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OBSERVATÓRIO LITERÁRIO
Retrato do pervertido quando jovem
Esdras do Nascimento
"Nos últimos trinta anos, o divórcio entre educação e cultura tem causado prejuízos a ambas as partes. É possível que seja mais uma herança do inesgotável saco de maldades da ditadura. Para os militares, quem trabalhava em cultura era, em princípio, suspeito. Afastá-lo dos estudantes era medida profilática, indispensável para desinfetar as instituições de ensino e proteger a juventude da convivência com artistas, considerada arriscada: podia levar os jovens a pensar e a se emocionar" - disse o escritor Alcione Araújo, em artigo publicado no caderno Zona Sul, de O Globo, de 28/1/1999.
Nesse artigo, Alcione lembra que, antes da ditadura, os professores não eram apenas papagaios do saber institucionalizado. Eles eram parte ativa do processo cultural. Não apenas assistiam a peças, filmes, shows, lançamentos literários, debates etc., como estimulavam a participação de seus alunos. Estar num colégio ou universidade significava participar da vida cultural do Brasil. Hoje, com o divórcio entre as duas, educação e cultura seguiram seus próprios caminhos - como se fossem atividades distintas, se não antagônicas.
Na triste conclusão de Alcione Araújo, os professores, que eram antes verdadeiros formadores de opinião e agitadores do conhecimento, tiveram sua atividade desprestigiada e degradada. Humilhados por salários indignos, não têm condições de trabalho, não se reciclam, sabem pouco sobre o passado para orientar a juventude do presente e, o que é pior, estão, eles próprios, distantes da vida cultural do país - pouca leitura, raros filmes, raríssimos shows, escassos discos e um teatro inacessível e prescindível.
Muitos livros foram publicados sobre os males causados pela ditadura ao país. De qualidade variável, embora, sempre servirão como documentos e testemunhos sobre o que houve de terrível numa era trágica e funcionarão como advertência e sinal de alerta, concorrendo assim para evitar que se repitam no futuro as iniqüidades cometidas.
O que poderia acontecer a um jovem recém formado em medicina, de família pobre, sem condições de se iniciar na profissão, à beira da fome, se lhe fosse dada a oportunidade de trabalhar, na sua profissão, numa unidade militar? Ele, provavelmente, não escolheria a tortura como meio de vida, e nem de longe aprovaria os repugnantes métodos usados pelas forças da repressão na caça aos inimigos da ditadura. Vomitaria até, só em pensar nisso. No entanto, o que ocorreria se, contra a sua vontade, fosse envolvido nessa sordidez? E se sua vida passasse a correr riscos? E se a única opção viável, em caso de recusa, fosse a troca do lugar de torturador para a posição de torturado? E se ele estivesse tão empenhado em ganhar dinheiro e vencer na vida, que logo deixaria de lado os princípios que nortearam sua formação? E se? E se? E se?
O romance Nem mesmo todo o oceano, de Alcione Araújo, levanta essas questões de ética e valores. Em 794 páginas, ele conta a história desse imaginário médico recém-formado, desde a sua difícil infância de menino pobre, no interior de Minas, os primeiros tempos de estudante vivendo em pensões no Rio de Janeiro, as decepções amorosas, as frustrações existenciais, a difícil sobrevivência em meio às feras do asfalto selvagem, enfatizando sobretudo o seu processo de perversão espiritual.
Com riqueza de detalhes, numa narrativa dinâmica, Alcione reconstitui toda uma época atribulada da História do Brasil (1950 a 1975) e constrói um romance poderoso, empolgante, raro de encontrar em qualquer língua, que lembra, pela sua grandiosidade, os gigantes da literatura russa do século passado. Eu me surpreendi muitas vezes, na rua, louco de vontade de voltar para casa para continuar a leitura de Nem mesmo todo o oceano, e me irritava quando precisava interrompê-la.
Na véspera do lançamento de Nem mesmo todo o oceano, pela Editora Record, Alcione Araújo, perplexo, leu num jornal a notícia de que um general-de-brigada, cujo registro de médico profissional fora cassado por causa de sua conivência com torturas durante o regime militar, acabava de ser nomeado pelo presidente Fernando Henrique para o cargo de subdiretor de Saúde do Exército, apesar dos protestos do grupo Tortura Nunca Mais. A notícia deixou o escritor perplexo: "É incrível que esse tipo de pessoa ainda seja prestigiada".
