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A MARCHA DO TEMPO
CORREIO DA MANHÃ
O caso do Correio
e ocaso de um modelo
Alberto Dines

escolha da história do Correio da Manhã para servir de tema do programa de primeiro aniversário do Observatório da Imprensa na TV não foi casual. O certo seria dizer que a casualidade serviu de alavanca à causalidade, a "pauta" acionada pelo cotidiano.
Já revelei, de passagem, a etiologia da idéia antes mesmo que se convertesse em projeto num dos meus últimos textos na Folha de S.Paulo e que enfureceu a direção da redação ("Sob o Signo de Plutão", 30/1/99) (veja remissão abaixo). Desde março de 1998, quando começamos a montar o projeto do programa de TV, cada ida semanal à sede da TVE, na Avenida Gomes Freire, no Rio, obrigava-me a encarar aquele prédio-fantasma situado em frente: inteiramente vazio, de dia um estacionamento e, à noite, sob a marquise, dormitório do lúmpen urbano, bêbados e drogados, homens e mulheres desgarrados que fazem das ruas sua casa no centro das grandes cidades brasileiras.
Cada semana escancarava-se diante de mim uma grande matéria: o jornal brasileiro mais importante da primeira metade do século convertido em escombros. Asfixiado pelo regime militar, há 25 anos, o primeiro grande jornalão brasileiro não caiu apenas porque ousou enfrentá-lo: foi vitimado pela sua compulsão em ser protagonista. Não se contentou em noticiar, ser referência; queria ser um dos atores da cena política, de preferência o principal. Inclusive quando adiantou-se ao resto da grande imprensa aliada aos conspiradores para derrubar Jango.
Cada semana, o encontro com as ruínas do Correio da Manhã forçava comparações. A arrogância contemporânea de certos jornais e jornalistas, a opinião do patronato impondo-se altivamente à eqüidistância exigida pelos leitores, impunha essa remissão.
Como mencionei no fim daquele programa, o documentário exibido não tinha a pretensão de converter-se na história do Correio da Manhã – queria apenas ser uma contribuição para algo mais completo. Por falta de tempo e recursos, não obtivemos todos os depoimentos planejados, não focalizamos todos os ângulos e episódios, mesmos alguns mais recentes – como a jogada de um grupo de esquerda fascinada em apoiar a candidatura desenvolvimentista de Mário Andreazza, ministro dos Transportes do marechal Costa e Silva. Esse grupo lançou o Diretor Econômico, jornal dentro do jornal, incrível história de canibalização de uma empresa por intermédio de um de seus suplementos.
Lembrar o Correio da Manhã quase centenário é lembrar um dos paradigmas da imprensa brasileira. Com todas as suas virtudes e seus vícios.
Errata
Cometi durante o programa dois erros: na reportagem de abertura disse que o jornal foi fundado em 1904, quando todo o material colhido dizia que o foi em 1901. E no editorial, quando fiz as contas e informei que o jornal teria 95 anos – a idade certa seria 98 anos.
A coragem em papel jornal
Depoimento de Luiz Alberto Bahia – repórter, redator-chefe e editorialista do Correio da Manhã – ao repórter Cláudio Carneiro
"Eu cheguei ao jornal através de um amigo comum, meu e do Paulo Bittencourt, dono do Correio da Manhã. Esse meu amigo e protetor, por sorte, me indicou fazendo referência a um nome mágico no jornal: Urbano Berquor, um grande jornalista, principalmente na época da guerra. Quando fui apresentado ao Correio da Manhã tive a sorte de ter sido recebido com a deferência de que eu poderia ser o novo Berquor. O Paulo Bittencourt achou que sendo eu o possível Berquor, ele deveria me nomear."
O momento político
"Essa chegada coincidiu com o fim dos 15 anos do regime Vargas. A primeira reportagem de rua que eu fiz foi quando a abdicação foi imposta a Vargas e ele teve que deixar o Palácio Guanabara. A partir daí eu comecei a minha vida de repórter. Em seguida fiz toda a carreira: subsecretário, secretário, até ascender a redator-chefe, substituindo Antônio Callado."
Jornal da capital
"O Correio da Manhã tinha sede na capital da República e, à medida em que era jornal da capital, ele tinha uma visão nacional. Mas não era particularista: sua opinião não estava centrada nos interesses locais, apesar ter também cobertura local. Ele se sentia jornal nacional porque era jornal da capital com influência direta sobre o Congresso, o presidente da República e o Supremo Tribunal Federal. Todos os grandes jornais da época – Diário de Notícias, Diário Carioca, Jornal do Commercio – eram jornais que se sentiam nacionais principalmente por estarem na capital da República. Tinham força política nacional porque influíam sobre os atores da vida política brasileira.
"A singularidade do Correio da Manhã é que ele se afirmou como um jornal de combate, de crítica em várias campanhas – umas justas, outras injustas –, mas se tornou extremamente respeitado no país inteiro. Tinha uma posição singular na imprensa daquela ocasião, pois os jornais mais antigos estavam em processo de declínio e os mais novos estavam ascendendo. Os três grandes jornais opinavam e faziam opinião no Brasil inteiro."
Os inimigos do Correio
"O Correio da Manhã era um jornal do começo do século. Essa tradição manteve-se até a época do Callado, que vetou essa praxe de o jornal não publicar notícia do inimigo e ter um ‘ortografia’ calcada por certas idiossincrasias. Era famosa a história da ‘ortografia do Correio da Manhã", que influía na feitura, na redação e na apresentação do jornal. E é verdade: o nome do Juracy Magalhães, por exemplo, ou era execrado por escrito ou não era citado. Era uma velha briga, por circunstâncias particulares, e não políticas, entre o jornal e a personalidade baiana do Juracy.
"O jornal tinha idiossincrasias, raivas, personalizava e não tinha pudor em assim proceder. Tinha a consciência de que poderia fazer aquilo e fazia. O Callado corrigiu isso – foi uma das primeiras coisas que fez ao assumir a redação. Ele pediu ao Paulo Bittencourt que parasse com isso porque era anti-jornalístico, não era moderno. O nome do inimigo não podia ser ignorado."
Processo de modernização
"O Correio da Manhã era um jornal típico que se baseava em seus leitores restritos porque as tiragens eram sempre pequenas. Mas era um jornal feito pensando no leitor-consumidor. Houve uma transferência do ‘jornal do consumidor’, ao estilo daquela época, para o ‘jornal do produtor’. Naquela época, o herói do Brasil passou a ser o desenvolvimento econômico e a produção adquiriu predominância sobre o consumo. O jornal acompanhou essa fase assim como acompanhou a revolução tecnológica da imprensa com novas máquinas, nova impressão.
"Hoje o fator circulação é muito importante por causa da concorrência, que é muito grande. O fato da circulação impor-se no quadro do jornal começou naquela época. Para ver a diferença para um jornal de hoje, era raro uma quarta página – que era a página dos editoriais – que não tivesse alguma coisa defendendo o funcionário público. Hoje é diferente: a imprensa tende a diminuir a posição do funcionário para reduzir o déficit público.
"Eu vivi essa fase de transição que foi a fase em que o Correio da Manhã se aperfeiçoou tecnicamente e se modernizou. Eu participei muito dessa fase, primeiro como redator-chefe, depois como diretor. Mas o jornal guardou, acima de tudo, aquela singularidade: ‘Eu sou o Correio da Manhã’. Era uma coisa distinta dos outros, uma idéia pouco surrealista. Mas às vezes era afirmativo: o jornal tinha uma coragem habitualmente excepcional.
"O momento da posse de Jango, em 1961, caracterizou bem o Correio. Eu era redator-chefe. Em um momento que parecia que ele não tomaria posse, o Correio da Manhã e o Diário de Notícias tiveram uma postura de: ‘Toma posse, sim!’. O jornal foi apreendido, passou por períodos extremamente difíceis mas mostrou que era um jornal que enfrentava o poder."
O caminho da notícia
"Em geral, a notícia nacional chegava via telefone. Os recursos técnicos eram escassos, o teletipo ainda estava engatinhando. As agências de notícia tinham uma importância grande porque na guerra – e no pós-guerra – as notícias mundiais tiveram muito destaque. O Correio da Manhã tinha aquela postura: ‘Tudo que é internacional é na primeira página. O nacional, depois’. Já na minha fase, no pós-guerra, é que as notícia nacionais tomaram a primeira página."
Relação com a publicidade
"Na primeira fase do Correio da Manhã os classificados tinham grande importância e o anúncio de agência praticamente não existia. O Correio da Manhã tinha o seu quadro de agentes que batiam na porta das empresas para pedir anúncios – o jornal tinha seus clientes. A partir desta fase de modernização, o Correio da Manhã liquidou seu quadro de agentes a passou a vincular-se às agências. O peso do anúncio dos classificados diminuiu muito em relação ao anúncio vindo das agências. O Correio da Manhã tinha uma reunião semanal com importantes homens de publicidade, que se encontravam na sala da direção com o redator-chefe para transmitir à redação as posições do mundo comercial e industrial."
"Basta!" e "Fora!"
"O jornal teve editoriais extremamente fortes na linha tradicional do Correio. O "Basta!", já no final do jornal, era um ‘basta!’ repetido de outras épocas. Na crise da posse do Jango, o jornal tomou um alinhamento pela posse e aí publicou-se editoriais extremamente fortes na linha da legalidade. Ninguém assinava os editoriais: era ‘o jornal’ e eu era o responsável por eles."
SENHOR
Memórias de redação (*)
"De vez em quando, um sujeito formado em jornalismo aparece e vira para mim e diz: ‘Eu me lembro daquele artigo que você escreveu sobre o Spinoza na revista Senhor. Faço um sorriso modesto, encaro as sandálias dele, penso que mundo estranho este em que as pessoas se formam em jornalismo. O sujeito prossegue: ‘Que revista hem!’ Eu vou mais longe: ‘Ainda vou processar a Chauí por uso indevido’. Na verdade nunca escrevi uma única linha sobre Spinoza. Na verdade, tenho a maior dificuldade de me lembrar da revista Senhor. Não guardei nenhuma. Lembro pouquíssimo dela. O que eu me lembro mesmo é que foi meio frustrante e gostoso. Mas isso, como tudo mais, é opinião pessoal. Eu me lembro é do pessoal. Da redação. Restaurantes. A revista Senhor foi assim:
Em janeiro de 1959 eu tinha 23 para 24 anos, era chefe de redação da Norton Publicidade, ganhava 30 contos por mês. Fui checar na carteirinha de trabalho. Tá lá. A revista Senhor não assinou a carteira. É dado. Recapitulando: era chefe de redação, 9 às 5, mais dois frilas excelentes, duas agências. Master e Abaeté, que menores, não tinham condição de pagar um redator tempo integral. Então, na hora do almoço, ou depois do trabalho eu passava lá pegava os dados, fazia o texto das campanhas e faturava 15 milhas em cada uma. Lembro-me da campanha de lançamento de cigarros da Lopes Sá, para a Master. E dos livros da Civilização Brasileira, do querido Ênio Silveira, na Abaeté , onde o diretor de arte, frila também, era o Eugênio Hirsch, simpaticíssimo e que também fazia umas capas péssimas para a Civilização. Mas enfim o que eu queria dizer era o seguinte, 60 contos por mês era uma nota. Pra dar uma idéia: dava para comprar um carro novo por mês. Nada mau. Eu gastava tudo em disco importado e mulheres locais. Dinheiro bem empregado. Só que aos 23 anos todo mundo é idiota. Principalmente eu. Como eu tinha assinatura de revista americana e já lera uma porção de pocket books entrei numa crise existencial. Ou de identidade. Por aí. Foi quando o Paulo Francis, que já era meu amigo desde 1953, me perguntou se eu não queria ser redator de uma revista, tal de Senhor, uma mistura assim de Esquire, New Yorker e Playboy. Quanto pagam? Mal. Na minha cabeça, eram 17 milhas. Ridículo, perto do sessentão. Mas topei, já que era uma besta. Com cara íntegra (vocês não têm idéia do que é minha cara íntegra...) demiti-me da publicidade, a alma gargalhando e berrando, ‘Free at last, thank God All Mighty, free at last!’. Comecei, se não me engano, em março. Preenchendo a vaga deixada pelo redator anterior, Adirson de Barros, demitido depois de um ou dois números apenas, possivelmente por já ser informante do SNI antes mesmo da criação desse simpático órgão informativo. No número de maio eu já estava lá. Isso porque em abril morrera Billie Holiday e, antes, eu já escrevera matéria sobre a pobre da moça. Senhor foi pras bancas com ‘A Hora e a Vez de Billie Holiday’. Não era de todo uma josta. Tratava a cantora como já morta, previa como seria uma enganosa cinebiografia, com Dorothy Dandridge, Belafonte, coisa e tal. Não peguei fama de pé-frio.
