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OBSERVATÓRIO LITERÁRIO
POLÊMICA
Por que os dicionários
brasileiros são tão ruins?
Cláudio Weber Abramo
Conforme é notório entre usuários freqüentes de dicionários, as instâncias brasileiras desse tipo de obra deixam muito a desejar. Quem os consulta se depara com lacunas inexplicáveis, acepções descabidas, preferências ortográficas obsoletas, desequilíbrio de tratamento tanto entre verbetes de uma mesma categoria como entre aqueles de categorias distintas e mais uma lista interminável de inadequações.
O que eles mais mostram é a ausência de algum tipo de método em sua compilação. Os verbetes são incluídos ou não incluídos ao acaso. Muitas e muitas vezes, o consulente que deseje esclarecer a acepção de algum termo emerge da consulta ainda mais perplexo do que quando a iniciou. Não é incomum que as acepções girem em círculo, prendendo-se a formalismos e deixando de lado o que seria mais importante, o significado dos termos. Veja-se, por exemplo, como o dicionário Aurélio define a fruta "pêra" (aproveito exemplo mencionado pelo leitor Pablo Zumarán):
1. O fruto da pereira.
O consulente vai, então, procurar "pereira". Lá encontra:
1. Árvore da família das rosáceas (Pyrus communis), originária do hemisfério norte e cultivada universalmente pelos excelentes frutos edules, que são uma espécie de baga múltipla, visto procederem de vários pistilos de uma mesma flor.
E a pêra, onde ficou?
Observe-se, ainda, que a acepção acima faz menção a "excelentes frutos edules". Primeiro, a presença desse "excelentes" é claramente descabida, por se tratar de apreciação subjetiva. Segundo, o que seria um "fruto edule"? Consulta ao verbete correspondente revela que "edule" significa "comestível". Êta bacharelismo pernóstico...
"Pêra" revela ainda outras peculiaridades curiosas. A acepção de número 4 afirma:
Med. Artefato piriforme, de borracha, destinado a insuflar manguito integrante de equipamento destinado a medir pressão arterial.
O que seria algo "piriforme"? Pela formação da palavra, parece que significa "em forma de pêra". O verbete em questão informa que é isso mesmo: "piriforme" significa "em forma de pêra". De modo que, substituindo no verbete, ficamos com:
Pêra 4. Artefato em forma de pêra.
Muito informativo, ainda mais considerando-se que, em nenhum instante, se informou que raio de forma tem a pêra.
Exemplos como esses se multiplicam às centenas e aos milhares, não só no dicionário Aurélio como também em outros, como o Michaelis.
Pois bem, após vários anos de irritação com a inépcia dos dicionários, consideravelmente amplificada pela apatia de quem deveria se ocupar de tais assuntos e pelo habitual puxa-saquismo de colunistas interessados, decidi escrever um artiguete a respeito. A peça foi submetida ao caderno "Mais!" da Folha de S. Paulo no final do mês de outubro de 1999. Seria publicada ainda em novembro, mas na hora agá surgiu a notícia de que a editora Nova Fronteira acabara de lançar uma nova edição do Aurélio. É claro que o artigo precisaria fazer referência a esta edição, e não à anterior. Passaram-se várias semanas até que se conseguisse um exemplar. Com isso veio o Natal, especiais de fim de ano etc. A publicação se fez, afinal, em 23 de janeiro de 2000 [veja remissão abaixo; o artigo também pode ser encontrado em http://sites.uol.com.br/cwabramo].
A edição de 13 de fevereiro de 2000 do "Mais!" trouxe réplica assinada pelas coordenadoras do Aurélio, senhoras Marina Baird Ferreira e Margarida dos Anjos [veja remissão abaixo; e também em http://www.uol.com.br/fsp/mais/fs1302200011.htm, somente para assinantes do UOL]. Nessa réplica, Baird Ferreira e dos Anjos adotam a atitude, tão comum no Brasil, de tentar desqualificar o oponente sem ferir a questão central.
Poucos dias depois, Alcino Leite Neto, editor do "Mais!", entrou em contato comigo para informar que a Folha decidira encerrar a polêmica com a publicação de dois artigos finais. Mas havia um detalhe: como seria um encerramento de polêmica, a norma do jornal exigiria que os escritos não fossem lidos previamente por nenhuma das partes. Não é uma má norma, desde que aplicada ao terceiro round. Invocada no segundo, faria com que a outra parte ficasse sem base sobre a qual operar.
Isso me pareceu injusto para com as duas coordenadoras do Aurélio. Em face disso, sugeri a Alcino que se franqueasse às senhoras a leitura de minha tréplica, sob duas condições: que elas fossem cientificadas de que a proposta partira de mim; e que elas se eximissem de efetuar ataques pessoais. Alcino achou razoável e, conforme me informou, lhes transmitiria a sugestão.
Minha tréplica saiu na edição de 5 de março de 2000 [veja abaixo; também disponível em http://sites.uol.com.br/cwabramo]. Contudo, a resposta a esse escrito não veio assinada pelas duas senhoras anteriores, mas por interposta pessoa, o sr. Paulo Geiger, que vem a ser editor de obras de referência da Nova Fronteira. Nesse artigo [veja abaixo], Geiger afirma que não pôde ler minha tréplica (mostrando que, se minha proposta foi comunicada às oponentes, estas a declinaram) e se dedica a elaborações perfeitamente irrelevantes. Repetindo o comportamento das duas coordenadoras do dicionário, passa ao largo da questão central: por que diabos os dicionários brasileiros são tão caóticos? E, é claro, Geiger tampouco se exime de pseudo-irônicas tentativas de desqualificação.
Desse modo, ao usarem o espaço público do jornal, tanto Baird Ferreira e dos Anjos quanto Geiger revelam que na verdade não têm comprometimento com o público. Vindo de editores, tal comportamento objetivamente os desqualifica.
O que resta é uma convicção ainda mais fortalecida de que esse dicionário Aurélio é não só muito mal feito como o comprometimento de quem o edita é apenas financeiro. Como não podem confessar publicamente que elaboram a coisa com casca e tudo, insistem na embromação mercadológica de tentar fazer crer que o que fazem é uma maravilha. O pior de tudo é que, neste país em que a segunda pergunta jamais é feita, isso gruda.
ASPAS
Cláudio Weber Abramo
"Dicionários, que horror", copyright Folha de S.Paulo, 23/1/00
"Dicionários são livros de grande utilidade. Poucos escritórios seriam completos sem um deles na estante. Versões resumidas são adotadas por todas as escolas. Nenhuma redação os dispensa. Eles devem constituir bom negócio para as editoras que os publicam, notadamente por ocasião de reformas ortográficas, as quais, via de regra, têm em dicionaristas os seus mais entusiásticos promotores - mas, cala-te boca, esse é outro assunto. O lançamento recente da terceira edição do ‘Aurélio’ (Ed. Nova Fronteira) fornece uma excelente oportunidade para verificar se é mesmo verdade que os dicionários brasileiros são úteis. O assunto não é de todo irrelevante, dada a grande quantidade de indivíduos que, cegamente, justifica isso ou aquilo porque está dito assim ou assado em algum dicionário.