Editores vs. empresários
Fernanda Suhet
Na última edição do Observatório Literário, o artigo intitulado Escritores Emergentes, de Esdras do Nascimento, chamou-me especial atenção por tratar de um tema de conseqüências muito mais amplas do que aparenta. Para aprofundar essa questão, deveríamos começar nos lembrando que a desconsideração de alguns editores com os "escritores emergentes" limita-se àqueles pouco conhecidos pela mídia e que o nome "Roberta Close", por exemplo, é muito mais do que uma assinatura de um indivíduo: é uma marca - e uma marca poderosa "vende" e gera lucros a quem investe nela.
Para o editor que põe tapete vermelho à passagem da "marca Roberta Close", sem pensar em mais nada, o livro não é cultura, nem mesmo chega a ser literatura. É apenas mais um produto difícil (que precisa de boa "embalagem") e como tal é tratado. No entanto, para tentar entender o processo desse editor, consideremos que todo produto de um escritor seja literatura e vamos filosofar um pouco.
Poderíamos começar dividindo os "consumidores de livros" em dois grandes grupos (apenas por questões esquemáticas, claro!): o grupo daqueles que buscam "passar o tempo" e o grupo daqueles que querem enriquecer culturalmente. Muitas vezes, para o primeiro grupo, pouco ou nenhuma importância tem se o texto é bem escrito; basta apenas que tenha uma história picante ou envolvente ou, ainda, que o tema ou o escritor estejam na moda. Ele pode até ser bem escrito, mas é preferível que não seja de "difícil leitura" - e fazer "pensar", jamais! Afinal, esse leitor trabalhou o dia inteiro e tem uma vida tão atropelada pelos acontecimentos cotidianos que se começasse a realmente pensar sobre ela teria que sair de sua comodidade habitual, teria que começar a se questionar sobre os rumos de sua existência, sua carreira, seu casamento... E isso dá tanto trabalho e mobiliza tanta energia que é muito mais fácil pegar qualquer coisa "leve" na prateleira e, aí sim, "esquecer da vida" em uma historieta romântica qualquer, ou na alucinação exótica de algum escritor metido a mago.
Talvez nós, os "intelectuais de plantão", pudéssemos ainda dar graças a esse leitor despretensioso que, apesar de tudo, lê! No entanto, não é bem assim. O fato concreto é que essa literatura é tão alienante quanto a literatura espetacularmente produzida para a "novela das oito" e nenhum serviço está prestando ao desenvolvimento social do País. Mas vende!
E aqui voltamos aos nossos amigos "editores-desinteressados-da-cultura". Na realidade, eles não deveriam ser chamados propriamente de editores, mas puramente de empresários. Querem lucro e estão comprometidos apenas com um "balanço positivo" no final do ano. Se assim não fosse, seu critério de avaliação não seria limitado somente ao "vende-não-vende", mas ao é "bem-escrito-e-tem-qualidade-cultural". Não se preocupariam apenas em "guardar seus lucros", mas os utilizariam para gerar "outros lucros", influenciando leitores.
Se estivessem culturalmente envolvidos, além de publicar esses textos, nossos hipotéticos editores ficariam pessoalmente interessados em divulgá-los, em torná-los lidos, em transformar o "escritor emergente" em um "nome", uma "marca". Talvez se emprenhassem em produzir para esses escritores um marketing melhor, que não se resume em apenas distribuir os livros pelas livrarias. Pois vender ou não vender um produto é simples questão de marketing. Basta saber provocar no consumidor o "desejo de consumo". Fazer o livro vendido ser lido é mais complicado, mas perfeitamente realizável. Com campanhas de médio prazo e utilização de mídias alternativas quase tudo é possível para o marketing (de eleger presidentes "coloridos" a vender livros!).
Mas o que aconteceria a seguir? Incentivado por esse "marketing pesado", o público começaria a consumir o livro. Das dezenas de milhares que seriam vendidas, alguns milhares seriam realmente lidos. E esses leitores começariam a "querer mais", não só em termos literários, mas também pessoais, culturais, econômicos e... seria o caos para o establishment!
