais credibilidade, 69,7% escolheram Moreira-Chapelin e 20,1% o par Bonner-Witte Fibe. Quando perguntados sobre quem era melhor na transmissão das notícias, 71,2% mencionaram Moreira-Chapelin e apenas 18,7% Bonner-Witte Fibe. Em todos os aspectos, o público preferia o par Moreira-Chapelin. Portanto, a hipótese baseada nos desejos da audiência não explica as mudanças. Além disso, os dados colocam uma série de questões importantes: como explicar que a Rede Globo tomou uma decisão contrária aos desejos e expectativas de sua audiência? Como veremos adiante, fatores de natureza política são fundamentais para entender as mudanças. Mas antes é preciso considerar outras possíveis explicações.
b) A influência do jornalismo norte-americano
Na literatura existente sobre o jornalismo brasileiro, um dos argumentos mais comuns utilizados para explicar mudanças em práticas jornalísticas se refere à influência do "modelo norte-americano". Tem sido argumentado, por exemplo, que este modelo teve o maior impacto no jornalismo praticado no Brasil, apesar de outras influências (Melo, 1985, p. 132). Para alguns, o desenvolvimento de uma imprensa comercial e moderna no Brasil tem lugar quando a elite urbana passa a exigir a partir da década de 1970 que os meios de comunicação tenham padrões de qualidade comparáveis aos da sociedade norte-americana (Silva, 1991). No caso dos telejornais, a transição para apresentadores mais próximos do estilo dos âncoras norte-americanos também tem sido explicada em termos da influência do jornalismo daquele país. Um estudo dedicado a um dos primeiros e mais importantes âncoras do telejornalismo brasileiro, Bóris Casoy do SBT, a conclusão é a de que o modelo adotado pelo jornalismo da televisão brasileira é o norte-americano (Squirra, 1993, p. 171). Estes argumentos sugerem outra possível explicação para a saída de Cid Moreira: a introdução de apresentadores mais próximos ao estilo dos âncoras norte-americanos pode ser interpretada como outro exemplo da influência do jornalismo praticado nos Estados Unidos. Portanto, é possível explicar as mudanças no Jornal Nacional como resultado de um processo de "modernização", a adoção de práticas jornalísticas comuns nos Estados Unidos.
Este tipo de argumento tem sido fortemente influenciado pela teoria normativa da imprensa tal como desenvolvida por Fred Siebert, Theodore Paterson e Wilbur Schramm em um manual que se tornaria um dos "clássicos" no estudo do jornalismo, o livro Four Theories of the Press (Siebert, Paterson e Schramm, 1956). De acordo com os autores, seria possível classificar as diferentes formas que a imprensa assume em diversos países em quatro categorias principais: a "teoria libertária", que tem no jornalismo praticado nos Estados Unidos sua melhor expressão; a "teoria da responsabilidade social", praticada nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial e a teoria dominante na maiorias dos países da Europa ocidental; a "teoria autoritária", comum em países do terceiro mundo; e, finalmente, a "teoria comunista-soviética", adotada pela União Soviética e demais países do bloco comunista. Os autores que apresentam argumentos baseados na influência do modelo norte-americano no jornalismo praticado no Brasil estão geralmente baseados neste esquema de análise. Lins da Silva (1991), por exemplo, argumenta que o jornalismo brasileiro se guia pelos princípios da escola libertária (p. 58). O autor afirma que apesar de ser um "esquema precário", a classificação proposta por Siebert, Peterson e Schramm reflete as divisões essenciais entre as diferentes formas de se conceber e praticar jornalismo em diferentes sociedades (p. 57).
Entretanto, vários autores têm levantado dúvidas sobre a utilidade de uma teoria normativa da imprensa tal como desenvolvida no livro Four Theories. Para alguns, o libro demonstra como a pesquisa comparativa nos Estados Unidos tem sido determinada pelo papel do país na política internacional durante o período da Guerra Fria (Hardt, 1988, p. 129). Para outros, o enfoque normativo é um obstáculo à compreensão de como o jornalismo funciona na realidade porque, entre outros motivos, desconsidera a necessidade de se levar em conta que jornalismo e sociedade interagem e se afetam mutualmente (Mancini, n.d). Em uma publicação dedicada à revisão do livro de Siebert, Peterson e Schramm, os autores criticam várias de seus argumentos e pressupostos, sugerindo a necessidade de um esquema mais adequado para a análise de práticas jornalísticas (Nerone, 1995). Apesar de sua posição dominante nos estudos de comunicação, um criticismo crescente com relação ao modelo das "quatro teorias da imprensa" tem indicado a necessidade de desenvolvimento de novos enfoques teóricos para o estudo das diversas práticas jornalísticas no mundo. Este estudo parte do pressuposto de que teorias normativas oferecem esquemas simplistas e lineares poucos úteis para a explicação das mudanças no jornalismo brasileiro. Como pretendo demonstrar nas próximas sessões, é preciso desenvolver novos modelos teóricos que levem em consideração as formas como práticas jornalísticas se transformam devido às suas relações com processos e instituições políticas.
