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OBSERVATÓRIO LITERÁRIO
DICIONÁRIOS
Resposta a Cláudio Weber Abramo
Rogério Reis
Não desconheço nem contesto que a língua evolui, e que essa evolução deve ser incorporada aos dicionários. Mas a coisa não é tão simples, e enseja, ao menos, dois pontos de reflexão. Importa saber quando um termo deve ser considerado suficientemente consolidado a ponto de compor o dicionário; em contrapartida, qualquer absurdo passa a ser considerado correto tão logo encontrado no dicionário. É assim que o termo "randômico" (para usar de um exemplo consensual entre nós), tão novo quanto absurdo, por constar nos dicionários atuais, já pode servir de base a muitas idiotices.
Por essas razões, em síntese, defendo que somos carecedores de um dicionário mais ponderado, que espere um termo se consolidar em vez de influir para que isso aconteça, como ocorre com nossos dicionários de hoje em dia.
E mais do que isso, é preciso lembrar que não lemos apenas textos contemporâneos, nem escrevemos só artigos informais. Sequer é necessário voltar a Tomé de Sousa, pois não vai tão longe o tempo em que se escrevia "pensar" com o sentido de "cuidar" e "cuidar" com o sentido de "pensar"; ademais, se temos de escrever um texto acadêmico, segundo os padrões da norma culta (a vigente mesmo, e não a de cinco séculos atrás), nem sempre nossos dicionários novidadeiros são fonte segura para sanar dúvidas que certamente ocorrem.
Em suma, se não deixei claro da primeira vez, espero ter melhor sorte agora [veja remissões abaixo]. Penso que nosso problema não está em que os dicionários atuais sejam ruins, e sim em que carecemos de outros modelos de dicionários. Dicionários com uma boa dose de permissibilidade em relação às novidades da evolução da língua nós já temos, e são os únicos que há; precisamos agora de dicionários mais conservadores (apegados ao étimo sim, porque não vejo outro melhor critério nem mais seguro), dicionários enciclopédicos, dicionários de regimes de substantivos e adjetivos etc.
Agora, ainda que não seja o nosso caso, para quem quiser ser "bacharelesco" mesmo (e também para quem gosta de se divertir), eu recomendo o Manual do cara-de-pau ou é fácil falar difícil, de Carlos Queiroz Telles. Este manual, que está perfeitamente atualizado e pode ser encontrado nas boas livrarias, parte do princípio de que "vivemos num tempo em que não basta mais conhecer determinado assunto em profundidade para ser um profissional reconhecido e respeitado. O importante é vestir a sabedoria – ou ignorância – com palavras complicadas. Para isso, você só tem duas alternativas: estudar feito um condenado ou utilizar adequadamente as Tabelinhas Mágicas deste livro. (...) O que colocamos em suas mãos é um fórmula secreta que até bem pouco tempo era privilégio de um clube fechado de medíocres bem-sucedidos. (...) Graças a esta obra verdadeiramente democrática e redentora, você pode se equiparar a este bando de falsas sumidades!" [excerto da lingüeta de apresentação do livro].
Por fim, mesmo sabendo que não é isso o que importa para o tema da discussão, não posso deixar de reproduzir, por amor ao debate, o seguinte verbete, retirado do Dicionário de Questões Vernáculas, de Napoleão Mendes de Almeida, no seu estilo bem peculiar:
"‘Evidence’ – ‘Vou apresentar novas evidências para o caso’. A palavra grifada deve ser substituída por provas. Palavras inglesas de origem latina exigem cuidado de tradução porque nem sempre se correspondem literalmente. ‘Internal evidence’ é ‘prova intrínseca’, ‘prova inerente’, jamais ‘evidência interna’. Coices vem diariamente recebendo o vernáculo dados por tradutores que tomam ‘injuries’ por injúrias, ‘casualties’ por casualidades, ‘commercial’ por comercial, ‘educated’ por educado, ‘liquor’ por licor, ‘parent’ por parente, ‘relatives’ por relativos, ‘tub’ por tubo, ‘balance’ por balançar, ‘penalize’ por penalizar, ‘panel’ por painel, ‘luxury’ por luxúria... ‘best seller’ por vendedor de bestas." [como o original]
Talvez com isso eu tenha conseguido demonstrar que no vernáculo castiço, e mesmo no vocabulário jurídico, o que se vem traduzindo e empregando como "evidência" deveria ser substituído por "indício" ("sinal ou fato que deixa entrever alguma cousa, sem a descobrir completamente, mas constituindo princípio de prova", segundo o dicionário de Laudelino Freire). Mas, é claro, este é só um dos critérios que um dicionário pode levar em conta.