As pessoas consultam esse tipo de obra por uma variedade de motivos (deixemos de lado a busca de etimologias, que tende a se restringir a pouca gente): determinar as acepções de uma palavra; verificar se uma palavra existe; verificar como uma palavra se escreve; buscar um sinônimo. Dessas funções, a última não é cumprida. Ao contrário dos melhores dicionários de outros idiomas, os brasileiros não se propõem a tanto. Sinônimos precisam ser buscados em obras especializadas nisso, que, no entanto, costumam ser limitadíssimas.
A penúltima função (grafia de palavras) é, de fato, satisfeita: os dicionários não costumam errar nesse particular, embora por vezes imponham ou recomendem determinadas grafias improváveis ou que acompanham usos de décadas atrás. O quadro intitulado ‘Como é mesmo que se escreve?’ traz exemplos encontrados mais ou menos ao acaso no ‘Aurélio’ e em outro dicionário que vende bastante, o ‘Michaelis’ (edição eletrônica). Se na área da grafia, apesar das esquisitices, a coisa anda, decerto o mesmo não se pode dizer quanto à existência de palavras. É claro que esses compêndios consignam ‘mesa’, ‘cavalo’ e demais vocábulos corriqueiros. Basta, porém, sair um pouquinho do ramerrame para que a consulta resulte inútil. O quadro ‘Ausências conspícuas’ traz exemplos. No caso da nova edição do ‘Aurélio’, cumpre ainda observar a publicidade propositalmente dúbia, que junta na mesma frase que o dicionário conteria ‘450 mil verbetes, definições e locuções’ quando, na verdade, o número de verbetes não chega perto disso. Acresce que se engordou a lista de verbetes (e não de variantes, como seria correto) com uma relação interminável de grafias lusitanas: ‘dialecto’, ‘facto’, ‘electrão’ etc. Nunca se esquecendo daquelas palavras (em geral proparoxítonas) que, no Brasil, são pronunciadas fechadas e recebem acento circunflexo e que, em Portugal, são pronunciadas abertas e se grafam com acento agudo. Assim, há diversas centenas, quiçá milhares, de verbetes da banda de lá, como ‘Fenómeno. S.m. Lus. V. fenômeno’, seguidos imediatamente abaixo por seus correspondentes das bandas de cá: ‘Fenômeno...’. Em suma, meros macetes mercadológicos para justificar números altissonantes.
A despeito de tanto propagandearem excelências, esses dicionários não resistem a uma aquilatação perfunctória. E seus formuladores nem sequer podem reclamar de enviesamentos ou de se hipervalorizarem detalhes: só as duas orações imediatamente anteriores contêm nada menos que cinco palavras ausentes do ‘Aurélio’: ‘propagandear’, ‘aquilatação’, ‘formulador’, ‘enviesamento’ e ‘hipervalorizar’ (estas duas últimas ausentes também do ‘Michaelis’). Como é que se explica que o ‘Aurélio’ traga ‘irrealizado’ e ‘irresolúvel’, por exemplo, mas não ‘irresolvido’? Já o ‘Michaelis’ traz ‘irrealização’, mas não ‘irrealizado’. Por quê? Há inúmeras outras instâncias semelhantes, que demonstram acima de tudo a inconsistência interna dos critérios que governam a consignação de verbetes: não há ordem, não há preocupação com a completude, não existe cobertura sistemática. Em particular, palavras formadas por prefixação aparecem ou não aparecem ao acaso, como se viu acima. Não há método. Do outro lado da moeda, certos verbetes têm origem em manifestações de ignorância deslavada, e jamais poderiam ter sido consignados. É o caso, por exemplo, de ‘randômico’, que algum dia um tradutor canhestro replicou do inglês ‘random’ sem saber que existe em português ‘aleatório’, com extensão semântica idêntica (e o ‘Michaelis’ nem sequer inclui ‘aleatoriedade’, embora, da mesma forma que o ‘Aurélio’, consigne ‘randomização’). O ‘Aurélio’ é particularmente permissivo na consignação de significados errôneos, que se chocam com a própria etimologia das palavras. É o caso de ‘incomensurável’, dado como significando o mesmo que ‘imensurável’ (o ‘Michaelis’ subscreve o equívoco como acepção secundária).
Palavras esquisitas
Um dos principais motes propagandísticos do lançamento do ‘Aurélio’ foi a inclusão de termos ligados à informática. Sem opinar sobre a propriedade da inclusão, no idioma, de um montão de palavras esquisitas, cumpre observar que, também nesse território, governa a inconsistência e a desorganização: há ‘clicar’ e ‘escanear’, mas não ‘retrofitar’, ‘zipar’, ‘rasterizar’, ‘samplear’, ‘atachar’; há centenas de vocábulos ingleses, como ‘drive’, ‘browser’, ‘download’, ‘upload’, ‘upgrade’ etc., mas não ‘downgrade’ e ‘firewall’; a pretensão de vender dicionários em Portugal soçobra na ausência da acepção de ‘ratão’ como ‘mouse’, este presente. É, porém, no capítulo dos significados que as evidências mais condenam os dicionários. Não precisamos chegar às disciplinas especializadas, em que o panorama é catastrófico (aliás, ‘catastrofismo’ não existe no ‘Aurélio’). Fiquemos em exemplos corriqueiros. Comecemos por ‘evidência’, já que acabamos de usar a palavra.
Segundo o ‘Michaelis’, trata-se de ‘qualidade daquilo que é evidente, que é incontestável’; no ‘Aurélio’, aduz-se ‘certeza manifesta’. Este último ajunta uma particularização ao terreno da filosofia, afirmando que ‘evidência’ seria ‘caráter de objeto de conhecimento que não comporta nenhuma dúvida quanto à sua verdade ou falsidade’, como se alguma filosofia sustentasse tamanho despropósito. Acontece que evidência não é demonstração, mas uma circunstância fáctica que justifica uma conjectura racional a respeito de algum encadeamento causal que se esteja propondo, sem que se declare certeza. Por exemplo, ‘há evidências de que fulano teve influência na decisão do presidente’. Não se está afirmando que, indubitavelmente, fulano influiu na decisão, mas que há indícios (possivelmente equivocados) de que isso tenha ocorrido.
No caso dessa expressão, sem dúvida a acepção dicionarizada deve algo à notável inépcia do vocabulário jurídico, no qual as evidências de um crime são referidas como ‘provas’. Essa circunstância afeta traduções de forma bastante grave. Uma frase inglesa como ‘Evidence notwithstanding, he was not proved guilty’, ou seja, ‘Apesar das evidências, não se demonstrou a sua culpa’, é emendada por revisores ignorantes (os quais não faltam na praça) em ‘Apesar das provas, não se provou sua culpa’...
