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MOSAICO

COBERTURA
Imprensa paulista e Mercosul

 

José Angel Teran (*)

O tratamento dado ao Mercosul pela imprensa escrita do país permite tanto situar o significado desta integração regional quanto revelar as posições assumidas pelos jornais. Mais interessante ainda é buscar pistas para aprender como a imprensa paulista – Folha de S. Paulo (FSP) e O Estado de S. Paulo (OESP) – se posiciona ante o Mercosul.

Pesquisa realizada em 1996, ano relevante na formação do Mercosul, permitiu mapear alguns temas recorrentes na cobertura diária que a imprensa deu à integração regional do Cone Sul. De imediato verificaram-se grandes semelhanças entre o tratamento dado pela Folha de S. Paulo e pelo O Estado de S. Paulo. Seguem-se os temas tratados:

Integração Regional

Ao analisarmos a variável "Tipo de Estado reivindicado", percebemos que nas categorias "Mercosul" e "Políticas Governamentais" a tendência que prevalece é a de um Estado forte comandando a inserção do Brasil no mundo. Ao considerar a categoria "Empresariado", percebem-se divergências entre os dois jornais: enquanto a FSP reivindica, na maioria de seus artigos, um Estado mínimo, OESP reivindica um Estado forte.

Ambos os jornais são favoráveis ao Mercosul (sem restrições), e também às categorias "Políticas Governamentais" (FSP apresenta maior rejeição que OESP a esta categoria), "Privatização", "Empresariado" e "Globalização". Podemos afirmar que as coincidências de posicionamento se verificam em 90% das matérias analisadas. Aqui novamente pode-se avaliar que o apoio a cada categoria está baseado no apoio ao governo, ou ao seu projeto estratégico.

A coincidência de posicionamento entre OESP e FSP se dá, entre outros motivos, pelo fato de que os dois jornais apóiam o Mercosul, mesmo que às vezes levantem restrições às políticas de integração. O apoio se deve, principalmente, ao fato de que o Brasil exerce a liderança econômica no bloco regional: isto significa apoiar empresários e governo – agentes que conduzem o processo de integração regional.

No plano político, o apoio dado pela imprensa ao Mercosul, entre outros motivos, obedece à pretensão de o Estado brasileiro disputar com os Estados Unidos a liderança política na América. Neste sentido, verifica-se que enquanto o Brasil prefere um Mercosul forte para melhor negociar na Alca, os Estados Unidos propõem negociações bilaterais.

Os autores

Na FSP, são os integrantes do governo que mais escrevem sobre o tema; no OESP são os acadêmicos.

Isto reflete um leque enorme de autores que respondem a uma certa democratização de acesso aos discursos na imprensa. Mas sindicalistas e políticos de oposição, seja porque não tinham políticas definidas para dar respostas ao processo de Integração Regional (em 1996), seja por enfrentarem dificuldades em ter mais espaço na imprensa analisada, ficam sempre como os que menos apresentam textos sobre os temas tratados. Devemos ressaltar que a heterogeneidade de discursos veiculados sobre a integração regional se deve às modificações que sofrem diferentes agentes com as novas situações no âmbito espacial e institucional.

O novo papel da imprensa e suas transformações

Hoje a imprensa é vista como parte de um processo complexo de informação global, que é parte de um sistema múltiplo e simultâneo de comunicações que perpassa localidades, regiões e países. Apesar do deslocamento do eixo de importância da mídia escrita para a televisiva, principalmente aqui no Brasil, a primeira soube adequar-se ao avanço dos meios de comunicação, aproveitando a vantagem da permanência da notícia como fonte de consulta perdurável e de fácil acesso, mas também como referência para a formação de uma opinião pública mais apurada, em contraposição ao efêmero da TV. O jornalismo investigativo e o aprofundamento de alguns temas deram à imprensa a possibilidade de ocupar espaços que a desmobilização da sociedade civil oferece, além de tomar para si a representatividade que a fragilidade da política partidária deixa escapar.

Outro parâmetro que põe em evidência a imprensa escrita é a importância do processo decisório político em relação à integração regional. Neste caso, a imprensa se impõe através de jornais e revistas especializadas ou não, pois o espaço de debate procurado pelos agentes econômicos, políticos e outros se desenvolve, na sua maioria, mais profundamente neste tipo de mídia. A constatação de indicadores e de unidades de registro comuns em ambos os jornais estudados mostra a padronização de textos, seja pela utilização de manuais de redação, seja pela homogeneidade das fontes utilizadas no atual complexo de meios de comunicação (provedores). O estilo que antigamente caracterizava os textos, hoje, por causa das padronizações, não tem espaço na imprensa escrita analisada. Outra mudança se dá no caráter empresarial que hoje caracteriza os jornais. Neste caso da instituição empresarial, o que realmente preocupa, na atualidade, são o leitor e o anunciante

Podemos observar que os jornais não se guiam mais pela ação política ou ideológica para mudar forças sociais, reeducar as massas ou outras bandeiras. Atualmente, a tendência é atender às necessidades de um mercado totalmente fragmentado, em que o consumidor e o anunciante são cada dia mais fortes. Nosso estudo mostra a tendência de similitude de FSP e OESP, apesar da costumeira opinião de que esses jornais se situam em posições contrárias.