Gostaria de tratar ainda da responsabilidade dos escritores diante dos textos que fazem divulgar, seja na mídia impressa, seja na eletrônica - e como os textos ruins podem contribuir para banalizar - comportamentos sociais injustos e cruéis. Comecemos por distinguir um texto bom de um texto ruim não por suas qualidades gramaticais e redacionais, mas a partir do efeito que produz na mente das pessoas.
Desde que Jung popularizou o conceito de inconsciente coletivo, ninguém que trabalhe com "massas" pode alegar que ignora o fato de que os meios de comunicação influenciam o comportamento individual das pessoas. As idéias veiculadas por meios impressos ou eletrônicos têm a capacidade intrínseca de serem tomadas como verdades a priori e podem levar uma nação a adotar desde um tipo específico de roupas até idéias políticas esdrúxulas - e eu nem preciso citar Joseph Goebbels, não é mesmo? E quanto mais poderoso for o veículo ou a estratégia de divulgação, maior deverá ser a capacidade de discernimento do público atingido para não ser influenciado a partir de seu subconsciente. Esse discernimento nasce do estudo, da cultura individual e do meio em que a pessoa convive. Se ela for estimulada a questionar comportamentos, terá menores chances de responder automaticamente a estímulos de marketing.
Existe uma clara diferença comportamental entre o leitor dos livros de Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Adonias Filho, por exemplo, e o consumidor do "produto" elaborado para "passar o tempo". Enquanto o primeiro quer conhecer coisas novas, ter contato com o belo e/ou enriquecer-se culturalmente, o segundo quer apenas "distrair-se" de suas preocupações cotidianas, seja na leitura de uma historieta romântica, seja na absorção pacífica dos textos televisivamente trabalhados. Mas me atrevo a afirmar que não interessa ao establishment que o "povo" desenvolva uma real capacidade de análise.
Se não, vejamos um exemplo prático. O que aconteceria em nosso país se Meu bem querer tivesse por concorrente direto Clarice Lispector? E como concorrente não digo "alguém que corre por fora", mas como concorrente mesmo - com igual poder de fascínio e admiração. Como o leitor de A hora da estrela iria reagir ao ver um estupro na novela das sete (assistida por crianças!!!), na qual a personagem simplesmente resolve "matar" seu agressor em vez de denunciá-lo? O "não-leitor-de-Clarice" talvez ache que o fato de um cunhado estuprar a cunhada e ela querer vingar-se, seja "normal". Que denunciar um estupro à polícia não tem a mesma "efetividade". Talvez ache mesmo que deveria seguir aquele exemplo e vingar-se pessoalmente de um ou dois agressores que encontrou pela vida. Ou, então, comece a achar a própria cunhada "interessante"... Claro que nenhuma dessas conclusões acontece em nível consciente. Fervilham "por dentro", no subconsciente desse "não-leitor-de-Clarice" e, depois de "arquivadas", estão prontas para serem usadas em situações de emergência, "quando a vida imitar a arte".
Talvez os escritores dessa novela estejam apenas querendo "denunciar" o abuso de mulheres. Mas o fato é que estão sim moldando comportamentos e o "tiro pode sair pela culatra"! Num país "leitor-de-Clarice" isso não se daria assim. O escritor de uma novela – impressa ou televisiva - saberia que seu público tem senso crítico suficiente para analisar o que consome. Saberia que esse público não encontraria prazer em apenas engolir "lições de moral" (pois é previsível que a cunhada estuprada irá se dar mal se concluir sua vingança).
E mesmo que o escritor tivesse "parado no tempo" e ainda estivesse escrevendo para um país "não-leitor-de-Clarice", o editor que estivesse interessado mais no desenvolvimento cultural do País do que nos lucros anuais saberia redirecionar o texto antes que ele fosse a público. Num país assim não seriam os escritores desconhecidos que estariam em "apuros" para divulgar seus textos, mas sim os escritores ruins. E o que diferenciaria os bons dos ruins não seria a "marca" - ou o "marketing" -, mas a qualidade intrínseca de seus textos.
CARTAS
Jô Soares
Fiquei impressionado com a coragem de J.D Borges. Parabéns!
Felipe
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