Problema essencialmente idêntico ocorre com a palavra ‘provável’, cujo significado primário é apresentado pelos dois dicionários como ‘aquilo que se pode provar’. Ora, isso é, exatamente, o que algo provável não é. Embora ambos consignem acepções secundárias em que o significado correto aparece, não se justifica a indicação, à testa, de uma acepção que não é empregada por ninguém. Pois é claro que uma frase como ‘É provável que João seja responsável’ jamais será entendida como uma declaração de que o papel de João pode ser demonstrado, mas que existem evidências, perdão, indícios, de que a responsabilidade cabe a ele.
Prosseguindo, digamos que o leitor depare no jornal com a frase ‘o presidente reclamou que a oposição está tentando provocar divisionismo na base parlamentar’. Parece claro, não? Conforme os dicionários, não. Pois ‘divisionismo’ quer dizer (‘Michaelis’) ‘teoria ou prática de separar as cores em suas componentes e de aplicar estas lado a lado na tela em vez de misturá-las na paleta, de modo que se fundam, a distância, na visão do observador’ (o ‘Aurélio’ traz definição na mesma linha). Não se indica nenhuma outra acepção. Nessa toada, é claro que ‘divisionista’ é um fulano que pinta de um certo jeito...
Dado o caráter bacharelesco e subalterno da cultura brasileira, e em vista da ignorância generalizada, os dicionários (bem como certos outros compêndios ligados ao uso da língua, cuja crítica deve ficar para outra ocasião) assumem ares de pedra filosofal, tábuas de lei trazidas à terra brasileira por Moisés em pessoa. Mas são apenas opiniões, e opiniões inconfiáveis (esta palavra não comparece no ‘Michaelis’). Segui-los às cegas leva ao abismo.
Nisso tudo, cabe mencionar a discrição com que os círculos convivem com a situação. Busca realizada na biblioteca da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) não revelou a existência de nenhum trabalho sobre o tema. Idem quanto ao Banco de Teses da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Já o banco de dados referente à ‘Produção USP’ limita a referência a dicionários a três resenhas de jornal distribuídas ao longo de alguns anos, todas pela mesma pessoa e todas dedicadas a sucessivos relançamentos do ‘Aurélio’. Mas a crítica pública aos dicionários oferecidos à comunidade não seria obrigação de quem é pago para lidar com os assuntos da língua? E como é que nunca formaram uma equipe para fazer um dicionário decente, mesmo que seja para demorar uma década? Ou será que o que existe por aí já está bom demais? [Cláudio Weber Abramo é bacharel em matemática pela USP e mestre em lógica e filosofia da ciência pela Universidade Estadual de Campinas. Página na Internet: http://sites.uol.com.br/cwabramo]"
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"Como é mesmo que se escreve?", copyright Folha de S.Paulo, 23/1/00
"Qualquer um escreveria ‘Foi uma vitória acachapante’. Mas, conforme o ‘Aurélio’ e o ‘Michaelis’, a grafia preferencial seria ‘acaçapante’.
Os dois compêndios consignam a palavra ‘arimética’ como variante de ‘aritmética’. Permanece um mistério saber quem, alguma vez na vida, grafou ‘aritmética’ sem o ‘t’ (o ‘Aurélio’ consigna também ‘arimético’). Fenômeno idêntico ocorre com ‘pósiton’, dado pelo ‘Aurélio’ como se fosse variante de ‘pósitron’. Já o ‘Michaelis’ prefere ‘posítron’, com acento no ‘i’. Neste caso, a preferência vem de um motivo filológico perfeitamente razoável (não se escreve ‘életron’) - embora ninguém fale ou escreva assim, o que diz bastante sobre o alcance dos motivos filológicos perfeitamente razoáveis.
O eventual leitor deve cuidar da próxima vez que for ao médico e este indicar a realização de uma biópsia. Deveria dizer ‘biopsia’, sem acento.
O ‘Aurélio’ diz que ‘eletro’ é variante de ‘electro’ (de modo que nosso médico também não deve encomendar um eletro, mas um electro), ao passo que, de modo mais sensato, o ‘Michaelis’ inverte a preferência. Não é só o ‘Aurélio’ que faz confusões com variantes. No ‘Michaelis’, o leitor que procura por ‘sobressalente’ é informado de que se trata de variante de ‘sobresselente’, com ‘e’. Esta, por sua vez, é dada como corruptela de ‘sobressaliente’, de volta ao ‘a’.
Não vá o eventual leitor comprar uma samambaia e pedir por esse nome: a denominação preferencial, conforme o ‘Aurélio’, seria ‘gleichênia’. Por falar em espécies vegetais (e animais), o ‘Aurélio’ tem uma cobertura errática. Além disso, por vezes não fornece a classificação sistemática (o ‘nome científico’), a qual corresponde ao único referencial confiável para a identificação de um ser vivo. O ‘Michaelis’ é mais consistente.
Os adjetivos ‘anafilático’ e ‘apoplético’. As formas preferenciais seriam ‘anafiláctico’ e ‘apopléctico’, com um ‘c’ aí no meio, como se estivéssemos em Portugal.
Cuidado, também, ao exclamar em casa: ‘Cadê minha revista?’. Os deuses da lexicografia recomendam dizer ‘Quede minha revista?’.
Pessoas dadas a frequentar bordéis não devem se referir à administradora do estabelecimento como ‘cafetina’. A correção lexical dá preferência a ‘caftina’, sem o ‘e’, como prefere ‘cáften’ a ‘cafetão’. Tanto o ‘Aurélio’ quanto o ‘Michaelis’ chegam ao ponto de declarar que ‘cafetina’ e ‘cafetão’ seriam gíria.
Há também grafias desviantes (‘desviante’ nem sequer aparece no ‘Aurélio’ e, no ‘Michaelis’, é reservado à conduta social), consignadas porque compareceram, provavelmente por erro, na obra de algum autor lusitano ou brasileiro (‘abóbeda’, ‘autócrata’, ‘expetador’).
Marina Baird Ferreira
e Margarida dos Anjos
"O horror da crítica e o valor dos dicionários", copyright Folha de S.Paulo, 13/2/00
"Em recente artigo publicado no Mais! (23/1/2000), o sr. Cláudio Weber Abramo teceu comentários a respeito de dois dicionários atualmente disponíveis no Brasil: o ‘Aurélio’ e o ‘Michaelis’ (versão eletrônica). A forma e o conteúdo do referido artigo são tais que, a nosso ver, não ajudam a elevar o nível do necessário e saudável debate intelectual e induzem a uma série de equívocos a respeito de noções básicas de lexicografia e dos critérios que norteiam a confecção dos dicionários. Como observação geral, registre-se apenas o sofisma em que se baseia toda sua afetação crítica. Ele atribui aos dicionários existentes ares de ‘pedra filosofal’ e ‘tábua de lei’. É uma concepção inteiramente errônea do espírito de um dicionário. Um dicionário não impõe usos; apenas os registra, filtrando-os segundo critérios que respeitem a ‘norma culta’.
Evolução da língua
Os dicionários não pretendem ser seguidos às cegas; eles é que seguem (com critérios e olhos bem abertos) a evolução da língua. O autor, os lexicógrafos continuadores de sua obra e os editores do ‘Aurélio’ não pretendem ter realizado um dicionário que esteja acima de críticas, mas que seja útil e perfectível em todos os atributos que busca preencher: abrangência, precisão, acuidade, clareza, concisão etc., aliadas a fatores como tamanho (e, portanto, preço), praticidade e as reais necessidades do público a que se destina. Ao sugerir, por vias tortuosas, que os dicionários atuais são ‘indecentes’, o sr. Cláudio W. Abramo desrespeita a obra e o trabalho acumulado de eminentes conhecedores da língua, como Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, que dedicou toda uma vida ao estudo do nosso idioma e que foi, na opinião insuspeita de Antônio Houaiss, ‘a figura mais importante da lexicografia da língua portuguesa nos últimos 150 anos’. Mais grave ainda, a agressividade delirante do articulista, aliada à falta de embasamento técnico que demonstra, é um insulto à seriedade inerente ao trabalho dos lexicógrafos mortos ou vivos. Sendo assim, tratando apenas do inevitável e em respeito aos leitores, ignorando os insultos e leviandades do articulista, vimos apresentar algumas considerações pontuais, para que a desinformação não predomine nesse campo. A seguir, comentamos algumas críticas descabidas que se desfiam ao longo do texto. A afirmação de que o ‘Aurélio’ não traz sinônimos é inteiramente despropositada; não só os traz como os alinha dentro da acepção correspondente e não misturados, de cambulhada, ao final do verbete. A informação editorial da soma de verbetes, locuções e definições no ‘Aurélio’ nada tem de ‘publicidade propositalmente dúbia’. A quantidade de verbetes não é, por si, parâmetro para avaliar o equilíbrio e a abrangência de um dicionário. Em vez de multiplicá-los a esmo, o ‘Aurélio’ prefere ampliar as informações neles contidas. É um modo legítimo de aproveitar o espaço gráfico e de atender às necessidades do leitor. Nem sempre os dicionários mais copiosos contêm maior número de informações, ou informações mais relevantes. O registro de palavras dos Palops (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), ou vocábulos usados por falantes lusitanos, não obedece a propósitos mercadológicos, como afirma o articulista, e sim a critérios lexicográficos. Quando o ‘Aurélio’ consigna, por exemplo, as formas ‘fenómeno’ (lusitanismo) e ‘fenômeno’, não está recorrendo a nenhum artifício, e sim respeitando o mesmo critério pelo qual averba variantes prosódicas distinguidas quanto à abertura da vogal tônica: é o caso, por exemplo, de ‘ipé’ e ‘ipê’, ‘afoxé’ e ‘afoxê’, ‘sapé’ e ‘sapê’. A inclusão de palavras de informática não é ‘inconsistente e desorganizada’. Ela é feita ponderadamente, caso a caso, levando-se em conta diversos aspectos de relevância variável: difusão dos conceitos; campo de uso (programação, uso de computadores pessoais e de redes de computadores); existência de correspondentes em português etc. (por exemplo, uma palavra como ‘downgrade’, de emprego restritíssimo em informática, não deve ser incluída só por ser o simétrico de ‘upgrade’, muito mais usada).
Ausências conspícuas
Os reparos semânticos feitos pelo articulista a respeito de palavras como ‘provável’ e ‘evidência’ não levam em conta nem a etimologia das palavras nem os princípios de estruturação de verbetes. Quanto às ‘ausências conspícuas’, algumas das palavras sugeridas foram devidamente anotadas para, talvez, futura inclusão. Grande parte da lista arrolada pelo articulista, no entanto, é formada por palavras cuja inclusão, em um dicionário de volume único, tem interesse muito restrito (veja-se, a esse respeito, o que se diz no item 2 sobre a multiplicação não criteriosa de verbetes). Palavras por prefixação em ‘des-’, ‘in-’, ‘ir-’, ‘hiper-’, ‘hipo-’ etc. figuram no ‘Aurélio’ apenas quando muito usadas ou quando empregadas no texto do dicionário ou por autores consagrados. A averbação de cognatos é analogamente restringida, nesses casos.
No quadro ‘É assim que se escreve’, esclarecemos as questões ortográficas mencionadas no artigo. E muitas outras considerações caberiam, que apontassem a imprecisão dos argumentos levantados e a incorreção dos fatos. Porém, uma vez que a exiguidade do espaço impede que se contestem todas as afirmações errôneas e grosseiras que foram feitas, colocamo-nos à disposição dos leitores desta Folha para esclarecer sobre os demais pontos, desde que num debate saudável sobre língua portuguesa e critérios para formação de um dicionário. [Marina Baird Ferreira e Margarida dos Anjos são coordenadoras do ‘Dicionário Aurélio Século 21’ (Ed. Nova Fronteira)]"
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"É assim que se escreve", copyright Folha de S.Paulo, 13/2/00
"O articulista ignora que ‘acachapante’ e ‘acachapar’ são variantes de ‘acaçapante’ e ‘acaçapar’, que vêm de ‘caçapo’, e esta, por sua vez, de ‘caça’. O ‘Aurélio’ registra os termos dando relevância à sua origem e informando as variantes mais usuais.
O ‘Aurélio’ é um dicionário contemporâneo da língua portuguesa, escrita e falada. Como tal, traz amplo registro das variantes (gráficas, prosódicas etc.) de palavras correntes. ‘Arimética’ e ‘arimético’, por exemplo, são registradas também pelo ‘Vocabulário Ortográfico e Ortoépico’ de Gonçalves Viana e pelo vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras (Volp). A variante ‘abóbeda’ é registrada também pelo ‘Volp’ e tem abonação de Camilo Castelo Branco. Onde está o erro?
Remetemos a palavra ‘pósiton’ (de positivo -on- e que entrou na língua por via do inglês ‘positon’, daí ser grafada como proparoxítona, assim como ‘pósitron’) para o termo de maior uso, critério perfeitamente legítimo, seguido também, por exemplo, pelo ‘Webster’s Dictionary’.
As regras de formação com o sufixo ‘-opsia’ determinam ‘biopsia’ como forma correta. O helenista Ramiz Galvão, em 1909, e Pedro A. Pinto, grande conhecedor da língua portuguesa, helenista e latinista, em seu ‘Dicionário de Termos Médicos’ (1958) fazem pertinentíssimas considerações sobre tal fato. Nem por isso, o ‘Aurélio’ deixa de registrar a forma ‘biópsia’, consagrada pelo uso.
‘Imensurável’ é dado como sinônimo de ‘incomensurável’ em todos os dicionários. Ao contrário do que sugere o articulista, esse sentido não é etimologicamente incorreto; além disso, o ‘Aurélio’ registra o significado propugnado pelo sr. Abramo.
Na crítica a ‘electro’, a confusão perpetrada pelo articulista é total. O ‘Aurélio’ dá todas as informações pertinentes: registra que ‘electro’ é forma abreviada de ‘electrocardiograma’, e envia a ‘eletrocardiograma’, forma mais usada. Registra ainda ‘eletro’ como forma abreviada de ‘eletrocardiograma’. O articulista talvez tenha lido o verbete errado.