Certos mesmo, caríssimo Sr. Abramo, não estamos nenhum de nós. Certo está o brilhante Luis Fernando Verissimo que, em O analista de Bagé, nos brinda com a crônica intitulada "Defenestração". Nela, o cronista defende que certas palavras têm o significado errado. E assim vai que falácia deveria ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal, hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos, traquinagem uma peça mecânica, plúmbeo o barulho que um corpo faz ao cair na água, e defenestrar, finalmente, "devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres: – Defenestras? A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam."
Salve, Verissimo.
CARTAS
Melhor em marketing
Fica aqui o meu aplauso, de pé, pelos artigos de Cláudio Weber Abramo e a forma como se posicionou na polêmica que se seguiu. Eu sempre me senti um órfão do Caldas Aulete, que aprendi a consultar durante a infância e guardo até hoje, pelo menos como fonte de consulta para a etimologia das palavras. Lamento muito que não seja reeditado e divulgado. Os dicionários entraram na era do marketing, e só assim sobrevive um produto medíocre como o Aurélio. E pior, é citado pela maioria das pessoas como referência absoluta e prova de cultura ou intelectualidade.
Geraldo J.C. Ribeiro
Solução externa
Ao ler o primeiro artigo do Sr, Abramo, publicado pela Folha, fiquei muito contente de ver alguém questionando o todo-poderoso Aurélio. Quem tem que usá-lo com freqüência sabe que nem sempre é tarefa fácil encontrar um significado aceitável para algumas palavras. Já me ocorreu várias vezes de ter que recorrer a dicionários estrangeiros para encontrar o significado de uma palavra da minha língua natal.
Neuzi Barbarini
Exercício descabido
Criticar é sempre uma posição fácil, cômoda e rápida de se fazer notar. Neste sentido, uma pergunta deveria ser feita ao Sr. Cláudio Weber Abramo. Que propõe ele que seja feito em relação aos dicionários que ele tanto abomina? Queimá-los em praça pública e substituí-los por qual outra obra? Acaso terá ele um novo trabalho a apresentar e deseja abrir espaço mercadológico? Passará essa obra, se existir, por um crivo similar ao dele próprio?
Todo ser humano é imperfeito e portanto imperfeita é toda obra sua. Arrisco presumir que o Sr. Weber estudou e adquiriu sua pretensa cultura lexicográfica nestas mesmas obras ora repugnadas, e ao que parece deseja impedir que outros possam também nelas se locupletar. Creio que tal discussão, exercício de filosofia e lógica porém descabida, só fez mostrar que os matemáticos devem ater-se às suas contas e deixar o trabalho de dicionarização para os lexicógrafos, antes que estes venham mostrar a irracionalidade das equações.
Mauro Bottino, analista de sistemas
Perda do trono
"Tome o mais sincero democrata e coloque-o em um trono qualquer; se não descer logo, se tornará infalivelmente um canalha."
Verbete: evidência
[Do lat. evidentia.]
S. f.
1. Qualidade do que é evidente; certeza manifesta.
2. Filos. Caráter de objeto de conhecimento que não comporta nenhuma dúvida quanto à sua verdade ou falsidade. [A evidência acompanha os diversos tipos de assentimento, ligando-se, contudo, de maneira mais completa, à certeza.]
[Cf. evidencia, do v. evidenciar.]
Muito bom, desmistificador este artigo do Sr. Abramo. Lamentavelmente, a maioria dos brasileiros não tem acesso à informação. Com um computador, um software do Dicionário Aurélio, outro do Michaelis, um fax modem, ligar tudo na internet, logicamente com uma visão crítica, para saber o suficiente e contatar uma leitura como a deste artigo, ficamos sabendo que há muitos tronos para serem desmistificados. A frase anarquista acima expressa bem o símbolo do dicionário. Agradeço por abrir meu intelecto à dúvida.
