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MOSAICO PERSPECTIVAS Fernando Ribeiro Passarelli Durante esta década o jornalismo pode estar se despedindo de sua condição de "ciência", educação superior, para existir apenas no ramo do ensino técnico. Quando isto ocorrer, a culpa pelo extermínio das escolas de comunicação deverá recair sobre a velocidade da renovação do conhecimento e à segmentação da informação. Os primeiros sinais dessa alteração apareceram diretamente nas redações, que nos últimos anos desistiram de abraçar bairros, cidades e países com a mesma atenção. O mundo, deixaram de atendê-lo há muito, desde que as agências de notícia revelaram o baixo preço e a extensão de sua cobertura. E as editoras, cansadas de tentar mostrar tudo a todos, partiram para a especialização. Nesse confronto mercadológico (a lei da oferta da notícia e da procura da notícia), os profissionais exclusivamente habilitados em comunicação não estão percebendo que vão desaparecer. Nos próximos vinte anos o jornal de papel pode ainda não haver deixado nossas bancas para felicidade dos açougueiros e dos nossos cães , contudo o profissional qualificado unicamente como bacharel em comunicação estará à disposição das agências de emprego, ao lado dos datilógrafos, caixas bancários e metalúrgicos. Da especialização ao jornalismo pela técnica Tudo pode haver começado ainda no Velho Mundo, talvez com os suplementos de esporte. Ninguém imaginou a conseqüência, dentro da separação de algumas notícias, das demais partes do jornal, de acordo com fatias do mercado, ou melhor, parcelas do público. Hoje há uma dezena de revistas destinadas apenas às meninas adolescentes, que concorrem por um lugar entre o livro do cursinho e a agenda gorda de recordações. Dos cultivadores de bonsai aos apreciadores de um bom vinho, não há quem não encontre em uma banca pelo menos um título que lhe agrade. Por trás desta indústria da informação especializada há uma centena de redações pensando e falando da forma como os membros de sua tribo o fazem. "Bonsainês" ou "vinholês", como for. A empresa de jornalismo não dispõe de tempo suficiente para adaptar um "foca" ou um profissional da cobertura diária ao formato e conhecimento exigidos de cada revista, jornal ou canal de televisão. Para compreender esse processo é necessário levar em consideração que a preferência do público por determinado assunto pode começar, amadoristicamente, por jornais undergrounds ou pela proliferação de sites e homepages sobre o tema na internet (coleções de cadeiras com encosto, por exemplo). Dessa preferência podem surgir provedores exclusivos (www.cadeira.com/encosto) e até redes específicas, dentro de poucos anos. Lentamente vão aparecer revistas sobre cadeiras de encosto, jornais de fã-clubes e canais de TV a cabo sobre o assunto. Habilitar um profissional para aprender sobre este universo e corresponder às expectativas do público à altura é distante e caro para as empresas produtoras de jornal. A solução mais viável para a facção do mercado que emprega é oferecer esta vaga a um bom conhecedor do assunto, dotando-o de noções básicas de jornalismo através de um curso intensivo. Quem "perdeu" quatro ou cinco anos de sua vida estudando em uma das faculdades exclusivamente de comunicação terá de enfrentar a falta do conhecimento específico, que de mais valia passou a essência, e concorrer com profissionais "criados" para aquelas funções. Este fato já ocorreu em outras áreas, entre formandos em cursos especializados e graduandos universitário, como técnicos em química e químicos, programadores e bacharéis em processamento de dados, instrutores infantis e professores de educação física e técnicas em secretariado e secretárias executivas diplomadas. Os anos de aprendizado em teorias da comunicação, técnicas de reportagem e entrevista e ética profissional seriam ignorados por esses novos "técnicos" em comunicação. De "ciência" que trabalha a informação como objeto de pesquisa e divulgação, o jornalismo pode passar à