‘Gleichênia’, como o próprio ‘Aurélio’ informa, é o nome botânico do gênero-tipo da espécie mais conhecida como ‘samambaia’, que o ‘Aurélio’ registra também. A palavra ‘samambaia’ remete a ‘gleichênia’. Informação total e criteriosa.
‘Anafiláctico’ (do grego ‘aná’ + grego ‘philaktikós’) e ‘apopléctico’ (do grego ‘apoplektikós’) são as formas mais próximas do étimo: por isso são dadas como preferenciais. É uma questão de critério (que, diga-se, é o mesmo adotado pelo ‘Volp’).
Se atualmente se usa mais ‘cadê’ (que o ‘Aurélio’ registra), isso não anula a palavra original ‘quede’ (que vem de ‘que é de’). A informação do dicionário é completa. Quem procurar ‘cadê’ será informado de que se trata de variante de ‘quede’.
‘Cafetão’ está registrado como vocábulo giriesco em ‘A Gíria Brasileira’ de Antenor Nascentes. Além disso, o ‘Volp’ consigna ‘cáften’ e ‘caftina’ como formas preferenciais. A epêntese do ‘e’ em ‘cafetão’ (lunfardo ‘cáften’) mostra tratar-se de voz de cunho marcadamente popular.
C.W.A.
"Fenómenos da Casa Grande", copyright Folha de S.Paulo, 5/3/00
"Uma das piores pragas do ambiente intelectual brasileiro é a indisponibilidade de participar de debates públicos. Em consonância com a norma relativista predominante, o intelectual brasileiro médio transforma em privado o que é público. Considera que, por ser detentor de um título, de um cargo, de uma reputação, por ter escrito um livro ou ter sido citado ou entrevistado ou resenhado pelo colega de departamento ou de ofício (ao qual retribui na mesma moeda, e assim sucessivamente, construindo-se desse modo muitas reputações), situa-se acima do escrutínio público. É um dos modos pelo qual a Casa Grande mantém a Senzala sob controle.
Uma das consequências de semelhante comportamento é que, para esse tipo de intelectual, as opiniões ou informações expressas são, por princípio, consideradas infensas a crítica. Quando, contrariamente aos costumes aprovados pela confraria, alguém contesta aquilo que alguma eminência produziu, as atitudes usuais são o desprezo e a indignação ressentida.
O primeiro caso se manifesta na forma do silêncio. Vê-se isso acontecer todos os dias. É claro que se trata de contradição direta com o papel que se espera de um intelectual; em qualquer lugar civilizado, desqualificaria quem o pratica.
A segunda rota, a da indignação, foi a escolhida por Marina Baird Ferreira e Margarida dos Anjos, coordenadoras do dicionário ‘Aurélio’, publicadas neste caderno Mais! no dia 12 de fevereiro em resposta a artigo de minha lavra (‘Dicionários, que horror’, 23/1) sobre a ruindade de dois dicionários brasileiros (o outro foi o ‘Michaelis’ eletrônico). Elas lançaram mão de um expediente muito popular entre nossos intelectuais: o argumento ‘ad hominem’, com o qual procuram desqualificar o oponente por conta de defeitos que lhe são pespegados arbitrariamente. Fazem-se de ofendidas, abrangem na pretensa ofensa toda a categoria dos lexicógrafos, vivos e mortos, apresentam o argumento do oponente de forma distorcida, ‘revelam’ informações já presentes no texto ao qual pretensamente replicam, ‘esclarecem’ o que já estava dito, afirmam que o interlocutor não sabe ler e lhe atribuem uma ignorância maior do que a que seria dedutível do que leram; e, é evidente, eximem-se de abordar o assunto central.
Não cansarei o leitor com uma repetição do que foi escrito então e não apontarei as distorções puntiformes praticadas de forma sistemática por Baird Ferreira e dos Anjos. Em vez disso, remeto ao artigo original (encontrável em http://sites.uol.com.br/cwabramo) e à réplica das duas responsáveis pelo ‘Aurélio’ (http://www.uol.com.br/fsp/mais/fs1302200011.htm). O leitor que os compare e julgue por si.
Passo rapidamente pelos determinantes mercadológicos que governam a operação ‘Dicionário Aurélio’. Por mais que Baird Ferreira e dos Anjos declarem ser outra sua motivação, a estrutura editorial da operação que coordenam e a estratégia de sua promoção as desmentem. Afirmar, como fazem, que dicionários não são, no Brasil, considerados pedras filosofais (e, entre estes, o ‘Aurélio’ de forma proeminente) ou que as editoras que os publicam não puxam por esse lado é confiar demais na ingenuidade do público.
O que merece lembrança é o ponto central de meu artigo. O ponto, exemplificado por diversas instâncias, é que os dicionários comentados não são compilados no âmbito de nenhuma espécie de metodologia que se possa discernir: baseiam-se na acumulação de palavras recolhidas segundo processo não explicitado, no âmbito de práticas fundadas na autoridade de princípios situados fora da responsabilidade dos compiladores, que nesse passo lavam as mãos. Mas como Baird Ferreira e dos Anjos não se dispuseram a discutir a questão, quem perdeu foi o usuário. [Cláudio Weber Abramo é mestre em lógica e filosofia da ciência. E-mail: cwabramo@uol.com.br.]"
Paulo Geiger
"Uma crítica inócua e o rigor dos dicionários" , copyright Folha de S.Paulo, 5/3/00
"De acordo com a ética jornalística e com os regulamentos do ‘Novo Manual da Redação’ da Folha, foi-nos dado o direito de publicar este segundo artigo de resposta ao ataque do sr. Cláudio W. Abramo aos dicionários (e à própria lexicografia), sem que tenhamos lido sua tréplica, ora simultaneamente publicada. As lexicógrafas não sabem, portanto, a que responder; ademais, julgam inútil fazer uso desse espaço como arena de um debate sobre os diagnósticos infundados e inócuos do sr. Abramo -que revelam desconhecimento dos princípios que norteiam a lexicografia e desprezo por conceitos e técnicas básicas de elaboração do dicionário- e preferem que o utilizemos em benefício do público leitor, com esclarecimentos sobre alguns aspectos relevantes para a compreensão da importância, da função e dos métodos dos dicionários e da lexicografia. O que é (ou deve ser) um dicionário? O acervo de palavras de uma língua, em que se registram os seus significados, em suas várias nuanças e variações de uso. A língua é um código de comunicação social, o mais instintivo, amplo, versátil e significante que há: é o registro da memória das coisas, da construção da vida social, da cultura, da ciência e da tecnologia e, mais que tudo, é o código da transmissão e recepção de informações, pensamentos e idéias.
Na verdade, a língua é muito mais complexa que um simples código. Mas o lexicógrafo, para realizar sua tarefa, deve metodologicamente pensar na língua como tal. Para que haja comunicação e transmissão de idéias é preciso que transmissor e receptor -que nem sempre vivem no mesmo contexto regional, temporal, social ou cultural- tenham a mesma chave, que cada palavra tenha para um e outro os mesmos significados possíveis.
O dicionário é o lugar comum desses elementos básicos de nossos pensamentos e idéias: as palavras. Dicionários são, pois, ‘livros-ferramenta’, e seu valor está na capacidade de atender aos usos específicos para os quais são concebidos. E como se constrói um dicionário? Para que seja realmente uma chave confiável da nossa língua, ele deve, antes de tudo, reunir o máximo de palavras relevantes em uso e o máximo de significados possíveis para cada palavra. Por isso, um dos conceitos mais importantes é o da abrangência. A abrangência não se mede apenas pelo número de palavras que constituem o acervo, mas, principalmente, pela cobertura ampla de todos os significados de cada termo e pelas informações adicionais que facilitarão a compreensão das regras e dos usos nos diferentes contextos. Idealmente, então, quanto mais unidades semânticas (vocábulos e locuções) e mais acepções, mais abrangente, e melhor, o dicionário. Mas, como toda ferramenta, o dicionário deve ser acessível aos usuários. E uma abrangência não programada irá refletir-se no custo e, portanto, no preço. Assim, a primeira missão do lexicógrafo é conceber o modelo conceitual de seu dicionário, em seus vários elementos: o público a que se destina, o tamanho, a área de cobertura, o modelo de definição que atenda aos requisitos de concisão e clareza, a estrutura dos verbetes, o ponto de equilíbrio entre número de vocábulos, definições e informações adicionais de forma a aproveitar ao máximo o espaço com dados relevantes e úteis naquele determinado contexto etc. etc.
E o que são ‘informações adicionais’? Para ser eficiente, o dicionário deve fornecer, além dos significados, o maior número possível de informações úteis sobre a palavra: origem e formação (etimologia); elucidação de pronúncia; categorias gramaticais e regências verbais; exemplos de uso no contexto de frases; informações gramaticais; sinônimos, e muito mais.
O dicionário não é construído, pois, como um amontoamento aleatório (ou randômico) do máximo de informações que se possa reunir, mas como o resultado de um planejamento cuidadoso, a partir de uma busca laboriosa do ponto de equilíbrio entre todos os fatores citados. Essa busca é permanente, tal como a evolução da própria língua e de seus códigos, e passa, necessariamente, por dois crivos fundamentais: o do critério lexicográfico na seleção de vocábulos e informações e o da técnica lexicográfica, que, ao contrário do que pensam alguns críticos improvisados, não visa a atender, apenas, às intuições do consulente, mas é regida porregras e disciplinas próprias.
Um bom dicionário não é, pois, construção que se possa facilmente subverter com tentativas de demolição. O ‘Aurélio’ foi e continua a ser planejado e realizado de acordo com regras, conceitos, métodos, critérios e técnicas cuidadosamente pensados e aplicados. Num contínuo esforço de aprimorá-lo, os lexicógrafos que nele trabalham, sugerindo a linha traçada pelo autor, mantêm-se em sintonia com os fatos novos da língua, em evolução ininterrupta. E a colaboração de leitores tem sido insumo constante na correção de possíveis erros e omissões, na busca de uma perfeição improvável, mas sempre desejada. [Paulo Geiger é editor das obras de referência da Nova Fronteira, que edita o ‘Dicionário Aurélio Século 21’.]"
Folha de S.Paulo
"Artigos encerram polêmica", copyright Folha de S.Paulo, 5/3/00
"A polêmica entre Cláudio Weber Abramo e a equipe do ‘Dicionário Aurélio Século 21’ teve início no último dia 22 de janeiro, quando Abramo publicou no Mais! a resenha ‘Dicionários, Que Horror’. Marina Baird Ferreira e Margarida dos Anjos, coordenadoras do dicionário, rebateram a crítica em 13/2. Com as respostas de Weber Abramo e de Paulo Geiger, editor das obras de referência da Nova Fronteira, que edita o dicionário (nesta pág. e na do lado), encerra-se a polêmica. O ‘Novo Manual da Redação’ da Folha recomenda que a ‘maneira correta de encerrar uma polêmica é avisar as partes de que terão apenas mais uma oportunidade e igual número de linhas para se manifestar, e publicar essas manifestações lado a lado’ (pág. 160)."
FLOR DO LÁCIO
Em defesa da língua (*)
John Robert Schmitz (**)
Perante a Câmara de Deputados, o deputado federal Aldo Rebelo (PC do B/SP) apresenta um projeto de lei que "dispõe sobre a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa". O distinto parlamentar tem também a intenção de organizar um "Movimento Nacional de Defesa da Língua Portuguesa". De acordo com os termos do referido projeto, quem utilizar abusivamente ou desnecessariamente palavras ou expressões estrangeiras será punido com multas de até R$ 12.640,00!
Deixando de lado questões a respeito da constitucionalidade e, se for aprovada pelas duas Câmaras, da viabilidade de implementação e cumprimento legal da proposta, cabe perguntar o porquê do interesse em proteger o idioma nacional. Quem são os "inimigos" dos quais a língua portuguesa precisa ser defendida? Os próprios usuários? Os estudantes nas escolas? Os meios televisivos e a imprensa? Os dicionários de língua portuguesa?
Os inimigos não seriam os próprios usuários, tais como aqueles legisladores que apresentaram um projeto de lei sobre aposentadoria que acusava "lapsos" no uso de vírgulas o que contribuiu para tornar o texto ambíguo? Outros inimigos do idioma não seriam aqueles estudantes que escrevem nas suas redações, "interviu" ou "esteje"? E ainda outro "inimigo" não seria um dono de casa que deixa um bilhete para o leiteiro nestes termos: "Seu Silva, me deixa amanhã mais um leite e meia dúzia de ovos, tá?"
Obviamente ninguém é inimigo nesses casos. A língua nacional não corre perigo. Quanto à falta de vírgulas numa redação, errar é humano. Todo texto deve ser revisto. Alguns escolares precisam ler e escrever mais em português. Cumpre observar que muitos alunos se expressam muito bem oralmente e redigem por escrito com clareza e até com bastante criatividade. Tampouco é inimigo do idioma o dono de casa que escreveu um bilhete em português informal para o leiteiro (apesar das possíveis críticas de alguns gramáticos tradicionais). Tal bilhete seria um sucesso comunicativo se o dono de casa recebesse exatamente o que pediu.