c) A pressão da competição
Finalmente, é preciso considerar outra importante possível explicação para as mudanças no Jornal Nacional: a pressão exercida por outras redes de televisão e demais competidores no mercado de comunicação. Apesar de sua posição de virtual monopólio, dominando cerca de 80% da audiência nacional (Amaral e Guimarães, 1994), a Rede Globo tem sido confrontada no campo do telejornalismo pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), seu principal competidor no mercado de televisão. Em 1988, o SBT contratou Boris Casoy, jornalista da Folha de S.Paulo, para a ser o âncora do seu noticiário do horário nobre, o TJ Brasil. Casoy se tornou o primeiro âncora da televisão brasileira, pois recebeu não só a tarefa de apresentar as notícias, mas também de atuar como editor-geral do noticiário. O apresentador também desenvolveu um novo estilo, dando sua opinião sobre temas polêmicos, separando-se da forma mais "fria" e objetiva através da qual os apresentadores da Globo apareciam na tela [Em julho de 1997 Bóris Casoy deixou o SBT e passou a apresentar o telejornal da TV Record]. Em um relatório interno elaborado pelo seu departamento de jornalismo em 1991, o SBT definiu as características do projeto do novo telejornal. A combinação dos índices de audiência com credibilidade é apresentada como o objetivo central da estratégia da emissora. O documento desenvolve uma comparação interessante entre o departamento de jornalismo do SBT e o Jornal Nacional da Globo: "queremos ter um jornal que seja tão bom quanto o Jornal Nacional, com ritmo, beleza plástica, grandes reportagens ... Enfim, show e emoção. Só que queremos ter isso e mais a isenção" (ver Squirra, 1993, p. 141). Portanto, o SBT construiu uma estratégia baseada na falta de neutralidade do Jornal Nacional, identificando uma das principais debilidades do seu principal competidor: a imagem de uma rede de televisão governista.
O SBT desafiou o jornalismo da Globo não apenas através do TJ Brasil e Boris Casoy, mas também através do programa Aqui Agora. O programa começou em maio de 1991 e passou a se destacar pelo seu estilo "sensacionalista" e pela cobertura de crimes e violência urbana. O Aqui Agora levou para a televisão um popular jornalista do rádio, Gil Gomes, conhecido pelo seu programa que apresentava casos de violência na cidade de São Paulo. Gomes se tornou uma das principais atrações do Aqui Agora, relatando crimes com seu estilo dramático característico. O programa também inovou ao desenvolver um estilo realista de apresentação das notícias. Um certo senso de naturalismo foi construído através de uma produção precária e da "baixa qualidade" das imagens, com a câmara balançando enquanto o repórter corre ao lado dos policiais ao perseguir suspeitos e criminosos pelas ruas de São Paulo (Bucci, 1993, p. 104). O programa provou ser popular principalmente na cidade de São Paulo, onde os 10% iniciais da audiência cresceram para 20% em outubro de 1992 ["O rosto da periferia", Veja, n. 47, 18 de novembro de 1992, pp. 98-103].
Portanto, uma das possíveis explicações para a substituição de Cid Moreira pela Globo seria uma reação ao jornalismo praticado por seu principal oponente, o SBT. Para evitar a perda dos seus índices de audiência, a Globo seria obrigada a adotar um novo estilo jornalístico, mais imparcial. Para tal, seria importante substituir Cid Moreira, já que sua imagem estava profundamente associada ao tipo de jornalismo historicamente praticado pela emissora. Algumas evidências sugerem que esta interpretação é correta. De fato, o Jornal Nacional tem enfrentado um declínio crescente dos seus índices de audiência. Se na década de 1980 a audiência média do programa estava nos 60% dos domicílios com TV, entre 1993 e 1994 estes índices baixaram para 50% ["Turbulência na rota do Boeing", Imprensa, nº 80, maio de 1994, p. 30]. De acordo com a revista Imprensa, este declínio teve lugar quando o SBT criou uma segunda edição do programa Aqui Agora às 20 horas, o horário do Jornal Nacional [idem, p. 32]. Todavia, o Jornal Nacional mantém sua posição como o principal telejornal do país, com uma audiência diária estimada em 41 milhões de pessoas [Dados da home page da Rede Globo <http://www.redeglobo.com.br>]. A estratégia do SBT de ganhar audiência teve um sucesso apenas parcial: os seus programas de notícia (TJ Brasil e Aqui Agora) não alcançaram mais de 20% da audiência, em comparação dos mais de 40% do Jornal Nacional.
Mas se a tentativa do SBT de conquistar audiência teve um sucesso limitado, a principal competidora da Rede Globo obteve melhores resultados na área da credibilidade. A revista Imprensa encomendou outra pesquisa ao Instituto Gallup com o objetivo de verificar como os brasileiros avaliavam o desempenho dos telejornais ["A imagem dos telejornais: o povo acusa", Imprensa, n. 105, junho de 1996, pp. 24-28. O Instituto Gallup entrevistou 639 indivíduos na cidade de São Paulo, entre 25 e 27 de maio de 1996]. A Tabela 1 apresenta alguns dos resultados. Os dados da pesquisa são contraditórios. Como explicar que as mesmas pessoas que afirmaram que a Globo apresenta os fatos como realmente acontecem e informa mais corretamente o público também afirmaram que a emissora é a que mais distorce os fatos? Esta contradição indica que o tema da credibilidade dos telejornais é bastante complexo. No caso do Jornal Nacional, a evidência sugere um baixo nível de credibilidade relacionado à sua vinculação ao governo e outros interesses. Como mostra a Tabela 1, o Jornal Nacional é visto como o noticiário que mais defende interesses econômicos. Ao mesmo tempo, como vimos anteriormente, Cid Moreira desfrutava de altos níveis de credibilidade quando foi substituído pela emissora. Esta aparente contradição pode ser explicada se considerarmos a possibilidade de que o público pode confiar na forma do noticiário enquanto fonte neutra de informação e no apresentador enquanto personalidade, ao mesmo tempo em que permanece crítico com relação à imagem da emissora e ao seu papel político, tendo assim menos confiança no conteúdo do telejornal [Daniel Hallin (1996) sugere que a credibilidade do noticiário de televisão entre o público é baseado mais na forma que no conteúdo; em outras palavras, no seu caráter visual e pessoal (p. 89). De modo similar, Stam (1985) argumenta que parte da credibilidade da televisão é resultado do fato de que imagens dão à audiência a impressão de um acesso direto e não-mediado à realidade.]. Em outras palavras, o gênero "noticiário" e a personalidade do apresentador podem desfrutar altos níveis de credibilidade ao mesmo tempo em que a imagem da emissora permanece negativa.
TABELA 1
Opinião pública sobre os telejornais
Pergunta: Quais destas redes têm telejornais que ...
|
Emissora
|
… divulgam os fatos exatamente como ocorrem?
|
… distorcem mais os fatos?
|
… informam mais corretamente?
|
… defendem mais interesses econômicos?
|
…estão mais preocupados em fazer
sensasionalismo?
|
|
Globo
|
40.1 %
|
37.0 %
|
40.1 %
|
45.4 %
|
31.5 %
|
|
SBT
|
30.3 %
|
29.8 %
|
26.4 %
|
26.6 %
|
41.7 %
|
Base: 571 pessoas que assistem a telejornais. FONTE: "A imagem dos telejornais: o povo acusa", Imprensa, nº 105, junho de 1996, p. 27.
Alguns autores sugerem que a emergência das novas tecnologias é a causa do declínio dos índices de audiência do Jornal Nacional. Squirra (1995), por exemplo, interpreta a implantação da TV a cabo como um desafio ao jornalismo praticado pelas redes de televisão, prevendo um declínio crescente dos seus índices de audiência. Todavia, apesar de alcançarem 1,7 milhões de assinantes, as "TVs pagas" (a cabo e por satélite) não oferecem um desafio real às redes de televisão no caso brasileiro (ver Porto, 1998). De acordo com uma pesquisa do Instituto IBOPE realizada em março de 1997, as redes de televisão têm 75% da audiência no horário nobre (20 horas), quando o Jornal Nacional é transmitido, contra apenas 1% das TVs pagas ["TV paga ainda não ameaça grandes redes", Folha de S.Paulo, 9/3/97].
d) Uma explicação alternativa: o papel de fatores políticos
Competição é um elemento importante para explicar as mudanças que tiveram lugar no Jornal Nacional. Todavia, como sugere o relatório interno do SBT, fatores de natureza política são fundamentais para explicar estas mudanças. Em particular, existem evidências de que a imagem de emissora "governista" foi uma das causas principais do declínio nos índices de audiência da Globo em geral e do Jornal Nacional em particular. Para compreendermos a crescente instabilidade na relação entre a Rede Globo e sua audiência é preciso ressaltar a sua imagem negativa que resultou do seu papel político nas últimas décadas da política brasileira. Neste sentido, proponho uma explicação alternativa com relação às mudanças no Jornal Nacional: a substituição de Cid Moreira seria parte de uma nova estratégia política da Globo que teria como objetivo o desenvolvimento de um jornalismo mais ativo e "independente", buscando assim construir uma nova imagem para a emissora. Desta forma, a Rede Globo poderia evitar um conflito ainda maior com sua audiência e o perigo de perdê-la para os seus principais competidores.
A comprovação desta tese sobre a nova estratégia política da Globo está, todavia, além dos limites deste trabalho. A seguir, procurarei demonstrar como a saída de Cid Moreira teve importantes conseqüências para o conteúdo do Jornal Nacional. A investigação das razões destas mudanças exigiria, todavia, não só uma análise de conteúdo do telejornal, mas também o acesso aos seus produtores e aos diretores da emissora para a realização de entrevistas. Neste trabalho, a hipótese sobre a nova estratégia da Globo tem por objetivo contextualizar as mudanças do Jornal Nacional e contribuir para o desenvolvimento de novos marcos teóricos para o estudo de práticas jornalísticas, em lugar de oferecer hipóteses que podem ser devidamente testadas [Como afirmam George e McKeown (1985), estudos de caso são particularmente úteis em um estágio inicial de desenvolvimento teórico, quando o objetivo é o desenvolvimento e não o teste de teorias. Considerando a falta de marcos teóricos sobre as relações entre práticas jornalísticas e processos políticos, estudos de caso como o proposto neste artigo podem contribuir na elaboração de novos marcos teóricos, apesar de não testarem hipóteses específicas sobre estas relações].
Hipótese e metodologia
Este artigo apresenta a proposição de que as mudanças no principal telejornal da Rede Globo não afetaram apenas a forma do noticiário, mas também, e de forma importante, o seu conteúdo. A hipótese principal da pesquisa é a seguinte: A substituição dos apresentadores do Jornal Nacional teve um impacto na forma como o telejornal representa o mundo da política, levando a um papel mais ativo dos apresentadores e a uma cobertura jornalística mais plural e menos baseada em fontes governamentais. De acordo com esta hipótese, a cobertura jornalística continuará a favorecer as versões do governo e de outros grupos poderosos, mas as fontes governamentais passarão a ter uma presença menos freqüente no noticiário.
Esta hipótese será testada através de uma análise de conteúdo do Jornal Nacional que se baseia numa comparação de longo prazo das edições do telejornal. O objetivo é o de identificar como a mudança de apresentadores afetou o conteúdo do noticiário. A amostra das edições do Jornal Nacional analisadas inclui quatro séries com seis edições completas do telejornal cada, totalizando 24 edições. O principal critério para a escolha das séries foi a substituição do par Cid Moreira-Sergio Chapelin pelo par William Bonner-Lillian Witte Fibe no dia 1 de abril de 1996. A amostra inclui duas fases. A primeira fase, composta pelas duas primeiras séries, inclui as edições do Jornal Nacional que foram ao ar antes da mudança de apresentadores. A segunda fase, compostas pelas duas últimas séries, inclui edições transmitidas depois da saída de Cid Moreira. A Tabela 2 apresenta a composição da amostra.
TABELA 2
Composição da amostra de edições do Jornal Nacional
|
Fases |
Edições do Jornal Nacional
|
Número de edições
|
|
Primeira Fase
|
Primeira Série (1, 4, 6, 7, 8 e 10 de julho de 1995)
|
6
|
|
|
Segunda Série (14, 15, 21, 22, 27 e 28 de novembro de 1995)
Total da Primeira Fase:
|
6
12
|
|
Segunda Fase
|
Terceira Série (1, 3, 4, 5, 6 e 8 de abril de 1996)
|
6
|
|
|
Quarta Série (13, 15, 16, 17, 19 e 21 de agosto de 1996)*
Total da Segunda Fase: |
6
12
|
|
Total da Amostra
|
|
24
|
* As edições de 17, 19 e 21 de agosto de 1996 estavam incompletas.
Qual o critério utilizado para a seleção das séries? No caso da terceira série, o critério foi simples: esta foi a primeira semana do Jornal Nacional após a substituição de Cid Moreira [O plano inicial era o de analisar séries compostas por uma semana completa, de segunda a sábado. Todavia, várias edições do Jornal Nacional do acervo de fitas utilizado estavam incompletas. A amostra não inclui dias consecutivos devido à prioridade dada às edições que estavam completas.]. Três outras séries foram incluídas, separadas por um intervalo de seis semanas, com o objetivo de permitir uma comparação de longo prazo. Considerando o fato de que uma análise que somente incluísse edições durante a mudança de apresentadores não permitiria verificar se seus efeitos no conteúdo do Jornal Nacional seriam momentâneos ou mais permanentes, optou-se por analisar o noticiário durante um período de mais de um ano (julho de 1995 a agosto de 1996).
O método utilizado para a análise do Jornal Nacional foi a análise de conteúdo de suas edições, incluindo tanto variáveis de caráter quantitativo como qualitativo. O objetivo era o de verificar como a mudança de apresentadores influenciou a forma de representação, as convenções narrativas utilizadas pelo telejornal na cobertura de temas políticos, econômicos e sociais [Sobre o conceito de forma de representação (form of representation), ver Hallin, 1994, p. 114.]. A análise baseada em aspectos quantitativos incluiu a codificação das notícias de acordo com seu tema e a medição do tempo ocupado por cada locutor. Os aspectos qualitativos incluíram a classificação da fala de cada locutor de acordo com sua função e das notícias de acordo com sua forma. Duas unidades de análise principais foram utilizadas: notícias e expressões. Em um primeiro momento, todas as notícias foram analisadas individualmente. Posteriormente, as notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais foram sub-divididas em expressões. A principal característica que define uma expressão (utterance) é a clara demarcação do seu início e do seu fim, a partir da mudança da pessoa que está falando (Bakhtin, 1986, p. 71). Em outras palavras, uma expressão inclui todo o conteúdo da fala contínua de um dos locutores que aparecem no noticiário. No caso da presente análise do Jornal Nacional, os possíveis locutores foram codificados como apresentador, repórter, comentador, ou pessoa que aparece em uma sonora [Sonoras são os segmentos de um noticiário que apresentam a fala de pessoas que não são funcionárias da emissora (políticos, expertos, pessoas comuns, etc.)].
Após cada expressão ter sido codificada e seu locutor identificado, uma análise qualitativa de sua função foi desenvolvida. As seguintes três possíveis funções foram identificadas:
Informativa: o locutor relata um fato/evento/ação ou introduz um tema;
Interpretativa: o locutor apresenta um interpretação do fato/evento/ação ou tema;
Interpretação indireta: o locutor relata a posição/fala de outra pessoa que interpreta o fato/evento/ação ou tema.
A partir desta classificação da função de cada locutor, cada notícia foi classificada de acordo com sua forma. Quatro possíveis formas foram identificadas:
Restrita: quando apenas uma interpretação do fato/evento/ação ou tema é apresentada;
Plural-fechada: quando mais de uma interpretação do fato/evento/ação ou tema são apresentadas, mas são organizadas em uma hierarquia de forma a que uma das interpretações é preferida sobre as demais e apresentada como superior ou mais correta;
Plural-Aberta: quando mais de uma interpretação do fato/evento/ação ou tema são apresentadas, mas são tratadas de forma mais indeterminada de forma a que nenhuma interpretação é apresentada como superior ou mais correta;
Episódica: quando nenhuma intepretação é apresentada na notícia que se limita a relatar algum fato/evento/ação ou tema.
Estes procedimentos metodológicos têm como objetivo testar a hipótese principal deste estudo: A substituição dos apresentadores do Jornal Nacional teve um impacto na forma como o telejornal representa o mundo da política, levando a um papel mais ativo dos apresentadores e a uma cobertura jornalística mais plural e menos baseada em fontes governamentais. Esta hipótese foi operacionalizada da seguinte forma: a) o papel mais ativo dos apresentadores: a pesquisa verificará se os apresentadores adotaram uma função mais interpretativa e se apareceram mais freqüentemente e por mais tempo depois da mudança; b) cobertura mais plural: a pesquisa verificará se as notícias adotaram formas mais plurais e menos restritas depois da mudança; c) cobertura menos baseada em fontes governamentais: a pesquisa verificará se o número de sonoras de representantes do governo federal diminuirá depois da mudança. A próxima sessão apresenta os resultados da análise.
A análise de conteúdo
a) Os temas das notícias
Nesta seção apresentarei os resultados da análise das 24 edições do Jornal Nacional de ambas as fases, antes e depois da mudança dos apresentadores. A Tabela 3 apresenta a porcentagem to tempo tomado por todas as notícias que apareceram na amostra, de acordo com seu tema.