Mas a revista? Como era a revista? Era na Travessa do Ouvidor, 22, um andarzão na sede da Editora Delta, empresários responsáveis por enciclopédias como a Larousse além de coleções, feito Nobel, Freud, esses caras. Eu me lembro dos dois irmãos Waissman, Sérgio e Simão. Simpáticos e finos. Possivelmente queriam o prestígio de uma publicação intelectual. Ou então pegar mulher. Não sei. Verdade é que chamaram o Nahum Sirotsky para fazer, ser editor-chefe da revista, e o Nahum que sabe das coisas, fez. Chamando o Francis para editor e o Carlos Scliar para direção de arte, assistido pelo esplêndido Glauco Rodrigues. Luís Lobo ficou com serviços, Jaguar com cartuns. Numa salona, trabalhava o Ivo Barroso para a enciclopédia, mas que traduziu muita coisa boa para a revista. Todas as capas, todas as ilustrações do Scliar eram de primeiríssima qualidade. Os serviços do Luiz Lobo eram ótimos principalmente porque na hora do almoço o que fizemos de pesquisa para dica de restaurante não estava no gibi, saía na Senhor. Me lembro de um restaurante em particular, na travessa dos Barbeiros, o Escondidinho. Nunca comi tão bem em minha vida. O ponto alto da revista, para este criado que vos fala, era o almoço. Oba! Epa! A casa Heim, Dirty Dick’s, o árabe da Senhor dos Passos, um porrilhão deles. O fotógrafo era o Chinês, o Armando Rosário. Formidável o Chinês. Posei muito para ele, para a revista, essa parte de serviços. Ilustrando uma matéria do Marcito Moreira Alves intitulada ‘Os Boas Vidas’. Eu em close com um chapeuzinho-esporte acendendo um cigarro por trás do volante do meu carro. Eu tinha carro, claro. Bonito, Mercury, duas cores, hidramático. Meus pés ilustrando umas meias xadrez, muito sobre o amarelo, no bar do hotel Miramar, aquele do posto Seis. Eu de longe com uma moça ao lado no saguão do Santos Dumont, ela com meu paletó. Era pra ilustrar paletós. A moça eu estava de olho nela, trabalhava no DAC. Foi pretexto. Não deu em nada. Quer dizer, deu – no melhor sentido possível – mas anos depois.
Que mais? Eu escrevi uma matéria sobre o conjunto vocal The Hilo’s. Outra sobre o LP do João Gilberto. Outra que era uma tremenda enganação sobre os Beats and Angry Young Men, que chamei de Os Cansados e os Zangados. Cozinhei tudo de uma porção de coisas de revistas importadas lá de casa ou da redação. Traduzi um conto do Thurber com um erro de redação deste tamanho. Imagina vocês, que, no contículo, ‘As Sete da Noite’, tem no original uma moça ‘lying in the sofá’ e, em português, eu taquei ‘mentindo no sofá’. Era o que eu achava de mulher, meu querido, me veio na natural, sorry. Teve também uma engraçada. Francis me deu um artigo do Sartre para traduzir. Sobre Berlim. Em inglês. Li e fiquei esperando. Aí Francis ou Nahum me cobraram a tradução. Cadê? Eu – olha só que paspalhão! Estava esperando o original em francês. E esta besta foi chefe de redação de agência de publicidade. Well, well.
Divertida , na revista, era uma sessão que o Lobo (‘Lobíferra Cretaturra’, como o chamava Scliar, que ciciava um pouco e arranhava os rr, assim feito a Clarice, de quem eu já vou falar logo, logo) criou, no começo, intitulada ‘Sr. e Cia’. Noticinhas curtas, com molho. Eu fiz algumas que não eram de jogar fora. Por exemplo: ‘Jeff Chandler vai se casar com Esther Williams. Bem feito pros dois’. Coisinhas assim. Pra mim, as ‘Dicas do Pasquim’ estão meio aí. Mas isso é besteira, forget it, deixa pra lá. Eu acertei mesmo foi com Jaguar. Embora, que me lembre nessa fase, não saiu nada. Talvez palpite num ou noutro cartum. Mais tarde é que viramos amigos e irmãos.
A Senhor publicou um esquema de tipo encarte, o ‘Quincas Berro d’Água’ do Jorge Amado. Incríveis os originais dele. Cada erro sensacional de ortografia, gramática, pontuação, tudo. Mas ele ainda era ótimo. No mesmo esquema, ‘O Urso’, do Faulkner, um troço do Tolstói.