(*) Mestre em Ciências Sociais e integrante do Neamp (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política) da PUC/SP

 

ARTE & CULTURA
A inteligência puramente
musical de Caetano Veloso

 

J. D. Borges

Muitos são os que se abstêm de opinar, de se mostrar, de aparecer – a fim de poupar sua obra e seu público de falsas interpretações, de mal-entendidos e de julgamentos macarrônicos em torno de sua produção intelectual e artística. Não admitem uma pseudo- analogia, entre o que falam e o que realizam. Não suportam pré-concepções do que virão a fazer – a partir de declarações pretéritas ou futuras. Não têm, em suma, paciência para vir a público e explicar suas obras (evitando, de quebra, emitir palpites infelizes sobre os últimos acontecimentos).

Há também, como não poderia deixar de ser, um outro time. Time daqueles que entram em cena, a toda e qualquer hora, sendo ou não requisitados. Como representantes autoproclamados de seu auditório, ávidos por publicidade, sentem-se no direito – e no dever – de posicionar-se frente a todo e qualquer abalo sísmico.

Num tempo de notícia pré-fabricada, como o nosso, muitas são as mudanças de maré – algo que garante, ao oportunista falastrão, muito assunto. Prefere, em geral, política (em que cabem arroubos de populismo, temperados com bravatas de grande efeito). Política seguida de questões sociais, morais, pessoais, religiosas, econômicas, ou o que vier. E como não consegue ser oráculo e nem pessoa humana (ou realizador) ao mesmo tempo, acaba tropeçando na própria língua, disparando inconsistências e revelando, aos mais experimentados, todos os seus truques e todas as suas falhas de argumentação. Inevitavelmente.

Caetano Veloso é mestre nisso. Outro dia, quebrou, na Folha de S. Paulo, um recorde seu –numa modalidade em que já é invicto: a entrevista. Dentre uma série de temas, tratou, claro, do recorrente Tropicalismo. O Tropicalismo foi um movimento cheio de definições vagas, cuja tônica (preservada a duras penas) prega a reciclagem do mau gosto através da sofisticação e do estilo de quem se considera acima do popularesco típico. Como do auge do Tropicalismo só restou um álbum – que prima mais pelo elenco que reúne do que pela música "engajada" propriamente dita –, Caetano Veloso, na falta de seguidores ou discípulos, costuma rotular toda e qualquer manifestação mais tendente ao piegas, ao popular, ao hit parade como tropicalista. Assim, credita a si próprio, e à Bahia (lógico), iniciativas bem-sucedidas na área – enquanto reserva aos seus desafetos, e aos outros estados "não-baianos" da Federação, a responsabilidade pelos dejetos e pelas merdices musicais que temos visto.

Assim, segundo o moço, o Samba nasceu lá na Bahia, a Bossa-Nova foi inventada por João Gilberto (notadamente um baiano), e a Axé Music (resultado da linha evolutiva da folia soteropolitana) não tem o que invejar dos clássicos do carnaval carioca (citadamente "Alá- lá-ô" e as marchinhas de Emilinha Borba) – ao passo que a degradante TV de massas veio de São Paulo, o "apartheid social e cultural" veio do Rio, e os sertanejos, imagina-se, de Minas Gerais. Do mesmo modo, foi Antônio Carlos Magalhães (o imperador da Bahia e, às vezes, também do Brasil) quem "animalescamente" pôs um ponto final na ditadura militar; o mesmo que, ultimamente, em nome da sociedade civil, vai redistribuir a renda do país.

Enquanto isso, Fernando Henrique Cardoso (uma alma paulista; às vezes, presidente do Brasil) só fez desqualificar Gilberto Freyre, junto com a USP – que tem a ingênua ambição de querer interpretar a Terra Brasilis. Como se não bastasse, Caetano Veloso completa: "Parece até que eu estou posando de bacana diante de vocês. Mas acho que muita gente que não é de São Paulo teve mais facilidade de sentir isso do que as pessoas daqui".

Animado, aproveitou a ocasião para criticar e rebaixar o mesmíssimo caderno cultural que lhe concedia aquele tempo e aquele espaço para falar: "Esse estilo que a Ilustrada comprou e que se disseminou pela imprensa brasileira é uma vergonha. Como é que isso é mantido pela grande imprensa brasileira?"

Que sujeito mais inconseqüente, mais inoportuno, mais cara-de-pau!

Quando é que o paulista vai deixar de ser paspalhão, e cortar as asas de ingratos e mal- agradecidos como Caetano Veloso? Certo (mais uma vez) estava Paulo Francis (um carioca) ao inesquecivelmente afirmar: "Os baianos invadiram o Rio para cantar ‘Ó, que saudade eu tenho da Bahia...’. Bem, se é por falta de adeus, PT saudações."

Inexplicável que se permita um aviltamento de tal porte. Caetano Veloso deveria se restringir ao seu ofício, hoje alquebrado, de cantor e compositor, poupando-nos de seus embustes literários e de seus raciocínios desrespeitosos e bairristas. Afinal, já vão três décadas de requentada MPB e de repetitiva e ultrapassada ideologia dos tempos de 1968. Vai, então, o presente conselho: Caetano Veloso, feche o bico – se não quiser acabar como tema de novela. Sozinho.



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