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LULA vs. COLLOR
A verdade sobre o debate de 1989

Juca Kfouri (*)

Chato, mas necessário, começar com um chavão, e do nazista Josep Goebbels: "Uma mentira mil vezes repetida acaba por virar verdade".

Tem sido assim com a famosa, e diabolizada, edição do debate entre Collor e Lula, no Jornal Nacional, invariavelmente atribuída, sem ser verdade, ao jornalista Alberico Souza Cruz – então terceiro homem na hierarquia do jornalismo global, abaixo de Armando Nogueira e Alice Maria.

Outro dia mesmo, a inverdade foi publicada na coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo [19/7/02, pág E 2].

DE VOLTA 1

Estão mais do que avançadas as conversas entre a Rede Record e Alberico Souza Cruz para que o jornalista assuma uma superintendência na emissora. Ele ficaria responsável pelo jornalismo. Não apitaria, no entanto, no jornal de Boris Casoy, que por contrato responde diretamente aos acionistas da rede.

DE VOLTA 2

A possível contratação de Alberico dividiu a cúpula da rede. O jornalista é considerado competente, mas não consegue se livrar do fantasma de ter sido o responsável direto, em 89, pela famosa edição do debate entre Lula e Collor na TV Globo.

O que espanta é saber, e não é hoje, que o responsável pela edição, que teria favorecido Collor, o jornalista Ronald Carvalho, assume inteiramente a responsabilidade pelo compacto do debate.

E assume publicamente, sem fazer segredo, até porque não vê motivo algum para se envergonhar do trabalho que fez, como Editor de Política do JN.

O depoimento que segue abaixo é dele, colhido na sexta-feira, 9 de agosto de 2002.

"Por mais que eu assuma, não adianta. O Alberico nem estava no Rio, porque acompanhou o debate em São Paulo. Uma primeira edição do debate foi ao ar no jornal Hoje. Achei que estava desequilibrada, achei que não mostrava a vantagem do Collor. Disse isso a quem editou, o jornalista Wianey Pinheiro, que me respondeu já ter o OK da Alice.

Só que, depois que foi ao ar, ela me chamou e disse que a edição resultara desequilibrada, e pediu que fosse refeita para o JN.

Eu mesmo tratei de refazer a edição, porque sabia que era uma missão delicada e não quis expor ninguém. Pensei assim: vou editar como se fosse um jogo de futebol. Se foi 5 a 1, e foi 5 a 1 para o Collor, mostrarei os cinco gols dele e o gol do Lula.

Assim fiz e fui mostrar para Alice que nem quis ver: ‘Se você fez, está bem feito’, disse. Procurei o Armando que me disse que se a Alice achava que estava bem, estava bem.

Se alguma incorreção houve, e houve, vou revelá-la agora, pela primeira vez.

Eu tinha sido diretor da Editora Bloch no Recife e conhecia o Collor de longa data, por causa dos relatos do nosso correspondente em Maceió, Divaldo Suruagy. Eu não gostava nada do Collor e votei no Lula. Como, por sorteio, o debate acabava com uma fala do Lula, ou seja, a palavra final da campanha eleitoral era do Lula, eu resolvi também terminar a edição com uma fala dele.

Acontece que a frase final, no debate, era paupérrima. O Lula tinha dito: ‘Vim aqui pronto para debater com um caçador de marajás e acabei debatendo com um caçador de maracujás’.

Achei muito ruim e escolhi uma frase melhor, o que não deveria ter feito.

Minutos antes de o debate ir ao ar, o Alberico chegou de São Paulo e me chamou à sala dele para vermos o JN juntos. Só aí ele viu como o debate tinha sido editado.

Há versões que dão conta de uma explosão de protestos, dentro da Globo, tão logo o debate foi ao ar. Pura imaginação. Não houve explosão na hora nem no dia seguinte nem durante a apuração do resultado da eleição.

Recebi, depois da edição ter ido ao ar, um telefonema do doutor Roberto Marinho, me parabenizando. Antes, é preciso que se diga, nenhum dos Marinho me disse coisa alguma."

A pergunta é simples: por que alguém assumiria como seu um trabalho que teria sido de outro e que é até hoje tão criticado, para muitos decisivo para o resultado daquela eleição, coisa com a qual, diga-se de passagem, o próprio Lula nem concorda?

Que Alberico tenha inimigos é natural, para quem ocupou cargos de chefia e por tanto tempo. Que haja quem não goste de seu estilo, é também natural. O meu, por exemplo, é diferente do dele. Mas que seja acusado de algo que não fez e não mandou fazer é demais.

Ele estava na ponte-aérea quando o debate foi editado!

Mas entra eleição presidencial, sai eleição presidencial, a história do debate vem à tona e Alberico volta à berlinda. Uma covardia.

Fiz questão deste registro, patrulhas que se danem, não só para restabelecer a verdade (parece que os jornalistas devem se preocupar com essa coisa de falar a verdade), como também porque, estando ele fora do mercado, fica mais difícil a acusação de puxa-saquismo ou coisas do gênero.

Que ao menos, daqui por diante, quando alguém repetir a mentira, saiba que está mentindo, porque a história, sem tirar nem pôr, é essa que está aí – algo que, não tenho a menor dúvida, Mônica Bergamo desconhecia.

(*) Jornalista


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