posição de ferramenta colocada ao serviço da divulgação. O distanciamento que as teorias de comunicação mantiveram da sociedade e dos próprios alunos assinou sua extinção, pela arrogância ou ignorância de quem as administrou em sala de aula. Ao recém formado em engenharia que se dispuser a trabalhar na imprensa especializada neste assunto bastará saber a diferença entre quem escreve e quem lê / vê uma mensagem. Nada de Pierce, Mattelart, Kristeva, Eco e, nem ao menos, Berlo. Sobre a prática da reportagem não haverá muito o que se aprender nesses cursos técnicos, mediante a capacidade dos computadores de trazer para o diretório de matéria informações sobre o assunto na internet e nas futuras infovias até daquela ainda não inventada que funcionará não pelo viciado sistema de ícones. As orientações básicas permanecerão confinadas em um CD-Rom auto-explicativo e em um manual de backup: "nunca confie totalmente em um só webmaster, apure o assunto em mais de uma home-page", "grave tudo em seu winchester", "quando fizer a entrevista digital, avise o usuário que se trata de uma montagem", "deixe o mesmo espaço em bytes para as duas versões, com carregamento simultâneo", "desconfie do nickname" e, é claro, "nunca fale mal dos anunciantes do site eles são poucos". No que diz respeito ao controle exercido pela empresa de informação, o professor Thomas Skidmore, diretor do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade Brown, em Rhode Island (EUA) é mais pessimista. Ele afirma que, em breve, essa ação da empresa sobre o produto jornal crescerá de tanto que "os interesses (...) vão induzir a opinião dos jornais, vão invadir de forma muito mais vigorosa do que até hoje sua área de atividade" [entrevista concedida concedida a Mauro Malin para o Observatório de Imprensa, www.observatoriodaimprensa.com.br, 20/6/97]. Skidmore afirma que o sinal dessa mudança é a substituição das famílias tradicionalmente proprietárias de empresas de comunicação por grupos interessados na operação como negócio. Com a tradição familiar sendo substituída no início da cadeia da informação, a primeira reverberação da metamorfose editora-empresa ocorrerá nas redações. Como na indústria, ficarão os mais rápidos, baratos e conformados, sem paternalismo ou tradição. As empresas informativas passarão a investir em recursos humanos e qualidade ética. Mesmo que a aposentadoria do jornalismo em escolas de ensino técnico toma a próxima década, ainda assim haverá a possibilidade de a consolidação da ética profissional não ocorrer. Diante da política da inarbitrariedade que se propõe pela grande rede (veicula-se o que quer ; quem não suporta que não leia), não há perspectivas da organização de um conjunto de sanções legais suficientes para punir aqueles que não sabem gozar da cyberliberdade. Alguns colocam suas fichas na ética individual aperfeiçoada por um futuro processo de desenvolvimento de cidadania e visualizam um sistema desorganizado de procedimento perante as novas tecnologias. Como jornalista, não veicularei, portanto, o endereço eletrônico do personagem acusado em minha matéria, conforme orientação de meu editor, mas fornecerei dados suficientes para que até um adulto consiga localizá-lo pelos sites de investigação corretos. Além de ferramenta, o produto jornalismo estará passando a ser apenas suporte para um empreendimento maior, não justificando sua manutenção como "ciência". Corre desde já o risco de funcionar somente como suporte para atividades superiores, do marketing à propaganda política. Mercado de trabalho O crescimento do mercado jornalístico não representa, necessariamente, o crescimento do mercado de trabalho jornalístico. A imprensa segmentada passa a receber profissionais mais habilitados provenientes de outras áreas, mediante os "banhos" de jornalismo oferecidos pelo ensino técnico, e deixa aos profissionais de comunicação não-preparados para este ramo de atuação a cobertura genérica dos fenômenos. O crescimento da nova mídia que pretende aglutinar computador / TV a