TABELA 3
Tempo total das notícias por tema (porcentagem)
|
Tema |
Julho
1995
|
Novembro
1995
|
TOTAL
PRIMEIRA FASE
|
Abril
1996
|
Agosto
1996
|
TOTAL
SEGUNDA FASE
|
Total
Todas Notícias
|
|
Política
|
16.6
|
36.5
|
26.6
|
7.7
|
15.0
|
11.0
|
18.8
|
|
Economia |
13.2 |
7.0 |
10.1 |
15.4 |
9.7 |
12.8 |
11.5 |
|
Questões Sociais
|
2.2
|
2.0
|
2.1
|
4.9
|
0.9
|
3.1
|
2.6
|
|
Crime/Violência |
12.3 |
14.0 |
13.1 |
20.6 |
16.9 |
18.9 |
16.0 |
|
Internacional
|
5.3
|
17.3
|
11.3
|
5.3
|
22.0
|
12.9
|
12.1
|
|
Variedades |
19.6 |
16.2 |
17.9 |
23.6 |
19.9 |
22.0 |
19.9 |
|
Esporte
|
28.4
|
4.0
|
16.2
|
19.0
|
12.5
|
16.0
|
16.1
|
|
Previsão Tempo |
2.4 |
3.0 |
2.7 |
3.4 |
3.1 |
3.3 |
3.0 |
|
Total*
|
100% (n=8236)
|
100% (n=8265)
|
100%
(n=16501)
|
100% (n=8992)
|
100%
(n=7513)
|
100%
(n=16505)
|
100% (n=33006)
|
* Número total de segundos.
A duração média de cada edição do Jornal Nacional é de 24 minutos, divididos em cinco blocos separados por intervalos comerciais. Os dados demonstram que política foi um dos principais temas do telejornal nas 24 edições analisadas, tomando 18,8% do tempo total do noticiário. Somente variedades ocuparam mais tempo (19,9%). É importante notar, todavia, notar uma tendência no sentido da diminuição da cobertura de temas políticos após a mudança de apresentadores: a primeira fase apresenta uma cobertura política muito maior do que a segunda. Para verificar se esta mudança no conteúdo do noticiário é significante, comparei a cobertura de temas políticos com a cobertura dos demais temas do telejornal em ambas as fases. A Tabela 4 apresenta os resultados.
TABELA 4
Freqüência das notícas por tema (porcentagem)
|
Tema |
PRIMEIRA FASE |
SEGUNDA FASE |
|
Política
|
20,9
|
13.0
|
|
Outros |
79.1 |
87.0 |
|
Total
|
100%
(n=201)
|
100%
(n=192)
|
Pearson Chi-Square: 4.31 (p< .05).
Os dados indicam que o declínio da cobertura de temas políticos entre as duas fases foi significante (p<.05). Como explicar este declínio na cobertura da política? Em primeiro lugar, é preciso ressaltar o fato de que em novembro de 1995 a maioria dos temas políticos apresentados pelo Jornal Nacional estavam relacionados ao escândalo do projeto Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), o polêmico e caro sistema de radar para a região norte do país. Portanto, o alto número de notícias da segunda série pode ser explicado como um resultado dos importantes eventos que tiveram lugar no período da série. É preciso verificar se esta tendência para uma cobertura mais reduzida é mais permanente ou se ela se deve apenas aos eventos que ocorreram nos meses finais de 1995.
Entretanto, os dados sugerem que a mudança dos apresentadores do Jornal Nacional é parte de uma tendência geral em direção a um jornalismo com menos ênfase em temas políticos, uma tendência já identificada por alguns críticos de televisão [Fernando de Barros e Silva, "Jornal Nacional renunciou à política", Folha de S.Paulo, 25/9/97]. Existem evidências de que esta nova direção pode ter um caráter mais definitivo. Ao tentar explicar a queda nos índices de audiência do Jornal Nacional a Rede Globo culpou a cobertura de temas políticos. Um relatório da emissora explicou este declínio em termos do "excesso" de notícias sobre temas políticos no telejornal que são cobertos devido a uma "obrigação jornalística" mas que afastam a audiência ["Turbulência na rota do Boeing", Imprensa, n. 80, maio de 1994, p. 33]. Desta forma a Globo culpa os políticos para explicar sua própria relação problemática com a audiência e não menciona o seu papel ativo na política nacional nas últimas décadas. A emissora também indica que pode estar reduzindo a cobertura de temas políticos para evitas conflitos com sua audiência. As conseqüências deste declínio da cobertura política são complexas, principalmente quando se nota um crescimento paralelo do tempo dedicado a crimes/violência e variedades. Estes dados sugerem um possível movimento em direção a um jornalismo "tablóide" ou "infotainment". A Globo pode estar buscando evitar o declínio dos seus índices de audiência com mais ênfase em violência e variedades e uma cobertura limitada de temas políticos. Cabe novamente insistir, todavia, que mais dados são necessários para verificar estas tendências.
A análise de conteúdo também incluiu a codificação das notícias sobre temas políticos para verificar qual imagem do "mundo da política" é apresentada pelo Jornal Nacional. A Tabela 5 apresenta os resultados da análise de 98 notícias sobre temas políticos das 24 edições da amostra. Os dados sugerem que a cobertura do telejornal se concentra na presidência e no governo federal. Em seu conjunto, notícias sobre o presidente e sobre iniciativas e políticas governamentais atingiram cerca de 43% do total de notícias. Os demais poderes constitucionais, legislativo e judiciário, receberam bem menos atenção. Corrupção e escândalos políticos foram tema de 21% das notícias, indicando uma ênfase em aspectos negativos do processo político. Portanto, de acordo com o Jornal Nacional, o mundo da política gira em torno da presidência e do governo, com corrupção e escândalos sendo algumas de suas características mais importantes. Instituições da esfera pública (organizações da sociedade civil e movimentos sociais) e outros poderes constitucionais (Congresso e tribunais) receberam bem menos atenção. Isto sugere que, de acordo com o Jornal Nacional a política se limita basicamente à esfera do estado, principalmente ao poder executivo.
TABELA 5
Freqüência dos temas das notícias sobre política (porcentagem)
|
Tema
|
Freqüência
|
|
Presidência
|
22.9
|
|
Corrupção/Escândalos Políticos
|
21.4
|
|
Políticas ou Iniciativas Governamentais Específicas
|
20.0
|
|
Sociedade Civil/Movimentos Sociais
|
15.7
|
|
Eleições Locais
|
7.1
|
|
Judiciário
|
7.1
|
|
Congresso
|
2.9
|
|
Política nos Estados
|
2.9
|
|
Total
|
100% (N=98)
|
b) O papel dos apresentadores
A hipótese principal da presente pesquisa afirmava que os apresentadores apareceriam mais freqüentemente e adotariam um estilo mais ativo e interpretativo depois da saída de Cid Moreira. A Tabela 6 apresenta os dados referentes ao tempo tomado por cada locutor nas notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Depois da mudança, os apresentadores falaram por muito mais tempo, de 15% do tempo total na primeira fase para 26% na segunda. Esta é uma evidência importante de que os apresentadores passaram a adotar um papel mais ativo na produção das notícias. Repórteres falaram por bem menos tempo após a mudança, apesar de suas expressões terem sido responsáveis por dois terços do tempo total do noticiário.
TABELA 6
Tempo total de cada locutor (porcentagem)*
|
Locutor |
Julho
1995
|
Novembro
1995
|
TOTAL
PRIMEIRA FASE
|
Abril
1996
|
Agosto
1996
|
TOTAL
SEGUNDA FASE
|
|
Apresentador
|
11.5
|
16.9
|
14.7
|
26.2
|
26.2
|
26.2
|
|
Repórter |
64.7 |
68.2 |
66.8 |
57.3 |
57.5 |
57.4 |
|
Sonora
|
18.5
|
11.8
|
14.5
|
16.5
|
16.3
|
16.4
|
|
Comentador |
5.3 |
3.1 |
4.0 |
0 |
0 |
0 |
|
Total**
|
100% (n=2211)
|
100% (n=3280)
|
100%
(n=5491)
|
100% (n=2060)
|
100% (n=1369)
|
100%
(n=3429)
|
* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais.
* *Número total de segundos.
Para verificar se estas mudanças foram significantes, a freqüência das expressões de cada locutor em cada notícia foi registrada. A Tabela 7 apresenta os resultados. Ela mostra que depois da mudança, entre a primeira e a segunda fase, os apresentadores apareceram mais freqüentemente no noticiário. Repórteres apareceram menos vezes, enquanto as sonoras aumentaram sua presença. Todavia, os dados demonstram que os resultados são significantes apenas no caso dos apresentadores (p<.05). Somente os apresentadores tiveram um aumento significante em sua participação no telejornal após a saída de Cid Moreira.
TABELA 7
Média da freqüência das expressões dos locutores em cada notícia*
|
Locutor
|
Julho
1995
|
Novembro
1995
|
TOTAL
PRIMEIRA FASE
|
Abril
1996
|
Agosto
1996
|
TOTAL
SEGUNDA FASE
|
T-Test**
t-value
|
Prob |
|
Apresentador
|
1.22
|
1.36
|
1.29
|
1.57
|
1.48
|
1.53
|
-2.31
|
.05
|
|
Repórter
|
1.30 |
1.44 |
1.38 |
1.54 |
1.09 |
1.33 |
.14 |
.89 |
|
Sonora
|
1.22
|
1.13
|
1.17
|
1.36
|
1.17
|
1.27
|
-.29
|
.77
|
* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Número total de notícias = 117.
** Refere-se somente às colunas da primeira e da segunda fase.
Portanto, os apresentadores apareceram mais freqüentemente e falaram durante mais tempo depois da mudança. Todavia, a hipótese da pesquisa também afirmava que os apresentadores desenvolveriam um papel mais interpretativo após a mudança. A classificação das funções das expressões dos apresentadores é apresentada na Tabela 8. Os dados demonstram uma aumento significante (p<.05) no número de expressões que apresentavam alguma interpretação (direta ou indiretamente), enquanto que a presença da função informativa diminuiu. Portanto, os apresentadores se tornaram mais ativos ao apresentar um número maior de expressões interpretativas e menos expressões informativas.
TABELA 8
Freqüência das expressões dos locutores por função (porcentagem)*
|
Função |
Julho
1995
|
Novembro
1995
|
TOTAL PRIMEIRA FASE |
Abril
1996
|
Agosto
1996
|
TOTAL
SEGUNDA FASE
|
|
Informativa
|
85.0 |
94.9
|
89.8
|
71.0
|
81.8
|
75.5
|
|
Interpretativa ou Interpretação Indireta |
15.0 |
5.1 |
10.2 |
29.0 |
18.2 |
24.5 |
|
Total
|
100% (n=20)
|
100% (n=39)
|
100%
(n=59)
|
100% (n=31)
|
100% (n=22)
|
100%
(n=53)
|
* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Número total de expressões dos locutores: 112.
Pearson Chi-Square: 4.09 (p< .05). O valor se refere somente às colunas da primeira e da segunda fase.
Outro aspecto relacionado ao papel ativo dos apresentadores se refere às expressões que apresentaram os argumentos finais em cada notícia. Em outras palavras, é importante investigar quem foi o último locutor a aparecer na notícia, já que o último a falar geralmente oferece algum tipo de conclusão ou interpretação. Se considerarmos as 66 notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais que apresentaram mais de um locutor, o crescente papel ativo dos apresentadores ficará ainda mais claro. A Tabela 9 apresenta a freqüência dos locutores que apresentaram os comentários finais nas notícias. Os resultados são altamente significantes (p<.00) e impressionantes. Os dados demonstram que após a saída de Cid Moreira se tornou praticamente uma regra que o apresentador é o responsável pela apresentação dos comentários finais das notícias. Repórteres nunca concluíram as notícias na segunda fase, comprovando o papel mais ativo dos apresentadores.
TABELA 9
Freqüencia do último locutor em cada notícia (porcentagem)*
|
Último Locutor |
Julho
1995
|
Novembro
1995
|
TOTAL PRIMEIRA FASE |
Abril
1996
|
Agosto
1996
|
TOTAL
SEGUNDA FASE
|
|
Apresentador
|
14.3
|
36.0
|
28.2
|
93.3
|
83.3
|
88.9
|
|
Outros
(Repórter, sonora ou comentador). |
85.7 |
64.0 |
71.8 |
6.7 |
16.7 |
11.1 |
|
Total
|
100%
(n=14)
|
100%
(n=25)
|
100%
(n=39)
|
100%
(n=15)
|
100%
(n=12)
|
100%
(n=27)
|
* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Número total de notícias: 66 (notícias com apenas um locutor foram excluídas). Pearson Chi-Square: 23.588 (p< .000). O valor se refere somente às colunas da primeira e da segunda fase.
c) A forma das notícias
A hipótese do estudo também afirmava que a mudança de apresentadores do Jornal Nacional levaria a uma cobertura política mais plural. No que se refere à noção de pluralidade, o objetivo era o de investigar se as notícias adotariam formas mais abertas e menos restritas após a saída de Cid Moreira. Os dados apresentados na Tabela 10 mostram que o Jornal Nacional seguiu esta tendência. Houve um declínio no número de notícias com uma forma restrita (onde apenas uma interpretação é apresentada) e um aumento no número de notícias com uma forma plural-aberta (onde várias interpretações são apresentadas e nenhuma é preferida). Portanto, a análise de conteúdo indica um movimento na direção de uma cobertura mais plural após a saída de Cid Moreira. Por outro lado, houve um aumento no número notícias episódicas que não apresentaram interpretações e basicamente se limitaram a relatar algum fato ou evento. Notícias "factuais" constituíram a grande maioria das notícias de todas as edições analisadas (57%).
TABELA 10
Freqüência das notícias por forma (porcentagem)*
|
Forma |
Julho
1995
|
Novembro
1995
|
TOTAL PRIMEIRA FASE |
Abril
1996
|
Agosto
1996
|
TOTAL
SEGUNDA FASE
|
|
Restrita
|
33.3
|
25.6
|
28.8
|
10.7
|
21.7
|
15.7
|
|
Plural-Fechada |
14.8 |
17.9 |
16.7 |
21.4 |
4.3 |
13.7 |
|
Plural-Aberta
|
0
|
2.6
|
1.5
|
7.1
|
8.7
|
7.8
|
|
Episódica |
51.9 |
53.8 |
53.0 |
60.7 |
65.2 |
62.8 |
|
Total
|
100% (n=27)
|
100% (n=39)
|
100%
(n=66)
|
100% (n=28)
|
100% (n=23)
|
100%
(n=51)
|
* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Número total de notícias: 117.
Gamma: .237 (p< .13). O valor se refere somente às colunas da primeira e da segunda fase.
Todavia, os resultados da Tabela 10 não são estatisticamente significantes (p<.13). Portanto, mais dados são necessários para investigar se a cobertura de temas políticos, econômicos e sociais pelo Jornal Nacional realmente se tornou mais plural e mais episódica. Se estas tendências se confirmarem em novas pesquisas, algumas questões precisam ser esclarecidas. Por exemplo, como explicar que uma presença maior de interpretações no noticiário da Globo foi acompanhado por um aumento da cobertura "fatual", mais característica de um jornalismo objetivo? A ênfase em notícias episódicas pode ser parte da estratégia da emissora no sentido de ultrapassar sua imagem negativa. Ao concentrar a cobertura em "fatos" o telejornal evitaria a apresentação de notícias restritas que tendem a apresentar apenas o ponto de vista do governo federal, reforçando a imagem negativa e "governista" do Jornal Nacional entre sua audiência.
d) Sonoras
Outro tema relacionado às consequências da saída de Cid Moreira para o conteúdo do Jornal Nacional se refere ao peso de fontes e pontos de vista do governo federal na cobertura de temas políticos, econômicos e sociais. Para investigar a hipótese de que a mudança levaria a uma cobertura menos centrada no governo, foi proposto verificar se o número de sonoras com fontes fora da esfera do governo federal aumentaria após a mudança de apresentadores.
As sonoras são os segmentos das notícias de um telejornal que apresentam alguém falando (Hallin, 1994, p. 133). Estes segmentos referem-se às partes do noticiário que apresentam a fala de pessoas que não pertencem ao quadro de pessoal da emissora (políticos, expertos, pessoas comuns, etc.). No caso dos Estados Unidos, a tendência histórica de uma diminuição do tempo médio das sonoras (de mais de 40 segundos na década de 1960 para menos de 10 segundos na década de 1980) tem sido interpretada como expressão do processo pelo qual o noticiário passou a ser cada vez mais mediado ou comandado pelos jornalistas (ibid., pp. 133-152). O fato de que "outsiders" têm geralmente menos de dez segundos para expressar suas idéias nos telejornais tem importantes implicações para a natureza do discurso político. A curta duração das sonoras indica que os jornalistas são os responsáveis pela construção da unidade e do significado da estória de cada notícia. Os políticos podem ter suas interpretações apresentadas pelo noticiário, mas eles ou elas dependem de como a notícia é "empacotada" pelos jornalistas para garantir que suas interpretações irão prevalecer. Portanto, a presença de uma pessoa no noticiário não garante que sua interpretação será aceita ou avaliada positivamente. Todavia, a classificação das sonoras de acordo com a pessoa que aparece falando é uma importante variável para a verificação do peso de diferentes fontes no processo de elaboração do noticiário de televisão.