Um exame do projeto lei e os comentários a respeito do mesmo por parte do autor mostram que os inimigos são as palavras e expressões estrangeiras que todos os usuários empregam no dia a dia, que escutam na televisão e no rádio e que lêem nos jornais e revistas. Os inimigos do idioma para o Deputado Rebelo são vocábulos de origem estrangeira por ele considerados "garranchos amargos que turvam a vista e enrolam a língua", tais como kümmel, steepple-chase, steward e groom. O curioso com esses vocábulos "de difícil escrita e penosa prosódia", citando as palavras do parlamentar, é que constam do Aurélio e são devidamente rotulados como "palavras estrangeiras". Steeple-chase foi usada por Euclides da Cunha. O Aurélio registra palavras de origem russa - tzar e tzaréviche - consideradas pelo deputado como "paralelepípedos gráficos e prosódicos". Mas o Aurélio registra as formas alternativas czar e czaréviche com a grafia algo mais aportuguesada, mas que não satisfazem completamente porque o encontro consoantal "cz" não caracteriza a língua portuguesa. Nenhuma das duas grafias contribui para "corromper" o português. Deve-se escrever Tchetchênia ou Chechênia? Cabe observar que dois jornais de grande circulação na cidade de São Paulo apresentam diferentes grafias para o referido país asiático. Isso parece indicar que não faz muita diferença para o destino da língua portuguesa como o usuário escreve o nome desse país.
Se o projeto-lei for aprovado, cabe perguntar se a referida lei não vai implicar na "cassação" de vocábulos estrangeiros com multas e outras punições aos Dicionários de Língua Portuguesa por registrar para os consulentes itens lexicais de uso corrente no Brasil como: dumping, doping e ranking.
O que parece afligir o deputado é a pletora de vocábulos de língua inglesa no campo de informática que nos últimos anos se infiltraram no português. A presença de termos como site, home page, on line e software refletem a globalização do mundo neste fim de século. Com o decorrer do tempo alguns vão desaparecer e outros vão ser aportuguesados ou "traduzidos". Mas a presença das expressões estrangeiras de nenhuma forma desnacionaliza, corrompe o português ou transmite a idéia de que a língua portuguesa é vaga, feia ou limitada, como o Deputado tem argumentado.
O problema é outro. O que desnacionaliza é a venda por preços irrisórios de empresas brasileiras em boa situação financeira aos interesses estrangeiros, o que desfigura a nação é a desonestidade, a impunidade, e a diferença de poder aquisitivo entre as classes sociais, o que coloniza é a submissão às determinações dos fundos e agências internacionais.
Muito mais do que o idioma, os professores de português nas escolas do ensino fundamental e médio devem ser defendidos. O que realmente deve ser defendido é o salário, as condições do ensino com a possibilidade de bolsas de estudo para uma formação continuada dos mesmos durante a carreira, enfim, a necessária "desproletarização" do professor.
(*) Copyright Projeto Memória de Leitura <http://www.unicamp.br/iel/memoria/>
(**) Professor titular do Departamento de Lingüística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas.
A língua é uma bandeira política (*)
Kanavilil Rajagopalan
(*) Entrevista concedida a Laia Nercessian, jornalista e mestranda em Lingüistica, publicada no jornal O Popular, Goiânia, 29/11/99. Copyright Projeto Memória de Leitura <http://www.unicamp.br/iel/memoria/>
Ao publicar a entrevista do professor Kanavilil Rajagopalan , o site Memória de Leitura abre uma exceção na ortodoxia da sua categoria ensaios . Faz isso na certeza de estar contribuindo significativamente para a polêmica discussão em curso no Brasil, sobre "Língua e identidade nacional" . A questão talvez tenha a idade do Brasil , já que desde o século XVI as metrópoles e a Santa Sé discutiam em que língua se deveria fazer a colonização da América . Um projeto de 1999 do deputado Aldo Rebelo pôs fogo na discussão e muita tinta tem rolado sobre o assunto . O texto do Prof. Kanavilil Rajagopalan re-contextualiza a questão , de forma brilhante, cristalina e oportuna.
A questão maior não ser contra ou ser a favor do projeto do Deputado Aldo Rebelo : é entender como e porque a relação entre "língua e identidade" é uma questão recorrente e os traços específicos que ela assume hoje . Tópicos em que o texto do Prof. Kanavilil Rajagopalan navega magnificamente.
***
"Perdi a conta", diz Kanavilil Rajagopalan quando lhe perguntam a quantidade de línguas que fala. Nascido na Índia, Rajan ,como é chamado - estudou na Inglaterra e nos Estados Unidos, casou-se com uma espanhola e veio para o Brasil, onde mora há 23 anos. Professor de Lingüística na Unicamp e com artigos publicados em revistas especializadas de diversos países, o pesquisador vem despertando polêmica por onde passa.
Enfático em suas afirmações, Rajan é uma das poucas vozes no Brasil que luta por uma terceira via de entendimento da globalização e seus efeitos, sobretudo na linguagem, uma via que não seja nem o ódio cego nem a paixão inquestionável. Essa forma de pensar o mundo pós-moderno faz parte de um movimento surgido nos Estados Unidos na década de 80, o integracionismo, tendo à frente o nome de Roy Harris, fundador da revista Language and Communication.
O ponto central desse movimento é pensar os conceitos a partir da sua dimensão sócio-histórica e a sua transformação no tempo. Assim ele explica o surgimento, a partir do século passado, de um conceito de língua diretamente atrelado a povo, nação, país. Como se, com a exasperação frente a uma nova realidade - a germinante globalização - a língua se tornasse a grande bandeira de luta em que a palavra de ordem é "uma nação, uma língua". Falar em identidade nacional hoje é inevitavelmente falar em identidade lingüística.
Sempre com um tom filosófico, Rajan discute a aliança entre língua e nação e propõe a sua ruptura para que, então, se possa enxergar o que são esses fenômenos e o tipo de vida que o mundo hoje nos impõe, uma vida sem amarras patrióticas e aberta a todas as possibilidades culturais. "Eu não digo mais eu sou isso’, mas que eu estou sendo isso agora e não sei o que serei amanhã", afirma. Rajan esteve em Goiânia participando do Seminário Nacional de Lingüística e Língua Portuguesa na Faculdade de Letras da UFG, quando concedeu esta entrevista.
O que significa hoje discutir identidade lingüística?
Kanavilil Rajagopalan - Identidade lingüística basicamente é uma questão não mais lingüística, mas sociológica, política. Eu entendo que cada vez mais nós estamos tratando a língua como uma bandeira, mais do que um fato consumado. Antes que esse fenômeno de globalização começasse a ficar em evidência, ainda era muito comum pensar que a língua era um mero fato, você fala ou não uma língua e ponto final. Naquele tempo o monolingüismo era norma, vez por outra um diplomata tinha de aprender outra língua, ou um tradutor, mas nunca houve esse fenômeno que nós estamos presenciando, uma incursão de tantos idiomas e tantas culturas numa velocidade que ninguém controla mais. Nossas personalidades estão ficando cada vez mais complexas, você não é mais um ser pronto e acabado, nunca foi aliás, e hoje, então, não há mais como provar isso, nós "estamos sendo" a toda hora, se isso faz sentido, se a gente pode esticar a língua portuguesa. Quer dizer, eu não "sou" mais, eu "estou sendo" alguma coisa.
Como o senhor analisa a reação das pessoas de só agora,face à globalização, se mostrarem preocupadas com a questão da identidade?