cabo / rádio / imprensa escrita pode consolidar o mercado segmentado de tal forma que seja necessária a atuação de alguns veículos em caminho inverso, de forma globalizada, para informar aos demais usuários o que está ocorrendo em cada "tribo". Assim, haverá revistas sobre as revistas, sites, canais e estações de assuntos específicos para os leitores que não conhecem ritos desse universo social a fundo. Não é preciso saber tudo que ocorre na sua "tribo" preferida, apenas ver o "resumo da semana". Já os títulos unicamente de assunto geral, que tentam abraçar a todos os ramos do conhecimento, podem enfrentar dificuldades. É Skidmore que confirma o veredicto : "o ensaísta geral, um homem de sabedoria capaz de escrever sobre qualquer assunto, já se tornou um dinossauro". Requisitando para o jornalismo do próximo século a definição que Walter Clark faz da nova televisão, "uma donzela se oferecendo aos mancebos que tenham a ousadia de seduzi-la" [Clark, Walter. O Campeão de Audiência Uma Autobiografia, com Gabriel Priolli. Editora Best Seller, São Paulo -SP 1991. p. 417 ], compreenderemos as adaptações às quais o mercado da informação se submete para atender as necessidades do público. O desejo de um público, faminto sobre o assunto Y, é atendido prontamente pela imprensa. Nessa satisfação, só sobrevive o veículo que conseguir falar a linguagem que seu público quer, na velocidade ideal. No início do século, conforme o conhecimento intelectual daqueles que liam a imprensa diária, inaugurou-se a barganha da informação com entretenimento pelos "fascículos" dos folhetins de Machado de Assis. Nessa década, pela capacidade intelectual de quem lê jornais pode-se, no máximo, oferecer coleções de vídeo que não levam mais do que 100 minutos para serem digeridas ou os resumos explicativos das mesmas obras do início da imprensa. Machado de Assis light, pulp. O isolamento social causado pela violência urbana e falta de subjetividade entre as pessoas está se refletindo na segmentação dos meios. Escreve-se para um leitor que habita seu próprio universo, solitário, sem perspectivas de vida comunitária ou de mudança. "Na era da pós-informação, o público que se tem é, com freqüência, composto de uma única pessoa", profetiza Nicholas Negroponte. "Tudo é feito por encomenda, e a informação é extremamente personalizada. uma teoria amplamente difundida afirma que a individualização é a extrapolação do narrowcasting parte-se de um grupo grande para um grupo pequeno; depois, para um menor ainda; por fim, chega-se ao indivíduo." [Negroponte, Nicholas. A Vida Digital, Companhia das Letras, São Paulo, 996. pp.157-158] Para compreender tal indivíduo somente um comunicador com atitude e conhecimento profissional semelhante. As empresas jornalísticas, assumindo seu papel de indústria de comunicação, passam a trazer para as salas de redação os mesmos procedimentos adotados nas linhas de montagem das metalúrgicas. Assim, além do comportamento controlado por manuais de conduta, estipularão os prazos para o encerramento das edições com base nos prazos industriais, e não noticiosos. A TV e o rádio só ganharão pela instantaneidade de veiculação se não estiverem tão amarrados à questão da especialização quanto a imprensa escrita. Perdidos numa selva de canais e estações, como alcançarão o imediatismo se o seu público não fôr o suficiente no momento ? E se não há a quem oferecer o imediatismo, porque anunciar alí ? E se ninguém anunciar alí.... Uma teoria contra a linguagem de sinais Ao jornalismo caberá a responsabilidade de decidir não apenas pelo futuro da cobertura escrita, mas também da sobrevivência da própria palavra. A linguagem verbal pode estar ameaçada de ser substituída por um conjunto de ícones que lhe representem o sentido. Roberto Pompeu de Toledo recorda os temores do Lorde Thomson of Monifieth, "incomodado com o pensamento de que a humanidade (...) começou magnetizada pelos desenhos nas paredes da cavernas e terminou magnetizada diante das figuras de alta definição nas paredes