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NOTÍCIAS DO LITORAL
A transposição
do Círculo de Giz

 

Alberto Dines

A busca da verdade é uma forma de energia. Força vital, uma vez acionada, impossível interromper. No caso dos subterrâneos da imprensa brasileira, essa dinâmica foi gerada a partir do livro de Mario Sergio Conti [veja a rubrica Imprensa em Questão, nesta edição]. Mas não se esgota com ele. Razão pela qual este Observador saudou o livro como o início de uma nova fase que transcende ao projeto, escopo e intenções do autor. Razão pela qual fracassou a tentativa do Sistema Midiático (encarnado pelo patronato e executado com enorme prazer pelos executivos) de circunscrever as mazelas dentro de um círculo de giz momentâneo e atípico.

Quando este Observatório lembrou o escândalo Delfin – e de como ele foi abafado num conluio entre jornalistas e empresários – sabíamos de que estávamos falando. A reação foi imediata, como mostra o material enviado pelo jornalista carioca José Carlos de Assis [veja abaixo]. Algumas vestais que conseguiram manter-se escondidas durante as averiguações de Conti começam aqui a ser desnudadas. Começa a escancarar-se uma promiscuidade muito mais ampla entre o poder econômico, político e midiático.

Não vai parar: breve aparecerão os mecanismos das redações onde se fabricavam best sellers, as vendetas e "listas negras" articuladas por jornalistas (e não pelo patronato) e os "pactos de sangue" entre jornalistas e políticos (referidos rápida e incisivamente por Conti à pág. 108 de seu livro).

Ao transcrever abaixo capítulo de um livro publicado em 1984 e jamais refutado, este Observatório considerou que as citações relativas ao falecido jornalista Paulo Francis não poderiam ser evitadas – nem constituíam infração, já que ele não pode defender-se. Com a franqueza e a honestidade intelectual que sempre o caracterizaram, Paulo Francis jamais negou suas fraternais relações com o banqueiro Ronald Levinsohn, protagonista do escândalo. Citava-o freqüentemente na sua coluna, ao contrário de outros aqui citados.

Apertem os cintos: mais turbulência na rota Rio-São Paulo-Brasília.

 

As voltas da história

 

José Carlos de Assis

Em 1984 eu era o que se costuma chamar de escritor bem-sucedido. No ano anterior lançara dois livros, A Chave do Tesouro, que vendeu quinze edições, e Os Mandarins da República, que vendeu dez, ambos muito bem acolhidos pela mídia. Eram o resultado de um profundo esforço de jornalismo investigativo, que inaugurei em 82 na Folha de S.Paulo, com o caso Delfin.

Por certo que isso não me trouxe maiores resultados financeiros, porque no contrato informal que tinha com meu editor, Fernando Gasparian, da Paz e Terra, os acertos eram feitos de três em três meses, tempo suficiente para que a inflação corroesse quase por completo os direitos autorais. Entretanto, não estava atrás de dinheiro, mas de efeitos políticos. Acreditava que meus livros estavam ajudando o país a vencer a corrupção institucionalizada e o autoritarismo, o que era uma gratificação em si. Com esse espírito escrevi um terceiro livro, A Dupla Face da Corrupção, onde resumi de forma a mais simples possível, visando a um grande público, a discussão institucional feita nos prólogos dos livros anteriores, e acrescentando novos casos, inclusive o Coroa-Brastel, além de um posfácio com o título "O valor potencial da imprensa". Aí é que se intentou decretar a sentença de morte de minha carreira literária.

Gasparian estava entusiasmado, e mandou imprimir, de um tapa, 45 mil exemplares para venda também em banca. Se isso tivesse dado certo, eu teria sido um precursor de Paulo Coelho, em matéria de sucesso de vendas. Mas não deu. O motivo foi uma nota curta na revista Veja, dizendo, de forma sibilina e sumária, que havia saído um novo livro de J. Carlos de Assis, mas que ele não tinha nada de novo. Ninguém mais na grande imprensa sequer fez resenha do livro. Os executivos da Paz e Terra leram a nota e entraram em pânico. Gasparian queria fazer propaganda do livro na televisão, para venda em banca. Não fizeram, por medida de economia. Preferiram deixar encalhar algo como uns 40 mil livros rodados!

A novidade que Veja ou qualquer outro órgão da grande imprensa não reconheceu no livro foi o relato do seu próprio papel na cobertura dos escândalos financeiros mais escabrosos que haviam ocorrido no Brasil, até então, e que eu havia levantado na Folha de S.Paulo. Pois, no posfácio intitulado "O valor potencial da imprensa", fica sugerido, em cima de evidências inescapáveis, que o próprio caso Baumgarten, de grande repercussão na época, surgiu em Veja com suspeita coincidência para abafar o caso Delfin, igualmente escabroso. O dono da Delfin era também dono do apartamento onde morava Alexandre von Baumgarten. O caso Baumgarten foi produto de um dossiê entregue a Veja. Elementar, meu caro Watson!

É com grande prazer que autorizei o íntegro Observatório da Imprensa a pôr em circulação na internet o posfácio que se segue. Chegou a hora de o máximo de pessoas possível saber dessas histórias. A contrapartida é um comercial: estou com dois livros virtualmente no prelo. Um, A Chave do Poder, é o mais ambicioso trabalho em Ciências Sociais e Políticas que já fiz. Pretende não menos que uma mudança radical de paradigmas nessas Ciências. Deve sair em janeiro, pela editora Texto Novo, de São Paulo. O outro é Notícias da Planície, já escrito e só agora a ser lançado, também pela Texto Novo, e que é uma refutação cabal do livro de Mario Sergio Conti, Notícias do Planalto. Onde Conti nada de costas, observando as cumeeiras das intrigas políticas, eu mergulho de cabeça, procurando as raízes mais profundas dos fatos sociais e políticos relacionados com a vitória eleitoral, a estréia presidencial, o fracasso de governo e o impeachment de Collor, indo ainda um pouco além, até o Plano Real. O prefácio de Notícias da Planície, que escrevi originalmente com o título "O Plano Ômega", está na minha coluna no Monitor Mercantil, que também pode ser lida em <www.monitormercantil.com.br>.

 

A dupla face da corrupção

 

J.C.A. [Rio, maio de 1984]

O Posfácio é uma provocação ao debate sobre o papel da Imprensa numa sociedade que se mobiliza na luta pela regeneração de suas instituições políticas e econômicas. Pesquisa recente feita pela revista Veja mostrou o baixo nível de credibilidade de que gozam, no Brasil, os meios de comunicação. Num nível de credibilidade ainda mais baixo apareceu o Congresso – e isso antes da frustração nacional pela rejeição, por uma minoria do PDS, da Emenda Dante de Oliveira pelas diretas-já. Esses dados de pesquisa são inquietadores porque denunciam a eficácia do regime autoritário, talvez por força da inércia, na desmoralização exatamente das duas instituições que melhor estão aparelhadas para lhe promover o enterro definitivo, seja no plano da denúncia, seja no processo legislativo.

No caso do Congresso, tenta-se confundir a instituição, que é o próprio alicerce da democracia, com a função homologatória humilhante que o regime autoritário lhe impôs mediante a amputação de prerrogativas, expedientes eleitorais casuísticos destinados a desenhar previamente uma "maioria" parlamentar ou cassações de mandatos. Tenta-se também confundir a instituição, como um todo, com um ou outro trânsfuga que dela faça parte. Esquece-se de que o Congresso, quando eleito democraticamente em pleito livre, é a representação legítima da Nação – nem melhor nem pior que ela, mas corresponde a ela. Desmoralizar o Congresso significa a exaltação do caudilhismo – no caso brasileiro, do caudilhismo militar, aberto ou mascarado pelo princípio do "direito" militar de intervenção nas crises, que à luz da experiência recente só se justifica por ignorância ou por má fé.

Quanto à Imprensa, também longamente deformada pela censura explícita ou implícita do autoritarismo, o risco é novamente confundir o desempenho eventual com o valor intrínseco da liberdade de informação numa sociedade democrática. Uma pesquisa anterior à da Veja, feita nos Estados Unidos pela revista Time, mostrou que também entre a população norte-americana é baixo o nível de credibilidade dos órgãos de comunicação de massa. Lá, contudo, a opinião pública não experimentou, recentemente, como nós, os efeitos perversos do bloqueio completo do livre fluxo de informações no processo social e político. É possível que a falta de credibilidade decorra do "excesso de informações, com exploração indevida de privacidade e em detrimento desse direito individual; entre nós, contudo, a falta de credibilidade é por certo consequência de uma situação exatamente inversa. Prevaleceu aqui, por longo tempo, a omissão forçada ou tolerada, em lugar do excesso, com a proteção à privacidade constituindo mero pretexto para assegurar a impunidade aos agentes da fraude e da corrupção.

Com a narrativa do comportamento da Imprensa escrita na cobertura do "escândalos" recentes, procurei trazer para a discussão conceitual uma experiência concreta, que talvez contribua para a compreensão, no plano mais geral, da importância da liberdade de informação no processo político de regeneração das instituições nacionais, a despeito de limitações e condicionamentos reais. O fato de conhecer e conviver com estes últimos, não diminui a fé do autor nas virtudes de um sistema que garanta, como requisito fundamental da plena cidadania, o direito do acesso à informação livre. Espero eu assim também proceda o leitor. [Rio, maio de 1984, J.C.A.]

 

O valor potencial da imprensa


"Sem perder a esperança, repito o que tenho dito: a Imprensa brasileira pode oferecer uma histórica contribuição ao desenvolvimento da democracia, sem pôr em risco a honra dos cidadãos."
General Otávio Rezende, então chefe do centro de Comunicação Social do Exército, em 8-2-83.

O elo Delfin-Baumgarten-Capemi

O "caso" Baumgarten, a partir do relatório de um morto, serviu no fluxo do noticiário da Imprensa como elo de ligação entre dois outros escândalos – o "caso" Delfin e o "caso" Capemi-, ambos envolvendo gente viva, de dentro e de fora do Governo; e evolvendo principalmente muito dinheiro público ou com garantia do Estado fluindo para o bolso privado. Circunstancialmente, quase engoliu o primeiro deles (o Dossiê de Baumgarten explodiu na revista Veja uma semana após a intervenção federal na Delfin), mas sem dúvida suscitou o segundo, embora circunscrevendo-o inicialmente à operação de transferência do controle acionário da editora de O Cruzeiro, precedida de um suspeito, embora modesto, contrato de publicidade entre esta editora e o Sistema Capemi.

Um conjunto de circunstâncias vinculou entre si esses três casos, não sendo mera coincidência sua divulgação quase simultânea pela Imprensa no início de 1983. A grande repercussão sugeriu uma analogia com alguns momentos "heróicos" da Imprensa norte-americana, cuja ação decisiva na revelação de casos como Watergate e dos documentos secretos do Pentágono sobre o Vietnã contribuiu fortemente para o desmascaramento de um Exército temerário e arrogante, também lá. As proporções eram outras, mas num certo sentido era legítima a comparação, sobretudo porque os fatos tratados, aqui e lá, foram noticiados enquanto em franco desenvolvimento ou com efeitos políticos na situação presente, refletindo conflitos de interesses em curso num jogo do qual a imprensa era também partícipe, além de testemunha.

Os fatos revelados em série dera, a impressão, inicialmente, de uma caldeira de pressão rachada de súbito. Eram puxados pelo noticiário, mas simultaneamente o noticiário se vou puxado por eles como numa avalanche. às vezes de forma explícita. às vezes discretamente. A relação Baumgarten-Capemi transpareceu no próprio dossiê deixado pelo morto (a despeito de uma intrigante imprecisão do autor quando menciona mais de uma vez o Projeto Itacuruí, quando o correto seria Tucuruí, para designar uma operação que insinuava conhecer nos bastidores, com precisão). Já a relação Baumgarten-Delfin ficou difusa. Apareceu e logo sumiu no curso dos acontecimentos. Não provocou maiores explorações mesmo quando se soube que o apartamento onde morava o jornalista assassinado pertencia ao dono da Delfin, Ronald Guimarães Levinsohn.

Como um dos expedientes usados por Ronald para cultivar amizades, sobretudo de jornalistas, costumava ser a cessão de apartamento e casas em condições especialíssimas de venda financiada ou de aluguel, a revelação da propriedade no apartamento carioca, na Rua Paul Redfern, 20, no Leblon, onde morava Baumgarten, poderia ter levantado a trilha de uma relação entre o senhorio e o inquilino, entre o empresário fraudulento apaniguado do Poder político e o propagandista de direita. Estranhamente, aceitou-se, sem maiores suspeitas, a palavra de Ronald, pela boca de uma filha de Baumgarten, de que ele não conhecia o pai dela. Essa pista mal explorada já era um indício da boa cobertura que o dono da Delfin sempre teve na Imprensa brasileira, ou numa parte importante sua.