Rajan - É exatamente aí que queria chegar. Veja bem, é porque a identidade nunca foi pensada dessa forma, porque não havia nenhum problema a ser resolvido, as pessoas achavam que "eu sou eu" e ponto final. Mas agora, mais e mais pessoas estão tomando consciência de que "eu não sou exatamente eu", ou que pelo menos eu não sou mais o eu que era ontem ou anteontem, que eu estou mudando constantemente. Mas essa não é uma questão recente, nos primórdios da filosofia grega havia esse problema, nós temos um temor forte dessa fluidez, dessa mudança constante, a gente gostaria de ser seres fixos e não mudar.
E o que mudou nesse pensamento daquela época para os dias globalizados de hoje?
Rajan - Infelizmente, o que está acontecendo agora é que já não há mais condições de ficar sonhando com isso, o mundo está mudando com tal velocidade que não há mais como fingir que somos aqueles seres prontos e acabados, aí a nossa agonia.
É como se nos fosse tirado o chão...
Rajan - Exato, a idéia de chão é uma metáfora muito interessante porque é o ponto onde nos seguramos e o chão simboliza isso. Mas o que eu entendo é que, a essa altura, é preciso pensar diferente, como, por exemplo, mostra o sociólogo americano Samuel Huntington. Muita gente pensa que a globalização é uma influência só, que acaba com todas as identidades, que o mundo vai virar só a cultura McDonald’s. Agora mesmo eu fiquei horrorizado ao ver um comentário do Arnaldo Jabor, da Globo, dizendo que depois da Guerra Fria vem agora Maomé contra McDonald’s. Eu acho que são análises muito simplistas, o que nós não estamos percebendo - e não estou dizendo nenhuma novidade - é que essa coisa de dizer que a nova aliança é o Oriente, é o árabe, são ficções de loucura.
Por que essas ficções permeiam tanto o imaginário ocidental?
Rajan - Porque o ocidente ainda tem dificuldade em gerir a idéia de que nós estamos vivendo na era da multiplicidade. Ainda se pensa que quem não é meu amigo é portanto inimigo, o mundo se divide entre amigos e inimigos. E o que nós estamos vendo é que esses conceitos estão totalmente ultrapassados.
Inclusive os conceitos de Ocidente e Oriente?
Rajan - Exato.
E como poderíamos nos referir a esses dois mundos, se é que ainda são dois mundos diferentes?
Rajan - O nosso grande problema é querer tentar definir isso. Enquanto a gente não tiver superado essa lógica binária que rege o nosso pensamento, a gente vai sempre tentar se definir em oposição ao outro. Os gregos tinham essa noção, para eles o bárbaro não era uma categoria fixa. Na Grécia antiga, o xenos (estranho, estrangeiro) que compartilhasse o pão do jantar era parte do oikos (espaço privado, casa). O "eles" era uma categoria extremamente fluida, o que nós não temos, ou melhor, agora nós estamos vivendo isso, mas temos dificuldade em aceitar que as categorias tenham essa fluidez.
Se fôssemos julgar a globalização, o que o senhor diria, é positiva ou negativa?
Rajan - Eu não sei, isso foge à minha competência. Eu não vejo como poderia ser diferente. Se isso é bom a longo prazo, não sei. Mas eu entendo que isso que nós estamos vivendo é uma decorrência natural, inescapável, de uma série de acontecimentos. É bobagem alguém dizer que a globalização é o recrudescimento do capitalismo clássico. O capitalismo, como foi se desenvolvendo, tinha de entrar nessa fase onde tem capital, mas não tem capitalista, não tem o cara que está dominando. O estado de controle dos monopólicos é completamente pulverizado. Uma Mannesman., que é o orgulho da Alemanha hoje, pode virar amanhã uma firma inglesa. É nesses momentos que o nacionalismo começa a surgir, porque nós estamos esperneando. Se a Esso quiser comprar a nossa Petrobrás vai haver gritaria, porque é nesses momentos que o sentimento de pátria surge. Mas o que a gente não está percebendo é que, no mundo inteiro, esse capital está ficando pulverizado, é uma conseqüência do capitalismo, mas também não é mais o capitalismo clássico.
Poderíamos, então, inventar outro nome para o modelo econômico no qual vivemos hoje?
Rajan - Perfeitamente. Nós estamos falando de um capitalismo sem capitalista. Ações estão sendo negociadas, qualquer um pode comprar qualquer pedaço de qualquer lugar.
Como fica a população desses países que estão sendo comprados?
Rajan - Aí é uma questão a ser pensada pelos economistas. A mim compete pensar, eu acho, o que tudo isso tem, em termos de conseqüência, no nosso modo de pensar a linguagem.
Essa preocupação com uma identidade lingüística não representaria um medo de morte da própria língua face ao contato com outros idiomas politicamente mais fortes?
Rajan - Acho que não é morte da língua, é morte de nós mesmos. O medo maior é esse, a gente não quer morrer, então a gente quer grudar em alguma coisa. Talvez sempre tenha sido assim, mas hoje não há como negar, a língua está sendo usada como uma bandeira que a gente levanta. A língua tem essa força política e, muitas vezes, a gente deixa de levar essa questão em conta. Hoje língua é uma bandeira política, antes era um fato consumado.
Esse não é um tema muito abordado nas universidades brasileiras...
Rajan - Está pipocando, ainda muito timidamente. A Língüística, enquanto uma disciplina, ainda não está dando conta disso.
Como ficam os povos de línguas minoritárias, como os povos indígenas no Brasil que ainda conservam suas línguas da pré-colonização?
Rajan - Enquanto bandeira, você tem de respeitar, mas isso é urna questão já passada. A gente ainda fica agarrado a esse último traço do passado, se eu perder isso eu estou morto, mas querendo ou não a própria língua está mudando o tempo todo em qualquer circunstância, é inevitável, sempre ocorreu. E não é isso que está sendo posto em jogo, não é o fato, é a bandeira. Por isso é preciso o não-levantar essa bandeira.
E aceitar o que está acontecendo?
Rajan - Eu não estou fazendo apologia da globalização, estou procurando entender, a gente não pode ficar só na bandeira. Por isso me refiro a Huntington, foi um cara que chamou a atenção para o fato de que enquanto tem essa onda de dizer que tudo está sendo pasteurizado, homogeneizado, se está esquecendo algo muito concreto, que o mundo não está trabalhando com isso, o mundo está trabalhando ainda, em muitos sentidos, dialeticamente, da mesma forma que acontece a "americanização", estão pipocando focos de resistência também. O nacionalismo está surgindo de uma forma muito violenta em muitas partes do mundo. Esse nacionalismo é resposta a esse imperialismo que está em vigor. Muita gente acha que é só pasteurização, mas não é.
Falar mais de uma língua será a regra também no Brasil?
Rajan - Disso não tenho dúvida nenhuma, já está acontecendo. No aeroporto de Congonhas, onde estive recentemente, fiquei impressionado. Quantas línguas estava ouvindo? Era incrível a quantidade de idiomas, e não era de turistas, mas de pessoas que vivem aqui, que falam o português.
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