Marcon Antonio Caliman Nalin
Parecido e igualzinho
Vendo o artigo sobre os dicionários brasileiros, me interessei porque recentemente fui pesquisar sobre o significado de "similar" e "idêntico", para saber qual a diferença entre um e outro. Fiquei mais confuso do que antes.
Poderiam os senhores me esclarecer, se possível???
Carlos Roberto, São Bernardo do Campo, SP
Nota do O.I.: Carlos, "similar" é parecido;"idêntico" é igualzinho. E que os dicionaristas não me fulminem... M. C.
Vocês deveriam ser processados!
Vocês deveriam ser processados! Isto mesmo, processados por não terem levantado este assunto dos dicionários há muito mais tempo! Assim como este existem outros que poderiam ser aventados constantemente.
Por exemplo, qual o motivo que faz com que muitos (a meu ver, é claro) mestres e doutores, atuando na área da educação de nível superior, passem dos limites do aceitável quando do emprego do "Lexicus complicatus referencyalis" (adoram falar extremamente difícil, além de fazerem referências filosóficas, editoriais e autorais, como se todos estivessem compreendendo o tema em discussão) em salas de aula e/ou reuniões de professores? É a síndrome do "Organulun olfathus elevatus" (o famoso nariz empinado).
Isto tem criado profundos problemas internos nas instituições de ensino superior, fazendo com que, a par das exigências da nova LDB, ocorra a corrida aos cursos de mestrado e doutorado, não importando a que custo, tanto para as instituições como para o mestrando/doutorando, repercutindo sobremaneira no corpo discente.
Muito bom o artigo, e espero que possam trazer mais um pouco de verdade ao caos.
Wolf Girsas
Pérola dupla
Como estudante de Biblioteconomia, durante um exercício resolvi consultar "livro" em três obras, e me deparei com a seguinte pérola:
"Livro:
1. "Coleção de cadernos escritos de letra de mão, ou impressa com tipos, cosidos ou soltos em folha."
2. "Reunião de folhas ou cadernos, soltos, cosidos ou por qualquer outra forma presos por um dos lados, e enfeixados ou montados em capa flexível ou rígida."
3. Reunião de cadernos de papel contendo um texto manuscrito ou impresso."
Estas pérolas constam do verbete "Livro" no Moraes e Silva, de 1813, no Aurélio e em Edson Nery da Fonseca, Introdução à Biblioteconomia, respectivamente.
Regredimos ou bloco de desenho ganhou status de livro?
Como, desde Sócrates, para que exista livro é necessário que haja "dizeres escritos", que coisa é essa que o Aurélio viu? Um caderno de desenho? Resma em branco porém encadernada é livro?
Klaus R. Pereira
A quem recorrer?
Freqüentemente tenho tido dúvidas em relação a verbetes empregados em nossa língua. Não conheço ainda um site ou endereço eletrônico que se disponha a esclarecer algo além dos nossos maiores dicionários: Aurélio e Michaelis.
Ivan V. Pedrosa
O que esperar?
O governo é corrupto e titubeia, o povo se omite, o país se transforma na meleca que é... o que se esperar então dos dicionários? Puro reflexo!
Carlos Henrique
Vale a ABNT
Tomando o Aurélio como exemplo, tenho para mim que a análise foi deficiente. Antes de mais nada é importante indicar que tipo de dicionário se está analisando (se lexicográfico, filológico, histórico, filosófico etc.), e depois tomar algum dos dicionários aceitos pela ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas (o Aurélio não é).
Andrea Metne Arnaut
Vale o contexto
Não concordo com os comentários sobre o verbete pêra. Em minha opinião, o dicionário não é complicado de modo algum, pois devemos estar atentos ao contexto em que cada palavra está encaixada. Consultar o dicionário, só em último caso, sempre levando em conta o contexto.
Greicy S. F. da Rocha,
Vale o pavonismo
E as brilhosas análises de letras de músicas como se seus autores fossem portentos literários? É a mídia televisiva. Vale o "pavonismo".
Paulo Sérgio Loredo
Frutos e sementes
Espero que esse trabalho continue, e que os frutos sejam colhidos e virem sementes.