onde se embutem os aparelhos de televisão" [Veja, 25 de junho, 1997, nş 1.501, Editora Abril, São Paulo. p. 126 ]. Para Toledo, "a desvalorização da comunicação escrita, em nosso tempo, começa numa banalidade como as portas dos toaletes e culmina neste símbolo do século que é o culto das conquistas tecnológicas". "Ora", prossegue, "conquista por conquista, continua insuperável, no mesmo ramo das comunicações, em primeiro lugar a invenção de um língua comum, em cada determinada comunidade, e em segundo a reprodução dessa língua em signos escritos". Quem apostava que a popularização da comunicação e correspondência eletrônicas (chats / IRCs e e-mails) trouxesse consigo um novo fôlego para a comunicação escrita se decepcionou diante dos subterfúgios iconográficos criados para facilitar a comunicação e expressão de sentimentos. Assim, "você" perdeu metade de sua letras (vc) e muito mais em inglês (u = you), bem como os estados de espírito ficaram restritos à combinação de dois ou três sinais que, de tão pouco que usávamos, corriam o risco de desaparecer. [Pontos, parênteses e chaves ganharam nova utilidade ao se combinarem em :-) para alegria, :-D para felicidade, :-[ para indiferença e muitos outros símbolos. Para compreender a lógica disto basta inclinar a cabeça para a direita e observar os rostos que aparecem.] Teorizamos que o caráter do texto jornalístico na comunicação digital ainda vai permanecer, na próxima década, fundamentado na concisão. Os títulos e olhos (linhas-finas) deixarão de existir como organizadores de idéias ou slogans, sendo substituídos pelos leads da matéria. Se o usuário não pretende se deter diante do computador por tempo suficiente para ler uma grande informação, muito menos uma combinação encadeadora de fatos que já estão escritos abaixo. O novo formato de texto, portanto, será introduzido por um "título" de até duas dezenas de palavras com informações essenciais do assunto. Sob esta elucidação estarão até três convidativos parágrafos que podem nutrir o leitor com aquilo que deseja saber. Nestes parágrafos, pelo menos um terço das palavras ou orações devem estar relacionadas a informações complementares, em hipertexto, em páginas posteriores. Quem se interessar em saber mais sobre determinado aspecto de uma cobertura deverá clicar sobre a palavra correspondente para ler (ou ouvir) a íntegra de uma entrevista, opinião de um personagem, detalhe posterior do caso, defesa do lado acusado, gráficos, fotos ou mesmo a opinião do veículo. Ao condenar a técnica da produção da notícia pelos processos de seleção e exclusão, que culminaram no que se conhece hoje por "pirâmide invertida", o professor Belarmino Cesar G. da Costa, coordenador do curso de jornalismo da Unimep Universidade Metodista de Piracicaba justifica-se pelo prejuízo de uma "ruptura na linearidade temporal dos fatos, configurando a notícia sempre como uma construção parcial da realidade". [Costa, Belarmino Cesar G. da. "Jornalismo Impresso: Conceito de Notícia e a Técnica de Fetichização dos Fatos", in A Opinião do Jornalismo Brasileiro, por José Marques de Melo (org.), Editora . Vozes, Petrópolis, 1994] Quando transportamos esse vício para o jornalismo do novo meio digital, teremos então um mosaico de fatos, cuja visão total estará não apenas fora do campo da construção semântica do texto, mas fora também do campo visual, em janelas que necessitam ser selecionados para que venham a aparecer. É o isolamento social que chega a ser refletir na organização do texto. A composição semântica deverá sucumbir à organização técnica, imprescindível à compreensão do leitor. Reafirmando o que dissemos no início, fica de lado a superioridade do conhecimento, a "ciência" da informação, para haver apenas a técnica de disposição dos fatos conforme o público pode entender e a máquina relacionar. (*) Trabalho apresentado à disciplina Jornalismo, transição e desafios no limiar de um novo século, no curso de pós-graduação da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero | ||