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OI, seis anos PROJETO & REALIDADE Alberto Dines OITO anos de existência do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LabJor) da Unicamp, SEIS anos de edições periódicas do Observatório da Imprensa online, QUATRO anos de emissões semanais pela TV do programa de mesmo nome e, agora, a criação do ProJor – Instituto Para o Desenvolvimento do Jornalismo. Tudo em abril, com uma diferença de cinco dias por conta do primeiro programa de TV – que foi ao ar em 5 de maio de 1998 mas que teve seus pilotos produzidos também em abril. Nesses anos, apenas uma baixa: a versão impressa do OI, um boletim mensal de 16 páginas, com 4 mil exemplares de tiragem e distribuição gratuita, que começou a circular em julho de 1997 e foi descontinuado em fevereiro de 2000, depois de 29 edições, por falta de patrocínio. Este Observatório começou como sonho de um punhado, converteu-se em realidade com a entrada de outro punhado, multiplicou-se graças a adesão das primeiras levas de usuários da internet e, em seguida, espraiou-se pelo Brasil afora graças à participação entusiasmada dos telespectadores de todo o país, sedentos por um programa que os tratasse como cidadãos pensantes. Ainda em 1993, quando começaram as negociações com o então reitor da Unicamp Carlos Vogt, premissas e objetivos estavam perfeitamente delineados. Constatação básica – A mídia, inflada de arrogância com a derrubada de Fernando Collor de Melo, fascinada com as bolhas emitidas pelos EUA (também pela Europa rica) e orquestrada por um bando de "consultores" estrangeiros interessados em mercantilizar e canibalizar nosso processo jornalístico, degradava-se a olhos vistos. O marketing imperava, o USA Today era paradigma, os colecionáveis preocupação dominante (mesmo que os novos leitores jogassem no lixo o jornal) e uma geração de jornalistas experimentados dispensada porque sabia dizer "não". Objetivos do projeto – Atuar simultaneamente a) na formação profissional, b) no mercado e, c) junto à sociedade, motivando-a para exigir mais da sua imprensa. Recuperar em todos os níveis a noção de excelência em jornalismo. Ferramenta – Uma universidade pública e inovadora, não-corporativista, capaz de tirar os olhos do umbigo e arregaçar as mangas para desafios externos. Antecedentes – Em 1985, o então reitor Paulo Renato Souza, da Unicamp, pediu ao jornalista Cláudio Abramo que coordenasse um programa de pós-graduação em jornalismo voltado para a profissionalização. Como a universidade recusara-se a embarcar na proliferação dos cursos de graduação, começaria de cima para baixo evitando os vícios de outros centros de ensino públicos no Rio e em São Paulo. Abramo procurou alguns jornalistas entre os quais Carlos Alberto Sardenberg e este Observador. Morreu prematuramente, em parte de desgosto diante do quadro lamentável da imprensa. Fundação – Num encontro em Lisboa, o reitor Vogt entusiasmou-se com a possibilidade de retomar o projeto e colocou-o em movimento. Em abril de 1994, criava-se na Unicamp, no âmbito do Nudecri (Núcleo de Desenvolvimento e Criatividade), o Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo (LabJor). Coordenação de Carlos Vogt e participação dos pesquisadores seniores José Marques de Mello e este Observador. Apoio decidido dos professores João Quartim de Moraes (diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas), Geraldo Da Giovanni, Ítalo Tronca, Marisa Lajolo, César Ciacco, Renato Sabatini, João Tojal e do jornalista Eustáquio Gomes. Evento fundador – "A Imprensa em Questão", seminário realizado no campus da Unicamp de 12 a 14 de abril de 1994, já na gestão do reitor José Martins Filho e com a participação de jornalistas de todo o país (inclusive brasileiros que viviam no exterior), professores, publicitários, empresários, altos executivos, lideranças sindicais, críticos e primeiros Ouvidores, estudantes de Campinas, de São Paulo e com apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e da Associação Nacional de Jornais (ANJ). Os anais foram publicados no livro A Imprensa em Questão, 181 pp., Editora Unicamp, Campinas, 1997. A Imprensa dispunha-se a ser questionada pela sociedade. Pela primeira vez. Este seminário repetiu-se em 1996 na sede da Fiesp, em São Paulo, com a condução do falecido jornalista Jorge Escosteguy. Nesta oportunidade, também com a participação da Fenaj e da ANJ, discutiu-se pela primeira vez as alterações no artigo 222 da Constituição, que limitava a participação de pessoas jurídicas e do capital estrangeiros no controle acionário dos meios de comunicação no Brasil. Ações acadêmicas – Seminários-piloto na Unicamp: "Jornalismo & Saúde", "Jornalismo Cultural" e "Jornalismo Esportivo" (este no formato de curso de extensão, com duração de três meses, em colaboração com a Escola de Educação Física); e o seminário para professores de jornalismo de todo o país que, pelo entusiasmo despertado, acionou importantes iniciativas voltadas para os docentes. A culminação deu-se através do curso de mestrado em Jornalismo Científico (lato sensu, três semestres, parceria com o Instituto de Geociências), do qual resultou a revista online ComCiência <http://www.comciencia.br/>. Em 2003 começará a terceira edição do curso [mais informações no sítio do LabJor em <www.uniemp.br/labjor>]. Balanço do primeiro biênio em A Imprensa em Questão (obra citada, págs. 177-180). Ações junto ao mercado – Recém-criado, o Labjor era convidado pelo Banco do Brasil, em novembro de 1994, para organizar um seminário para o aperfeiçoamento do seu pessoal na área de comunicação e marketing. O projeto, hoje incorporado ao calendário interno da área de treinamento, já produziu sete edições anuais com três anais. Ação internacional – A fundação, em Lisboa, do Observatório da Imprensa, em 1994, por um grupo de jornalistas portugueses (encabeçados por Joaquim Vieira, Maria Tereza Moutinho e Rui Paulo Cruz) e a participação deste Observador permitiram que o projeto do Labjor ganhasse dimensão ultramarina aproveitando-se da criação recente da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (CPLP). Em 1994, realizava-se no Rio (em parceria com a revista Imprensa), o II Congresso Internacional de Jornalismo de Língua Portuguesa, que contou com a maior delegação de jornalistas lusos jamais vinda ao Brasil. Seguiram-se em ritmo quase bienal os Congressos de Lisboa, Macau e Recife (os dois últimos sem a participação da citada revista). Braço público – As ações na área acadêmica e empresarial reclamavam a terceira meta do projeto, a mais importante sob o ponto de vista político e social: a integração da sociedade (e portanto do destinatário do processo jornalístico) na discussão sobre a qualidade da informação oferecida pelos veículos. Descartada a idéia inicial de um veículo impresso, o pesquisador Mauro Malin (integrado ao Labjor em 1995) sugeriu a internet que, naquele momento, engatinhava no Brasil. O Instituto Universidade-Empresa (Uniemp), então dirigido por Carlos Vogt, ofereceu-se como hospedeiro do sítio e seu representante legal. A primeira edição do Observatório da Imprensa online é de abril de 1996. No início sem periodicidade, adotou o ritmo quinzenal e, posteriormente, semanal. Redator-chefe: Mauro Malin (hoje consultor editorial), substituído em março de 1999 por Luiz Egypto de Cerqueira, então editor da versão impressa do OI. Na coordenação de projetos especiais, Paulo Nassar. Nome e conceito – Ao título Observatório da Imprensa cedido pelos parceiros portugueses acrescentou-se uma idéia-força, conceito nuclear e inovador: a observação como forma de atuação, a observação como intervenção, a observação como estímulo para promover a excelência. Jornais e jornalistas sabendo que são observados e comentados por um grande público naturalmente se conscientizarão para o problema da qualidade. Resposta – Extraordinária recepção, em pouco tempo a versão online do OI estava integrado à intranet de importantes veículos, acompanhada e discutida nas redações de todo o país. A participação (às vezes furiosa outras até muito educadas) de editores ou diretores de redação e o incentivo anônimo dos demais quadros profissionais comprovam que o OI veio preencher uma necessidade premente – a crítica externa estimulando a discussão interna. Formato fórum – o Observatório funciona como um veículo jornalístico, tem organograma, equipe, normas, procedimentos, colaboradores fixos e eventuais. Não tem pauta nem opinião – é a soma dos assuntos e opiniões oferecidas por qualquer cidadão, desde que identificado e que, em termos civilizados, discuta especificamente o desempenho da mídia sem envolver-se na confrontação política e ideológica que tanto compromete e torna suspeita a crítica da mídia nacional. Um jornal de debates. Sobre jornalismo [veja, nesta rubrica, a matéria "obsimp@ig.com.br, para vibrar e sofrer"]. Dois saltos – No início de 1997, o jornalista Caio Túlio Costa, o grande impulsionador do UOL, ofereceu o portal para hospedar o Observatório – plataforma que o lançou o OI a patamares de audiência até então inimaginados. Em julho de 2000 foi o OI "demitido" do mesmo UOL em função de comentários aqui publicados sobre o Grupo Folha, plenamente confirmados a posteriori. Em socorro do projeto veio o iG, oferecendo hospedagem no seu portal e apoio material para ampliação do projeto. Novo salto espetacular [veja matéria "Curva de crescimento sustentado", nesta rubrica]. Um mote – De um leitor entusiasmado, Mauro Malin colheu o mote que não apenas destina-se a animar o cabeçalho das edições e o fecho do programa de TV, como converteu-se em expressão concreta do projeto. Você nunca mais vai ler do jornal do mesmo jeito é uma provocação para estabelecer o salutar ceticismo. Duvidar faz bem à sociedade, é instrumento democrático, forma de cobrar e participar. Na telinha – Partiu do jornalista Alexandre Machado, então diretor de Jornalismo da TVE, a idéia de reavivar a tradição de programas sobre mídia e jornalismo naquela rede. Proposta aceita desde que mantido o nome Observatório da Imprensa e garantidas interação e total independência. É freqüente o caso de programas que criam seus sítios na internet – o contrário é inédito. Início das negociações no final de 1997, equipe montada em fevereiro de 1998, programas-pilotos produzidos em abril e primeira edição no ar em 5 de maio. Apresentadora: Luciana Villas Boas, substituída por Carla Ramos e, em seguida, por Lúcia Abreu. Coordenadora de produção desde o início: Zezé Sack. Editor executivo, desde o segundo semestre de 1998: Eugênio Viola. Sucesso garantido a partir da decisão da TV Cultura de São Paulo em retransmitir ao vivo: participação simultânea de Brasília e eventualmente outra "praça" (Belo Horizonte do início até agora, Porto Alegre na primeira emissão, Fortaleza e Recife esporadicamente). Um fórum efetivo e multiveicular com audiência nacional para discutir o desempenho da mídia. Não há registro de experiências iguais no primeiro mundo. Casa nova – Nos últimos dias de abril de 2002 foi legalizado o ProJor – Instituto Para o Desenvolvimento do Jornalismo, com sede em São Paulo, montado nos moldes de uma organização da sociedade civil de interesse público, sem fins lucrativos, que substitui o Uniemp como proprietário das marcas e abrigo legal. Os trâmites estenderam-se por 14 meses e foram coordenados pelo jornalista José Carlos Marão, da equipe do OI. Convênios estão sendo assinados com o mesmo Uniemp, representante externo do Labjor, onde o projeto Observatório da Imprensa foi concebido, desenvolvido e estimulado. Os trancos – Represálias pessoais contra os responsáveis pelo sítio e o programa não seriam de estranhar. Faz parte do jogo (inclusão em "listas negras" etc.). Embargo à menção do nome do Observatório continua vigindo em alguns jornais, editorias, cadernos ou colunas. Também faz parte. Não prejudicou; ao contrário, deve ter ajudado. Violência institucional, clara e inequívoca contra os veículos do projeto, apenas duas: a citada "demissão" do UOL e o progressivo cerco ao programa por parte da TVE-RS, de Porto Alegre, a partir da assunção do governador Olívio Dutra, que certamente não soube e não sabe do que foi perpetrado em seu nome. Começou com uma tentativa de intervenção na condução do programa a partir de veto ao nome de um profissional que participava habitualmente nos estúdios de São Paulo. Depois, manifestou-se por meio da exigência de escolher aquele que eventualmente participaria dos debates nos estúdios da TVE-RS. Em seguida, pela ocupação do estúdio por outro programa ao vivo. Completou-se escalada de arbitrariedade com a retirada integral do Observatório da programação daquela emissora pública. O cidadão gaúcho está impedido de acompanhar na rede aberta os debates sobre a imprensa. A não ser através de parabólica ou canais pagos. O crítico de mídia local, embora instado e embora freqüentador periódico deste Observatório, até hoje não se manifestou sobre o assunto. Faz parte. Valeu a pena? – Está valendo. Como quer Fernando Pessoa, tudo vale a pena quando a alma não é pequena. O Observatório deixou de ser a ação singular de um punhado de jornalistas e acadêmicos. Cada vez mais plural e participativo, foi sonho, projeto e agora é realidade instituída: este múltiplo aniversário o sugere [veja matéria "obsimp@ig.com.br, para vibrar e sofrer", nesta rubrica]. Mesmo desagradando – e não poderia ser diferente –, o Observatório faz parte da imprensa brasileira. Simplesmente porque engajou-se na sua qualificação. Leia também Nova ética para uma nova modernidade – Bernardo Kucinski Diálogo a partir de uma reflexão muito séria – Alberto Dines |
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