A análise de conteúdo registrou a presença de 143 sonoras nas 117 notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. A duração média das sonoras foi de 9,47 segundos. A Tabela 11 apresenta a classificação de todas as sonoras de acordo com a pessoa que aparece falando.
TABELA 11
Freqüência das sonoras (porcentagem)*
|
Pessoa na
Sonora
|
Julho
1995
|
Novembro
1995
|
TOTAL PRIMEIRA FASE |
Abril
1996
|
Agosto
1996
|
TOTAL
SEGUNDA FASE
|
|
Fontes Oficiais (Presidente, Ministro, Burocratas)
|
36.4
|
20.5
|
27.3
|
18.4
|
17.9
|
18.2
|
|
Membro do Legistativo,
Judiciário ou Político
|
24.2
|
27.3 |
26.0 |
0 |
0 |
0 |
|
Cidadão comum
|
33.3
|
43.2
|
39.0
|
68.4
|
57.1
|
63.6
|
|
Outros |
6.0 |
9.1 |
7.7 |
13.2 |
25.0 |
18.2 |
|
Total
|
100%
(n=33)
|
100%
(n=44)
|
100%
(n=77)
|
100%
(n=38)
|
100%
(n=28)
|
100%
(n=66)
|
* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Número total de sonoras: 143.
Pearson Chi-Square: 25.761 (p< .000). O valor se refere somente às colunas da primeira e da segunda fase
Os dados comprovam a hipótese sobre o declínio de fontes governamentais e os resultados são altamente significantes (p<.000). A freqüência de fontes oficiais do governo diminuiu progressivamente entre a primeira e a quarta série, de um total de 27% das sonoras na primeira fase para 18% na segunda. Outra mudança importante com relação às sonoras tem a ver com o desaparecimento de membros do Congresso, do judiciário e de políticos que não são membros do governo federal depois da saída de Cid Moreira. Tendo alcançado 26% do número de sonoras da primeira fase, estes políticos não aparecem depois da mudança. Esta é outra indicação da diminuição da cobertura de temas políticos pelo telejornal. A segunda mudança mais importante tem a ver com o aumento da participação de "cidadãos comuns" no noticiário. Esta alteração nas fontes das notícias do Jornal Nacional sugere um movimento em direção a uma cobertura "populista" e menos política. É importante também ressaltar a rara presença de membros de organizações não-governamentais e sindicalistas, que foram responsáveis por apenas 3% do número total de sonoras. Por outro lado, empresários e profissionais liberais (doutores, advogados, expertos) foram responsáveis por mais de 10% das sonoras. Estes números indicam uma virtual ausência da sociedade civil na cobertura jornalística do Jornal Nacional e uma ênfase maior em grupos sociais e profissionais mais privilegiados.
Conclusões
A mudança de apresentadores do Jornal Nacional teve importantes conseqüências para a forma como o telejornal representa temas políticos, econômicos e sociais. Portanto, a substituição de Cid Moreira não significou apenas uma mudança na forma do telejornal, mas também em seu conteúdo. A análise de conteúdo confirmou a hipótese principal do estudo: o "novo" Jornal Nacional se caracteriza por um papel mais ativo e interpretativo dos apresentadores e por uma cobertura mais plural e menos baseada no governo federal, apesar de que os resultados sobre "pluralidade" não são estatisticamente significantes. A análise também demonstrou uma tendência no sentido de um tipo de jornalismo com menos cobertura de temas políticos e mais ênfase em criminalidade, violência e variedades. O declínio no tempo dedicado a assuntos políticos tem implicações complexas para o processo político. Para entender as razões destas mudanças é necessário considerar o papel da Rede Globo nas últimas décadas da política brasileira. A emissora pode estar diminuindo a cobertura de temas políticos para evitar os freqüentes conflitos com sua audiência devido à sua cobertura jornalística governista.
Como vimos, importantes mudanças tiveram lugar na televisão brasileira no período em consideração (1995-1996). Todavia, não está ainda claro se estas mudanças têm um caráter mais permanente ou foram apenas momentâneas. A Rede Globo pode ter retornado à sua cobertura mais parcial e passiva quando a conjuntura política do momento indicou a necessidade de intervenção política. De acordo com um crítico de televisão, as mudanças no Jornal Nacional foram positivas, mas a emissora logo retornou ao velho padrão de favorecimento do governo federal, como demonstrado por sua cobertura de um novo escândalo em 1997 envolvendo o presidente Fernando Henrique [Fernando de Barros e Silva, "O ‘JN’, o PFL e o x da questão", Folha de S. Paulo, 25/5/97]. Novas investigações são necessárias para verificar se as mudanças identificadas neste artigo têm um caráter mais permanente.
Para compreendermos melhor as práticas jornalística das emissoras de televisão necessitamos novos enfoques teóricos que levem em consideração suas relações com processos e instituições políticas. O presente estudo tem por objetivo contribuir neste sentido ao ressaltar os vínculos entre as mudanças no Jornal Nacional e a nova estratégia política da Rede Globo. Em particular, ele sugere que a história política de um país e o papel que os meios de comunicação tiveram no passado podem ser fatores fundamentais para a compreensão das mudanças que têm lugar nas práticas jornalísticas. Redes de televisão como a Globo podem perder credibilidade frente a audiência se insistirem em apresent |