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OBSERVATÓRIO LITERÁRIO

 

DICIONÁRIOS
Rendição à ignorância

Rogério Reis

Tive a oportunidade de ler o artigo de Cláudio Weber Abramo na Folha de S.Paulo. Começa o articulista com uma crítica severa aos nossos dicionários, no que conquistou minha simpatia e meu apoio. Realmente, sou forçado a concordar que o Aurélio hoje em dia assume o papel de pedra filosofal da lexicografia. Mas cabe ressaltar que a culpa não é do dito dicionário, cujo maior mérito (o único que eu vejo, aliás) é manter-se atualizado [veja remissão abaixo].

A culpa é da ignorância generalizada das pessoas e de uma mentalidade colonizada que se esmera em bem pronunciar e escrever os termos da língua inglesa (nossa atual língua colonizadora), enquanto não fazem o mesmo com a própria língua, ao argumento fácil de que o que importa é saber se comunicar.

Campanha absurda

Quem me achar xenófobo que imagine aquelas pessoas públicas de formas voluptuosas, que se gabam de construir milimetricamente seu corpo com a ajuda de um personal trainer. Alguém acha que tais pessoas admitiriam em público ter um "treinador pessoal"? Quando ouço a balconista da farmácia aqui perto de casa oferecer o serviço de "delivery", quando ao sair de uma loja de brinquedos as vendedoras me desejam um "happy day", penso que a coisa está ficando cada vez mais séria.

E para falar da ignorância generalizada, dia desses a empregada doméstica de minha mãe, ao responder-me algo, disse "se eu tivesse vido", querendo dizer, obviamente, "se eu tivesse visto". A menina está cursando o primeiro ano do colegial, e como na cidade ainda é costume, por falta de opção melhor, as meninas cursarem o colegial "normal", muito provavelmente ela terminará seu curso habilitada como professora.

Esse é o quadro da imensa maioria de nossa população, e é a este público, para quem já bastaria a versão de bolso, que se destina o Aurélio. E o mercado se tornou realmente tão pouco exigente que o Michaelis tomou rumo semelhante, como se vê pela absurda campanha lançada na internet, em que se pede o envio de termos para ajudar a construir o maior dicionário da língua portuguesa (sic).

"Tá aqui, ó!"

E é assim que estes dicionários, cujo único mérito é a atualização permanente (o que implica a inclusão de neologismos e gírias que qualquer dicionário ponderado esperaria ver consolidados para só então, até com certo pesar, incorporá-los), por falta de outros melhores vão se tornando a verdadeira tábua de salvação dos ignorantes, que não conhecendo coisa melhor sustentam suas idiotices com o Aurélio em punho. E como gosto de ilustrar minha prosa, não posso deixar de citar a vez em que presenciei um amigo meu ser corrigido por dizer "pegado", por quem pretendia que o correto fosse "pego".

Meu amigo, cultor da língua, explicou a seu interlocutor que ele (o interlocutor) é quem estava errado. Não satisfeito, o fulano deixa a cena e volta, em seguida, com o Aurélio: "Tá aqui, ó!" Bom, meu amigo, vendo meu riso sarcástico, pois eu já havia antecipado o que aconteceria, não se conteve: "Mas você vem me trazer justo o Aurélio! Consulte uma boa gramática ou um bom dicionário e então a gente conversa". Nem preciso dizer o quanto o fulano saiu contrariado.

Não posso deixar de notar que Claudio Weber cometeu o mesmo erro por ele apontado: a falta de método, ou melhor, a existência de um método discutível. Isso porque, ao substituir o discricionarismo adotado nas obras visadas por seu próprio discricionarismo, o articulista demonstra ser passível dos mesmos erros que aponta.

Vasculhando sebos

Ora, é perfeitamente razoável que os dicionários consignem a palavra evidência tal como o fazem, e não como os tradutores de filmes de tribunal americanos, que confundem "evidência" (de "evidence") com "indício". Nem se culpe o vocabulário jurídico, que mesmo tendo a liberdade de emprestar a um termo leigo significado próprio, não o faz com "evidência". A propósito, assim nos traz "De Plácido e Silva" (in Vocabulário jurídico) o vocábulo "evidente": do latim evidens (claro, patente), é vocábulo que designa, na terminologia jurídica, tudo o que está demonstrado, que está provado, ou que é convincente, pelo que se entende digno de crédito ou merecedor de fé. O fato é evidente quando está exuberantemente provado.

