Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

OBSERVATÓRIO LITERÁRIO

Solo virtuoso ao saxofone

Esdras do Nascimento

 

E


m crônica publicada na Folha de S.Paulo, Carlos Heitor Cony diz que a temática do romance Amanhã a loucura, de Arnaldo Bloch, é "dos anos 50, talvez, mas com roupagem atual, de um jovem dos anos 80 com os apelos da música pop, das drogas, do sexo fácil e facilitado".

No Estadão, em matéria não assinada, está a afirmação de que "o texto é cru, realista, por vezes escatológico, mas fluido. Amanhã a loucura não convida o leitor à leitura. Ele é tragado sem dó nem piedade e quando se dá conta já se perdeu nos delírios de Maldoni" (Maldoni é o nome do personagem narrador).

Bernardo Ajzenberg, secretário de redação da Folha, em resenha publicada naquele jornal aponta no livro um sarcasmo impiedoso, um hiper-realismo quase fotográfico, um estilo frio, cortante e ao mesmo tempo cheio de ironia. Diz que, no romance de Arnaldo Bloch, faz falta o risco: tudo parece "perfeito", tecnicamente inteligente, equilibrado, profissional demais, e cada instrumento de linguagem é utilizado dentro dos limites estabelecidos pela "boa técnica da narrativa". E levanta uma questão polêmica: até que ponto um livro "apenas" bem dosado como esse consegue escapar de uma certa padronização vigente, marcada pela assepsia, pela correção técnica, por uma plasticidade publicitária?

São discutíveis esses questionamentos de Ajzenberg. Amanhã a loucura, justamente por causa da sua perfeição, que o crítico paulista põe entre aspas, é caso raro na literatura brasileira e estréia importante. No romance de Arnaldo Bloch não há hesitações de ordem técnica, o texto flui na sua musicalidade, os personagens, bem construídos, se impõem – e a narrativa se desenvolve sem tropeços. Essas características são difíceis de encontrar, mesmo em romancistas veteranos.

O problema que se coloca é o de investigar a influência que a linguagem jornalística estaria exercendo sobre a linguagem literária, claramente identificável nos trabalhos produzidos por escritores da geração formada sob o fascínio da televisão e da multimídia. Leveza, objetividade, transparência, verbos de movimento, frases em ordem direta, carga informativa densa e preocupação em se fazer entender rapidamente caracterizariam, em essência, esse tipo de linguagem, mais adequada talvez à elaboração de textos publicitários.

E aí a coisa se complica, pois Kafka, por exemplo, conseguiu escrever contos, novelas e romances densos, fortes e ambíguos na sua tragicidade, exatamente seguindo esses parâmetros. As frases de Kafka não apresentam dificuldade de compreensão. Ele constrói uma "realidade" terrível, de pesadelo, sem se afastar em nenhum momento da clareza, na elaboração dos textos.

O problema, portanto, não estaria na "clareza", que caracteriza não só aquilo que se escreve para jornais e revistas, como também as produções de grandes escritores, como Camus, por exemplo, Graciliano Ramos e Machado de Assis. No peso dado às palavras estaria talvez o mapa da mina da criação literária.

Fascinado pelo absurdo, admirador de Ionesco, Beckett, Arrabal e Kafka, familiarizado com harmonia, contraponto, ritmo e melodia, saxofonista que é, Arnaldo Bloch deixou evidentes essas influências no seu romance Amanhã a loucura, onde conta a história de um jovem, que desconhece o nome do pai, foi criado por um advogado de contraventores e por um misterioso imigrante judeu russo, e sai pelo mundo em busca de sua identidade. Mulheres, drogas, bruxaria. Tem de tudo no livro. Inclusive certo exagero escatológico. E tem também, no tom irônico e no sarcasmo, até mesmo na montagem de algumas cenas, forte influência de Carlos Heitor Cony. Recomendável, por sinal.

O ritmo narrativo de Amanhã a loucura e o aparente e enganoso "deixa rolar" que caracterizam a sua construção me fascinaram e muitas vezes me trouxeram à lembrança os romances escritos pelos beatniks, à frente Jack Kerouac. Com certa ansiedade, fico aguardando e torcendo pelo próximo romance do autor, na expectativa de que as excepcionais qualidades da obra de estréia se confirmem.



Mande-nos seu comentário

Início da página





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você