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OBSERVATÓRIO LITERÁRIO

 

Quem não ama a cor morena?

Deonísio da Silva
(*)

Um cangaceiro escreveu um dos melhores elogios à cor predominante no Brasil e buscada no verão por louras e outras claras: "Quem não ama a cor morena/morre cego e não vê nada." Nosso país tem muitos racismos, mas a redenção estética da mulher branca não se equipara à da morena.

"De onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada", escreveu Aparício Torelli, o Barão de Itararé. Recentemente a polícia carioca fez jus ao famoso provérbio e foi mexer com uma balzaqueana clara que tomava banho de sol com os seios desnudos, acompanhada do marido, um senhor de mais de sessenta anos. Os dois reclamaram e os dois apanharam. Enquanto isso, Wanderley Luxemburgo, a nova unanimidade nacional, ensinava aos jogadores o Hino Nacional: "Em teu seio, ó liberdade, desafia o nosso peito a própria morte." O peito, sim; os peitos não podem desafiar sequer o Sol ou a lei da gravidade, quanto a mais a zelosa polícia da Cidade Maravilhosa. Maravilhosa por obras da natureza, porque se depender das autoridades e da Petrobras, ó dor! A mulher tinha desamarrado a parte de cima do biquíni e tomava sol - como direi? - nas costas, para amorenar-se com uniformidade. E vai à praia quando quer e como a polícia deixar. Bom, o caso já foi resolvido. O que ficou para trás foi aquele biguá, que precisa ir à água todos os dias para viver, não para amorenar-se, cuja foto percorreu o mundo, mostrando olhos esbugalhados, penas pesadas de óleo e bico aberto em desespero em sua lenta agonia.

O uniforme do verão é o bronzeamento. A tragédia quase evita que seja lembrado o autor de uma clássica referência poética à preferência pela cor morena, obra - quem diria! - do cangaceiro Antônio dos Santos, o Volta Seca, do bando de Lampião. Ele compôs os versos famosos, inspirado na beleza da mulher do chefe, a famosa e formosa Maria Bonita: "Acorda, Maria Bonita/ levanta vai fazer o café/ que o dia já vem raiando/ e a polícia já está de pé." Apesar dos perigos, havia poesia na guerra da caatinga: "Cabelos pretos anelados/olhos castanhos delicados/ quem não ama a cor morena/ morre cego e não vê nada." E Volta Seca concluía o famoso baião com versos ainda mais lindos: "Se eu soubesse que chorando/ empato a tua viagem/ meus olhos eram dois rios/ que não te davam passagem."

Proibição e cobiça

Maria Bonita estava protegida e bem vestida na caatinga. E Volta Seca não se atreveu a falar sobre os seios que fascinaram Lampião. Resolvida a questão dos seios gentis com a bruta polícia que neste solo ignora liberdades individuais, pode ser que doravante nas praias seja um tédio só. Muitos bocejarem aqui e ali, contemplando aquele mar de seios. Uns grandes, outros - pequenos. E os médios, naturalmente. E os quase-nada, também. Foi sempre costume dos homens compará-los a frutas. Mamões, laranjas, pêssegos, maçãs, bergamotas, mexericas. Para deboche, ovo frito. Antigamente, os seios, a primeira coisa que a criança põe na boca, eram escondidos logo depois do desmame e nós, meninos, somente voltaríamos a vê-los na adolescência, não mais pelo instinto da alimentação, mas pelo do amor.

Vários escritores se interessaram pelos seios. Um dos melhores exemplos é Viagem aos seios de Duília, um clássico das narrativas curtas brasileiras.

Seios perfeitíssimos, como os da Joana Feiticeira Prado, nos incomodam. Até a Vênus de Milo, modelo de beleza eterna e universal, não tem os bicos dos seios no mesmo nível. Como? Se eu já medi com uma fita métrica? Não. Medi com os olhos, como todo mundo. Por que incomodam? Porque não são naturais! Até um homem pode ter aqueles seios, como, aliás, Pedro Almodóvar mostra em seu filme mais recente, Tudo sobre minha mãe. Lá pelas tantas, duas mulheres conversam num elevador:

- E o que você fazia antes de vir para Barcelona?

- Eu era caminhoneiro em Paris.

Maminha ao léu

O silicone faz milagres! Carla Perez e Vera Fischer estão entre as usuárias mais famosas. Algumas, mediante lipos e outras cirurgias, tiram o que a natureza ou a gula lhes deu em excesso. Outras implantam o que a natureza ou a falta de exercícios adequados lhes surrupiou. E outras, em menor número, precisam fazer as plásticas por razões de saúde.