Igualmente reprováveis são as abordagem dadas aos vocábulos "provável" e "biopsia". Quanto a este último, Napoleão Mendes de Almeida (in Dicionário de Questões Vernáculas) nos ensina que o termo, tal qual "necropsia", tendo já se formado dentro da língua portuguesa, deve levar o acento no "i" da terminação (pois no vernáculo o sufixo "ia" é longo), ao passo que palavras como "autópsia", "rapsódia", "estratégia" devem conservar a pronúncia latina, de onde os termos vieram com o "i" breve.

Bom, sabendo que nossa língua nos apronta dessas, como saber quando o "i" é longo ou breve, ou, em outras palavras, como sustentar que estamos corretos se os dicionários existentes vão na linha do "o correto é o que o povo fala"? Ou esperamos que o povo passe a dar um pouco mais de importância à língua, a ponto de exigir a publicação de um dicionário que não se renda à generalização da ignorância, o que pode demorar muito, ou vasculhamos algum sebo à procura de um dicionário à antiga. Para estes, eu recomendo o Laudelino Freire, que a par de estar desatualizado é um excelente dicionário, e o já citado Dicionário de Questões Vernáculas, que mesmo não sendo completo, pois seu propósito é abordar apenas alguns vocábulos e temas gramaticais que ensejam maiores dúvidas, mantém-se atualizado mesmo após a morte de seu autor.

 

CARTAS
De sofrível a pior

Infelizmente o Sr. Abramo tem plena razão. Nossos dicionários eram sofríveis, e agora estão muito piores. O que ganharam em legibilidade perderam na inclusão desordenada de verbetes. É claro que o articulista foi infeliz em alguns exemplos. Mas o argumento principal é comparar-se o Aurélio com qualquer dicionário americano. É uma tristeza.

Vejamos o que dizem os americanos sobre pêra: "Pear 1. A widely cultivated tree, Pyrus communis, having glossy leaves, white flowers and edible fruit. 2.The fruit of the pear, sperical at the base and tapering toward the top." (The American Heritage Dictionary)

São descrições sintéticas e precisas. Por que não copiar o que é bom? Os modernos dicionários americanos trazem uma gradação perfeita dos adjetivos, do mais enfático ao menos enfático etc.. Para termos arcaicos, em desuso, os países de língua inglesa têm o Oxford, com milhares de verbetes. Mas não se trata aí de um dicionário para uso diário.

Acho que os organizadores do Aurélio devem pôr as barbas de molho e enxugá-lo das milhares de imprecisões e irrelevâncias nele aleatoriamente colocadas. Uma abonação isolada, mesmo de um dos grandes estilistas de nossa língua, como Camilo Castelo Branco, não autoriza a inclusão de um verbete.

Na coluna do Macaco Simão admitir-se-ia o uso de "Arimética". Isso na hipótese de que algum político de nome Ari resolvesse meter a mão nos cofres públicos e o caso viesse a ter notoriedade. Fora disso a inclusão no dicionário é piada de mau gosto.

Antonio J. Amaral Farias

 

Pai de burro, burro é

A nós, simples leitores, muito útil foram os artigos de Cláudio Weber Abramo sobre dicionários. Já havia percebido alguns erros nos chamados pais-dos-burros, mas nunca havia percebido a obrigatoriedade que a genética aí impõe: para ser pai de burro, há que ser burro também...

A encheção de lingüiça para ter muitos verbetes foi bem desmascarada. No Michaelis, um dos significados da palavra coco – o gênero musical – diz que é "acompanhado por viola". Ora, nunca ouvi coco acompanhado por viola, mas por pandeiro ou palmas. Cantiga de viola, repente, é outra coisa.

Foi realmente salutar a "Peleja Do Jornalista Com Os Donos Das Palavras".