Mesmo sem considerar as relações factuais e dos personagens, os três escândalos se vinculavam pela época – pouco depois das primeiras eleições gerais efetivamente livres (por feito da anistia) desde o golpe de 1964. Eram revelações de fraudes, mas traziam sobretudo a marca dos comprometimentos políticos. O mais chocante entre eles, porém – por envolver um assassinato e implicar dois generais, principais chefes do SNI – , baseava-se no relatório da vítima. Autêntico, porém de um morto. E não de um morto que se podia chamar de ingênuo, ou inteiramente inocente, mas de um conhecido intrigante de extrema-direita. Se estivesse vivo o jornalista Alexandre Von Baumgarten – ou se, estando vivo, não passasse por morto –, seu relatório não seria levado a sério em nenhum órgão de comunicação responsável, por depender excessivamente da palavra ou de credibilidade de quem já não podia sustentar a primeira, nem gozar da segunda.

Com efeito, muitos dos que o conheceram sabiam que Baumgarten costumava alardear suas estreitas vinculações com o "serviço". Metera-se no projeto O Cruzeiro em íntima colaboração com a sociedade de extrema direita Tradição, Família e Propriedade (TFP), apoiado pelos setores radicais da comunidade de informações. Prestou serviços relevantes aos extremistas, bastando lembrar que seus artigos provocadores na revista tinham sido reproduzidos pelo Ciex – Centro de Informações do Exército, como parte da campanha de descrédito do general Euler Bentes, junto aos oficiais das Forças Armadas, na época do arranjo sucessório do General Ernesto Geisel. Quando apareceu assassinado, muitos poderiam supor, com razão, que se tratava de um informante deserdado e ressentido, transitando no terreno da fantasia, da bravata e da chantagem.

O relatório por ele legado assemelha-se a um libelo extemporâneo de quem, tendo criado a oportunidade, através de influentes amigos no "serviço", de ganhar muito dinheiro na operação O Cruzeiro, foi desalojado em proveito do sucessor no controle desse negócio, Antonio Mourão Abissâmara, aparentado do então chefe da Agência central do SNI (hoje comandante militar do Planalto), Gen. Newton Cruz. Contudo, se Von Baumgarten perdera a chance de sua vida para Abissâmara, por causa de um parente influente deste, a única "prova" sugerida no relatório era a relação de parentesco – o que na realidade não prova muito, uma vez que parente de gente influente às vezes se dá a liberdade de tomar iniciativas desse tipo, mesmo quando não autorizado. Provava, porém, o suficiente para despertar suspeitas. Ou no mínimo provocar uma investigação criteriosa do envolvimento do pessoal do SNI na operação O Cruzeiro e suas seqüelas.

No entanto, a instituição que deveria investigar o crime por dever de ofício, a Polícia Civil do Rio, não pareceu muito entusiasmada, sobretudo pela impertinente recusa de alguns militares em depor. A simples menção da constituição de uma CPI pela Câmara Federal sobre o tema era tomada como uma intolerável provocação ou revanchismo. O Governo fechou-se em copas na sua arrogância de sempre, limitando-se a sancionar uma nota explicativa totalmente insatisfatória, oriunda do próprio SNI. A Imprensa, que corajosamente chegara até esse ponto, arriscava-se a não poder ultrapassá-lo se insistisse em atacar o front fortificado da "comunidade" onde a resistência oficial se concentrava. Um caminho alternativo era contornar a blindagem de proteção política do SNI e rastrear os interesses financeiros por trás do escândalo. Este, o ponto fraco do autoritarismo em exaustão: os interesses econômicos insatisfeitos ou contrariados!

Nos crimes passionais, a investigação costuma iniciar-se por cherchez la femme. Nos escândalos, tratava-se de cherchez l’argent. A ordem natural dos acontecimentos exigia que antes se obtivesse cobertura política para depois realizar-se a fraude. O ordem da investigação tinha de seguir o roteiro inverso, a fim de evitar o confronto direto com o Poder estatal degenerado, começando das relações contratuais fraudulentas para chegar depois à trama política. Circunstancialmente, o momento dos escândalos foi também uma oportunidade de exercício pleno de liberdade de informação reconquistada pela Imprensa - uma instituição da sociedade não totalmente neutra, como qualquer outra; não homogênea; sujeita como todas aos conflitos de interesse, às ingerências e pressões econômicas e políticas. Contudo, a despeito de insuficiências que se puderam apontar em cada um ou em todos os órgãos de comunicação no trato desses eventos que remexeram fundo nas entranhas do regime, o resultado global foi uma vitória da Imprensa em seu conjunto. Em 1983, o Prêmio Esso de Jornalismo contemplou, nessa ordem, as reportagens sobre o "caso" Baumgarten, o "caso" Delfin e o "caso" Capemi!

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O fator financeiro, móvel central desses escândalos, de alguma forma se fez presente, direta ou indiretamente, também na maneira como eles seriam revelados na Imprensa. Isso será abordado adiante em maior detalhe. Primeiro, convém observar como acabou servindo de fio condutor no rastreamento das relações escabrosas de cumplicidade e acobertamento por trás de dois desses "casos" (no terceiro, o fator financeiro quase inibiu a investigação e a denúncia). Comecemos por von Baumgarten. O dinheiro grosso jamais esteve com ele, pois seu libelo póstumo se dirigia exatamente contra as pessoas que, por presunção, o haviam afastado da operação O Cruzeiro no justo momento em que, articulada ao Projeto Tucuruí, deveria render grossos dividendos – graças às articulações de Abissâmara com a Capemi, sob proteção do SNI.

É verdade que, ainda como dono da revista, Baumgarten chegou a fechar um contrato de publicidade com a Capemi, de Cr$ 12 milhões líquidos em fins de 1980; tentou em seguida fazer com que o Gen. Ademar Messias de Aragão, presidente da Capemi, comprasse sua editora em estado falimentar; finalmente, passou-a a Abissâmara, numa operação que lhe pareceu do interesse do Sistema Capemi porque dela participou Fernando José Pessoa dos Santos, o então plenipotenciário superintendente da Agropecuária Capemi, que ele não podia imaginar estar agindo à revelia de Aragão.

Nessa negociação conduzida em atmosfera conspirativa, Alexandre von Baumgarten tomou conhecimento do Projeto Tucuruí e intuiu a fraude que se montava em torno dele, como dão a entender trechos de seu relatório. Pode ter considerado que os Cr$ 2 milhões pagos por Abissâmara, com dinheiro oriundo da Capemi, para assumir O Cruzeiro – incluindo o passivo de Cr$ 112 milhões, no início de 1981 – era pouco para comprar também a sua discrição. Pode ter optado pelo caminho da chantagem, mas decididamente não viu a cor do dinheiro. Por certo exasperou-se com isso. Levou para o túmulo um grande ressentimento, mas deixou um relatório com indicações de nomes, datas, locais e relações – todo um conjunto de indícios que, a seu ver, apontaria os responsáveis pelo grande escândalo. Só não contava com a notável eficácia do pacto de cumplicidade no Governo que, para os efeitos práticos, punha uma parte do Estado brasileiro – exatamente a parte mais arrogante e degenerada – acima de qualquer suspeita e imune as investigações.

A Imprensa cumpriu sua parte, chegando a um ponto a partir do qual não era possível avançar mais, sem o poder da polícia. Mas a Polícia também é Estado, e os responsáveis do Estado não revelaram interesse em apontar quem matou Alexandre von Baumgarten.

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Passemos ao "caso" Capemi. Ele tinha estado nas páginas dos jornais em setembro de 1982 e retornou no início de 1983. desta vez, a pretexto de Impedir a drenagem de recursos do Pecúlio para a Agropecuária Capemi, esvaída financeiramente no meio da fraude e do descalabro administrativo em Tucuruí, o Governo nomeou um diretor - fiscal para a instituição. A intervenção branca e, posteriormente, a intervenção formal não conseguiram, no entanto, levantar outras irregularidades que não as já amplamente divulgadas antes pela Folha de São Paulo. Na realidade, o Sistema Capemi tentava uma reforma interna, recuperando-se aos trancos da pilhagem de Tucuruí, quando o Governo farisaicamente cancelou unilateralmente, em março de 1983, o contrato entre a Agropecuária e o IBDF para exploração da madeira no Pará.

No fundo, tratava-se de um ato preventivo contra possíveis perguntas inconvenientes sobre o empreendimento já fracassado, num desastre que se desenrolou sob as vistas complacentes da autoridade pública e do SNI. Parte da Imprensa caiu na armadilha e concentrou-se na crítica genérica dos erros administrativos da Capemi em Tucuruí sem conseguir explorar, além disso, as pistas deixadas pelo relatório de Baumgarten. Mais uma vez, coube à Folha puxar o fio, representado não por um – aquele que havia sido revelado pelo jornalista assassinado –, mas por três contratos em nome de diferentes empresas do mesmo Abissâmara, assinados por este com a Agropecuária Capemi então dirigida por Fernando Pessoa. Como se pôde deduzir depois, um desses contratos dera suporte para a retomada da operação O Cruzeiro pelo sucessor de Baumgarten. No total, atingiam o montante de mais de Cr$ 800 milhões que, convertidos à taxa de câmbio da época, superariam os 3 milhões de dólares.

Por aí, começava a aparecer o dinheiro vislumbrado por Baumgarten. Uma análise mais cuidadosa de outros contratos promovidos por Fernando Pessoa, enquanto superintendente da Agropecuária, levou a conclusão de que pelo menos 10 milhões de dólares poderiam ter sido desviados do Projeto Tucuruí por intermédio desses simulacros contratuais. A dedução não agradou ao SNI, que ainda tentou invocar a Lei de Segurança Nacional para proteger a operação Tucuruí de maiores investigações pela Imprensa. Naquela altura, porém, já era inútil. Uma vez rastreada uma parte substancial do desvio, só com desonra a Justiça Militar poderia lançar o manto da Segurança Nacional para encobrir o que já se divisava claramente como uma ardilosa fraude montada à sombra da Administração pública federal.

Contudo, qual teria sido o desvio máximo? Sabia-se que o grosso do dinheiro colocado (e desbaratado) pela Agropecuária Capemi em Tucuruí proveio das reservas livres do Pecúlio e do empréstimo de 100 milhões de dólares obtido do Banco Nacional de Paris. Deste contrato, porém, apenas um quarto foi cumprido. Com mais US$ 2 milhões trazidos do exterior por gestões da Servix Engenharia, e repassados à Capemi, chega-se a um total de US$ 27 milhões de recursos externos, dos quais US$ 25 milhões avalizados pelo BNCC. Um outro tanto ou pouco mais de recursos próprios ou tomados no mercado interno chegou a ser manipulado pelos gestores da Agropecuária no auge da dilapidação. De tudo isso, porém, devem-se deduzir investimentos efetivamente realizados na infra-estrutura de Tucuruí e na aquisição de equipamentos, pagamento de mais de 2 mil operários por cerca de dois anos e meio, despesas financeiras legítimas, etc.

Não restaria, pois, muita massa crítica de onde desviar recursos além dos US$ 10 milhões mencionados. Digamos, porém, que o desvio (sobretudo através de comissões nas compras de equipamentos, que, segundo algumas indicações, chegavam em certos casos a 25%) tenha sido de US$ 20 milhões no total. Este é um montante respeitável, em qualquer quadrante do mundo. Pode alimentar respeitáveis contas na Suíça ou nas Bahamas. sem dúvida que não ter tido acesso a ele, como parecia ter tido seu sucessor em O Cruzeiro, Antônio Mourão Abissâmara, deve ter deixado Alexandre von Baumgarten muito irritado. Ao ponto de fazer um relatório incriminador, ameaçar distribuir cópias dele pelo mundo e pôr, nessa ameaça, suas esperanças de sobrevivência.

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Finalmente, comparem-se agora os US$ 20 milhões de desvio provável de recursos da Capemi em Tucuruí com os US$ 200 milhões do desvio comprovado de recursos do BNH, ou por ele geridos, realizado em proveito próprio pelo Grupo Delfin, ao longo de um decênio. (Esse montante de US$ 200 milhões equivale à diferença entre o "valor potencial" e o valor real dos terrenos, no Rio e em São Paulo, com que a Delfin quitou o BNH um débito de Cr$ 60,8 bilhões em dezembro de 1982.) certamente, mesmo o saque espetacular da Capemi fica modesto. Na verdade, pouca coisa na história dos escândalos financeiros, dentro e fora do País, se compara de longe a essa cifra. Aqui, um estouro que fica próximo é o da Coroa - Brastel – mas neste caso o investidor particular pagou um preço bem mais alto que o Tesouro. [Para se ter alguma referência internacional, recorde-se que um dos maiores escândalos políticos do Japão do pós-guerra, o "caso" Tanaka, referia-se a uma propina de US$ 2 milhões. Nos Estados Unidos, o maior escândalo de evasão fiscal desde Al Capone, de que é acusada a trading Mark Rich (cujo dono fugiu para a Europa), situou-se em torno de US$ 44 milhões. Durante as audiências no Congresso norte-americano sobre a atividade externa de suas multinacionais, em 1975, a Exxon italiana revelou ter feito "contribuições" para partidos e indivíduos num total de US$ 29 milhões, durante dez anos, de 1963 a 1972!]