O certo é que seios de fora não eram novidade nas praias. Não me refiro ao alvorecer do século 16, quando nossos descobridores ficaram perplexos com as vergonhas saradinhas de nossas índias. Falo do remoto século passado. Nos anos setenta, eu tomava sol nas areias de Copacabana e um par de aeromoças escandinavas, duas louras maiores do que palmeiras imperiais, ostentavam seus lindos seios nórdicos "ao quente arfar das vibrações marinhas/como roçam na vaga as andorinhas" para ficarem ao menos cor-de-rosa, já que amorenar direito suecas e dinamarquesas, só passando piche. A polícia não fez nada. Quem quis olhar, olhou. Quem não quis, deixou passar. A proibição é que, desde o paraíso terrestre, deflagra a cobiça.

Os seios de fora serviram, entre outras coisas, para mostrar mais uma vez ao mundo que Portugal e Brasil são separados pela mesma língua, como Bernard Shaw disse da Inglaterra e dos Estados Unidos. O escândalo nas praias brasileiras foi assim noticiado num jornal de Lisboa: "Maminhas ao léu". Já nosso Hino Nacional sabe diferenciar: "Em teu seio, ó liberdade, desafia o nosso peito a própria morte". Que todas mostrem o que bem quiserem. Os locais vão determinar os usos. Ninguém vai trabalhar de biquíni, muito menos sem a parte de cima. E os homens vão preferir sempre - para olhar, bem entendido - biquíni, maiô, lingeries em cores e cortes apropriados aos gostos de cada mulher, decotes, transparências. Mostrar tudo é o grande erro dessas mulheres! Nem as índias mostram tudo, já perceberam? A cor morena fica ainda mais bonita se enfeitada de marquinhas do sol.

(*) Escritor e professor. Seu romance Avante, soldados: para trás recebeu o Prêmio Casa de las Américas, num júri presidido por José Saramago

 

CARTAS
O preço de uma resenha

Sou uma escritora independente, isto é, sem vínculos com editoras, apesar de ser patrocinada. Isso é bom? Não, é péssimo. Embora saiba que sou uma ótima escritora, o que é comprovado pela venda de meus livros (oito, entre outras publicações), e receba convites para palestras e atividades literárias, não consegui publicar em nenhum jornal a resenha de meu último romance, O Florista. A Folha me pediu o livro, enviou à seção de resenhas, e acho que até hoje não conseguiram terminá-la. Renato Pompeu, do Jornal da Tarde, muito gentilmente fez comentário excelente que me enviou pelo correio. Então optei por uma resenha paga, mandaram-me o orçamento, mas achei humilhante a situação e desisti.

Como chegar ao velocino de ouro, nós, pobres mortais escritores desconsiderados? O que se pode perceber também é que a patota é sempre a mesma. Até escritores têm cadeira vitalícia - que o confirme a Academia Brasileira de Letras. Tenho contra mim vários aspectos: sou mulher, passei dos inte, estou nos enta, e escrevo sobre temas impertinentes, como a sexualidade. Às vezes me rebelo e depois me acalmo, pois tenho como companheira de escanteio a grande Hilda Hilst, da mesma editora, e outras.

Nilza Amaral

 

O conto da editora

Sou securitário de profissão, e nas horas vagas sou poeta, escritor e artista plástico. Em junho de 1999, editei um livro de poesias (Sensíveis carinhos) pela Editora Vertente Ltda., com sede em Campos do Jordão. Assinei contrato de parceria pelo qual eu pagaria 50% da edição (e paguei) e ficaria com 50% dos livros. Os outros 50% a Vertente venderia e me pagaria 10% a título de autoria. Passados 8 meses de desgastes, o editor e proprietário, Ryoki Inoue, não cumpriu o contrato em sua plenitude. Recebi até hoje 336 exemplares, faltando 164. Além disso não pôs à venda os outros 500 exemplares. O Sr. Ryoki diz sempre a mesma coisa: "Estou com problemas, mas fique tranqüilo que você receberá tudo". Nada aconteceu, apenas ficou na promessa. Ultimamente nem responde aos meus e-mails.

Nosso país precisa de cultura, mas como podemos ajudar a mudar o rumo da história se encontramos pela frente pessoas assim?

Edir Novo

 

ASPAS
Jorge Caldeira

"Lição de ignorância", copyright Folha de S.Paulo, 12/2/00

"A coleção ‘Formadores do Brasil’ é resultado de um grande investimento para cobrir uma lacuna no Brasil: a publicação de documentos históricos originais. Estão sendo produzidos dez volumes desta coleção. Foram lançados dois: ‘Diogo Antonio Feijó’, organizado por mim, e ‘Bernardo Pereira de Vasconcelos’, por José Murilo de Carvalho. Este ano devem ser lançados mais seis volumes, trazendo a obra de brasileiros como José Bonifácio, Visconde de Cairu, Hipólito da Costa e Pimenta Bueno. Digo ‘devem’ porque cada um desses volumes exige um gigantesco trabalho de pesquisa, sujeito a muitas incertezas.