Antonio Adriano de Medeiros

 

Por dicionários mais dignos

Li a matéria sobre os dicionários brasileiros, e concordo plenamente com o que diz, explica e elucida, a respeito deles e sobre eles. Sei que meu português não é dos melhores, leio bastante tentando melhorá-lo, entre outras coisas, mas a dificuldade para encontrar sinônimos realmente é grande. Sendo Cláudio Weber Abramo bacharel e mestre, o que dirá se uma simples mortal como eu se indispuser com editores respeitáveis? O que não serão capazes de responder? Fica aqui registrado meu total apoio a sua, a nossa luta por dicionários mais dignos.

Carmen J. C. Dias

 

Comte comunista!

Caro Sr. Abramo, que coincidência. Estava eu engasgada por uma burrada que achei no Larousse quando me deparei com seu artigo na Internet sobre o pai dos burros. Como sou uma ilustre desconhecida estava aqui pensando como poderia puxar as orelhas dos dicionaristas da Nova Cultural. Agora, passo a bomba a você.

Como o dicionário foi "gentilmente" dado pela Folha, calculo que todos o usem; portanto, cuidado, ele pode fazer mal à saúde. Aqui vai o que encontrei, completamente por acaso, aquela de "bater o olho":

Pág. E 1, Anexo 1, Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)

"... 3º) Em congruência com... figurem nesses nomes comunistas, de Comte"

Juro, está lá, com todas as letras. Fiquei abestada, fui ver com uma tia charadista se em algum dicionário dela o Comte, tão positivamente intelectual, tinha também virado comunista. Nem precisa dizer que a abobrinha não existe. Não sei onde acharam essa pérola.

Se não deu para entender direito, dêem uma olhadinha no comecinho do dicionário. Vale a pena.

Rute de Castro Lima

 

Onde estão os acadêmicos?

Quando li o artigo de Cláudio Weber Abramo na Folha, imaginei que alguém do meio acadêmico fosse responder, afinal há tantos lingüistas, filólogos... Pensei especificamente em um professor da UFPR, Geraldo Mattos, que se dedica ao assunto há tempos: tem críticas ao Aurélio publicadas em revistas acadêmicas e é autor de um dicionário para crianças, o que lhe rendeu uma obra premiada (Parto de um dicionário, Ed. FTD). Nada disso, a questão ficou entre a Nova Fronteira e o jornalista.

Pena que um tema tão interessante tenha se extraviado. A propósito, o melhor exemplo que conheço de falha de definição nos dicionários brasileiros está nos termos "direito" e "esquerdo". Compare-se com as definições de um Oxford.

Suzete P. Bornatto, professora de português em Curitiba

 

Fatalidade a corrigir

O senhor tem razão, nossos dicionários são ruins. Se compararmos nosso Aurélio com corpulentas versões do Webster americano, isto fica claro. Costumo usar o Aurélio como um dicionário para verificar minhas pendências no português. Já o Webster uso como uma enciclopédia, para descobrir – poderia ser – o que viria a ser piriforme. No caso, procuraria o termo análogo em inglês, pyriform.

Também concordo com a restrição às acepções. Há muitos regionalismos do Rio Grande do Sul que para mim, gaúcho, significam coisas bem diferentes. Um dicionário pequeno, como o Aurélio, certamente não se propõe a ilustrar leigos em botânica, por exemplo, do mesmo modo que versões simplificadas de grandes dicionários americanos, ingleses, alemães ou franceses.

Talvez não seja o caso de que tenhamos dicionários ruins – o mercado para a língua portuguesa é pequeno, o que resulta em poucas opções de escolha. Não vamos atribuir aos editores a tarefa de corrigir esta fatalidade.

Já a revolta (ou bronca, ou invocação) com vocábulos isolados resulta usualmente em... sofismas. Eu, por exemplo, nunca entendi por que nomes de tribos indígenas eram grafados com w, k e y, de vocábulos estrangeiros. Paciência, até o Brasil dominar o mundo.

João Gaspar Farias, professor, Escola de Agronomia da UFG

 

LÍNGUA
Em defesa do idioma

Creio que em absoluto o projeto de lei do deputado Aldo Rebelo pretenda multar erros de português. A questão é que aceitamos como normal sermos obrigados a conhecer inglês. Uma conhecida marca de salgadinhos vendia (ou vende ainda) o produto com os sabores: "smoked ham" e "rich cream". Os incautos tapuias são obrigados a fazer curso de inglês ou, feito bobos, a comer o que não conhecem. Não seria mais gostoso comer um salgadinho sabor presunto defumado ou creme de cebola? E se fosse veneno? Como saber?