Paulinho Ditarso
Jornalistas e a língua
Esse congresso de jornalistas de língua portuguesa é um bom lugar para se discutir a anglicização da língua portuguesa, que a internet aumenta ainda mais, e posturas a serem adotadas por jornalistas brasileiros. Me parece que em Portugal os termos são traduzidos. O Observatório, pelo que tenho percebido, usa sítio em vez de site. Como está o projeto do deputado Aldo Rabelo?
Carlos Alberto Cândido
LIVRO
Poemas e bordados
TT Catalão, do Correio Braziliense e colaborador do Observatório da Imprensa, lançou na terça-feira, 18 de setembro, um manifesto poético – Brasília Cidade Cidadão – "todo bordado pela genial família Dumont", diz ele. A família de Pirapora (MG) já ganhou 3 prêmios Jabuti de ilustração e tem livros bordados com Ziraldo, Manoel de Barros, Chico Buarque, Thiago de Mello. Em Brasília Cidade Cidadã, Antonia, Zulma, Ângela, Marilu, Martha e Sávia Dumont produziram seus bordados sobre desenhos de Demóstenes Dumont.
"Temos a paixão comum pela Brasília utópica que instiga um projeto de Brasil anarco-socialista-fraterno", conta TT. "Elas vieram de Pirapora e eu do Rio, e entramos nessa mistura, desse amor nasceu o livro todo em bordados oníricos de uma visita ao imaginário da cidade extra-administrativa off-oficial..."
Como fotos de Rui Fauini, a primeira edição não será vendida, mas distribuída como panfleto (sorte de quem apareceu no Brasília Shopping para o lançamento).
ASPAS
Gabriel Perissé
"Gramática sem ódio", copyright Correio da Cidadania <www.correiocidadania.com.br>, 4/4/00
"Napoleão Mendes de Almeida (há não muito falecido) foi talvez um dos gramáticos mais rabugentos que já tivemos no Brasil. Seus esclarecimentos e ensinamentos, por mais certeiros e justos que fossem (e eram), traziam em si um espírito de reprovação contínua. A palmatória, sempre pronta para funcionar, parecia ser sua companheira inseparável.
Graças ao movimento pendular da vida, coube à nova geração brasileira de estudantes conhecer um outro professor de português, simpático e bem-humorado, mas nem por isso menos exigente: Pasquale Cipro Neto, que recentemente lançou um livro recolhendo artigos seus sobre o nosso inculto e belo idioma.
Talvez o maior mérito de Pasquale seja reconhecer implicitamente como correta a famosa frase de Adoniran Barbosa: ‘Pra falar errado é preciso saber falar errado’. Pasquale tem sensibilidade para discernir o que é norma culta, por um lado, e o que é vitalidade lingüística, quando se trata, por exemplo, de analisar as letras de um Chico Buarque ou de um Lobão, e manifestações verbais do povão.
Claro, seu papel é separar o joio do trigo, mas não o faz de cara amarrada, xingando o joio.
Também não é do seu estilo valorizar demais a terminologia gramatical, embora nos ensine o que é o quê. A prática de professor em cursos, palestras, e depois na televisão e nas redações de jornais, lhe deu uma capacidade de falar bem sem falar empolado. Num dos capítulos desse pequeno livro, começa assim, ao falar da diferença entre xeque e cheque: ‘Eta duplinha danada!’ E em outros momentos utiliza expressões coloquiais como ‘cá entre nós’, ‘é aí que a roda pega’, ‘até aí, tudo bem’.
Além das letras da MPB, Pasquale está atento ao mundo do futebol, como um ‘lugar’ de acontecimentos lingüísticos a ser analisados. Um gramático que gosta de ouvir música popular brasileira e estar por dentro do futebol é de fato um gramático da hora... e nos liberta um pouco daquela dependência, hoje impensável, dos autores clássicos... menos ainda de Camões e Padre Antonio Vieira, embora ler esses dois gênios da língua não faça mal a ninguém.
Pasquale é fundamentalmente um profissional sensato, que reconhece não caber ‘a um gramático castrar hábitos lingüísticos diferentes dos que prega a norma’, mas ‘ressaltar que, em certos casos, o conhecimento e o emprego da norma culta são desejáveis e imprescindíveis’.
É isso. [Inculta & bela, Publifolha, 1999, 149 páginas]"

Por que os dicionários brasileiros são tão ruins? – Claudio Weber Abramo
Rendição à ignorância – Rogério Reis
Claudio Weber Abramo comenta
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