Apesar de ter sido, dos três mencionados, o escândalo – jumbo do ponto de vista financeiro, o "caso" Delfin-BNH com grande dificuldade rasgou seu espaço no noticiário da Grande Imprensa. Só uma fortuita combinação de fatores impediu que não fosse atirado no limbo comum destinado a abrigar tantos outros "casos" escabrosos de fraude financeira, acobertados pelo sistema autoritário, e de onde costumam ser resgatados apenas quando já não são história. Foi um caso –teste para a própria Imprensa, um desafio à possibilidade da informação objetiva mesmo usando pesados interesses financeiros estão em jogo. Junto com os outros dois grandes escândalos do ano, onde predominaram aspectos políticos, serviu para dar uma mostra à sociedade, à parte os méritos ou fraquezas dos jornalistas e das empresas de comunicação em particular, como sempre prevalece no conjunto, se existe liberdade de informação, o verdadeiro "valor potencial" da Imprensa.

Os elos básicos da informação independente

Para o conjunto da Imprensa, a eclosão quase simultânea desses três escândalos, logo seguidos da quebra da Coroa-Brastel, todos eles envolvendo dinheiro público e uma ampla rede de intrigas políticas, constituiu um desafio especial dentro do processo brasileiro de abertura política. de alguma forma foram sacudidas todas as instituições da república – o Executivo, o Parlamento (constituíram-se CPI’s na Câmara Federal para os "casos" Delfin - BNH e Capemi), o Judiciário, as Forças Armadas, a Polícia, o SNI. Mas foi igualmente sacudida a própria Imprensa, internamente, como instituição da sociedade também longamente condicionada ao autoritarismo e agora desafiada a ajustar-se ao processo de democratização, sujeita aos mesmos descompassos, avanços e recuos observados nas demais instituições sociais.

A forma de revelação dos escândalos constituiu, assim, uma oportunidade rara de acompanhamento da evolução ou da adaptação da Imprensa ao processo de democratização. Pôr trás de cada fato noticioso narrado, existem sempre comportamentos complexos que reproduzem, no âmbito dos meios de comunicação, conflitos de interesse que se manifestam na sociedade como um todo. Sob o autoritarismo, a informação é tolhida na origem e não existe liberdade de Imprensa por definição. Na democracia, os órgãos de comunicação estão sujeitos também a pressões políticas e do poder econômico, só que oriundas de diferentes fontes. Nessa diversificação fundamenta-se o princípio básico da independência de informação: a idéia de que a liberdade de Imprensa, no capitalismo, é na realidade liberdade dos donos das empresas de comunicação constitui uma meia - verdade que ignora a mecânica da competição empresarial na Imprensa e mascara o propósito totalitário por trás de um conceito vago de subordinação ao Estado dos meios de comunicação.

Desde 1Ί de janeiro de 1979, quando começou a vigir a Emenda 11 e se restabelecerem, com a derrogação do AI-5, algumas garantias mínimas de liberdade individual como o habeas corpus, a Imprensa avançou na ocupação do espaço que o poder discricionário lhe vedara mesmo quando não havia censura prévia formal. Até fins de 1983 permaneceu em vigor dispositivo da lei de Segurança Nacional que submetia jornalistas a tribunais militares por atos profissionais por eles praticados que pudessem ser interpretados como prejudiciais ao regime. Também permaneceu em vigor, antes da reforma da LSN pelo Congresso, o Art. 55, que dava ao Ministério da Justiça o poder de apreender e censurar publicações ou material informativo de qualquer natureza considerados, a seu arbítrio, atentatórios aos poderes constituídos.

A eficácia desses e de outros mecanismos cerceadores ficou reduzida diante do clima político que levou ao aprofundamento do processo de abertura. A Imprensa fez a sua liberdade. No Governo Geisel houve avanços e recuos, mas após o brutal assassinato do jornalista Vladmir Herzog nos porões do DOI-Codi de São Paulo, em fins de 1977, e da reação política fulminante do General-presidente, suscitada pela indignação pública – reação que só viria a ser melhor avaliada anos mais tarde, quando seu sucessor enfrentou com injustificável apatia uma provocação de natureza similar, a bomba do Riocentro -, reduziram-se sensivelmente as iniciativas de atemorização pelo menos no nível conhecido como a Grande Imprensa. Na pequena Imprensa, sobretudo na chamada Imprensa alternativa, as provocações assumiram a forma de atentados a bancas de jornais ou a sedes destes, no surto de terrorismo de direita que desembocaria na tragicomédia do Riocentro. Depois desta, cessou também esse tipo de intimidação. A Imprensa já podia assumir sua liberdade, sem constrangimentos.

Contudo, a liberdade de informação por certo não é um privilégio de jornalistas ou uma prerrogativa de corporação. Ela só existe se a sociedade quiser usufruir dela, como fonte ou como destinatária. No Brasil, onde o regime autoritário reforçou o caráter centralizador do Estado e seu poder de controle direto e indireto de grande parte da atividade econômica e social, utilizar a liberdade de informação ou de crítica costuma significar um desafio não só ao poder político da burocracia estatal como também ao seu poder de decisão no campo dos negócios e do emprego. Não se trata, apenas, da capacidade concreta que a autoridade pública tem para atuar diretamente sobre os interesses das empresas de informação, cortando-lhes o acesso à publicidade oficial. Isso poderia ser contrabalançado ou atenuado pelo aumento correspondente de recursos oriundos do setor privado. Acontece que este também está sujeito, no Brasil, a sofrer uma formidável pressão cerceadora e intimidadora administrativa.

***

O mais eficaz bloqueio ao livre fluxo de informações que tenho visto se exerce no âmbito interno da própria Administração pública. Às vezes, por cumplicidade, mas com maior frequência por esprit de corps; por crença na possibilidade de reforma interna dentro do conceito muito difundido de que "roupa suja se lava em casa"; ou, quando se trata de uma decisão superior com que não concordam os escalões intermediários ou inferiores, pela equívoca associação entre o dirigente da autarquia, da empresa pública ou mista, ou ainda do órgão governamental com o interesse nacional abstrato. Na época do escândalo da Delfin, lembro-me de uma reunião promovida pelo então presidente do BNH com todos os gerentes, instando-os a que, na hipótese de uma convocação para depoimento na CPI, cada um deles respaldasse a versão do acordo dada pelo banco – independentemente do que aconselhasse a experiência, o conhecimento técnico ou a consciência deles.

Como não existe na Administração pública indireta brasileira, desde o AI-5, qualquer tipo de controle externo, sobretudo pelo Congresso Nacional, ela se torna o seu próprio padrão de referência, num processo incestuooso que leva à degeneração. O que acaba prevalecendo é uma espécie de pacto mafioso de cumplicidade contra a evasão de informação ou documento que comprometam a boa imagem do administrador ou do dirigente e, através dele, da própria empresa ou órgão público, pelo simples fato de submetê-los ao risco do julgamento externo. Nesse jogo pesado, a regra costuma ser da Camorra: proteção escrachada dos "amigos" e vendetta impiedosa contra os desafiantes.

A Petrobras é um bom exemplo disso, porque associa os equívocos do socialismo de fancaria – que confunde "socialização" com "estatização" – à manipulação extrema da ideologia nacionalista. Resultado de um grande movimento de massas, identificada por isso com a própria alma de Nação na sua luta heróica por independência econômica, a empresa é um fato irreversível na paisagem econômica brasileira, um tabu que não ousaria tocar nem o mais radical dos privatistas. Contudo, toda a vez que se tenta pôr em debate a qualidade de sua administração, o dirigente atingido se acha no direito de mover todos os recursos da estatal- recursos públicos, portanto – para defender-se, revelando uma suscetibilidade de vestal intocável. Qualquer crítica ao desempenho pessoal é reinterpretada, cinicamente, como um ataque direto ao próprio coração da Nação.

Relatei em Os Mandarins da República alguns episódios objetivos, documentados, da desastrada história da Interbrás, a trading da Petrobras, frutos da inépcia de, entre outros, seu primeiro vice-presidente executivo, Carlos Sant’Anna. Num artigo no Jornal do Brasil, reproduzido como matéria para em vários outros jornais pelo País afora e, inclusive, na Folha de São Paulo, com variações, Sant’Anna respondeu aos fatos com muito palavreado chocho e uma declaração de fé nos seus bons propósitos, encerrando com a surrada alegação de que entre os meus objetivos estava o de atacar a Petrobras (a serviço, naturalmente, de interesses ocultos...) e, por consequência, o de prejudicar os sagrados interesses da Nação!

Antes da publicação do meu livro, em abril de 1984, escrevi reportagens na Folha de S. Paulo – não mais sobre a Interbrás histórica, mas sobre a Interbrás atual – , mostrando que no seu recente desempenho, com um faturamento de 2,8 bilhões de dólares em 1983, encobre-se toda uma série de operações desastradas, perda de milhões de dólares nas subsidiárias externas somente coberta pela possibilidade do jogo escritural com a empresa-mãe, generosa com a afiliada, mas sempre à custa do consumidor brasileiro de derivados de petróleo ou do contribuinte em geral. Além disso, mostrei que o lucro contabilizado de US$ 67 milhões em 1983 era, de fato, um lucro de papel, resultado exclusivo de correção monetária do ativo permanente, elidindo um brutal prejuízo operacional. (Tempos depois, O Globo – 21/04/84, pág. 16 – deu divulgação a um estudo do Ibmec – Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, mostrando que isso estava ocorrendo com a maioria das estatais, levando-se a descapitalização.)

Os diretores da Interbrás se recusaram a me receber para uma entrevista – exigiam perguntas por escrito, o que fiz narrando o que sabia pelo jornal –, e quando finalmente produziram uma explicação em resposta se limitaram a afirmar que o balanço de 1983 foi feito segundo as normas legais. Obviamente, não faltou a alusão ao grande interesse nacional por trás das operações comerciais ineptas do Sistema Petrobras!

Esse comportamento de vestal difamada costuma ser a reação típica de muitos altos burocratas, partícipes e herdeiros do autoritarismo, ao verem questionada sua atuação administrativa. Constitui uma das dimensões do processo de feudalização do Estado brasileiro, a partir do momento em que todas as instâncias do Executivo conquistaram, com o AI-5, a carta de alforria para liberá-las do controle de seus gastos e de fiscalização pela sociedade, através do Congresso. No âmbito de muitas dessas entidades da Administração indireta a Conivência dos escalões inferiores, como já mencionado, se conquista ora por processos de atemorização, ora pela manipulação ideológica do nacionalismo ou, ainda, da noção equívoca de socialismo pela qual o dirigente, a empresa e o interesse nacional se fundem num mesmo conceito. Pôr isso, a crítica factual ao administrador costuma suscitar não uma reflexão objetiva sobre seus métodos, mas devaneios subjetivos sobre o verdadeiro interesse por trás dela. É, inversamente, a expressão do impertinente conceito de que todo jornalista, quando critica ou denuncia, está a serviço de uma facção ou de algum interesse oculto, de que é um ingênuo ou um corrupto – fórmula bastante conveniente para se escapar do dever de prestação de contas à opinião pública.

Na mesma proporção em que o deliberado bloqueio do fluxo de informações, na Administração pública, prejudica a liberdade de Imprensa, o vazamento delas representa o mais eficaz antídoto contra a fraude administrativa sob o autoritarismo. Claro, se o regime já não entrou em decadência, se suas forças internas não estão em conflito e se o sistema de fidelidade não está rompido, não existe possibilidade de vazamentos. Mas onde não se verificam tais condições, também não há lugar para abertura política. Foi justamente a partir da reação indignada do corpo profissional de autarquias como o Banco Central e BNH; de empresas mistas como Vale do Rio Doce ou Eletrobrás; e mesmo de alguns órgãos ministeriais que a opinião pública pôde tomar conhecimento, através da Imprensa, de muito favorecimento, de muito apaniguamento oficial e de muito desvirtuamento da função administrativa nesses últimos anos de escândalos públicos no Brasil. Sem essa reação indignada, a Imprensa não teria matéria – prima para exercer liberdade.

***

Não existe Imprensa livre sem sociedade livre. Mas, no processo de liberação de uma sociedade das formas do poder autoritário, a instituição da Imprensa está sujeita a condicionamentos cerceadores tão ou mais poderosos que as demais instituições, e é possível que, por isso, o tempo da Imprensa independente esteja eventualmente a um compasso atrás do de outras instituições cujo processo de renovação pode ser mais rápido. Com efeito, diferentemente das instituições políticas – dentre elas o Congresso Nacional, cuja renovação em regime democrático se dá a intervalos regulares -, a Imprensa pertence ao âmbito das instituições sociais que avança mais lentamente, empurrada somente pelo processo competitivo interno.

Por ser o conduto mais rápido da informação sistematizada nas sociedades modernas, a Imprensa deveria ser a instituição social mais adiantada no tempo político, a que estivesse captando em primeiro lugar os sinais de transformação emitidos nos recantos mais longínquos da sociedade para poder retransmiti-los ao conjunto. Essa costuma ser a expectativa individual de muitos que trabalham com informação. Contudo, a Imprensa, como instituição, está amarrada muito mais à média da sociedade que a seus extremos. A televisão, o rádio, o jornal, a revista refletem, cada um, uma composição específica de interesses dos proprietários, do corpo profissional e dos destinatários – telespectador, ouvinte, leitor, anunciantes –, e é a dosagem equilibrada desses interesses que define, num sistema de mercado, a capacidade competitiva de uma empresa de comunicação.

É uma tradição brasileira, anterior ao autoritarismo escrachado de AI-5, que a parte objetiva da informação prestada pelos órgãos de comunicação também se subordine, de alguma forma, ao controle do proprietário ou proprietários da empresa. Esta é uma das dimensões, na esfera específica das comunicações, do caráter patrimonial da empresa capitalista brasileira, qualquer que seja seu objeto social. De fato, não temos a tradição anglo-americana da sociedade anônima administrada profissionalmente, mas sim a tradição ibero – americana do concessionário da Coroa que faz da empresa uma extensão da riqueza pessoal. Numa empresa de comunicações, isso fica mais evidente. No universo competitivo moderno, mesmo no Brasil, já não mais sobreviveria uma fábrica de marmelada cujo dono insistisse em impor ao produto o seu próprio gosto, indiferente ao gosto médio dos consumidores; mas, numa empresa de comunicação ainda não soa estranho que o dono ou seu preposto administre o noticiário de acordo com o próprio interesse, mesmo sabendo que se arrisca a perder leitores ou audiência!

Ao contrário, a muitos, entre nós, pode parecer incompreensível a observação feita de passagem por Anthony Sampson, num recente livro de grande sucesso [Anthony Sampson, Os Credores do Mundo, Edit. Record (trad.), pág. 326] ao descrever a expectativa gerada entre os membros do Terceiro Mundo indicados para a comissão Brandt (Diálogo Norte – Sul) com a indicação, para o mesmo foro, da Sra. Katharine Graham, proprietária do Washington Post e da revista Newsweek. "Eles se inclinavam a pensar – escreveu Sampson – que, porque ela era a dona de dois dos meios de divulgação de massa mais famosos do mundo, podia dizer a seus editores o que publicar, o que deu origem a mal – entendidos."

No entanto, também a Imprensa do País, como as demais instituições, vive um processo de transição. Da mesma forma como algumas sociedades anônimas de capital aberto diluído no mercado, se revelaram empreendimentos bem – sucedidos no meio do capitalismo patrimonial brasileiro, na Imprensa houve experiências bem – sucedidas de distinção entre a condução empresarial do negócio das comunicações e a forma de se preparar o produto dele, a informação, deixada a cargo de um corpo profissional não submetido inteiramente à ótica (ou aos interesses pessoais) dos donos.

Obviamente, por se tratar de um processo, mais que de um estado consolidado, não existe nitidez absoluta em nenhum exemplo isolado. Mas é indiscutível que empreendimentos de comunicação como o Grupo Abril e o Grupo Folhas, ambos de São Paulo, tendem a transferir ao corpo profissional dos jornalistas empregados maior autonomia de decisão quanto ao tratamento da informação. Na Folha de S.Paulo, existe um grau de liberdade sem paralelo na Imprensa comercial quanto a artigos assinados (opinião). Em outros órgãos da Grande Imprensa como O Estado de S.Paulo e O Globo (Rio) é mais nítida a influência dos donos (ou a eles atribuídas por editores acomodados) na linha do noticiário. No Jornal do Brasil, em época não muito remota o grande prócer da Imprensa liberal e independente, o noticiário tem flutuado nos anos recentes segundo linhas de oscilação tão bruscas que já não se sabe mais se reflete a orientação dos donos ou se baila de acordo com interesses comerciais de curto prazo, inferidos por um grupo profissional indiferente aos destinos a longo prazo da própria empresa.

O fato de o regime político estar em processo de transformação e a economia em crise impede uma avaliação definitiva sobre que tipo de empresa de comunicação prevalecerá no futuro – ou, mais precisamente, que influência poderá ter na competição entre as empresas de comunicação um maior grau de profissionalização e uma menor ingerência dos donos na seleção do noticiário e no seu controle político. Pelo que se viu da performance dos grupos de comunicação, nesses anos de redemocratização, não é possível ainda tirar conclusões: o Grupo Abril, mais profissionalizado, liderou o processo de crescimento do setor de comunicações paralelamente ao Grupo Globo, este sob estrito controle de um único dono. O Estado e o Jornal do Brasil seguiram padrões muito semelhantes de orientação editorial em relação ao regime autoritário, aos quais se opuseram com crescente ousadia na década de 70, e se embrenharam por aventuras administrativas também similares – ambos executaram planos ambiciosos de expansão patrimonial, construindo instalações novas e caras e renovando o parque gráfico, tudo financiado em grande parte por empréstimos externos. Abalados por duas maxidesvalorizações do cruzeiro e por alguma retração do mercado publicitário determinada pela crise ou por pressão política oficial, o primeiro sobreviveu com sua estrutura tradicional consolidada, sem comprometer a linha editorial independente, enquanto o segundo balança econômica e politicamente, sem rumo certo.

Outros motivos, portanto, além da questão da profissionalização, devem explicar as diferenças. Podem estar nos diferentes níveis de competência de gestão empresarial, propriamente dita, dos grupos de comunicação.

***

Há, porém, uma lição que se pode tirar da experiência das empresas de comunicação no Brasil nessa época de transição para a democracia. Independentemente do desempenho de cada empresa em particular, de sua linha política ou das idiossincrasias dos empresários de comunicação, a Imprensa em seu conjunto conseguiu ocupar com êxito o espaço de liberdade que abriu ou que lhe foi aberto na luta política. Esse é um resultado inexorável do processo de competição. Como regra geral, o princípio da liberdade de Imprensa nas sociedades capitalistas, onde a atividade informativa é também um negócio lucrativo, se apóia na concorrência. E é a pressão da concorrência que força as empresas a, no mínimo, assumir uma aparência de objetividade. Ao mercado publicitário, que é a fonte de recursos relevante dos meios de comunicação, interessa em princípio o alcance do veículo, menos que sua inclinação política. Disputar um mesmo mercado diversificado impõe aos competidores uma ampliação da cobertura de informação para além de interesses ideológicos e políticos restritos, mesmo que dos donos, sob pena de entregarem o terreno, sem luta, ao adversário mais aberto.

Obviamente, para que isso ocorra, é necessário antes de mais nada que haja um mercado publicitário de porte, ele próprio independente de pressão política (oposto ao que seria numa economia total mente estatizada e sem qualquer controle social do Estado). Num país onde o Estado manda tanto, como no Brasil, inclusive como agente direto no mercado publicitário, são recorrentes os exemplos, de tentativa de subordinação deste ou daquele órgão de comunicação aos critérios do governante – para não mencionar o jogo permanente de cooptação e de aliciamento de simpatias. Contudo, temos assistido também a exemplos significativos de resistência a esse tipo de pressão. Jornal do Brasil e O Estado de S.Paulo sofreram um boicote publicitário sistemático por parte de algumas empresas governamentais num certo período do Governo Geisel, mas não cederam politicamente nem sucumbiram economicamente por isso. Ao que parece, o mercado publicitário brasileiro atingiu já, por força da expansão da própria economia em seu conjunto, e a despeito da presença nela do Estado hipertrofiado, aquela massa crítica indispensável para que os órgãos de comunicação exerçam sua independência sem restrições, porque, "se dependem pouco de muitos, não dependem muito de ninguém."

Um exemplo recente que me ocorre para ilustrar esse processo de competição que produz liberdade de informação, até certo ponto de forma independente de quem a controla, se desenrola atualmente no mundo da televisão. A chegada da Rede Manchete, pelo simples fato de estar ligada a um grupo econômico forte, sacudiu a estrutura da Rede Globo muito embora, num primeiro momento, representasse não mais que uma ameaça longíngua a uma hegemonia ainda absoluta em termos de padrão de tevê. No entanto, para um quase – monopólio, qualquer alternativa oferecida ao consumidor representa risco potencial. E a reação competitiva desencadeia-se antes que a ameaça virtual se torne ameaça de fato. O resultado tem sido alguma sensível melhora na qualidade no noticiário pode entrar – como reconheceu numa entrevista a Veja um de seus diretores de telejornalismo, Paulo Henrique Amorim. Naturalmente, ela não vai começar a competição pelas novelas. Assim, não obstante o cerceamento político a que estão sujeitas todas as televisões e a posição política de aparente subserviência dos Bloch ao Governo do momento, a Rede Manchete, por interesse comercial, abriu importante espaço político ao Governador do Estado do Rio, Leonel Brizola, desde o carnaval de 1984, quando impôs à Globo uma importante derrota ao propor-se a transmissão exclusiva do espetáculo durante dois dias. O troco não se fez esperar: com o crescimento da campanha pelas diretas-já, e a adesão a elas do patriarca da Globo, Roberto Marinho, a Rede Manchete, provavelmente contrariando uma orientação prévia, foi forçada a acompanhar o pique e a disputar as transmissões dos comícios ao vivo, a começar do comício – monstro do Rio, em 10 de abril. No final, saiu ganhando o público, que teve acesso uma maior gama de informações, em ambos os canais.

Os elos ocultos da informação "livre"

A atividade de comunicações, como se procurou mostrou, é cada vez menos uma arte individual e mais uma ação coletiva. Obviamente, não estou falando de opinião – algo essencialmente subjetivo –, mas de informação. De notícia. De matéria – prima para a opinião. No jornalismo, a produção da notícia é um processo social que evolui desde a captação da informação pelo repórter à sua edição. O produto acabado, aquilo que o leitor vê ou o telespectador acompanha, em geral não corresponde ao que pensou, isoladamente, nenhum dos participantes individuais desse processo. O título, o enfoque, a ênfase gráfica; a distribuição na página ou o lugar na ordem do noticiário; a informação de apoio trazida dos arquivos; a chamada de primeira página – existe toda uma série de procedimentos editoriais que complementa o conteúdo da notícia original e tem um efeito na comunicação que não pode ser subestimado. Ao contrário, faz parte dela. Expande-a.

Alguns jornalistas vêem isso com desespero, como uma agressão à criatividade individual. Eu vejo com naturalidade (e algum senso de realismo, também: é o processo industrial, irreversível, das comunicações). Significa a democratização ou, no mínimo, um maior grau de socialização do processo de comunicação. Diminui os fatores de subjetividade na informação. Torna o noticiário mais objetivo. Claro, justifica-se a indignação de qualquer repórter em face da edição inepta. É que a contrapartida dessa maior participação de diferentes instâncias profissionais na elaboração do noticiário é uma maior oportunidade de ingerência também no sentido da deformação, do desvirtuamento e até da falsificação. Mesmo, porém, essa interferência degenerada tem seus antídotos na competição entre as empresas: a notícia objetiva num jornal é a denúncia indireta da manipulação do noticiário pelo concorrente.

O "caso" Delfin – BNH, entre os escândalos recentes, constituiu uma oportunidade ímpar para uma avaliação crítica do comportamento interno da Imprensa, sob a ótica da competição empresarial e o processo interno de controle do noticiário. Isso porque contém, talvez como nenhum outro, todos os ingredientes exemplares de uma fraude armada com a certeza (que se revelou frustra) da neutralização prévia da Imprensa. O Grupo Delfin tinha a maior conta de publicidade do setor financeiro nos meios de comunicação, a ponto de caderneta de poupança confundir-se com caderneta Delfin. Difundiu-se na alta burocracia do BNH a idéia de que uma eventual intervenção nela comprometeria a estabilidade de todo o Sistema Financeiro de Habitação. Como a publicidade maciça estava orientada para produzir exatamente esse tipo de feito, o dono da Delfin, com a certeza da impunidade, se sentia à vontade para impor ao BNH as regras de seu jogo fraudulento, entre as quais o embuste do pagamento de uma dívida monstruosa com a entrega de um terreno avaliado pelo "valor potencial".

A conta da publicidade generosa visava a criar um clima de simpatia favorável também entre os donos dos meios de comunicação, mas Ronald Levinsohn sabia que isso não bastava. Quem conhece a prática diária da Imprensa sabe que, por um acidente editorial, notícias que desagradam ao dono podem ser inseridas nos jornais com facilidade, quando a burocracia editorial não está atenta. Pôr isso, em sua estratégia, não se limitou á tentativa de acumpliciamento da Grande Imprensa pelo laço de ouro da publicidade. Envolveu diretamente um bom número de jornalistas, alguns ingênuos, outros nem tanto, de forma a criar um eficiente bloqueio contra o vazamento de qualquer informação que o comprometesse.

Ronald já havia passado pelo susto de ver estampada no Jornal do Brasil de 08/03/67 e, sete anos depois, em O Globo, de 02/03/74, uma notícia sumária de que estava sendo processado como falsificador e contrabandista na Justiça federal. Eram, segundo a nota, 40 processos dessa natureza em que estava incurso. Os crimes prescreveram e a notícia jamais reapareceu em O Globo ou qualquer outro jornal, até a intervenção na Delfin, dez anos mais tarde, o que demonstra, por si, a eficácia dos métodos de controle e persuasão que adotava. Mas o teste decisivo ainda estava por vir.

Com a eclosão do escândalo Delfin-BNH, através da Folha de S.Paulo, a corrente de cumplicidade que o dono da Delfin manipulava na Grande Imprensa rompeu – isso sempre acontece assim! – pelo lado mais fraco. Com efeito, o amigo pessoal de Ronald na Folha estava distante demais para exercer uma influência significativa na edição e impedir que a primeira reportagem sobre o escândalo fosse publicada. Era duvidoso que, mesmo estando perto, tivesse êxito, pelas características do "caso", dos jornalistas que o estavam levantando e as da própria Folha. Mas bem que tentou. Através de um telefonema de Nova York, o correspondente Paulo Francis intercedeu junto ao editor Boris Casoy para que recebesse Ronald ou representantes seus, que levariam explicações sobre o acordo, antes da veiculação de qualquer notícia a respeito. Mais do que a interferência impertinente (e inócua, uma vez que, como de rotina nesses casos, o empresário já tinha sido procurado), surpreendia-me a eficiência da rede de informações do dono da Delfin e sua agilidade em acioná-la, pois até aquele momento um reduzidíssimo círculo de pessoas sabia que uma reportagem estava por sair, e um círculo ainda mais fechado sabia da natureza dos documentos irrespondíveis em que se apoiava, como provas irrefutáveis da negociata.

O acordo Delfin-BNH foi formalizado em 16 de dezembro de 1982. Pouco antes, demitiu-se, por discordar dele, o diretor de Poupança e Empréstimo do banco, Lycio de Faria, logo seguido por dois auxiliares seus, José Maria Aragão e Hugo Evaristo de Queirós. No dia 20, uma segunda-feira, eu soube do acordo e das demissões – mas surpreendentemente nenhum desses fatos havia sido noticiado por qualquer jornal. À tarde, já tendo analisado os principais documentos do acordo que me chegaram às mãos, entrei em contato, por telefone, com a assessora do então presidente do BNH, Lucia de Biasi. Limitei-me a dizer que soubera do negócio e que gostaria de uma entrevista a respeito com o presidente José Lopes de Oliveira. Propositadamente, não mencionei o assunto a mais ninguém. Qual não foi minha surpresa ao verificar, no dia seguinte, 21, duas notas sumárias sobre o acordo, uma no "Informe Econômico" do Jornal do Brasil e outra na Gazeta Mercantil. Tinham o mesmo conteúdo: a Delfin havia quitado antecipadamente um débito de cerca de Cr$ 70 bilhões no BNH, dando por conta "valiosíssimos" terrenos para que neles o banco promovesse empreendimentos a fim de aumentar a oferta de imóveis para a classe média".

Esse embuste provocava indignação, mas o fato surpreendia, no momento, era tratar-se de notícia plantada, como logo apurei, procedente do dono da Delfin, que assim se antecipava a qualquer outra versão que a Folha eventualmente viesse a dar do negócio. Telefonei então de novo para De Biasi, única pessoa externa que até então sabia do meu conhecimento da existência de um acordo, já suspeitando que a Delfin tinha uma linha de informação direta junta à presidência do BNH, através da secretária. Soube então que José Lopes de Oliveira não me concederia entrevista nenhuma, e que qualquer informação adicional deveria ser procurada na própria Delfin. Liguei para lá e Ronald Levinsohn atendeu em pessoa, solicitamente. Repetiu as versões das notas plantadas no JB e na Gazeta. Senti que se alterou um pouco apenas quando mencionei o pedido de demissão de Lycio de Faria e seus auxiliares, sobre a qual, misteriosamente, ainda não havia aparecido um único registro na Imprensa. (No BNH, a versão era de que Lycio se afastara por problemas de saúde.) Era pouco mais de meio-dia.

Saí e, na volta do almoço, o diretor da sucursal, José Silveira, me comunicou ter recebido um telefonema do diretor da Veja, Elio Gaspari, já ciente de que estávamos preparando alguma reportagem sobre o acordo. Gaspari transmitiu a alegação de Ronald, de que afinal acertara sua vida com o BNH, "num négocio bom para todo mundo", e não gostaria de vê-lo atrapalhado pela imprensa. Quando soube, por Silveira, que não era exatamente assim, não insistiu no assunto. A nós, continuava a impressionar a rapidez com que o dono da Delfin movia suas peças, antes de saber, afinal, o que nós sabíamos do acordo.

A surpresa seria maior quando tomamos conhecimento de que, na mesma tarde, o correspondente da Folha em Nova York telefonou de lá para agenciar a entrevista de Ronald com o editor Boris Casoy. De fato, não o dono da Delfin, mas dois enviados seus foram recebidos por Boris na sede do jornal, em São Paulo (casualmente, José Silveira estava presente). Levavam uma pilha de papéis com que tentavam provar – ainda sem saber que tipo de documentação estava em nosso poder – a lisura do negócio com o BNH. Esses movimentos ágeis de Ronald Levinsohn denunciavam uma hábil manipulação de uma rede de aliciados, atraídos por favores ou gestos de simpatia e prestígio, mas denunciavam muito mais a falta de escrúpulos dele ao utilizar-se de amigos que podiam ignorar a extensão exata de suas fraudes. Com efeito, a natureza da operação ainda era desconhecida. Revelado por fim o acordo Delfin – BNH, em 30/12/82 e nos dias seguintes, com farta documentação comprobatória da negociata, já não poderia haver daí em diante desculpa para o apaniguamento da fraude pela distorção do noticiário jornalístico, a não ser com desonra.

Dez meses depois, contudo, verifiquei para minha máxima surpresa que, sob uma tortuosa argumentação sofística, Paulo Francis, pelas próprias páginas da Folha, lamentava a destruição da "maior caderneta de poupança independente do País" num artigo dedicado exatamente à questão da Imprensa ("A batalha da informação", Folha, 06/10/83, pág. 27). Nesses termos: "Octávio Frias pai, como eu, é contra que as cadernetas de poupança sejam controladas pelo Estado. Prefere, como eu, a iniciativa privada, mas literalmente destruiu a maior caderneta de poupança do Brasil, a Delfin, e eu tentei até contê-lo pois sou amigo do ex-proprietário. Mas Frias expôs o escândalo".

Seria apenas uma lamentável falta de informação do correspondente em Nova York, distraído em relação aos milhares de centrímetros quadrados publicados pelo seu próprio jornal sobre as fraudes da Delfin, se não fosse o fato de que Francis havia recebido um generoso financiamento de Ronald nas condições especialíssimas que ele usava para aliciar jornalistas. E que, além disso, pelos bons ofícios do dono da Delfin junto ao amigo José Bonifácio de Oliveira, o Boni da Globo – sócio de Ronald num negócio imobiliário em Nova York e, possivelmente, em outras aventuras externas –, o irreverente correspondente brasileiro, caústico e intolerante julgador à distância dos eventos políticos no Brasil, entrou no ar como comentarista internacional para deleite dos telespectadores da Globo e reforço dos próprios honorários.

***

O cerco montado para evitar o disparo da notícia foi ineficaz. A forma como a notícia repercutiria nos demais órgãos da Imprensa, uma vez publicada, mostrou, porém, como o bloqueio poderia ter sido eficiente se os documentos e informações básicas sobre a fraude não tivessem chegado primeiro exatamente à Folha de S.Paulo. Na realidade, o único outro grande jornal que acompanhou a denúncia foi seu concorrente paulista, O Estado de S.Paulo; no Rio, a grande imprensa diária ou se omitia, ou defendia subliminarmente (quando não de forma descarada) o empresário fraudulento.

Uma idéia aproximada desse comportamento, a partir de dados quantitativos, pode ser inferida no levantamento do noticiário relativo ao acordo Delfin-BNH nos principais diários editados no País (e no Rio), desde 30 de dezembro, quando saiu a primeira reportagem na Folha, até o dia 21 de janeiro, quando o governo afinal decretou a intervenção na Delfin. Eis o resultado, em centímetros quadrados e participação relativa do noticiário (iniciativa dos próprios jornais) ou de publicidade ou esclarecimento pago (iniciativa da Delfin ou de seus cúmplices no Governo):

Folha

Estado

JB

Globo

 

Noticiário

24.150 (70%)

8.430 (56%)

5.820 (47%)

2.090 (24%)

Esclarecimento

Pago/

publicidade

10.340 (30%)

6.610 (44%)

6.470 (53%)

6.800 (76%)

TOTAL

34.490

15.040

12.290

8.890

Gazeta

U. Hora

Tribuna

J.Commercio

Noticiário

1.320 (21%)

370 (05%)

590 (13%)

1.440 (45%)

Esclarecimento pago/

publicidade

5.020 (79%)

6.800 (95%)

4.100 (87%)

1.760 (55%)

TOTAL

6.340

7.170

4.690

3.200

Para uma apreciação qualitativa dessas cifras, deve-se considerar, logo, que o espaço total muito mais vasto dedicado pela Folha ao tema deve-se ao fato de que o "caso" foi levantado através dela, e seria sustentado por ela com maior ênfase, qualquer que fosse a postura editorial dos concorrentes em relação ao assunto. O jornal que sai na frente, num caso, costuma permanecer aí. Nela também se concentrou o maior volume de publicidade, em termos absolutos, o que não impediu que a publicidade, no total do espaço dedicado ao assunto, tivesse a menor participação relativa em comparação aos outros jornais . Mas O Estado de S.Paulo, mesmo dedicando menos espaço total ao assunto, comparado com a Folha, ainda destinou mais de metade dele ao noticiário informativo; de iniciativa própria, sem indícios de comprometimento Faccioso com a empresa fraudulenta ou seus protetores no Governo. Bem diferente era o comportamento predominante na Imprensa diária carioca. Os repórteres de O Globo receberam, através de seus editores, ordem de se limitarem às notas e pronunciamentos oficiais. O Jornal do Brasil fazia, na prática, exatamente o mesmo, até que se consumou a intervenção na Delfin, quando se rendeu à necessidade de abrir um pouco o noticiário, assim mesmo não por muito tempo. Na Imprensa econômica especializada, o Jornal do Comércio ainda informou de forma mais agressiva, como se nota nos números da tabela, do que a excessivamente moderada Gazeta Mercantil.

Mas nada mais intrigante, para um observador externo, do que a forma como se conduziram diante desse escândalo-mor os dois jornais cariocas especializados em denúncias espetaculares, a Tribuna da Imprensa e a Última Hora. Para ambos, parecia melhor não falar no assunto. E quando falavam era para exaltar a operação legítima, normal, sem importância maior que justificasse mais espaço no jornal do que já lhe estava reservado como matéria paga!

***

Ainda nesse caso, foi a competição entre os grandes jornais (modulada por alguma dose de idiossincrasia de um dos donos) que permitiu a penetração de um facho de luz para esclarecer de forma cabal o comportamento suspeito de alguns órgãos de comunicação diante da fraude à sua frente. Para isso contribuiu também a audácia com que o antigo dono da Delfin continuava a se utilizar dos recursos da caderneta de poupança para aliciar ou compensar amigos por serviços prestados. Em fins de janeiro de 1983, O Globo, em geral tão omisso, teve acesso a uma lista de contas fictícias de poupança bloqueadas pelo então interventor na Delfin em São Paulo. Estavam em nome de 222 pessoas ou instituições, e totalizavam Cr$ 1 bilhão 738 milhões 386 mil. Entre os beneficiários, figuravam muitos parentes e amigos dos Levinsohn. Figuravam igualmente jornalistas, e, entre eles, funcionários da Globo. Mas como lá estavam também os nomes de dois dos principais hierarcas do Jornal do Brasil – o diretor Walter Fontoura e Mauro Guimarães (então chefe da sucursal de São Paulo, hoje também diretor –, o patriarca da Globo, Roberto Marinho, de quem se diz não passar um dia sem imaginar um expediente para humilhar seu principal concorrente na imprensa diária carioca, não perdeu mais essa chance de lhe comprometer a credibilidade.

Em 03/02/83, O Globo publicou toda lista, embora dando junto uma versão branda e inverossímel para explicar as contas como uma tentativa do dono da Delfin de simular depósitos a fim de "melhorar a imagem" de captação da empresa e assim evitar a intervenção. A versão atenuada foi encampada imediatamente pelo Jornal do Brasil, que no dia seguinte respondeu com violento editorial, sob o título sugestivo de "Caso de Polícia", condenando em termos duros, pela primeira vez, as manobras fraudulentas de Ronald Levinsohn no comando do Grupo Delfin. Ressentido, o editorialista chegava a lamentar-se da falta de escrúpulo pela traição de uma amizade: "O descalabro da Delfin é fato já do conhecimento público e sujeito às conseqüências legais que estão em curso. Fato bem diverso é esse crime dentro da fraude, com a impressão digital dos métodos condenáveis a que se acostumou o Sr. Ronald Guimarães Levinsohn. Uma coisa é a falcatrua e outra a injúria contra pessoas que poderiam ser, inclusive, de suas relações pessoais, mas que foram indevidamente utilizadas na manobra – o que configura, além do crime, uma traição e eventuais relações de confiança."

Bastaria esse último trecho para explicar a cobertura facciosa dada até aquele momento pelo jornal ao escândalo Delfin-BNH. No entanto, só mesmo com muita condescendência se poderia aceitar a tese de simulação dos depósitos para propósitos meramente escriturais. Embora fosse exato que não havia conivência dos beneficiários indicados, não cabia dúvida para o fato de que as contas eram "presentes", compensações dadivosas por serviços prestados ou a prestar, ou no mínimo gestos de aliciamento. Senão, por que a maior parte delas, e rigorosamente todas as que foram abertas em nome de jornalistas, eram no valor exatos de Cr$ 5,8 milhões – o montante preciso, na época, do limite garantido pelo BNH para retirada pelo titular no caso de uma intervenção?

Como o inquérito posterior da intervenção revelaria, a abertura dessas contas fazia parte de uma operação maior, às vésperas do decreto, destinada a esvaziar o patrimônio das sociedades de crédito imobiliário, cuja intervenção era iminente, para empresas coligadas do mesmo dono ou, em escala menor, para parentes e amigos seus. Era importante também desinflar o lucro escritural resultante do acordo com o BNH, pelo qual terrenos que valiam, no máximo, Cr$ 6,4 bilhões quitaram um débito de Cr$ 60,8 bilhões – de onde o recurso a uma série de artifícios contábeis e de simulação de negócios com coligadas para se escapar da tributação correspondente. Todos esses truques, exceto as contas fictícias, acabaram sendo sancionados pelo Banco Central, graças à generosidade de seu presidente Affonso Celso Pastore, que fixou em apenas dois dias antes da intervenção – quando podia fixar em 60 – o termo de liqüidação da Delfin, período dentro do qual as operações suspeitas poderiam ser anuladas por simples iniciativa dos liquidantes.

***

Para identificação do serviço prestado pelos titulares involuntários (mas não omissos) das contas fictícias, basta contemplar a tabela acima – e lê-la a partir da lista de contas bloqueadas na Delfin. Nesta, figuravam lado a lado os nomes de Hélio Fernandes, o dono da Tribuna da Imprensa, e de Antônio Ary de Carvalho, o dono (aparente) de Última Hora. O noticiário de ambos os jornais correspondeu fielmente a essa disposição.

Quanto a Última Hora, a surpresa maior não era que o dono tivesse sido seduzido por Ronald, mas sim que toda a empresa estivesse na gaveta dele, através de um empréstimo feito no longínguo ano de 1974, rolado durante um decênio e finalmente quitado de forma suspeita – provavelmente em contrapartida de um contrato de gaveta, em sentido contrário –, em janeiro de 1983. Então, o débito era de Cr$ 978 milhões 776mil. A Delfin Rio deu geral quitação dele mediante simples reconhecimento de que o jornal lhe prestara "serviço de divulgação" de caderneta de poupança, em espaço e época indeterminada. Como as outras operações mencionadas antes, também esta destinava-se a esvaziar o patrimônio da Delfin em favor de empresas coligadas, ou nas quais seu dono fosse um sócio oculto.

Por certo, não era uma mera coincidência que tenham sido exatamente os órgãos de comunicação cujos executivos ou editores não figuravam na lista de contas – presente da Delfin que acompanharam a evolução do escândalo com alguma objetividade. O tímido noticiário da TV Globo a respeito justificava-se pelas relações de amizade e de interesses entre Ronald e Boni, mas também poderia ser deduzida da lista, onde figurava o nome de Maurício Antunes, funcionário da emissora. O comportamento das principais revistas, Veja e IstoÉ, não fugia à regra. Veja resistiu no início a tocar no assunto, e ao fazê-lo numa reportagem de pouco mais de duas páginas assumiu descaradamente o ponto de vista dos Levinsohn, considerando que tudo não passava de uma "confusão de laudos" e que o grande culpado era o BNH. Só voltaria ao tema duas semanas depois, já decretada a intervenção, interessando-se porém mais pelos efeitos que pelas causas da quebra, embora lhe dedicando agora quatro páginas. (Na mesma edição, com a reportagem "O sol por testemunha", explodia o "caso" Baumgarten.) Tanta incúria editorial numa revista em geral criteriosa não podia ser por acaso; com efeito, lá estava o nome de seu editor de Economia, Sílvio Ferraz, na lista de Ronald. IstoÉ, que não concorreu com nenhum funcionário para a lista, trouxe comparativamente, em quatro edições sucessivas, um noticiário muito mais sóbrio, imparcial e completo.

Por essas circunstâncias, fica mais fácil compreender também por que, na seqüência dos "casos" que escandalizaram a sociedade brasileira no início de 1983, o episódio Delfin-BNH quase submergiu sob a avalanche desencadeada pela revelação do assassinato de Alexandre von Baumgarten. Na realidade, parte considerável da Grande Imprensa tinha uma predisposição justificada para minimizá-lo. Mesmo quando não houve má-fé, a desinformação revestida de simulação analítica encarregava-se de espalhar confusão e diversionismo: a revista Senhor dedicou seis longas páginas ao caso Delfin-BNH para concluir que se tratava de uma manobra do SNI (eu deveria ser um agente, não disseram se inconsciente) a fim de desestabilizar a candidatura de Andreazza. (Não custou muito a outros analistas concluírem, logo depois, que o "caso" Baumgarten e, em seguida, o "caso" Capemi explodiram para desestabilizar a candidatura do general Otávio Medeiros, chefe do SNI.)

Não cuidaram de considerar sequer, esses analistas, que, sobretudo quanto aos escândalos mencionados, o noticiário informativo original em especial o exibido pela Folha de S.Paulo, em dois deles, e o da Veja, no outro – estava prodigamente documentado. Não se tratava de um jornal, de um ou mais jornalistas comprometendo reputações políticas ou pondo em risco a honra dos cidadãos. Era, ao contrário, o testemunho documental de escândalos escabrosos promovidos por cidadãos até então acostumados ao status da insuspeição por causa da proteção do autoritarismo. Mesmo no "caso" Baumgarten, no qual a prova central dependia da palavra de um farsante, um cadáver foi resgatado das águas da Guanabara para desafiar o cretinismo entranhado nas teorias conspirativas do noticiário da Imprensa.

Ficou claro porém, pelo próprio curso da cobertura desses escândalos na Imprensa, que nem os compromissos empresariais das empresas de comunicação, nem as manobras de aliciamento de jornalistas individuais conseguem impedir que, no conjunto, a informação objetiva prevaleça, quando se respeita o princípio da liberdade e se exerce um mínimo de concorrência. [O envolvimento de jornalistas faz parte de um jogo de encenação de prestígio, mas Ronald na realidade foi muito além. Em abril de 1982, quando ainda resistia às pressões do empresário para fechar o acordo do "valor potencial", o presidente do BNH, José Lopes de Oliveira, acompanhado do presidente do Banco do Brasil, Osvaldo Collin, foi a Brasília para assinatura de um convênio com a Poupex, a caderneta de poupança do Exército. Ao entrar no gabinete do Ministro do Exército, Walter Pires, qual não foi sua surpresa ao ver ao lado dele ninguém menos que Ronald Guimarães Levinsohn, logo depois convidado a assinar o convênio como testemunha. O show de prestígio por certo pesaria, mesmo que só subliminarmente, no desfecho das negociações entre Delfin e o BNH. Mesmo porque o heterodoxo empresário já então podia exibir, com orgulho, a Medalha do Pacificador, condecoração que recebeu do Exército.]

Num processo de conquista da democracia, como o que presenciamos e vivemos, é essencial compreender o valor absoluto que tem, para o conjunto da sociedade, a liberdade de informação – independente de quem a exerça ou das limitações que possa impor, a empresas ou a jornalistas individuais, o poder econômico ou político. A liberdade de informação, desde que institucionalmente protegida, enquanto princípio, sempre encontrará seu espaço de afirmação por entre os conflitos de interesse nas demais instâncias da sociedade e, por último, na instância da própria Imprensa.

Por isso, subscrevo integralmente o conceito emitido pelo General Rezende, antigo chefe de Relações Públicas do Exército, na frase que transcrevi na epígrafe deste posfácio. Ela me impressionou na ocasião, vinda de um porta-voz militar, numa época de agudos conflitos econômicos e sociais que se refletiam numa Imprensa crescentemente independente, cada vez mais liberada dos constrangimentos e dos hábitos do sistema autoritário. Os militares, como servos da ordem, tendem a ver na liberdade de informação, de forma míope, uma fonte de anarquia, e por isso é animador reconhecer na opinião de um prócer dentre eles um conceito que estabelece como limite da liberdade de informar somente a honra dos cidadãos. Apenas lhe acrescentaria que a liberdade de Imprensa, quando exercida sem constrangimentos espúrios externos, não só deve preservar a honra dos cidadãos como é também o único caminho por onde ela pode ser restabelecida quando estão em risco os próprios direitos fundamentais da cidadania.

 

ARQUIVO ANA LAGÔA
Política militar na internet

 

João Roberto Martins Filho (*)

MARCO TERRANOVA / JORNAL DO BRASIL
Ana Lagτa
A partir de agora, quem estiver interessado em conhecer melhor os usos e os abusos do período militar brasileiro (1964-1985) – ou outros assuntos relacionados ao papel atual das Forças Armadas e a temas estratégicos em geral – pode começar pela Internet. O Arquivo de Política Militar ‘Ana Lagôa’, da Universidade Federal de São Carlos, acaba de inaugurar uma versão mais elaborada de sua página na rede, no endereço <www.arqanalagoa.ufscar.br>. Por enquanto, o site tem informações sobre o acervo: mais de 15 mil recortes de jornal, 600 livros, 400 periódicos, 200 documentos militares, 6.000 laudas de jornal originais etc. Tudo catalogado e organizado em banco de dados, por tópicos de interesse.

A origem do acervo foi uma doação feita pela jornalista Ana Lagôa, que guardou tudo o que podia sobre o assunto, desde 1968, e principalmente no período dos governos Geisel e Figueiredo, durante o qual, como jornalista da Folha de S.Paulo, foi repórter setorista da área militar, em Brasília.

No final 1995, o material foi transferido para o Departamento de Ciências Sociais da UFSCar, em São Carlos, SP. Logo se formou uma equipe, composta por mim, atual coordenador do arquivo, e mais dois colegas do Departamento de Ciência da Informação – Cristina e Massao Hayashi. Com o auxílio de bolsistas, mergulhamos no trabalho de elaborar um banco de dados, organizar e catalogar o material.

Em três anos – apesar da falta de recursos nas universidades federais –, o grosso do trabalho estava realizado. No começo de 1999, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) passou a incentivar o projeto, no seu programa de apoio a arquivos e bibliotecas.

Atualmente, além do acervo de Ana Lagôa, o AAL dispõe de material sobre os governos Castelo e Branco e Costa e Silva – cerca de 400 artigos –, bem como outros 400 textos sobre assuntos militares, documentos recentes sobre as Forças Armadas, vídeos e gravações de palestras e livros, provenientes de doações e do material antes colecionado pelo coordenador do arquivo.

Os planos para 2000 incluem distribuir na internet todas as listas de material disponível, permitindo aos pesquisadores solicitar cópias por e-mail. No futuro, o arquivo pretende construir prédio próprio e incorporar outros acervos. No momento, temos muito interesse em receber livros e revistas relativos ao assunto. Se você tem ou conhece alguém que disponha de coleções de periódicos militares ou jornais e revistas datados do período do governo militar, entre em contato com o AAL no endereço abaixo.

(*) Cientista político, professor da Universidade Federal de São Carlos, coordenador do Arquivo Ana Lagôa

Como entrar em contato:

Universidade Federal de São Carlos
Centro de Educação e Ciências Humanas
ARQUIVO ANA LAGÔA
Rodovia Washington Luis, Km 235
13.565-905 – São Carlos – São Paulo – Brasil

Fone: (0xx16) 260-8369 (DCSo)
Fone: (0xx16) 260-8374 (DCI)
Fax: (0xx16) 260-8353

E-mail: analagoa@power.ufscar.br
URL: http://www.arqanalagoa.ufscar.br

 

Quem é Ana Lagôa

 

Maria Cristina P. Innocentini Hayashi (*)

No Arquivo Ana Lagôa está exposta a trajetória de uma jornalista que, como milhares de brasileiros, viveu as conseqüências de um governo militar. Sua profissão exigia uma convivência muito próxima das transformações que vinham ocorrendo na sociedade.

Ana Lagôa iniciou a construção de seu acervo com 15 anos de idade. Em 1969, aos 18 anos, começou a trabalhar como repórter, na sucursal paulista de O Globo, enquanto cursava o primeiro ano da Faculdade de História na Universidade de São Paulo. Foi repórter de Geral no Globo, na Última Hora, no Correio da Manhã e na sucursal da Folha de S. Paulo, no Rio de Janeiro, até 1974, quando mudou-se para Brasília. Por alguns meses continuou na cobertura da cidade pelo Jornal de Brasília, até voltar para a Folha. Em 1978 transferiu-se para a sucursal carioca da mesma Folha, onde ficou até seu fechamento, em 1980. Passou alguns meses na sucursal de O Estado de S. Paulo, e depois do episódio do Riocentro deixou a grande imprensa. Formou-se em História pela UFRJ e trabalhou durante cinco anos como assessora de imprensa do Ibase. A partir de 1988, de volta a São Paulo, trabalhou por oito anos como editora da revista Nova Escola. Em 1998 defendeu tese de mestrado na área de Educação.

Foi sua formação histórica que a fez ter noção do real significado de um documento e de como selecionar a informação. Ana Lagôa formou um vasto arquivo de política militar que tomou forma quando ela trabalhou como repórter setorista da área militar na Folha, durante os anos da ditadura.

Laudas datilografadas

Naquele tempo, poucos jornalistas conseguiam ser credenciados para cobrir os ministérios militares. Era uma situação dúbia: ao mesmo tempo em que o credenciamento era concedido a quem nunca tinha sido preso, perante a categoria o profissional era visto com suspeição. A jornalista conta que era casada com um diplomata e aceitou a vaga apenas porque, face à ida do marido para o exterior, teria uma breve passagem pelo setor. A área a cobrir, no caso, não tinha muita importância, já que sua carreira seria interrompida. Só que, tão logo assumiu o posto, a repressão fez várias prisões, incluindo-se a que resultou no assassinato de Vladimir Herzog.

Foi quando Ana Lagôa sentiu que "estava dentro da toca do leão". Esse momento marca a tomada de consciência dos jornalistas credenciados. Eles perceberam que a cobertura dos fatos deveria ir além da simples coleta de press-releases que se fazia todos os dias com hora marcada. A jornalista explica que, a partir daí, começou a fase mais fértil da cobertura, estabelecendo-se "com a área uma relação de extremo profissionalismo, mas também uma acirrada guerra de informações e contra-informações".

Nos anos subseqüentes à morte de Herzog até a bomba do Riocentro, a área militar foi tratada como uma fonte histórica de informações sobre o funcionamento dos governos militares, seu jogo de forças, sua política interna, seus projetos e suas contradições. O material coletado, cada entrevista feita, publicada ou não, livros e apostilas – tudo foi guardado para um futuro estudo. A jornalista também fez um exaustivo trabalho de recortes de jornais, que resultou num arquivo pessoal em que se pode conhecer fases do confronto do movimento social com o governo militar. Grande parte das matérias de sua autoria, publicadas pela Folha de S. Paulo, estão no Arquivo Ana Lagôa, em laudas datilografadas (carbono do original) ou recortes.

No período da abertura, Ana Lagôa cursou pós-graduação em Ciência Política, com o objetivo de dar um caráter científico ao trabalho, talvez publicar um livro. Fez extensa pesquisa sobre o nacionalismo nas Forças Armadas, que seria o tema de sua tese, infelizmente não concluída.

Ao realizar a doação de seu arquivo à UFSCar, Ana Lagôa pensou ter encontrado "uma forma de dar sentido ao tão penoso trabalho daqueles seis anos" de sua vida profissional.

(*) Professora do Departamento de Ciências da Informação da UFSCar. O texto apresenta a jornalista no website Arquivo Ana Lagôa

 

ENTREVISTA/ANA LAGÔA
"Deixei meu grafite no mundo"

 

Marinilda Carvalho

Marco Terranova/Jornal do Brasil
Ana Lagôa

Ana Mascia Lagôa é bonita, charmosa, elegante, inteligente, culta, bem-informada, uma profissional completa, educada, formada e pós-graduada em escola pública – aquela escola pública que Anísio Teixeira sonhou que forjaria um dia os brasileiros de um grande país. Em 1999, aos 48 anos, 30 de profissão, Ana aceitou o convite de Noenio Spinola, então editor do Jornal do Brasil, para desenvolver um caderno de educação e trabalho que registrasse as transformações sociais do momento. Acabou inovando a cobertura da área, produzindo um suplemento dominical pioneiro que reproduz o angustiante debate travado em todo o mundo sobre o futuro dos jovens na era neoliberal globalizada – futuro especialmente incerto numa nação periférica sem caminhos próprios.

No domingo, tomando água de coco num quiosque da Praia de Ipanema, no Rio, sob um guarda-sol que a protegia de uma chuvinha com cara de garoa, velha conhecida desta paulistana do bairro de Santana, ela falou de outros pioneirismos seus, mas de tempos dolorosos, em que escrever era um ofício desprovido de charme, recheado de entrelinhas, velado por medos e suspeitas: os anos que passou cobrindo a área militar em plena ditadura. Exercício diário de convivência com generais e coronéis que posavam de governantes de direito em Brasília, quando sua força estava de fato nos porões, torturando e assassinando.

Esta entrevista, sacudida por risadas nervosas e molhada de lágrimas (lembrar coisa feia machuca), visa registrar que neste finalzinho de 1999 Ana comemora três décadas de jornalismo com um feito histórico: seu imenso arquivo de matérias, livros e recortes de jornal sobre a ditadura militar, que ela começou a construir aos 15 anos e que em 1996 doou à UFSCar, está finalmente disponível para pesquisa pública [ver abaixo onde e como]. Um raro arquivo de jornalista, povo acostumado a ver no resultado final de seu trabalho apenas um bom embrulho de peixe.

Quem a conhece sabe o que significou esta doação: liberdade. Emocionalmente, o arquivo pesava como uma faca no peito. Fisicamente, dava um trabalho de cão. Em sua casa, onde uma gata reina, comprar uma estante nova acabava sempre em festa: "Graças a Deus, menos uma caixa no chão", dizia, no sotaque italiano que surge do nada em grandes alegrias e grandes raivas. As caixas se foram, o legado é permanente: "Deixei meu grafite no mundo."

***

Por que você começou a arquivar coisas aos 15 anos? Era influência da cultura européia da preservação, já que sua família é italiana?

Ana Lagôa – Isso também. Minha família tinha mania de guardar. Na casa da família da minha mãe havia porões repletos de coisas, verdadeiros almoxarifados. Nada era jogado fora, nada era descartável, tudo era reciclável. Era a cultura da casa. Coisa de um povo que passou muita necessidade, perdeu tudo que tinha, veio pra cá e começou de novo. Mas comecei a recortar jornal em 1966 porque corria a notícia de que os militares estavam destruindo as bibliotecas dos sindicatos em São Paulo, das escolas, e me dava aquele medo mitológico do "queimar livros". Eu temia que fossem destruir os jornais também, e aí não ficaria nenhum registro escrito para a história. Então, economizava o dinheiro do lanche para comprar jornal, e recortava tudo. Separava por assunto em pastas e guardava. Por exemplo, eu tinha tudo o que saiu nos jornais sobre o Chile, até a morte do Allende em 1973. Instintivamente eu sabia que algo importante estava acontecendo lá. Além disso, eu estudava numa escola construída para fazer do Brasil um grande país.

Que escola era essa?

A.L. – Colégio Estadual Dr. Octávio Mendes, uma escola anisiana [referência ao educador Anísio Teixeira], que oferecia uma cultura clássico-humanística pesada. Lia-se Platão e Aristóteles aos 13 anos. Podíamos não entender nada, mas líamos, e aquilo ficava registrado nos arquivos da cabeça. Eu era filha de operário, mas tive acesso numa escola pública a essa cultura ampla que é a base de tudo. Meu professor de História era meu guru. Quer dizer, foi um conjunto de fatores: a cultura doméstica de valorizar a memória, a escola anisiana, mais o medo mitológico de perder o registro dos fatos, tudo isso me levou a começar o arquivo. Era o instinto do narrador que o Walter Benjamin registrou, de contar e recontar, contar e recontar.

E tudo isso ficava em sua casa?

A.L. – É, para desgosto geral. Especialmente dos maridos e das transportadoras, porque a cada mudança eram caixas e caixas de pastas. Quando fui trabalhar em redação era uma baba, porque tinha os jornais à mão, podia cortar tudo sem precisar comprar. Na Geral, minhas matérias sobre qualquer assunto tinham background completo. Por exemplo, se eu fosse fazer matéria sobre o Arrelia usava minha pasta de palhaços e circos. Tinha uma minipesquisa particular. Também cedia arquivos aos colegas. Depois que comecei a cobrir a área militar, fui me desfazendo aos poucos das pastas de assuntos gerais.

Como foi esse peso de ser "setorista da área", como se dizia na época em Brasília?

A.L. – Eu comecei a cobrir a área no meio do ano, na sucursal da Folha, depois de passar pelo Jornal de Brasília. Não dava muita importância, porque iria logo para o exterior com meu marido diplomata. Mas em outubro de 1975 o Vladimir Herzog foi preso e assassinado no DOI-Codi em São Paulo. Minha melhor amiga também estava lá e isso me abalou muito, pois já havia perdido outros amigos desde o fim do colegial. As prisões de outubro de 75 provocaram então uma mudança histórica na cobertura militar, tanto em mim quanto em dois colegas, do Estadão e do JB, Jorge Honório e Zenaide Azeredo. Passamos a buscar os fios das meadas. Tudo era checado e rechecado. Começamos instintivamente a fazer jornalismo investigativo, interpretando e confirmando qualquer informação, qualquer release, até uma simples mexida de olho de um informante.

E isso era consciente?

A.L. – Não, só percebi isso tempos depois. Na época, nós apenas fazíamos.

Era a época do off, das entrelinhas, dos textos possíveis.

A.L. – Era horrível, um gesso total. Foram seis anos de offs, matérias em linguagem cifrada que só os iniciados entendiam, cuidado com cada palavra. As pessoas cochichavam nas redações, nos bares, nas festas, amigos de amigos eram vistos com suspeita até provarem ser confiáveis, ninguém ia para casa sozinho, se ia era obrigado a telefonar quando chegasse. Se não telefonasse alguma coisa tinha acontecido. O mais incrível é que quem cobria a área era visto com desconfiança, embora estivéssemos trabalhando em condições duríssimas para descobrir e contar o que acontecia. Conseguimos criar um laço de cumplicidade, eu, o Jorge Honório e a Zenaide, uma correria frenética atrás de informações, às vezes de simples sinais. Nossa fala era permeada de códigos: "Vou checar a fonte azul [Aeronáutica], você ouve a verde [Exército]". As prisões se sucediam, e além de apurar matéria tínhamos que dar um jeito de descobrir informações sobre colegas presos.

Todo mundo dava sumiço em material que a repressão considerava "subversivo". E o seu arquivo? Onde você guardava, sendo então casada com diplomata?

A.L. – As pastas ficavam na redação, os livros em casa. Não me desfiz de nada, mesmo quando os amigos mais próximos foram presos. Pode parecer heróico, mas pós-facto acho que era suicídio mesmo, vontade de estar com eles. A única coisa que se perdeu foram os panfletos da adolescência, do tempo do 477 [o decreto-lei que engessou a atividade política nas universidades], das passeatas, que eu e uma amiga guardamos porque achamos que um dia alguém ia querer estudar aquilo tudo, mas enterramos num sítio e o tempo reciclou, sumiu tudo na terra. Eu nunca fui presa ou interrogada, não pertencia a nenhuma organização, então fiquei fora. Só tiramos o arquivo de casa na época da matéria sobre os 13 mortos [ver abaixo], porque ali era uma cartada arriscada e envolveria parentes e pessoas próximas.

Em sucursal não era preciso bater matéria com cópia, como em sede de jornal, porque os textos iam por telex. Por que você batia com carbono?

A.L. – Eu guardava uma cópia para o meu arquivo.

E como era bater matéria sem lide explícito?

A.L. – Eu batia relatório. Era muito novinha, tinha 24 anos. Chegava à redação da sucursal e contava tudo o que conseguia apurar ao Leleco, Haroldo Cerqueira Lima, o chefe da sucursal. Um grande jornalista, um homem íntegro, que suportou um cargo de chefia em Brasília sob as pressões daquela fase sem jamais descambar para a direita. Sem nunca abandonar o afeto. Acho que ele levou a máxima do Che ao pé da letra. Encarava as feras, sem perder a ternura. Ninguém lembra dele hoje, ficou doente, se aposentou. Quem perdeu foi a imprensa brasileira e os jovens jornalistas, que ficaram privados da sua experiência magnífica, de um amor enorme pelas pessoas e pelo trabalho. Ele me ensinou a trabalhar. Depois de ouvir tudo, de avaliar e interpretar tudo comigo ele dizia: senta e escreve. Eu batia então o que chamávamos de relatório, uma prática comum naquela época a todas as sucursais. Com base no meu relatório, Leleco escrevia depois a matéria possível. Esses relatórios eram enviados à sede da Folha em São Paulo por vários meios: alguns, menos complicados, por telex. Outros eram lidos pelo telefone, numa linha segura. De 15 em 15 dias, coleções desses relatórios eram levadas pessoalmente pelo Leleco a São Paulo, para o velho Frias ler.

E quando você começou a escrever as matérias?

A.L. – Só em 1976. É importante lembrar que naquele tempo (que expressão horrível...) repórter novato não tinha essa compulsão de sair fazendo matéria principal, assinar. E as chefias tinham paciência e tempo para sentar do lado, ensinar. Também é bom lembrar que não se malhava em ferro frio. Eles investiam em quem dava pro negócio. Minha primeira matéria feita sozinha, como setorista, assinada, foi uma dominical sobre o projeto de centralização de poder do Geisel. Havia uma discussão feroz sobre se o Geisel estava centralizando para abrir, se estava centralizando para fechar. A certeza de que ele estava abrindo se confirmou quando ele demitiu o general Ednardo D΄Ávila Melo [do comando do 2Ί Exército] depois da morte de Manoel Fiel Filho, em janeiro de 76, no mesmo DOI-Codi da Tutóia onde morrera o Vlado [e, em outubro, ministro do Exército general Sylvio Frota].

Essas matérias analíticas eram de importância fundamental.

A.L. – É, porque davam as linhas de ação dos militares, via-se quem era aliado de quem, os rumos possíveis do processo da ditadura... e tudo nas entrelinhas. Interpretar as promoções dos generais era um rito cheio de mensagens simbólicas. Passei quatro anos – 74, 75, 76 e 77 – trabalhando assim em Brasília. Até que em 1978 fui para a sucursal da Folha no Rio. Consegui a transferência porque Alberto Dines, que era o chefe da sucursal, achou que era importante cobrir o processo da sucessão, e minhas fontes estavam no Rio: Euler Bentes Monteiro, Hugo Abreu e outras figuras-chave na época. A pedido dele passei a freqüentar a Vila Militar, para ouvir comandos intermediários. E depois da posse do Figueiredo, em 1979, Dines redirecionou a cobertura, juntando meu trabalho na área com o do Henrique Lago, que passou a ser meu parceiro no levantamento de matérias sobre a repressão.

Conte como foi isso, mudou o eixo da cobertura?

A.L. – Eu continuei a cobertura do sistema, identificando fissuras no poder, alterações de comando, mas abrimos o leque. Fazendo a ponte com os presos políticos, com o Lago, é claro, porque eu não tinha acesso a eles e nem sempre era bem vista – aquela velha paranóia. Começamos a apurar as histórias das prisões, dos desaparecimentos, que queriam dizer morte, lógico, mas o nome era "desaparecimento". Nessa época fizemos a matéria História secreta da guerrilha urbana no Brasil, que na verdade apurou e confirmou 13 mortes e suas circunstâncias. Foram duas páginas da Folha em 79, assinadas por Henrique Lago e Ana Lagôa. A repressão achou até que era gozação. Mas não, nossos sobrenomes são Lago e Lagôa, fazer o quê?

Como foi apurar essa matéria, quem eram as fontes?

A.L. – Generais, coronéis, majores. Gente que queria falar, que via a coisa escapando do controle. Um deles sempre dizia que estava contando casos para se preparar para o "Julgamento de Nuremberg", pois o pêndulo da história viraria para a esquerda. É engraçado, eles começaram a pensar nisso já em 75. Um carcereiro do DOI-Codi disse a uma amiga: "Olha, eu te tratei bem, lembra disso quando a coisa virar." Mas voltando à matéria da Folha, as fontes nos recebiam em casa, em visitas sucessivas, e diziam assim que entrávamos: "Sem papel, sem papel.".

Como sem papel?

A.L. – Não podíamos anotar nada. Eles falavam, falavam, falavam, e não podíamos anotar uma palavra. Eu decorava os nomes dos militares, e o Henrique os dos militantes. Saíamos dali correndo para anotar tudo no carro, um ajudava o outro a reconstituir a entrevista toda. A paranóia era total, tínhamos medo de estar sendo seguidos, tomávamos táxis diferentes para voltar.

E como era seu comportamento diante de uma fonte assim?

A.L. – Eu interagia com ela. Porque eu tinha me apropriado da linguagem dos militares para poder ter respostas pessoais, como as que se tem numa conversa, e não aquelas respostas construídas das entrevistas. Para me apropriar dessa linguagem eu até freqüentava sebos atrás das bibliotecas que as famílias dos generais mortos vendiam. E comprava os livros mais importantes.

E essa matéria ganhou prêmio?

A.L. – Nós mandamos para o Esso, mas acho que não se premiava matéria desse tipo na época.

Mas a barra já não estava menos pesada?

A.L. – Que nada, a bomba do Riocentro foi em 81! E também as da OAB, da Tribuna da Imprensa, das bancas de jornal. Na verdade, era um momento-limite do processo.

Os torturadores trocaram o porão pelo esgoto.

A.L. – E aí eu pirei. A sucursal da Folha tinha fechado em agosto de 80, no dia seguinte à visita do papa. Fiquei parada uns meses e depois fui para o Estadão, ainda cobrindo a área militar. Estava em casa vendo televisão quando tocou o telefone: era do jornal. Explodiu uma bomba no Riocentro. Foi uma coisa indescritível. Cada vez que pensava que iam jogar uma bomba para matar 2 mil pessoas eu tremia. Com 20 dias de apuração, pedi demissão: "Não quero mais isso na minha vida", eu disse. Estava tomando Valium para agüentar.

Mas por que isso?

A.L. – Eu estava cobrindo o caso e acompanhava a investigação paralela, do coronel Dickson Grael, porque na investigação oficial não saia nada. Cada reunião do grupo do Grael era passada aos jornalistas de confiança como um ponto [encontro clandestino de militante da esquerda], os locais eram aparelhos [esconderijos da esquerda]. Abriam uma fresta da porta, um revólver apontado pra você, até você se identificar. Lá dentro, as revelações abalavam a alma. Não dava mais. Além disso, no Estadão eu não tinha o suporte, a cobertura que a Folha me dava em Brasília e no Rio. Não tinha nenhuma segurança. E desisti.

E o que sobrou desse período brabo?

A.L. – Várias coisas. Eu continuei por um bom tempo alerta, sempre achando que havia alguém vigiando. Falando sempre pouco. Mas o pior, profissionalmente, foi só saber escrever nas entrelinhas. Fui ser assessora de imprensa do Betinho, no Ibase. Fazia um boletim chamado Brasil Informação, que circulava em inglês, francês e português descrevendo a situação do Brasil para exilados brasileiros. Ele queria textos explícitos, mas eu escrevia cifrado. Escrevia e reescrevia. Foi um longo e sofrido reaprendizado. Levei meses para voltar a escrever um texto direto, a não falar tudo por metáfora, como eu aprendera desde novinha. Betinho e Caio Graco [dono da Editora Brasiliense, filho de Caio Prado Jr., professor da USP e velho teórico do Partidão] me incentivaram a fazer uma terapia: escrever um livro sobre o sistema de informações. Era 1982, mas eu já trabalhava com computador, um Scopus, e em uma semana, fechada numa salinha, escrevi o livro que a Brasiliense editou. (SNI: como nasceu, como funciona).

E a vida estava mais fácil?

A.L. – De jeito nenhum. As janelas do Ibase eram lacradas. As cartas eram abertas no quintal da casa, porque tínhamos medo de que mandassem uma bomba para acabar com o Betinho, que estava ali todo dia. É impressionante, isso tudo não tem nem 20 anos. Por isso eu vivo dizendo à garotada na redação: "Esses problemas de hoje não são nada." A moçada não faz idéia do que era ser jornalista na ditadura. Eu sou feliz, eu sobrevivi. E tive dois mestres da pesada, Leleco e Betinho. Sem eles talvez não tivesse conseguido.

E com um baita arquivo de quebra.

A.L. – Nessa altura, era mesmo um baita arquivo. Mas eu odiava aquilo tudo. Vivia ameaçando queimar, inclusive os livros comprados muitas vezes com minhas economias, alguns às escondidas, na velha Brasiliense da Rua Barão de Itapetininga, em São Paulo, onde Caio Graco deixava os jovens estudantes lerem livros que estavam "sumidos" do mercado. Em 96 comecei a espalhar que queria doar os recortes e os livros. Estava editando os textos da revista Ciência Hoje, enquanto fazia o mestrado na Praia Vermelha, quando conheci o trabalho do professor João Martins. Eu tinha que editar um artigo dele sobre o governo Costa e Silva e a imprensa, e quis falar com ele por telefone. Na conversa ofereci o arquivo. Alguns meses depois ele foi à minha casa em São Paulo e levou tudo. Quando o carro dele virou a esquina, cheio dos registros daqueles anos das nossas vidas, me senti livre finalmente. Fechou-se um ciclo de vida naquele momento.

Você acha que vale a pena um repórter fazer arquivo atualmente?

A.L. – Sempre vale. Principalmente para quem lida com temas específicos, mesmo existindo a Internet e tudo o mais. O que você guarda, guarda com seus olhos e mente, é sempre diferente do que o outro guarda. Ainda mais hoje, que é preciso ter pós-graduação. Se ele for para uma pós, terá sempre um material próprio, às vezes só dele, para analisar em algum projeto.

Por que você resolveu doar o arquivo?

A.L. – Resolvi doar porque queria me livrar do peso, mas também queria que fosse útil a quem está fazendo tese sobre política e ditadura, que servisse para contar alguma coisa a alguém. Não queria ganhar dinheiro com ele, nada. A UFSCar cumpriu todos os meus pedidos, o professor João, que é o responsável pelo projeto, é impecável, promoveu uma palestra minha lá no campus para explicar a criação do arquivo quando ele foi inaugurado. Significativamente, falei aos estudantes no auditório Florestan Fernandes. Foi a única vez em que falei em público sobre o acervo e sua história. Na verdade, não gosto de falar dessa idade média das nossas vidas. Sobrevivemos e somos livres; isso é o que importa. Meu acordo com a UFSCar foi que o arquivo não se fechasse a sete chaves, como outros que conheço. Que fosse preservado. Que as pastas fossem organizadas de acordo com o meu critério original, e não pelos métodos universais de codificação. Mas que todo trabalho que saísse dali citasse a fonte. O trabalho de São Carlos deu sentido ao meu trabalho. É meu legado. Meu grafite de jornalista.

 

Os temas do arquivo

Seguindo exigência da doadora, os assuntos disponíveis no Arquivo Ana Lagôa estão organizados de uma maneira mais do que "amigável", como se diz na informática. Nada de nomes enigmáticos cheios de letras e números que, além de não identificar o objeto arquivado, escondem do pesquisador a palavra-chave que desvenda os caminhos da busca. No AAL, é procurar é achar.

Eis os blocos de assunto: Anistia; Araguaia; Caso Baumgarten; Caso Frota; Caso Herzog; Caso Mario Eugênio; Caso Parasar; Caso Rubens Paiva; Caso Saraiva; Clube Militar; Direita: Atentados; Esquerda: Ações; Esquerda: História; História Militar; Igreja; Lei de Segurança Nacional; Material Bélico: Aeronáutica; Material Bélico: Exército; Material Bélico: Marinha; Material Bélico: Engenharia Militar; Material Bélico: Vendas de Armas; Material Bélico: Temas Gerais; Militares: Currículos; Movimento Estudantil; Nacionalismo: Caso Serpa; Nacionalismo: Geral; Política Geral; Política Militar: discursos, ordens-do-dia; Política Militar: Orçamento; Política Militar: Sucessão; Relações Brasil-EUA; Repressão: América Latina; Repressão: Censura; Repressão: Leis; Repressão: Mortes; Repressão: Organismos; Repressão: prisões, processos e julgamentos; Riocentro; Temas Gerais.



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