Não traduzimos "strogonoff" para picadinho com creme, mas traduzimos churrasco para "barbacue", duas coisas inteiramente diferentes. Em comum apenas o cozimento na brasa. Ainda comeremos beanoada em vez de feijoada...

Aceitamos como obrigatório o conhecimento do inglês e apenas recentemente vídeos e aparelhos eletrônicos vêm com instruções traduzidas (em geral mescladas de castelhano). Afinal, índio só quer apito para apitar, não precisa saber usar. É muito complicado para nossas primitivas mentes, que nem conhecem a língua do pai branco que nos traz dádivas do céu.

Transformamos o Ácido Desoxoribonucleico na sigla DNA (Desoxyribonucleic Acid), em vez de ADN. Vá explicar ao aluno tal sigla. E como isto ajuda na compreensão do nome!! O sujeito tem de dominar biologia e inglês. Transformamos Sida em Aids e por aí vai. Isto são coisas que ocorrem no Brasil, mas não em Portugal, França e países de língua espanhola. Na verdade tratamos o idioma como um dialeto de segunda classe, e o chique é saber inglês. Assim lojas para "gente de bem" não faz liquidação, mas vende com "x% off". E o pobrerio passa batido sem a menor idéia do que significa off. E não suja a mercadoria com suas mãos.

O uso de palavras estrangeiras é necessário quando novas, embora "deletar" pudesse ser substituído perfeitamente por "apagar". O que facilitaria muito a vida do iniciante em informática.

No fundo, é um sistema de exclusão social o abuso do inglês. Também uma maneira de afastar os "mortais" comuns de certas tecnologias simples como a informática, criando um dialeto para iniciados. Enfim, é antidemocrático porque nega o acesso ao conhecimento a todos aqueles que conhecem somente a língua falada no seu país.

John Robert Schmitz (!!!) pelo jeito considera o português um idioma bom apenas para pessoas simples escreverem bilhetes (necessariamente mal-escritos, segundo o artigo, afinal são povo) [veja remissão abaixo] ao leiteiro. Para os mistérios da eletrônica, tecnologia e coisas mais importantes (como liquidação em loja fina) temos a língua inglesa, compreendida (ou fingindo compreensão) pelos extratos mais nobres da nossa sociedade.

Ernani Porto

 

Cláudio Weber Abramo comenta

As reações dos leitores do Observatório da Imprensa às minhas observações sobre dois dicionários brasileiros evidenciam circunstâncias que já haviam se manifestado quando da publicação de meu primeiro artigo, na Folha: as muitas falhas metodológicas e conceituais dessas obras são reconhecidas por muita gente; poucos são os que as defendem; as pessoas têm receio de se dirigir ao público (não só por meio da mídia) para exprimir suas opiniões, o que reflete o caráter subalterno da cultura brasileira, agravado pelo relativismo liberal rampante; a academia passa batida pela questão; as editoras e os dicionaristas estão pouco se lixando, demonstrando pela enésima vez que essa história de "mercado" é mesmo para inglês ver.

Dois comentários sobre o que escreveu o sr. Rogério Reis. O primeiro diz respeito à palavra "evidência". O sr. Reis se prende à etimologia, atitude bacharelesca tão comum no Brasil. Diferentemente do que ele afirma, o emprego da expressão não é o de "certeza manifesta". Ao se ouvir uma frase como "as evidências são de que Fulano é culpado" não se fica autorizado a concluir que exista certeza disso. O sr. Reis também confunde "evidente" com "evidência". São termos distintos, com usos díspares.

O segundo comentário se refere a "biópsia" e assemelhados. Aqui também vale a observação feita acima sobre bacharelismos. É o uso que, ao longo do tempo, define um idioma. Preferir "biopsia" a "biópsia" é patentemente anacrônico, e os dicionários deveriam aceder a isso, como fazem com dezenas de milhares de outros vocábulos que tiveram sua ortografia alterada para acompanhar o costume. Se não o tivessem feito, ainda estaríamos escrevendo (embora não falando) como Tomé de Souza. (C.W.A)

 

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