Os originais estão dispersos em arquivos de todo o país, muitos em estado precário - o que exige um longo trabalho de garimpagem. Por si só, esta situação revela a importância do projeto. Para enfrentar a tarefa de encontrar o material (inclusive iconográfico) e restaurar os textos para o leitor contemporâneo, atualizando ortografia e pontuação com rigor, produzindo notas, juntando as indicações de pesquisa e fortuna crítica, foi preciso reunir o que há de melhor na historiografia brasileira. O conselho editorial que supervisiona a tarefa reúne os maiores historiadores do país: Fernando Novais, Boris Fausto, Evaldo Cabral de Mello, José Murilo de Carvalho e Sergio Goes de Paula. Graças à excelência deste conselho, foi possível reunir uma equipe de pesquisadores com alta competência acadêmica e dar um padrão elevado a cada livro.

Esta introdução se faz necessária porque num agregado de palavras apresentado neste Jornal de Resenhas (8/1/2000, ‘Uma Personagem Polêmica’, de Miriam Dolhnikoff), quando se comenta a coleção, informa-se apenas que ela seria cópia de uma outra, que reapresenta obras isoladas de autores do século passado e, portanto, não tem nenhuma característica em comum com ‘Formadores do Brasil’. Não é exatamente fácil produzir um equívoco informativo desse porte - e nem é este o único evento dessa natureza na peça, o que obriga a uma outra exposição.

O volume ‘Diogo Antonio Feijó’ é a mais completa reunião de textos já publicada deste líder fundamental na formação do país. É o primeiro volume organizado a partir de toda a sua obra, encontrada após um duro trabalho de pesquisa em mais de uma dezena de arquivos - material completo este que estará proximamente à disposição de todos os brasileiros na Internet. Há nada menos que 88 anos os textos de Feijó não eram publicados.

Não existe naquela resenha qualquer informação sobre esta dimensão de novidade do livro. Pior: as informações sobre o coração do volume, os textos de Feijó, se resumem a apenas duas breves referências, perdidas em meio à confusão. A primeira afirma que ‘todos os textos importantes de Feijó podem ser encontrados no livro’. Pena que essa frase seja tudo que se encontra sobre o subconjunto destes ‘textos importantes’, o que impede o leitor de saber quais seriam.

A segunda asserção lamenta que haja também ‘textos supérfluos’ - ou, em outras palavras, estranhamente lamenta que tenha chegado ao leitor mais do que o necessário. Esta segunda asserção, ao contrário da primeira, é qualificada por um comentário, aliás errado: o de que os textos retirados das atas do Conselho de Província estariam no livro apenas por conter a assinatura de Feijó. Na verdade são os projetos apresentados por Feijó e aprovados pelo Conselho.

Menos grave esse erro que um outro. Na apresentação aos textos, digo que houve pouca pressão sobre os eleitores na escolha de Feijó para regente, em 1835, porque não havia candidatos conservadores viáveis. Por causa disso, sou apresentado como ignorante em história. O texto afirma que ‘os conservadores não só participaram, como um de seus mais importantes líderes, Holanda Cavalcanti, perdeu de Feijó por cerca de 600 votos’. O Holanda Cavalcanti aí referido vem a ser Antonio Francisco de Paula e Holanda Cavalcanti de Albuquerque, deputado entre 1826 e 1838, senador daí até 1863, três vezes ministro da Fazenda, membro do Conselho de Estado - que sempre foi um político liberal. Tão liberal e tão próximo às posições de Feijó que Joaquim Nabuco resumiu suas posições políticas com a seguinte frase: ‘Era um Feijó-Cavalcanti, nascido e criado nos engenhos do norte’.

Falhas dessa gravidade têm sua função: ajudam a entender por que o espaço para a exposição do trabalho coletivo necessário para se fazer o livro, bem como seu conteúdo, se resume a três referências, enquanto os ataques ao organizador são tão fartos: há 28 referências negativas à minha pessoa no texto. Essas referências se contrapõem a 12 referências positivas indiretas, auto-atribuídas ao narrador. Em outras palavras, o centro do texto não é uma análise do livro, mas uma discussão de autoridade entre resenhista e organizador, fora do contexto da obra. O primeiro, que pretensamente conhece mais, alerta ao leitor não sobre o livro (praticamente ignorado), mas sobre a suposta baixa qualidade do organizador. Neste contexto, o erro grotesco - erro de fato, erro sobre o repertório de conhecimento, não apenas erro de avaliação - sobre Holanda Cavalcanti se transforma em ponto central para um juízo sobre a autoridade. Mostra com toda clareza que quem afirma muito sua superioridade, conhece pouco do assunto. Uma verdadeira aula de ignorância. [Jorge Caldeira é doutor em ciência política pela USP e organizador de ‘Diogo Antonio Feijó’ (Editora 34)]"



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