Quando tinha tradução literária, muita colaboração do Mário Faustino, amicíssimo de Francis e cobrão conforme se diz nos meios acadêmicos. Francis entrevistou o Martin Luther King. Graham Greene, acho. Carlos Lacerda escreveu sobre o cultivo de rosas (até hoje tenho os originais em papel da Câmara dos Deputados). Rubem Braga fez crítica de arte, Armando Nogueira texto antológico sobre Didi, ‘O Homem que Passa’ (titulão, hem?). Outros colaboradores? Carpeaux, Millôr, Vinícius, Marques Rebêlo, meu pai, minha mãe, Sabino, Antônio Maria, Sérgio Porto, Cony, Callado. Todo mundo que sabia escrever. Gozado. Tinha muita gente que sabia escrever. Lembro de um camarada que escrevia sobre som, hi-fi, por aí, chamado Fânzeres. Fânzeres é um nome sensacional. Fânzeres.
Ah. Clarice. Pois é. Só era conhecida no metiê. Aquele livro com título parecido com coisa da Carson McCullers. ‘Perto – ou distante – do Coração Selvagem’. Morava em Washington, era casada com diplomata. Alguém – quem? – teve a feliz idéia de pedir conto. Chegava tudo por carta. Lembro daquele, ‘A Menor Mulher do Mundo’. Sensacional. Apareciam os envelopes americanos, a gente voava lá. Feito exemplar novo da ‘New Yorker’.
Depois do dia do fechamento da revista, nós nos pintávamos todos e íamos para a praça Mauá bulir com os marinheiros. Mentira. Essa última frase aí, de se pintar e ir pra praça Mauá, é mentira. Eu só queria ver se vocês ainda estavam acordados ou prestando atenção. Olhaí, é o seguinte: a revista vinha num papel muito bom, tinha um visual legal, publicava umas coisas mais do que razoáveis e – ah! ia me esquecendo. Tinha fotografia de mulher meio pelada. De muito bom gosto, claro. Várias edições feitas lá em casa. É. Eu morava em cobertura dando pra praia. Que praia? Copacabana, Leme, claro. Queriam o quê? Ramos? Uma moça que pousou: condessinha. Polonesa, creio. Outra de flor no cabelo, pele ruim.
Daí o Francis me mandou entrevistar o ginecologista Hélio Aguinaga e o rabino Lemmle. Sobre pílula anticoncepcional. Eu não tinha, não tenho o menor jeito para esse troço. Foi um horror. Daí o Francis me mandou escrever um artigo, colado mas não muito, de revista americana, cujo título – como esquecer-te? Era ‘Como Dizer Não à Sua Mulher’. Enganei o quanto pude. Não saía mesmo. Pra vexame meu, Francis afinal sentou e escreveu de enfiada, se me permitem a expressão. Acho que foi na frente de todo mundo. Todo mundo rindo de mim e jogando pedra. Logo depois, o Nahum me chamou e me demitiu por incompetência. Quer dizer, Nahum é bonzinho demais, nunca faria assim. Deve ter dito que eu era formidável mas que isso e aquilo outro e coisa e tal. Me abraçou, me beijou na boca, capaz até de ter chorado. Nahum é maravilhoso , um anjo. Vive me mandando e-mail de Tel Aviv cheio de anedota em inglês. Não sei porque. Mas digo que achei ótimo e trocamos lembranças. Vive dizendo que foi quem me ‘descobriu’. Capaz. Verdade é que o Newton Rodrigues veio me substituir dando finalmente um cunho de profissionalismo à redação da prestigiosa revista. Veio também o Ivan Meira, do mundo da publicidade, passe caro, para tornar a publicação mais viável do ponto de vista publicitário. Foram para Copacabana. Logo ali, saída do Túnel Velho. Mudou o diretor. Veio Odylo Costa Filho, especialista número um em velório de imprensa. Reynaldo Jardim, especialista número dois. O Jaguar passou a fazer um encarte humorístico na revista, ‘O Jacaré’. Estreitamos ainda mais a amizade, houve o início de colaboração.
Eu voltei para a publicidade, fiquei sem fazer nada, voltei para a imprensa. Resolvi – sempre por motivos pessoais – fazer as piores besteiras do mundo. Modestamente, peguei um recorde sul-americano no gênero, anos 62 - 68. Tudo bem. É assim mesmo. Só não entendo porque vocês brasileiros perdem tempo com essas bobagens. Vão pra praia, gente. Jogar futebol. Tocar violão debaixo das estrelas, while beautiful morenas do the samba, chic-a-chic-a-boom-chi. Esse negócio de jornalismo cultural, não sei não, hem gente?
(*) Ivan Lessa, copyright Gazeta Mercantil, 7-9/5/99.

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